Confrontando o cotidiano #1 – “é só vinte reais”

Estou começando uma pequena série para catalogar no blog as experiências hilárias, irônicas e frustrantes que a imersão na IF causa num mundo onde todos são programados para gastar. Espero que gostem!

Outro dia, almoçando no escritório, fui abordado por alguns colegas de trabalho sobre a minha decisão de trazer comida de casa. Quase sempre trago o almoço de casa em marmita, pois além de ser mais barato ganho a vantagem de poder comer exatamente a quantidade que quero, e saber exatamente os ingredientes que foram envolvidos. Este hábito não é exatamente incomum onde trabalho – muitos trazem de casa e passam almoçando ou na própria mesa ou no refeitório, e eu diria que a proporção dos que saem pra almoçar e os que ficam gira em torno de 60 a 40%.

Eis como a conversa fluiu, mais ou menos:

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O difícil caminho para o Minimalismo

Embora não seja um aspecto 100% necessário para atingir a Independência Financeira, muitos adeptos acabam aderindo ao minimalismo como efeito colateral de economizar dinheiro e evitar comprar bens supérfluos e passivos. A sinergia que se desenvolve é incrível: o minimalismo alimenta a ideologia da frugalidade e instiga o pensamento crítico (preciso disso para viver?), enquanto que a frugalidade e investimentos aplicados geram a escassez de recursos que tentariam o indivíduo a ignorar o minimalismo e comprar bens materiais (já gastei todo o dinheiro em investimentos, não posso comprar essa camisa).

Eu listo o minimalismo dentre os seus objetivos de vida, mas ainda não tive oportunidade de abraçá-lo completamente, e de certa forma acho que estou até longe disso. Não vejo este fato como um problema – muito pelo contrário, a experiência e aprendizado até agora são incríveis – mas reconheço que existem algumas coisas que ainda me seguram contra atingir o objetivo. Aqui estão algumas das barreiras que ainda me têm segurado nessa jornada.

O(a) parceiro(a)

A pessoa que te acompanha na vida pode tanto te dar um boost ou te ancorar firmemente dependendo dos conflitos de personalidade da relação.

Sra Pinguim e eu concordamos em muitas coisas a respeito da frugalidade, mas parece que no espectro do minimalismo eu continuo sendo um pouco mais extremo. É difícil convencer, por exemplo, da irracionalidade de se ter uma casa muito grande pra poucas pessoas, de não precisar de muitas roupas (moda básica é apropriada para qualquer situação), de como um ter um carro é mais caro que alugar ou pedir táxi na cidade grande…

Parece que convencer a aderir ao estilo de vida vai demorar mais que eu pensava, mas estou a caminho.

A paixão de criança

Todo mundo tem a sua. E você sabe do que eu estou falando; aquela paixão irracional que você tem desde que era pequeno por carros, ou computadores, celulares, etc e que quando você vê mais um desses na vitrine, inevitavelmente quer tê-lo.

No meu caso, essa paixão é computadores. Em parte por causa do Linux, desenvolvi um instinto de querer “salvar” computadores instalando Linux neles. E nem por isso preciso comprá-los, as vezes faço isso com computadores antigos mesmo que todo mundo já achava que estavam perdidos. Embora não seja exatamente destrutivo ao meu patrimônio, esse hábito incentiva o acúmulo material e é contra-intruitivo ao minimalismo. Ultimamente tenho tentado mitigar esse hábito usando máquinas virtuais, mas volta e meia me bate a vontade de adquirir mais um computador de graça quando alguém reclama que o seu está “ficando velho” ou virou uma porcaria.

Os vícios

Novamente, todos temos um. Muita gente, por exemplo, fuma.

Ah, mas você não fuma? Então bebe.

Não bebe? Come chocolate.

Não come? Toma café.

Não toma? Joga algum joguinho no PC.

Não joga? Assiste Netflix.

Não assiste? Sai pra comer fora nos fins de semana.

Etc. No fundo, você também tem algum hábito láaa dentro que tem pouco controle sobre e é destrutivo ao seu patrimônio. O meu é o café, e tenho tentado diminuir ou segurar a vontade bebendo chá, e até mesmo água. Tem funcionado incrivelmente bem.

A compania / pressão popular

Chega sexta-feira a tarde, lá vem o papo no escritório: qual a boa da noite? E quanto menos você espera lá está no bar lotado e barulhento, bebendo cerveja de qualidade ordinária por preço absurdo no meio de um monte de gente que nem se importa com você. Tchau, aporte!

Essa onda do todo mundo afeta os bens materiais também. A pressão popular te leva a comprar tênis e roupas novas, acessório pro carro, celular novo, etc. E o pior é que não vem das outras pessoas, e sim da sua própria psicologia querendo fit in na popularidade do grupo. É difícil se blindar contra esse tipo de pressão, mas o estoicismo tem me ajudado muito com isso.

