O princípio Charlie Chaplin na sua vida financeira

Por que você fala tanto só de dinheiro e não vai viver a vida ao invés disso?

Você está se privando em achar que deve apenas ganhar dinheiro, aportar e reinvestir os ganhos.

O fulaninho do Instagram está lá vivendo a vida e ostentando, como deve ser feito. E você?

Atire a primeira pedra quem vive a filosofia do FIRE e nunca ouviu alguma variante do conteúdo acima em algum comentário bem ou mal-intencionado. Tal como muitos grupos de minoria que pregam um conceito pouco popular, nós do FIRE frequentemente nos tornamos alvos de tal críticas por possivelmente representar uma ameaça ao “padrão” alheio.

Se nos deixarmos levar pela correnteza, e sermos empurrados por aquilo que é considerável aceitável, teremos apenas um destino em nossas vidas: mediocridade. Desviar desta corrente e pular as barreiras tem um custo de esforço e até talvez algum sacrifício, mas traz recompensas enormes para quem se manteve fiel. Assim, muito da jornada até a sonhada independência financeira acaba sendo um jogo mental de resistência, onde nosso objetivo é nos mantermos focados e motivados até que nossos objetivos financeiros sejam alcançados.

Para auxiliar nesta jornada, vários artefatos psicológicos podem ser utilizados, como o clássico Pacto de Ulysses que nos segura as tentações. Neste post, introduzo um outro artifício ainda mais simples, e que se estende além do âmbito financeiro para a sua vida pessoal em geral. Embora eu desconheça um nome formal para isto, tornei a chamá-lo de Princípio Charlie Chaplin graças à uma famosa anedota do ator,

Vejamos mais a respeito deste conceito a seguir.

Melhor que o próprio Charlie Chaplin?

Reza uma lenda que em determinado período na década de 1920, o ator Charlie Chaplin, então aproveitando o auge de sua carreira na comédia do cinema mudo, notou que um torneio procurando os melhores sósias e imitadores de Charlie Chaplin estava acontecendo próximo de sua residência. Chaplin apreciou a situação e decidiu de brincadeira participar também sob uma identidade falsa para ver no que daria.

Para a surpresa de todos, o ator não ganhou o torneio e nem tampouco chegou à final – Chaplin terminou em sétimo lugar.

Variações desta história existem ao longo da internet toda se você pesquisar, com algumas elevando seu ranking para terceiros, outros alegando posições bem piores como vigésimo ou até vigésimo-sétimo, colocando-o entre um dos piores entre os participantes.

https://i.stack.imgur.com/NRb9u.jpg
Um dos vários concursos de sósias e interpretação do Charlie Chaplin nos anos 20. Graças à crescente popularidade de Chaplin e seus filmes mudos na época, concursos como este começaram a aparecer. Imagem no Domínio Público.

Existem também dúvidas quanto à data ou local que tal evento possa ter ocorrido, e alguns questionam se ocorreu de verdade, visto que grande parte da evidência são de tablóides da época que em sua maioria não faziam muito além de simplesmente ecoar boatos alheios do dia.

Qualquer que seja a veracidade desta anedota, há uma mensagem mais importante por trás. Ela nos mostra que, não importa com quanto esforço tentemos, se escolhermos viver às custas das expectativas dos outros, nunca atingiremos nosso próprio sucesso.

Afinal, se acreditarmos nos “críticos” e “especialistas,” nem mesmo o próprio Charlie Chaplin é bom o suficiente para ser Charlie Chaplin.

A frase acima é bonita, talvez digna de colocar numa imagem quadrada com um plano de fundo legal e postar no Instagram, mas o seu real significado e pragmatismo está ainda mais fundo. Além do benefício das “palavras sábias,” podemos ver como esta aplicação pode nos beneficiar áreas de nossa vida pessoal, e até mesmo em âmbitos financeiros. Vejamos algumas razões para isso.

Vivendo a vida em primeira pessoa

Ao refletir sobre esta anedota, vemos a diferença que existe entre viver em primeira ou terceira pessoa.

Uma coisa é buscar inspiração ou objetivos com base nos acontecimentos e experiências de outras pessoas e perseguir objetivos pessoais similares por elas possuírem valores que se alinham com os nossos. Não há nada de errado em se inspirar ou, melhor ainda, tentar adaptar uma história de sucesso (ou fracasso!) com cujos valores você se identifica para traçar seus objetivos e planos de vida.

É completamente diferente, porém, quando vivemos uma vida predicada no julgamento e comentário alheio, utilizando nada exceto a crítica não-filtrada como “termômetro” para determinar o que é o certo e o errado. Críticas construtivas são, de fato, necessárias para o desenvolvimento pessoal saudável, mas quando as tomamos pelo valor literal, estas tornam-se uma porta de entrada para qualquer comentário de “autodefesa” (vide Efeito Vegano) ou até de caráter puramente destrutivo.

Considero, portanto, o conceito da vida em primeira pessoa versus a terceira pessoa, que pode ser identificado ou medido com perguntas como:

  • Quem é o protagonista da minha própria vida, eu ou alguém mais?
  • Quem decidiu que eu fizesse esta escolha, eu ou outra pessoa?
  • Quem é o cliente que se beneficiará da minha escolha, eu ou outra pessoa?
  • Para quem eu decidi realizar esta escolha, tarefa ou projeto, eu ou um outro alguém?

