Fungibilidade e o valor relativo do dinheiro

Seres humanos têm a capacidade de criar relacionamento com quase tudo ao seu redor. Relacionar-se com outros seres humanos é uma habilidade crucial para a vida em sociedade, e com outros animais é necessário para uma vida sedentária, utilizando-os de forma produtiva à nossa vida. Alguns artistas podem até criar relacionamentos com coisas inanimadas como um pôr-do-sol bonito e inspirador, uma paisagem impressionante, ou sonhos de consumo (você já deve ter visto gente que ama seu carro, casa, etc).

Quando se trata de dinheiro, porém, a situação fica interessante: será que o dinheiro é um conceito puramente inanimado e indistinguível? Ou seria esta percepção diferente para cada orçamento ou “lacuna” para qual dedicamos o dinheiro?

Será que o dinheiro da nossa reserva de emergência é hierarquicamente igual ao que temos investido e nos gerando renda passiva? E aquele dinheiro que gastamos rotineiramente com nossos gastos essenciais como comida, moradia e saúde – mais importantes ou menos do que os gastos com nossos sonhos de consumo? É possível amar mais o dinheiro do que outras pessoas?

Quaisquer que sejam as suas respostas para tais perguntas, estas trazem à luz um viés natural do ser humano contra um conceito rígido das finanças chamado fungibilidade. Palavrinha difícil e engraçada, ela simplesmente significa a característica de algum bem possuir o mesmo valor sob qualquer circunstância, independente da sua aplicação. O dinheiro é quase que o exemplo único deste conceito, que basicamente vem a dizer que um real tem sempre o mesmo valor independente de se aplicado numa coxinha, na passagem do ônibus ou se poupado para posterioridade. Será sempre o mesmo um real.

Este conceito de fungibilidade é importantíssimo para nossas finanças, sendo a base que permite que qualquer um enriqueça independente de quão alto ou baixo seu salário seja – contando que este seja administrado da maneira correta. Mas infelizmente, muitas pessoas não enxergam o dinheiro desta forma, acreditando que o valor do dinheiro muda dependendo no que ele é gasto – o que as leva a tomar decisões financeiras ruins no processo.

Vejamos neste post como isso acontece.

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O que a NASA e a renascença me ensinaram sobre a independência financeira?

Durante os anos dourados da exploração espacial nos anos 60, o ápice da pesquisa científica e engenharia se encontrava nas agências espaciais dos Estados Unidos (NASA) e seu rival Soviético (SSSR). Desenvolver materiais mais leves, resistentes, baratos e eficientes era uma das muitas missões que o programa espacial buscava resolver, e a cada missão completa ou falha, muitas lições eram aprendidas.

Uma das observações interessantes neste período foi que, num ambiente de microgravidade como na órbita da Terra, a tradicional caneta esferográfica tipo BIC não funciona, pois não possui o puxo da gravidade para descer a tinta até o papel. Embora uma pequena inconveniência à primeira vista, num momento de constante pesquisa não poder anotar observações durante a missão possui um impacto significante. E a NASA colocou sua engenharia para atacar o problema.

Como resultado, uma caneta especial foi desenvolvida, que poderia escrever sob qualquer condição de gravidade, pressão e temperatura, dentro ou fora da espaçonave, e em qualquer superfície e material – garantida de funcionar em qualquer missão espacial. O projeto custou alguns milhões de dólares, com a caneta saindo por algumas centenas de dólares a unidade.

Do outro lado do mundo, os soviéticos simplesmente usaram lápis.

Muitos séculos antes desta história, a Europa saía da cansada idade média com suas disputas e pandemias em direção à uma nova era – a Renascença. Desenvolvimento humano era a nova moda da vez, e se refletia na nova capacidade das cidades para produzir novas artes, música, descobertas científicas além de mudanças nos governos e na política.

Tamanho foi o desenvolvimento do potencial humano nesta época que vários nomes de engenheiros, artistas, músicos e cientistas deste período sobrevivem e são ensinados até hoje em escolas e universidades ao redor do globo – sem contar que servem de inspiração para os atuais cientistas.

