O viés da confirmação e como ele pode arruinar as suas finanças

Alguns tratos psicológicos humanos são tão poderosos quanto antigos, e poucos deles são tão marcantes – senão perigosos – quanto o nosso próprio orgulho. O orgulho como causa da autodestruição, conhecido como Húbris na literatura, é antigo, podendo ser identificado desde os clássicos gregos como Édipo Rei de Sófocles.

E a parte interessante é que mesmo depois de quase 2500 anos de sua publicação, as pessoas continuam a cair na mesma armadilha que um orgulho demasiado e não-questionamento causam, sofrendo grandes danos morais e financeiros no caminho. E quando se trata de finanças, sem dúvida o maior cúlprito desta história é o nosso famoso viés da confirmação – a nossa tendência a pensar que estamos certos, e que aquilo que desejamos certamente se tornará a realidade.

Neste episódio compartilho a história de um imigrante Indonês chamado Rudy Kurniawan que, utilizando-se fortemente deste viés, conseguiu lucrar milhões de dólares sob enólogos e aficionados por vinhos raros na Califórnia no começo dos anos 2000. E se você pensa que isso nunca poderia acontecer com você, pense novamente – pode ser que isso já aconteceu, e certamente não foi a última vez.

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Seria o Value Investing a bala de prata financeira?

Quando estamos aprendendo alguma coisa nova, é comum deixarmos que alguma forma de autoridade do conhecimento guie nossos estudos e decisões na fase inicial por conta de falta de conhecimento melhor. Afinal, estamos apenas aprendendo, precisamos de alguma entidade com conhecimento para nos guiar melhor, e quem melhor do que os mestres para nos auxiliar nestes casos?

No caso dos investimentos, não há dúvida que a melhor abordagem que podemos adotar é o clássico buy & hold a longo prazo. Há vários estudos publicados que documentam o espetacular retorno que esta estratégia possui ao longo prazo, mesmo com os altos e baixos que a bolsa experiencia. E, central ao conceito do buy & hold, há um outro pilar importantíssimo, necessário para um investimento sensato: o value investing.

Venerado como a escolha primária de investidores famosos e bem-sucedidos como o Warren Buffett e Charlie Munger, value investing com certeza possui um nome bem estabelecido entre os círculos de investimentos. Por outro lado, outros o consideram uma teoria ultrapassada, pois a eficiência do mercado eventualmente consegue nivelar diferenças na precificação ao curto prazo, e que um hábito de pequenos investimentos regulares é mais fácil e eficiente do que “acertar o fundo” do mercado.

Felizmente, não precisamos adotar monoliticamente o Value Investing para conseguir investir, mas adicionar partes dos seus conceitos pode melhorar incrivelmente a sua performance de investimentos. Neste post, explico como funciona o Value Investing, e como você pode começar a integrá-lo na sua própria estratégia.

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O que faz um investimento seguro?

Qual é o segundo investimento mais seguro que existe depois do Tesouro Direto?

Calma. Releia a frase antes de tentar começar a responder. Respire. Pense com cuidado a respeito da pergunta.

Respirou? Beleza, pode responder agora.

Se você começou a pensar sobre algum CDB, LCI ou LCA por causa da garantia do FGC… pode parar. Você acabou de cair na pegadinha do óbvio-mas-não-óbvio.

Mas e aquele papo de ser um investimento seguro, afinal é renda fixa e garantida pelo FGC até R$250,000…?

Se você pensa desta forma, as chances são que você não está exatamente entendendo o que significa segurança nos investimentos. Não só esta mesma “garantia” lhe limita o horizonte de pensamento (“enquanto eu ficar abaixo dos 250 mil beleza!”), ela também nos torna cego para os riscos inerentes de qualquer investimento – incluindo a renda fixa.

Porém, há um outro quesito pouco explorado quando se trata de segurança em meio aos investimentos que até há relativamente pouco tempo era pouco considerado. Este é a proteção do poder de compra do seu dinheiro. Isso mesmo – a velha inflação que sileciosamente mas certeiramente irá reduzir o valor do seu patrimônio ao longo do tempo.

