Faux-Minimalismo: quando o menos nem sempre é mais (para as finanças)

No caminho para uma vida com mais realização pessoal e sentido, muitos se viram para o minimalismo como uma filosofia de vida para se liberarem do mal do consumismo descontrolado como fonte de prazer e organizarem melhor suas vidas em torno daquilo que realmente lhes faz feliz.

Eu mesmo tenho tentado me aventurar neste mundo e me tornar mais minimalista, mas ainda existem algumas barreiras me segurando: seja algum hábito que eu tenho, gazingus pin sendo comprado por impulso, ou até mesmo por não medo de me desfazer de alguma coisa que eu possa “vir a precisar.” Acredito que tenho tido um pouco de progresso individual, mas ainda tenho muito a evoluir neste quesito.

E enquanto o movimento do Minimalismo têm ganhado força mundialmente, em parte por conta de filósofos minimalistas famosos como Josh Millburn e Ryan Nicodemus, não posso deixar de notar que uma outra parte do mundo também tem aproveitado o crescimento deste movimento para lucrar vendendo o seu complemento aos adeptos desta filosofia. Nada de novo e nem errado aqui; afinal, quando se descobre ouro em algum lugar, lucra quem vende as pás.

Design simplista? Qualidade sobre quantidade? Acumular experiências ao invés de coisas? Sim, soam todos como atitudes bem orientadas ao minimalismo, mas será que continuam orientadas ao bem-estar da sua carteira? Para mim, alguns destes conceitos formam o que vim a chamar de faux-minimalismo, uma filosofia disfarçada de minimalismo, mas com a segunda intenção de obter o seu dinheiro e tirando parte da sua liberdade financeira em troca de uma aparência de minimalista.

Quais aspectos deste falso minimalismo podem deteriorar suas finanças? Vejamos neste post.

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E se tributarem os dividendos? E outros medos dos impostos

Recentemente, as redes sociais da finansfera foram atingidas por uma notícia que tremeu a fundação do movimento FIRE: o ministro da economia Paulo Guedes propôs em entrevista que dividendos e proventos de ações sejam taxados. Guedes afirmou que não acha justo que um trabalhador tenha 27% do seu salário tributado como imposto de renda enquanto um acionista consiga receber proventos, muitas vezes mensais, completamente isentos do dever fiscal, e estaria buscando uma medida para “equalizar” esta medida.

Tal notícia causou um grande alvoroço para a comunidade de investimentos, que enxergam (corretamente!) os dividendos da renda variável como uma espécie de oitava maravilha do mundo, e contam com eles para financiar seu plano de aposentadoria. Com esta proposta passando, não só não seria mais possível aproveitar da antiga alta taxa Selic para obter rendimentos passivos com a segurança da renda fixa (sonho dos rentistas), mas também quaisquer planos de criar um patrimônio de investimentos previdenciários também seria afetado significantemente.

Muitos nessas horas fazem esta primeira pergunta: e agora? Como fica o meu planejamento? É hora de parar de investir em renda variável? Estas dúvidas são naturais por conta da ameaça percebida e a falta de certeza no futuro. Porém, mais importante, elas revelam um aspecto muito mais fundamental que a população possui: o medo dos impostos.

Para ficar claro, acredito que mesmo com isto passando, não é razão para parar de acreditar no potencial e nos benefícios que o investimento em renda variável possui. Seria, porém, uma hora de você rever o impacto que os impostos (ou a sua percepção deles) tem no seu planejamento financeiro. Veja como neste artigo.

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Como funciona a margem de segurança nos investimentos?

The three most important words in investing: Margin of Safety. – Warren Buffett.

Se você já leu alguma literatura sobre o Warren Buffett, é provável que já tenha ouvido falar do termo margem de segurança, um conceito tão fundamental sobre o jeito dele investir e uma estratégia crucial em diversos outros conceitos da vida. Desde o gerenciamento de riscos, planejamento financeiro pensando em reserva de emergência, e na sua própria alocação de ativos compondo sua carteira de investimentos, sempre há o conceito da margem de segurança por trás da sua estratégia, silenciosa mas certamente garantindo que você estará resguardado no caso do pior acontecer.

Buffett é provavelmente a figura mais famosa a referenciar tanto este conceito da margem de segurança, mas a verdade é que não foi ele o autor original desta idéia. Como quase tudo na história das coisas de sucesso, Buffett adaptou a idéia original criada pelo seu mentor Benjamin Graham, que teve que aprendê-la na marra após ver quase todo seu patrimônio derreter no Crash de 1929.

