Até quando você será útil para os outros? O que acontece depois?

No fim dos anos 90, a trilogia Matrix revolucionou tudo que o conceito de cinema apresentava para nós. A partir de 1997 quase todos os filmes de ação começaram a colocar câmera lenta em suas cenas de armas de fogo, Kung-Fu virou o modo de combate principal dos protagonistas, e roupas escuras se tornaram a vestimenta de escolha para o protagonista cool.

E em paralelo ao enredo poderoso de efeitos especiais e estilização, a filosofia e a história dos filmes também foram responsáveis por cativar milhões de fãs pela série, incluindo várias referências de trabalhos históricos, como a Alegoria da Caverna descrita por Platão na antiguidade e provavelmente apenas conhecida em massa hoje por conta deste filme.

Em meio a tantos temas interessantes e outros highlights de uma série literalmente revolucionária, há uma cena em particular que me chama atenção do ponto de vista FIRE e da minha filosofia de vida pessoal que desenvolvi ao longo da minha jornada pela educação financeira. Nela, debate-se um dos pontos cruciais sobre o sentido da vida: até que ponto você é útil para a sociedade? Talvez mais importante é a pergunta que segue: o que acontece quando você passa a não ser mais útil?

A verdade é que, quanto mais cedo você obter uma resposta para estas duas perguntas, mais preparado estará para enfrentar uma situação adversa que venha a envolver o seu salário, e mais apto estará a levar a vida nos seus próprios termos. Vejamos porque interpretar estas perguntas é tão crucial ao nosso planejamento pessoal, e o que pode acontecer com quem ignora ou posterga esta decisão.

Qual é a sua vida útil?

Na cena que abre o terceiro filme da série, The Matrix Revolutions, o protagonista Neo se encontra preso numa estação de metrô virtual sem saída aparente, tendo inexplicavelmente entrado para sempre na Matrix.

Uma família de programas aguarda o trem ao seu lado, e explica a ele que na verdade estão aguardando a sua própria destruição: programas velhos, eles explicam, devem ser destruídos assim que perdem sua utilidade no sistema. A “filha” dos programas, porém, está sendo poupada por sua capacidade de ainda conseguir aprender e se adaptar a novos casos de uso, atrelando a ela ainda alguma utilidade. O sistema, portanto, continuará a utilizando.

A famosa cena do filme onde a família de programas conversa brevemente com Neo antes de embarcarem para sua própria destruição. Seria estereotípico que eles são todos indianos? Crédito: Warner Bros Pictures

Esta é uma cena puramente metafórica, designada para fazer a audiência a enxergar o mundo das máquinas como algo frio e maligno, completamente oposto ao mundo humano, com emoções, afeto e consideração. Na vida real, porém, programas são raramente descartados da maneira retratada no filme. Embora programas individuais possam parar de serem desenvolvidos, na maior parte das vezes seu código-fonte é reaproveitado em outros programas novos (um processo conhecido como merge), ou são tomam nova vida sendo reescritos e readaptados por novos programadores (processo de fork) – principalmente se forem Software Livre.

Ainda assim, a questão da utilidade permanece: será que uma sociedade humana poderia chegar a ser tão fria a descartar seres humanos como meros recursos numa máquina? A resposta infelizmente é cada vez mais sim.

O ciclo de “entre numa boa empresa, trabalhe até chegar numa alta promoção e aposente-se com segurança” hoje cada vez mais pertence ao passado, com empresas buscando formas de cortar custos mantendo produtividade, terceirização serial e uma previdência social que a cada vez mais mostra sintomas de um futuro insustentável.

Quer uma prova melhor que o “sistema” hoje não está nem aí para você do que a proliferação em massa da chamada Gig Economy? Uber e iFood já pertencem ao passado: assistentes e trabalhadores virtuais já são contratados via Fiverr, e a própria infraestrutura de “nuvem” como a Amazon Web Services, Microsoft Azure e serviços como Zoom pressionam o suporte local de TI a ser reduzido ou eliminado.

Num mundo onde crescentemente se buscam as utilidades sem a responsabilidade envolvida, é alguma surpresa que você é visto como um mero ativo no meio do portfólio da sociedade?