A sugestão sutil

Finalmente, as vezes você está sozinho, sem pressão de grupo algum, mas se depara com uma oferta ou algum impulso sutil que faz você tropeçar numa compra e gastar o dinheiro.

Não é fácil resistir a estes impulsos, mas o que você pode fazer é reduzir ou até eliminar a sua exposição à tentação. Pare de ir ao shopping. Instale um bloqueador de anúncios no navegador (recomendo uBlock Origin). Assista menos filmes e mais documentários, ou pare de assistir mídia passiva e leia livros.

Metas do Pinguim pro Minimalismo

Vou começar com o maior desafio de todos: vou tentar não comprar nada que não seja crítico para a minha subsistência no mês de Dezembro, e o ano de 2019. Minhas compras terão de ser justificadas como crucial ao ponto de que se eu não as obtê-las, irei morrer, caso contrário não serão compradas.

Um desafio menor será contar a quantidade de vezes que uso cada coisa na minha casa no decorrer de um mês inteiro, bem parecido com como faço para monitorar meus gastos. O objetivo será obter um registro de frequência de uso dos meus bens materiais e ver o que realmente é supérfluo na vida, o que me traz valor e o que pode ser substituído. Se alguma coisa tiver sido usada zero vezes no fim do experimento, vai ser candidata forte para ser doada ou descartada da minha vida.

Não prevejo isso como sendo fácil em nível algum, mas, novamente, nada sobre a IF é exatamente fácil…

E você? É adepto ao minimalismo? Tentou e não conseguiu? Conta aí nos comentários!

Abraços!

O que significa ficar rico, afinal?

Muitas pessoas que desejam alcançar a IF não se atentam ao fato de que este objetivo, tal como qualquer outro na vida, é um objetivo quantitativo, mensurável e com prazo. Para quem lida com projetos, isto já está no sangue, mas pra quem não é familiar, aqui está um pequeno resumo do conceito:

Seus objetivos, suas metas e sonhos dificilmente irão ser cumpridos no tempo da sua vida se você não definir exatamente o que eles são e quando e como você deve atingí-los.

Não só a falta de definição prejudica você alcançar os seus sonhos, mas também te dificulta mensurar para saber se você está no caminho certo ou não. Porém, a boa notícia é que a resposta para a definição dos sonhos não é única, nem um conceito imposto sobre você. De fato, graças à natureza da matemática, você pode saber e ajustar exatamente a quantia necessária para que você atingir a tão sonhada independência financeira.

Como NÃO definir sua meta

Perguntando pra qualquer um na rua o que eles querem da vida, é muito provável que a resposta é única: “Ser rico.” Rico quanto? Rico é o quê? Precisa de quanto pra ser considerado rico? R$100,000? R$1,000,000? Basta ganhar na mega sena? Como ninguém sabe, ninguém vai ficar rico.

Sem definição sobre o quanto exatamente você precisa pra ser rico, você está cego no caminho para a riqueza. Poderá chutar um número pra baixo pra ficar “mais fácil” e se decepcionar lá na frente, ou jogar o número astronomicamente pra cima e perder a motivação por acreditar que é impossível atingí-lo em sua vida.

Pior ainda é fazer não definir um prazo para a meta. Se eu quero ficar rico? Claro! Quero ficar rico… um dia.

Que sempre é adiado…

Que nunca chega…

Que era a mesma coisa que você tinha falado dez anos atrás…

Etc. Sem uma data para planejar, o objetivo torna-se tanto inalcançável quanto uma meta na qual não há nenhuma responsabilidade da sua parte para ser alcançada, resultando duplamente num objetivo impossível.

Não vou nem entrar no mérito da necessidade de estar envolvido no processo (e não somente responsável) para garantir a melhor performance possível pois isso dá um post inteiro em si. Mas é umas entre as várias lições que o milionário MJ de Marco ensina para maximizar o seu potencial para ganhar dinheiro.

OK, então como eu estabeleço minhas metas?

A conta matemática é simples, mas pra decidir o valor final vai requerir um pequeno trabalho filosófico da sua parte. Existe um princípio bem difundido pelo mundo das finanças pessoais chamado de Regra dos 4% que é utilizado como base para estabelecer o valor a partir do qual você se encontra financeiramente independente.

Resumidamente, ela afirma o seguinte: em teoria, você pode retirar até 4% anualmente do seu portfólio de investimentos todos os anos sem que o seu portfólio diminua de valor. Na prática, existem algumas limitações a esta afirmação referente ao contexto Brasileiro que podem questionar a veracidade disso, mas no geral, os 4% são referidos como a Taxa Segura de Retirada (SWR em Inglês).