Lastreando-se em alguns conceitos simples, Graham e Buffett desenvolveram uma estratégia que ao longo do tempo se tornou extremamente eficiente para produzir retornos aos investidores, sendo provada novamente geração atrás de geração – inclusive até pela estrela do crash do Subprime Americano de 2008, Michael J Burry.

Como uma estratégia tão simples e tão antiga consegue até hoje trazer tantos retornos ao investidor? Como ela funciona? Vejamos neste artigo.

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O que o iPad Pro me ensinou sobre finanças

Recentemente, surpreendi a Sra Pinguim com um presente especial para o nosso aniversário de casamento: comprei a ela um iPad Pro da Apple. Assim, indo contra todo o meu ethos hacker do Linux, me tornei um proprietário de produtos da Apple. Mas incrivelmente, não comecei imediatamente a morar no Starbucks, usar óculos de armação preta grossa, e nem usar roupas de marcas desconhecidas. Acho que sou imune ao vírus do hipster.

Após toda a hype de comprar o vangloriado produto, finalmente nos recostamos e começamos a usar o aparelho em casa. Para a grande surpresa de muitos, não fiquei nada impressionado pelo iPad e – muito pelo contrário – acabei achando ele meio esquisito de usar. Não há como acessar o filesystem por baixo dos aplicativos para buscar arquivos individuais? Todo comando “abrir com” é chamado “compartilhar?” Você precisa instalar um aplicativo para transferir arquivos entre um computador e o iPad? Me parece que várias funcionalidades básicas de um computador pessoal foram casualmente “removidas” em prol de… de que mesmo? Segurança? Simplicidade? Ou seria simplesmente “porque somos Apple e somos diferentes?” Não consigo dizer exatamente.

Talvez seja porque cresci com e vivo atualmente usando teclado e mouse, e a idéia de ficar sempre tocando na tela para fazer qualquer coisa não vai muito com a minha idéia de produtividade. Mas claro, eu não sou o usuário final do dispositivo, e para a Sra Pinguim eu tenho certeza que o iPad irá serví-la bem, já que é uma ótima plataforma para fazer arte e design.

Deixando opiniões pessoais a parte, enxerguei um paralelo claro entre a utilização do iPad Pro vs algum outro computador e a nossa forma de gerir nossas finanças. Talvez a Apple ache que retirar a capacidade de trabalhar como um computador comum traga “segurança” ao sistema por inteiro, mas custa a flexibilidade de uso por alguém experiente. Esta falta de flexibilidade e “terceirização da gestão” são coisas que os bancos também nos oferecem como um serviço de “conveniência,” para aliviar-nos do fardo de ter que aprender a investir.

Esta é uma das metáforas que existem entre os dois casos. Vejamos outras neste post.

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Você não precisa ser especial em tudo para vencer

“Três meses atrás, eu estava pobre e endividado. Hoje, tenho mais de um milhão de dólares e renda passiva constante graças a meus negócios online que desenvolvi com esta técnica especial, que vou compartilhar com você neste curso exclusivo!” – Algum influencer no YouTube.

Bilionários, campeões mundiais, recordistas olímpicos, experts do assunto, superlativos, número 1 de alguma coisa. Você já ouviu falar nestas pessoas ou, se procura se desenvolver com frequência, provavelmente pesquisa suas histórias regularmente. E enquanto elas podem ser um tanto inspiradoras para espelharmos nossos objetivos, se dependermos apenas desta parte da literatura para nos mentorar, acabaremos com expectativas surrealmente altas sobre o que é necessário para ter sucesso – o que é uma receita fácil para a decepção.

Ao passo que para alcançar o sucesso é necessário, sim, estar fora do conceito da média, há um desentendimento que surge quanto ao requerimentos de fato que compõem o sucesso. Tais desentendimentos são aumentados ainda mais por conta da nossa exposição constante às tais “histórias de sucesso” e outras imagens expostas de casos extraordinários de sucesso que são passadas como a única forma de suceder na vida.