Combinando o poder corrosivo da inflação com um pavor irracional que muitos possuem quanto a imprevisibilidade da bolsa de valores no curto prazo, vemos que não começar a investir se torna o real risco de segurança financeira. Vejamos mais sobre isto, e como podemos reverter esta aversão a riscos neste post.

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7 perguntas erradas a serem feitas sobre os investimentos

Um dos desafios no nosso caminho de aprendizado é que frequentemente nossas maiores e mais sedentas perguntas não são respondidas pelos nossos materiais, recursos, e aulas até bem mais tarde. Os professores e os livros ajudam, mas preferem se manter em curso com o plano da aula, evitando as nossas preciosas perguntas até mais tarde.

Na educação financeira muitas vezes não é diferente, e muitas vezes começamos com nossas perguntas e dúvidas pessoais sobre o dinheiro, que nos fazem querer pular os básicos sobre finanças pessoais para ir direto à conceitos relativamente mais avançados. Em fóruns, este tipo de pergunta constantemente leva bordoadas de investidores mais experientes, rendendo o carinhoso apelido de “sardinha” que leva muitos a se desencorajarem de continuar a aprender. A verdade, porém, é que perguntas como “qual é o melhor investimento que posso fazer” são evidência que quem pergunta não possui base de conhecimento geral suficiente para tratar de uma pergunta tão específica.

Neste post abordo esta questão do aprendizado financeiro de uma forma similar: aprenda educação financeira correta através das perguntas erradas que são frequentemente feitas sobre investimentos, finanças pessoais e da bolsa de valores. Não só você estará evitando os erros alheios de muitos ao seu redor, mas também aprenderá quais os fundamentos deve-se ter primeiro para posteriormente ir explorando com mais detalhes.

Este post mistura educação com humor, portanto deve transmitir a mensagem bem eficiente. Porém, como todo conteúdo disponível neste site, deve ser notado que ainda assim representa apenas a minha opinião e que não estou de forma alguma recomendando qualquer forma de investimento. Dito isto, vamos em frente.

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Você vive pra apagar incêndios nas suas finanças?

Existe uma anedota bem conhecida sobre gerenciamento de processos sobre o ovo e a galinha: qual dos dois veio primeiro? Logicamente, não há uma resposta coerente para esta pergunta, e tentar resolvê-la simplesmente irá gerar um loop infinito, onde afirmar que foi um simplesmente levanta a pergunta “ok, mas quem o gerou não foi o outro?”

Esta situação engraçadinha e à primeira vista inofensiva pode ter um efeito devastador quando considerado ao longo de processos ocorrendo simultaneamente, tal como em programas de computador onde é conhecida como condição de corrida. Esta, por sinal, frequentemente é a razão pela qual o seu computador ou eletrônico travam.

A forma mais sensata de se resolver o problema do ovo e da galinha, ironicamente, é simplesmente não criando o problema em primeiro lugar. Você não precisa se preocupar se foi o ovo ou a galinha que veio primeiro se nunca precisar fazer esta pergunta. Pode parecer óbvio, mas por falta de visão ou pensar criativamente, muitas pessoas acabam caindo neste dilema em diversas partes do seu cotidiano sem nem suspeitar.

Se você não acha que pode cair no problema ovo-galinha se tratando de finanças, está enganado. Enriquecer também é um processo, e determinadas partes dele também podem cair numa espécie de loop infinito e insaciável. A manifestação mais clara (e perigosa) do problema do ovo e da galinha nas finanças pessoais na minha opinião é a síndrome do constante incêndio financeiro.

Esta situação é bem comum hoje em dia, por conta da precária educação financeira da população, e se manifesta por constantes reclamações sobre a própria situação financeira e dizer que o indivíduo nunca tem dinheiro para nada.

“Não tenho dinheiro no fim do mês porque não consigo economizar; não consigo economizar porque tenho que pagar todas estas contas; não consigo pagar estas contas porque não tenho dinheiro”

Soa familiar?

Tentar resolver esta situação de maneira bruta é equivalente a tentar descobrir se foi o ovo ou a galinha que veio primeiro. Infelizmente, na maioria dos casos a pessoa já se encontra dentro do problema quando se depara que deve resolvê-lo, então evitá-lo não é mais possível. Por outro lado, é possível quebrar este ciclo se simplesmente seu esforço for concentrado e direcionado da maneira certa. Neste post, iremos explorar como.