Como você aplica isso para as suas metas? Simples. Calcule os seus gastos totais ao ano e divida-os por 0.04. O número resultante é o montante de patrimônio que você, em teoria, deverá ter para que possa viver completamente coberto pelos rendimentos dos seus investimentos, sem precisar de renda alguma adicional de trabalho.

Em outras palavras, este número “x” é quanto dinheiro você precisa para se tornar independente financeiramente. É isso que eu me refiro a “ser rico.” Vejamos um exemplo na prática:

João calcula que seus gastos mensais médios de vida em sua cidade de tamanho médio é de R$4000, incluindo supermercado, aluguel, contas, entretenimento e academia, etc. Para não ter surpresas lá na frente com gastos de emergência, ele acrescenta ao seu custo total mensal de vida R$1500 como um contingente de emergências que pode ou não ser usado a qualquer hora. Quanto João precisa para se tornar independente através da TSR?

Total = (Gasto mensal + Contingente) * 12 meses / 0.04

Total = (4000 + 1500) * 12 / 0.04 = R$1,650,000

Um milhão e seiscentos e cinquenta mil reais. Este é o valor que João precisa aportar para ficar rico. Pouco? Não exatamente, mas provavelmente é muito menor do que muitos imaginavam.

Com estes R$1.65M, João teria não só os seus custos totais de vida diários cobertos pra sempre, mas com essa quantia no bolso também estaria equipado com até 1500 reais por mês para qualquer imprevisto financeiro (ou até mesmo oportunidades, como uma viagem ou novo investimento) que apareça no caminho. Nada mau, né?

Mas qual é a pegadinha?

Como nada na vida é só flores, nem a TSR te salva de tudo. Só de cara, existem duas observações sobre este processo que precisam ser clarificadas:

Demorar pra chegar lá reduz o seu poder de compra

Lembra como nas seções anteriores eu mencionei que objetivo sem prazo não vale nada? Neste caso específico, não levar o prazo em consideração é perigoso porque você vai ignorar o efeito da inflação nos seus gastos mensais.

João e seu milhão estariam prontos pra enfrentar os gastos de hoje, em 2018, mas se ele precisar de 10 anos para juntar essa quantidade toda, até lá pode ser que a inflação tenha enchido demais os custos dos produtos e serviços no qual que ele depende, ao ponto que a quantia providenciada pela TSR não seja mais suficiente.

Por exemplo, usando uma inflação de 4% ao ano como base, os mesmos R$4000 que João depende em 2018 pra viver um mês seriam equivalentes em 10 anos a:

4000 * e^(.04*10) = 5967.3

Ou seja, nem com os R$1500 orçados como emergência João poderia viver apenas de rendimentos. E isso não é nem contando com a volatilidade da economia Brasileira, já que assumimos que a taxa vai permanecer fixa a 4%. Com isso, se vê que decidir o prazo para atingir o valor orçado é importantíssimo. Atingí-lo o quanto antes é ainda mais.

Riscos inerentes ao investimento

Outra coisa é que qualquer investimento que você fizer para lhe esta quantidade diretamente vai ter um risco associado que pode não vir a te render o que você precisa para viver. Que riscos são estes? Risco de calote, de falência da instituição financeira, de falência da economia nacional, risco do rendimento cair abaixo da inflação e você perder dinheiro, etc.

Há investimentos considerados mais seguros, como o Tesouro Direto, outros com retornos maiores relacionados ao risco e a boa e velha renda variável nas ações e FIIs. Espalhar o seu patrimônio em várias formas de investimento (diversificar) é uma boa técnica adotada por investidores e deve ser considerada até mesmo após atingir o número mágico.

Uma boa idéia também é manter fontes de renda passiva independentes do seu patrimônio base, para que a renda mensal continue a ser provida independente da taxa retirada anualmente.

Então como eu começo?

Em primeiro lugar: leia. Leia livros. Leia blogs de finanças. Leia materiais oferecidos por cursos de finanças. Adquira o maior conhecimento possível para aprender a chegar no seu objetivo.

Em paralelo, comece a planejar a compactar o mais possível o seu custo de vida mensal. Pela aplicação da fórmula, você já viu que quanto menor o seu custo de vida, menor o montante necessário. Cortar gastos desnecessários ou achar alternativas mais baratas irá reduzir o objetivo em muito mais do que você imagina. Não sabe quanto gasta por mês? Comece a planejar seu orçamento mensal imediatamente anotando todos os seus gastos diários.

Bom, este post foi longo, mas deve ter coberto alguns dos conceitos básicos. Espero ter ajudado alguns dos leitores!

Esqueci de alguma coisa ou falei abobrinha? Me avise nos comentários!

Abraços!