Mas há uma diferença: ao passo que cientistas modernos são especialistas e focam estritamente na sua fina área de atuação, os renascentes procuravam aprender o máximo de tudo que podiam. Eram cientistas, artistas, músicos e engenheiros ao mesmo tempo, e de fato têm até um nome específico para descrevê-los: Polímata. Talvez o exemplo mais famoso deste “homem da Renascença” seja Leonardo da Vinci.

Embora estes dois universos separados no tempo aparentemente não têm muito relacionado além da ciência, ambos me apresentaram lições importantes relacionadas ao conceito de se tornar financeiramente independente. Podemos enxergar dois aspectos antigos que nos servem até hoje para nos tornarmos independentes, e realmente os mestres dos nossos destinos. Neste post, exploro estas lições e como podem lhe ajudar.

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Investir não vai te deixar rico – o que te enriquece é outra coisa…

Existe uma grande correlação entre investir e enriquecer, com uma famosa frase afirmando que “você não precisa ser rico para investir, mas precisa investir para ser rico.” E ao passo que não há qualquer dúvida que esta afirmação é correta, algumas vezes acontece uma misconcepção sobre qual é o papel do investimento no processo abrangente do enriquecimento.

Estes desentendimentos acontecem principalmente por conta das histórias surpreendentes de traders bem-sucedidos, com ganhos diários de milhares de reais, ou de grandes investidores já bem-conceituados que recebem ganhos enormes por conta do seu capital investido. Para estes, realmente os investimentos são tudo o que eles têm.

A verdade é que especialmente no começo, o seu investimento, independente de quão boa a sua estratégia, não será o fator que definirá a sua riqueza. Veja neste vídeo quais fatores têm mais peso nesta fase crucial.

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O que faz um investimento seguro?

Qual é o segundo investimento mais seguro que existe depois do Tesouro Direto?

Calma. Releia a frase antes de tentar começar a responder. Respire. Pense com cuidado a respeito da pergunta.

Respirou? Beleza, pode responder agora.

Se você começou a pensar sobre algum CDB, LCI ou LCA por causa da garantia do FGC… pode parar. Você acabou de cair na pegadinha do óbvio-mas-não-óbvio.

Mas e aquele papo de ser um investimento seguro, afinal é renda fixa e garantida pelo FGC até R$250,000…?

Se você pensa desta forma, as chances são que você não está exatamente entendendo o que significa segurança nos investimentos. Não só esta mesma “garantia” lhe limita o horizonte de pensamento (“enquanto eu ficar abaixo dos 250 mil beleza!”), ela também nos torna cego para os riscos inerentes de qualquer investimento – incluindo a renda fixa.

Porém, há um outro quesito pouco explorado quando se trata de segurança em meio aos investimentos que até há relativamente pouco tempo era pouco considerado. Este é a proteção do poder de compra do seu dinheiro. Isso mesmo – a velha inflação que sileciosamente mas certeiramente irá reduzir o valor do seu patrimônio ao longo do tempo.

Combinando o poder corrosivo da inflação com um pavor irracional que muitos possuem quanto a imprevisibilidade da bolsa de valores no curto prazo, vemos que não começar a investir se torna o real risco de segurança financeira. Vejamos mais sobre isto, e como podemos reverter esta aversão a riscos neste post.

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Mais um emprego não vai te salvar

Quando se trata do esporte favorito de todos, reclamar deveria estar rankeado entre um dos top 5. Infelizmente, a maioria pratica este hábito destrutivo com tanta naturalidade que ne chegam a perceber que estão de fato perpetuando o hábito. Reclama-se de tudo, da vida, da cidade, da política, da família e – acima de tudo – da situação financeira atual.

Tratando do assunto das suas finanças pessoais, a maioria acredita que, não importa qual a sua situação financeira atual, tudo seria melhor se simplesmente tivessem um emprego melhor. Um chefe mais compreensivo, uma rotina menos estressante, um local de trabalho mais acessível. Ah sim, e com certeza um salário maior. Elas predicam o se sucesso financeiro (ou falta de) num único fator fora do seu controle que é o trabalho e o salário recebido. Não só esta visão de dependência completa sobre o trabalho é extremamente limitante, mas ela também se torna o fator primário pelo qual elas passam a detestar o trabalho.