Em primeiro lugar, as histórias destes superlativos são exceções dentre as exceções, e sua existência ao longo de diversas outras não tão destacadas significa que não são a única forma de se “ganhar o jogo.” Outro desentendimento é sobre o que significa ter sucesso em si. E é importante frisar o lugar destes superlativos no conceito de sucesso, pois do contrário, estaremos caindo num outro jogo nada relacionado ao nosso próprio planejamento: o do marketing.

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Qual é a diferença entre a Estratégia e Tática?

Mais uma da série “palavras a princípio sinônimas, mas com implicações diferentes.” Embora tanto estratégia e tática relacionam ao planejamento e execução de qualquer projeto, as duas atingem facetas diferentes do planejamento como um todo.

Ao pensarmos estrategicamente, buscamos um alvo ao longo prazo, visando efeitos duradouros e com impacto perene, mesmo que demore mais tempo. No planejamento tático, priorizamos o que podemos realizar de imediato e no curto prazo, com foco em resultados tangíveis e agilidade.

A verdade é que nenhum planejamento está completo se desconsiderar qualquer uma destas partes, e o seu planejamento financeiro não é exceção.

Veja neste vídeo como incorporá-las corretamente para um futuro financeiro próspero.

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O que dá mais felicidade: dinheiro ou liberdade?

A vida pode ser resumida como um processo de procura. Procura de comida, recursos, segurança, relacionamentos e – por que não – felicidade. Nada é estático, e nada é igual ao que passou, tornando viver um real processo de mudança constante. Não só isso significa que temos que ter flexibilidade e agilidade em nossas ações e planejamento, mas também que devemos ter nossos objetivos e horizontes bem demarcados em nossa visão quando estamos correndo na direção deles.

Alguns dizem que o dinheiro não traz felicidade, outros discordam completamente – e este assunto tão velho quanto o mundo prossegue sem uma resposta comum, provavelmente para sempre. Porém, uma visão moderna sobre este assunto, pensada pelo lado FIRE, traz um novo ponto de vista à mesa: o verdadeiro valor do dinheiro está em prover liberdade. Podemos ver o dinheiro de várias formas – um recurso escasso ou abundante, medida de poder, ganância – mas é na liberdade individual provida através da renda passiva que obtemos o melhor uso dele.

Enxergar o dinheiro como uma medida de liberdade nos auxilia a enxergar os objetivos de forma melhor, mas e se tivéssemos a possibilidade de obter puramente a liberdade independente do dinheiro – seríamos mais felizes? Segundo um estudo realizado nos Estados Unidos em 2016, a resposta parece ser sim. Será que isso significa que não devemos, então, procurar por dinheiro e repensar por inteiro nossos objetivos FIRE? Não exatamente, mas os insights desta pesquisa nos agregam considerações interessantes para agregar na nossa jornada.

Vejamos mais neste post.

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Aposentadoria móvel e flexibilidade – ainda podemos confiar na regra dos 4%?

A maior fraqueza dos adeptos à filosofia FIRE (acrônimo para independência financeira, aposentadoria precoce em inglês) é a mesma coisa que os torna poderosos em primeiro lugar: os seus investimentos. Quando seguimos a filosofia à risca, buscamos acumular patrimônio investido para obter renda passiva o suficiente para cobrir todos os nossos gastos de vida – numa condição conhecida como Independência Financeira. Um conceito simples, mas que revolve em torno de uma questão de ouro: quanto, exatamente, é necessário para isso acontecer?

Como praxe, utiliza-se uma famosa guia conhecida como regra dos 4%, descoberta inicialmente pelo americano William P. Bengen em 1996. O estudo de Bengen e o Trinity Institute concluiu que, historicamente falando, recém-aposentados poderiam sacar anualmente até 4% das suas carteiras de investimento sem ficar sem dinheiro durante o resto da vida. Este número ficou tão famoso que nomeou a regra, e ficou conhecida como taxa segura de retirada (TSR).

Por trás da brilhante simplicidade desta fórmula, porém, existem vários pressupostos ocultos que, embora comuns no ambiente estudado por Bengen, podem ser longe da realidade de um FIRE brasileiro. E quando sua estratégia inteira de aposentadoria se baseia nesta única fórmula, um erro de cálculo pode se tornar um desastre no longo prazo.

Durante o começo da crise do coronavírus em 2020, muitos corretamente se questionaram sobre a validade da regra dos 4% num ambiente econômico mais volátil e menos maduro como o Brasil, culminando com o post da Yuka do Viver Sem Pressa onde ela disserta sobre a necessidade da flexibilidade numa vida pós-FIRE no Brasil. E em meio a tudo isso, com a bolsa novamente se recuperando, a velha pergunta permanece: ainda podemos confiar na regra dos 4%, afinal?