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Enriquecer é redundante?

Olá! Excelente post. Eu assiti alguns vídeos desse Primo Rico e até cheguei a comprar o livro dele na época. Pra ser sincero, não sei se vi os vídeos errados, ou as lives erradas dele, mas sinceramente não consegui aprender nada sobre investir ou comprar ações. Senti que ele cria conteúdo “dando voltas” no assunto e sem especificar de fato o que fazer. Tipo como muitos dizem: trabalhe, poupe e invista. Do meu ponto de vista isso é bem redundante se você não disser COMO se faz. Poderia indicar algum conteúdo dele que mudasse minha opinião? Ou de outra pessoa? Não senti confiança no Thiago Nigro, essa que é a verdade.

Quando li este comentário no meu post sobre o Primo Rico a.k.a. Thiago Nigro e seu vídeo onde ensina a obter R$195 mil de dinheiro extra ao longo de alguns anos, a primeira reação que tive foi pensar que o autor não havia entendido o sentido do post. Lendo mais aprofundadamente, porém, percebi que o ele tinha um ponto bem válido: algumas vezes, ler sobre educação financeira, especialmente para quem já possui uma noção bem avançada, pode parecer meio maçante ou até mesmo redundante.

E há, sim, uma dose de verdade nesta opinião: enriquecer, na sua melhor forma, precisa ser um processo simples. Enriquecer precisa ser simples da mesma forma que a matemática necessária para se aposentar é simples. Quanto mais simples, melhor, mas claro que isso não significa necessariamente que vai ser fácil; o seu esforço sempre será necessário, uma parte integral de todo o processo do desenvolvimento pessoal.

E esta mesma simplicidade que torna o FIRE tão poderoso pode se tornar uma pequena problemática entre os criadores de conteúdo sobre o assunto: sobre o que falar quando a sua esfera do assunto é tão, eventualmente, simples e direta? A verdade, porém é que a aparente “redundância” do assunto é uma consequência necessária. Isso porque muitos não acreditam que enriquecer pode ser um processo tão simples, e começam a procurar maneiras de “acelerar” o processo, ou “complementá-lo” por fora, e acabam sacrificando todo o seu trabalho árduo no caminho.

Quando começamos a acreditar que para enriquecer é necessário especular, acertar na mosca a próxima empresa mina de ouro, ou investir em ativos esotéricos, tornamo-nos cegos aos riscos destas promessas de enriquecimento rápido e fácil, e arriscamos perder quando na verdade, tudo o que precisávamos fazer era seguir uma estratégia mais simples.

Neste post, explico por que a estratégia simples, passiva e de longo prazo é a vencedora, e por que adicionar complicação demasiada pode ser até nocivo para o seu patrimônio.

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Um milhão de reais é o suficiente? O fetiche pelo “milhão” e seus mitos

Nada aparentemente é tão icônico, tão simbólico e tão cobiçado para o enriquecimento quanto o número mágico do um milhão.

Milionário.

Um milhão de reais.

Um milhão de dólares.

Um milhão de visualizações.

Um milhão de seguidores.

Na casa dos milhões.

A humanidade parece ter um fetiche implícito por este número de um seguido de seis zeros, algo como um misticismo indicando tanto um objetivo cobiçado mas ao mesmo tempo inalcançável aos olhos de muitos, como uma lenda.

Este número é tão cobiçado e sonhado que muitos inclusive chegam a acreditar que ele é a resposta para os problemas financeiros da vida. É só chegar até aqui e tudo se resolverá, acreditam. Não há mais necessidade de se preocupar com mais nada na vida. Tal crença, porém, não tem fundo e é perigosa de se ter como um objetivo de vida: ela pode levar você à depressão por adaptação hedônica.

É importante, portanto, saber que ao passo que o mágico milhão é uma quantia considerável de dinheiro, ele não será uma solução mágica, uma bala de prata financeira na sua vida. Utilizá-lo como um dos marcos no seu planejamento financeiro faz mais sentido, assim como ter outros objetivos. Elaboraremos a fundo neste post.