O grande problema é que, ao contrário do que as gerações anteriores acreditavam e seguiam, hoje em dia apenas um emprego melhor não vai salvar a sua vida financeira. Existem muitos fatores na atualidade que jogam contra você que simplesmente não existiam nas gerações passadas, que acreditavam em salários vitalícios, empresas perenes e um Estado “coruja” capaz de sustentar a todos. Uma população cada vez mais velha, competição cada vez maior e uma cultura de crescente outsourcing significa que o conceito de salário se torna cada dia menos poderoso e mais incerto quando se olha para o futuro.

Como, num cenário incerto e caótico como este, você deve então garantir a sua segurança financeira? A resposta, novamente, é: investindo.

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As cinco dimensões da riqueza

Quando se trata do seu objetivo de vida, muitos preferem escolher âmbitos e metas que tentam mais refletir um bom estilo de vida e tranquilidade com paz de espírito. Gostaria de viajar pelo mundo, dizem. Quero uma casa no campo e uma vida tranquila. Ter tempo para a minha família todos os dias. Ter a liberdade para fazer tudo aquilo que eu quiser sem precisar correr riscos ou fazer algum sacrifício. Quem pensa em dinheiro ou ser rico como objetivo de vida é tido como ganancioso ou mesquinho.

O que não fica explícito, porém, é que cada um destes objetivos precisa de dinheiro para acontecer. Nenhum deles poderia acontecer sem a pessoa necessariamente estar numa condição de Independência Financeira para realizá-los. E assim, revela-se a necessidade de ter riqueza como condição primária para a sua liberdade básica, mas esta liberdade não está simplesmente apenas no quesito financeiro.

Existem cinco dimensões distintas da riqueza que você precisa dominar para se tornar uma pessoa bem-sucedida e realmente conseguir alcançar seus objetivos de vida, quaisquer que estes sejam. Quando apenas algumas destas dimensões são cumpridas, o resultado é uma vida desbalanceada, onde o foco se encontra apenas em ganhar dinheiro e esquecer o resto da vida e não se atribui sentido no processo. O resultado é uma tendência a ser desencorajado e a depressão. Portanto, é importante manter sempre em mente estas dimensões quando falamos de riqueza. Ao invés de tratar o dinheiro como a coisa mais importante do mundo, as pessoas ricas entendem cada uma das dimensões da riqueza e as incorporam em suas vidas.

Explicarei mais sobre estas dimensões da riqueza neste post.

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A bolha do Uber?

Quando o Uber foi lançado e entrou no mercado brasileiro, a inovação foi completa. O aplicativo havia introduzido um novo modelo de negócios que desbancou os negócios dos taxistas e abriu uma competição diversificada antes nunca vista na história. O conceito do sharing economy começou a engatinhar e logo foi tomando espaço.

O transporte foi democratizado e as pessoas finalmente possuiam uma alternativa mais barata para prencher algumas lacunas cruciais do transporte urbano brasileiro. E, colateralmente, o Uber serviu de “colchão de segurança” amenizando o impacto da crise econômica iniciando em 2015, oferecendo uma forma de renda temporária para aqueles que perdiam seus empregos.

Avançando até 2020, a situação se tornou bem diferente. Aplicativos competidores entrando e competindo por mais motoristas e passageiros, continuidade da crise e falta de empregos causou um aumento significante do pool de motoristas fora de proporção com os passageiros, e a remuneração – variável como sempre – hoje tem um apelo mais duvidoso. Não é a primeira vez que falo do Uber no blog, mas desta vez trago luz a um insight que vi num post do SubReddit de Investimentos: estaria o Uber direcionado para uma bolha?

Os insights recebidos desta filosofia servem para além do aplicativo em si, mas para também outros produtos e serviços que entram na moda e crescem rapidamente. Uma bolha como essa pode afetar além do mercado e ir diretamente na vida pessoal das pessoas. Vejamos com mais detalhes.

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A percepção relativa humana e seus impactos nas finanças

Responda rápido, sem procurar no Google: qual é o peso médio de um elefante africano adulto? Você tem dez segundos para responder. Valendo!

Seu tempo está esgotado. Quanto você acha que é? Uma tonelada? Dez toneladas? Vinte?