A realidade é que, embora sua aplicabilidade seja duvidosa num cenário de países em desenvolvimento, ainda podemos utilizá-la como um guia para o nosso macroplanejamento financeiro. Veja neste post como.

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Sobra cognitiva e a quarentena

A quarentena global que o COVID-19 impôs à todos foi sem dúvida um efeito contra o qual quase não foi possível prever. Com milhões de pessoas confinadas às suas casas, e, subitamente com todo aquele tempo que a princípio nunca conseguiam reservar de volta às suas mãos, igualmente elas não estavam preparadas para o que aconteceria em seguida. Num ambiente estranho, um home office que cada vez mais “home” do que “office” perfeito para aumentar as distrações, e com vastas oportunidades para procrastinação facilitadas como a abertura dos canais de TV a cabo, disponibilização de programação de entretenimento gratuita, simplesmente não pudemos resistir a uma tendência natural do ser humano: a procrastinação.

Se você acha que esta tendência a procrastinar é algo moderno, fruto de um mundo repleto armadilhas de atenção – como cada um dos seus aplicativos no seu smartphone – porém, pense novamente. A verdade é que durante cada fase da evolução da sociedade humana como um todo, todas as vezes que alguma grande invenção ou descoberta é feita que libera mais tempo para as pessoas, a tendência à procrastinar imediatamente se instala. Um grande exemplo foi a crise do Gin de Londres no Século XIX, onde um país recém-transformado pela revolução industrial encontrou grande parte da população ociosa na maior parte do dia, sem mais precisar trabalhar horas por dia no arado para receber comida, por exemplo. Para “passar o tempo” antes impossível de ser obtido, as pessoas passaram a se intoxicar com álcool, especialmente o forte Gin da época.

Tendências como esta nos mostra um exemplo de sobra cognitiva, onde as pessoas recebem a oportunidade (seja em tempo, segurança ou realização fisiológica) de utilizar seu intelecto, mas acabam por disperdiçá-lo em prol do ócio ou outra atividade não-produtiva. Este termo foi criado pelo sociólogo americano Clay Shirky em seu livro Cognitive Surplus para descrever a tendência atual que, graças aos nossos dispositivos e entretenimento disponível 24 horas por dia, ignoramos nosso potencial cognitivo para “descansar a mente” com entretenimento e outros disperdícios mentais. E especialmente durante esta quarentena do COVID-19, pudemos ver a estensão que esta sobra cognitiva pode ter, começando na nossa própria rotina.

É importante observar a nossa própria sobra cognitiva como uma reflexão sobre o quanto estamos produzindo durante esta quarentena. E embora este tópico possa esbarrar na constante fala de produtividade, há um assunto mais profundo sobre o desenvolvimento pessoal que precisamos observar nestes casos: o nosso constante aprendizado.

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O que o voo do balão nos ensina sobre os investimentos?

O primeiro voo da humanidade sem dúvida foi num balão. Relativamente simples, poucos requerimentos de engenharia e construção, e bastando alguns dias de trabalho para arrumar, o balão de ar quente encantou cientistas e aventureiros igualmente, e levou a imaginação de escritores da época em vários livros de ficção científica. Alguns disputam a aplicabilidade da palavra “voo” para descrevê-lo, visto que não meios de controle num balão, e simplesmente torna-se o ar dentro dele menos denso que o de fora para subir, ou o contrário para descer.

Independente da definição formal sobre o que o voo significa no âmbito aviação, existem poucos mecanismos que são tão análogos ao processo de investir como o voo do balão. Num balão, o único controle que existe é o de ascenção e descenção, estando qualquer outro movimento à mercê da direção dos ventos da àrea de voo. O bom balonista precisa ser igualmente um bom geógrafo para saber da direção dos ventos locais para traçar uma rota de voo certeira, caso contrário arriscando perder-se ou ser levado para longe sem forma de retorno.

Igualmente, nos investimentos temos controles muito limitados e indiretos sobre o que podemos fazer quanto ao mercado e, ainda assim, grandes investidores experientes conseguem trazer retornos extraordinários. De quais outras formas o voo do balão explica os investimentos? Vejamos a seguir.

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