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A renda fixa está morta? É facil? Não tem risco?

Quando começamos a investir, sem dúvida consideramos a renda fixa como um bom ponto de partida. É frequentemente advertida como segura, simples e fácil para o investidor iniciante entender e aplicar. Ativos de renda variável, como ações e fundos imobiliários, são entendidos como mais complicados e mais arriscados por conta da variação imprevisível do preço dos ativos.

Embora esta visão oferece uma explicação simplista e fácil de ser seguida, algumas pessoas recebem o entendimento errôneo que a renda fixa, por não possuir esta variação de mercado, acaba sendo sinônimo de ausente de riscos. Esta concepção ingênua é oriunda principalmente por conta da falta (percebida) de variação na rentabilidade, e é perigosa para o investidor que assim associa sua percepção de risco.

A verdade é que não existe investimento livre de risco, e aqueles que assim se ofertam ou estão mascarando o risco principal por trás de alguma outra coisa. Um instrumento financeiro sem risco poderia ser colocar o dinheiro debaixo do colchão, mas mesmo neste caso há o risco do dinheiro ser fisicamente destruído por algum motivo – até mesmo corroído com o tempo.

Neste post, explico quais são os riscos que existem na renda fixa, e – ao contrário da maioria esmagadora na finansfera – indico como você poderia incluí-la na sua carteira total.

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Como funciona a margem de segurança nos investimentos?

The three most important words in investing: Margin of Safety. – Warren Buffett.

Se você já leu alguma literatura sobre o Warren Buffett, é provável que já tenha ouvido falar do termo margem de segurança, um conceito tão fundamental sobre o jeito dele investir e uma estratégia crucial em diversos outros conceitos da vida. Desde o gerenciamento de riscos, planejamento financeiro pensando em reserva de emergência, e na sua própria alocação de ativos compondo sua carteira de investimentos, sempre há o conceito da margem de segurança por trás da sua estratégia, silenciosa mas certamente garantindo que você estará resguardado no caso do pior acontecer.

Buffett é provavelmente a figura mais famosa a referenciar tanto este conceito da margem de segurança, mas a verdade é que não foi ele o autor original desta idéia. Como quase tudo na história das coisas de sucesso, Buffett adaptou a idéia original criada pelo seu mentor Benjamin Graham, que teve que aprendê-la na marra após ver quase todo seu patrimônio derreter no Crash de 1929.

Lastreando-se em alguns conceitos simples, Graham e Buffett desenvolveram uma estratégia que ao longo do tempo se tornou extremamente eficiente para produzir retornos aos investidores, sendo provada novamente geração atrás de geração – inclusive até pela estrela do crash do Subprime Americano de 2008, Michael J Burry.

Como uma estratégia tão simples e tão antiga consegue até hoje trazer tantos retornos ao investidor? Como ela funciona? Vejamos neste artigo.

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Guest post Maluzeando Lettering: Cadê o Salário que estava aqui?

As ilustrações deste post são uma cortesia da Sra. Pinguim, que posta ilustrações diversas do cotidiano feminino em seu blog Maluzeando Lettering, e também no seu Instagram.

Quem nunca passou por uma situação dessas? No dia do pagamento se sente um rei ou rainha, aproveita o breve momento de riqueza para se esbanjar em seus desejos e logo percebe que todo o dinheiro foi embora e agora se encontra na mesma situação que começou. Que mais fazer senão esperar o próximo salário cair na conta para se sentir novamente rico e empoderado para tão naturalmente cair na mesma armadilha e repetir tudo de novo?

Esta é a conhecida rotina da tão famosa corrida dos ratos, a praxe pela qual a sociedade vive de consumir e trabalhar para consumir mais, e contra qual a finansfera luta para obter uma vida verdadeiramente livre. Ainda assim, há algumas nuances nesta história tão batida que as pessoas simplesmente não enxergam por estarem tão absorvidas e acostumadas nesta “rotina,” e a má notícia é que, se não conscientizadas, podem levar qualquer um ao desastre financeiro. Vamos analisar esta história mais a fundo.

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