Aplicando as perguntas acima aos seus hábitos e rotinas, se as respostas são você mesmo, parabéns: você vive a maior parte da sua vida verdadeiramente em primeira pessoa. Você possui a maior parte do seu controle financeiro dominado, e não será facilmente levado pelo comentário alheio não solicitado.

O maior desafio é que geralmente comentários e outras críticas não são explícitos o suficiente para que possamos filtrá-los. Pelo contrário: a sutileza com as quais são feitos muitas vezes nos confundem e enganam, podendo nos levar a até mudar nossa opinião formada dependendo da persuasão que é utilizada. Para isso, há um simples teste, que pode ser aplicado rapidamente antes de qualquer decisão financeira, bastando que você esteja consciente.

Teste Chaplin para decisões financeiras

O Teste Chaplin funciona da seguinte maneira; para cada decisão financeira (i.e. que envolva a aplicação de dinheiro, tanto em ativo ou passivo) que estiver a realizar, aplique as seguintes questões sobre ela:

  • O racional por trás da decisão me faz sentido completo, ao invés de precisar da explicação de uma “autoridade” terceira?
  • Quem se beneficiará das consequências (positivas ou negativas) desta decisão será eu ou alguém que pretendo beneficiar de completa consciência?
  • Estou tomando esta decisão para benefício próprio consciente ao invés de querer satisfazer um terceiro?

Se alguma das respostas para as perguntas acimas for não, a decisão financeira falhou o Teste Chaplin, e não está sendo feita do ponto de vista da primeira pessoa. Ela está sendo feita como o resultado do julgamento de algum “jurado” indesejado da sua vida. Vejamos como o Teste Chaplin performa quando aplicado por mim à algumas decisões comuns da vida adulta:

Juntar dinheiro para comprar carro próprio.

  • Este racional me faz sentido total sem a necessidade da “explicação” de um terceiro? Nãocarro próprio é um dos piores investimentos que posso fazer com o meu dinheiro, há diversos outros ativos que posso comprar pela mesma quantia que me trarão melhor retorno.
  • Quem se beneficiará sou eu ou alguém de minha completa consciência? Talvez sim (se eu precisar do carro mais do que outras alternativas me cubram) ou não (beneficiará o dono da concessionária). Ainda há formas mais eficientes de utilizar o meu dinheiro.
  • Tomarei esta decisão de 100% minha própria consciência? Não, se tomasse seria por conta de outra pessoa.

Ou até mesmo com a história da casa própria:

  • Este racional me faz sentido total sem a necessidade da “explicação” de um terceiro? Não – meu estilo de vida até agora não justifica a compra de uma moradia permanente..
  • Quem se beneficiará sou eu ou alguém de minha completa consciência? Não, pois não teria nenhum benefício em realizar esta compra.
  • Tomarei esta decisão de 100% minha própria consciência? Não, pois vai de contra completamente com a minha filosofia neste momento.

E assim por diante. Consciência, benefício e motivação.

Uma outra vantagem do Teste Chaplin é que ele nos incentiva a pausar e colocar o pensamento racional para trabalhar por cima do emocional, podendo assim circunver barreiras como pressão psicológica alheia e outras “armadilhas” que são costumariamente erguidas ao redor das nossas decisões. Ao racionalizar e analisar de maneira crua e fria a sua decisão em primeira pessoa, você poderá se conscientizar sobre quais são as sugestões sutis e talvez não-tão-sutis que estão sendo feita sobre a sua vida.

Viva como o protagonista da sua vida

Seja no âmbito financeiro ou pessoal, colocar as suas decisões numa perspectiva entre primeira vs terceira pessoa é um artifício poderoso, que poderá desmascarar aqueles que podem ter uma influência negativa nas suas decisões pessoasis.

Assim, da próxima vez que ouvir alguma sugestão não-convidada ou conselho duvidoso sobre algum aspecto da sua vida, repense sobre esta anedota do Charlie Chaplin. Será que você não está se sucumbindo desnecessariamente a algum “jurado” ou “crítico” que está tentando te julgar sobre como viver a sua própria vida? Será que você não está sendo o seu próprio Charlie Chaplin num concurso de sósias? A reflexão valerá mais do que o breve momento.


Você conhecia esta história sobre o Charlie Chaplin? Acredita que é verdade ou foi simplesmente uma lenda urbana da época? Já foi vítima de algum “princípio Charlie Chaplin” na sua vida? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

(P.S.: É bom estar de volta e escrever novamente!)

Um comentário sobre “O princípio Charlie Chaplin na sua vida financeira

  1. Olá Pinguim Investidor,

    Gostei desse principio e confesso que não o conhecia. No entanto achei poderoso essa métrica: Consciência; Benefício;& Motivação.

    Também estou na jornada FIRE e sou bombardeado com solicitações nada-republicanas, algumas são descaradas e consigo repelir, mas tem outras que são sutis. E com essa nova ferramenta poderei ter um novo filtro.

    Abraços,

    Curtir

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