Procurar uma resposta sensata para esta pergunta foi provavelmente bem difícil. Mas antes de mostrar a resposta, vamos tentar uma pergunta alternativa: quantos rinocerontes pesa um elefante?

A resposta para esta pergunta se torna mais fácil por simplesmente ter se tornado uma questão de comparação entre duas coisas já de certa forma conhecidas.

Quem já passou por um processo seletivo de contratação com certeza já viu as perguntas mais bizarras que os recrutadores fazem ao grupo. Uma das clássicas é: quantas bolas de golfe cabem num Boeing 747? E aqui nem o Google pode te ajudar se é para ser resposta objetiva. Como no exemplo dos elefantes, uma “cola” de comparação poderia lhe ajudar aqui também, mas não se preocupe, não é a resposta objetiva que eles estão procurando.

Perguntas inesperadas à parte, a nossa dificuldade em estimar grandezas como essas do zero se dá em parte porque o cérebro humano é incapaz de processar grandezas absolutas, apenas relativas. Em outras palavras, só conseguimos completamente entender alguma coisa quando colocamos outra coisa familiar ao lado para comparar.

Podemos, por exemplo, fazer o mesmo tipo de pergunta acima para o número de estrelas no céu, quantidade de grãos de areia numa praia, população de um determinado bairro, etc. Mesmo que saiba o número exato, você só irá realmente compreender sua magnitude se compará-lo com outra coisa que realmente entende. E a mesma coisa acontece com os sentimentos: frequentemente nos comparamos com os outros nos quesitos de felicidade e sucesso.

Este fato felizmente (ou não) se derivou da nossa evolução como seres humanos, e tem profundos impactos na nossa psicologia, percepção das coisas e – finalmente – até nas nossas finanças pessoais.

Como a “relatividade humana” pode ter impactos positivos e negativos na suas finanças, e como você pode arranjá-la de modo a ter os melhores resultados desta consequência evolucionária tão naturalmente humana?

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Como parar de beber transformou minha vida

Em 2014, descobri com alguns colegas de trabalho a presença de um bar perto do escritório onde trabalhava, em que a cerveja era bem barata e ainda tinha o transporte por perto para voltar para casa. Depois de algumas cantadas e convites, fui convencido a participar de um Happy Hour lá, e a partir desse dia onde se iniciou um hábito a princípio inofensivo, mas a longo prazo extremamente danificante: a bebida alcóolica.

Felizmente, esta história não é uma de superação alcóolatra, e tem um final feliz: desde o final de 2016, efetivamente consegui eliminar o hábito da bebida e com isso minha vida teve uma melhoria palpável. Inicialmente, não me dei conta de como esta melhoria havia se instalado, mas com o passar dos anos, me dei conta que esta sutil mudança conseguiu ter um impacto enorme na minha vida hoje. Isso é porque o hábito de beber acarretava custos além daquilo que aparecia na conta: acarretava em custos da minha saúde e do meu tempo também.

Outro fato interessante é que, ao contrário de muitas histórias de rehabilitação de substâncias, esta mudança não me foi um pingo dolorosa, em grande parte porque tive um grande apoio positivo para seguir este caminho.

O que mudou para melhor desde que terminei de vez este hábito? Hora de mais uma história de vida do Pinguim.

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Confrontando o cotidiano 4 – O cafezinho de R$60.000,00

Semana passada no trabalho, estava tomando meu cafezinho de tarde quando olhei bem pra caneca e comecei a refletir. Vi as pessoas voltando do almoço trazendo copos do Starbucks pras suas mesas e não pude deixar de pensar.

Lá se vão 14 reais da carteira, transformados em açúcar, leite e um tiquinho de café aguado…

E aí então voltei a atenção ao meu copo. Lá estava um nescafé solúvel que havia preparado eu mesmo com a água quente disponível na copa (meu escritório não fornece café aos empregados, apenas água e maquininhas de refrigerantes com bebidas). Admitidamente não é o melhor café que tomei, mas, depois de fazer algumas contas rápidas, percebi que era o café de maior valor que já tomei na vida.

De fato, este café me economizará mais de sessenta mil reais na vida.

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