Este conceito se repete em meio a vários outros contextos também, não sendo endêmico ao capitalismo. Talvez o melhor exemplo desta condição de “pragmatismo desenfreado” seja o livro Animal Farm do autor britânico George Orwell, escrito antes mesmo da sua famosa obra 1984. Originalmente uma crítica ao comunismo pós-revolução Russa, Orwell descreve uma fazenda onde os animais equalizaram e coletivizaram sua própria produção, mas gradativamente se torna claro que as diferenças de classes permaneceu, e eventualmente só mudou quem ficou no topo.

O personagem “Boxer,” um cavalo trabalhador da fazenda que representa a classe trabalhadora, possui o lema “eu trabalharei mais que os outros!” e leva a grande parte das tarefas da fazenda em suas costas – literalmente. Eventualmente, o inevitável acontece, quando Boxer é machucado por tanto esforço em suas tarefas e se torna incapaz de continuar a produzir. A “gestão” da fazenda invariavelmente decide sacrificá-lo a partir deste ponto, aproveitando-se da sua carne que restara.

Carta dos personagens de Animal Farm; o cavalo Boxer serve indiscriminadamente aos seus superiores somente para ser sacrificado quando deixa de ser útil
Carta dos personagens de Animal Farm; o cavalo Boxer (topo esquerdo) serve indiscriminadamente aos seus superiores somente para ser sacrificado quando deixa de ser útil

Sob esta ótica, é impossível não se perguntar: o que resta depois que você não é mais considerado útil pela sociedade ao seu redor?

Embora esta pergunta soe assustadora, a melhor forma de tratá-la é olhá-la de frente e se preparar contra ela o mais cedo possível.

Definir os seus próprios termos é a melhor condição de vitória

A melhor forma de “escapar” do jogo perdedor do “trabalhe-promova-aposente-morra” é simplesmente não participar dele em primeiro lugar, ou pelo menos participar apenas durante o tempo necessário.

Existem várias formas de definir uma vitória pessoal, com algumas nem considerando o dinheiro primariamente, mas é importante compreender que atingir uma condição de independência é garantir a sua própria liberdade no futuro. Esta é uma liberdade que não será instituída através do seu empregador ou governo, e em alguns casos nem mesmo pela sua família.

Por exemplo, por que não definir as suas próprias regras sobre quando você estará elegível a receber sua aposentadoria? Ao invés de esperar os mais de 60 anos chegarem, por que não escolher receber a sua aposentadoria aos 40? Ou até mais cedo? Claro que não seria uma aposentadoria no sentido tradicional via INSS, mas sim através da criação de uma ou mais fontes de renda independentes, é possível declarar sua própria independência da necessidade de trabalhar – para sempre.

E central a este conceito é a necessidade de se acumular dinheiro de forma produtiva – isto é, investindo.

Todos nós começamos em lugares diferentes na corrida para nossos objetivos financeiros, mas é importante saber que não é tarde demais para mudar e começar a trabalhar para garantir sua prosperidade futura – o seu futuro depende daquilo que você escolhe fazer hoje.

Não terceirize o seu futuro: tome controle das suas finanças

Tal como as lições do coach de desenvolvimento pessoal Mark Manson ensinam, apenas você tem o poder de mudar o seu futuro. Você não precisa se predicar somente no valor do consegue prover para os outros durante a sua vida, nem precisa seguir um caminho parecido aos personagens descritos no post. Basta tomar controle de volta sobre o que acontecerá no seu futuro financeiro começando hoje.

Invariavelmente, é necessário trabalhar de forma inteligente para garantir que isso aconteça, e para isso, não há substituto para uma boa base de educação financeira. Novamente, se você não trouxer a gestão do seu dinheiro para as suas próprias mãos, acabará dependendo do conselho ou gestão de outras pessoas em cima do seu próprio futuro, e estas pessoas quase nunca mantêm os seus interesses em cima dos seus próprios.

A boa notícia é que a educação financeira necessária para esta garantia não precisa ser complicada. De fato, há uma boa notícia para nós: o bom e velho Princípio de Paretto é aplicável da maneira benéfica às nossas finanças. Você pode aprender 80% de tudo necessário investindo apenas 20% do esforço.

Por esta e outras razões, escrevi o meu livro RICAmente: Virando o Jogo Financeiro da sua vida em 40 dias. Ele é um guia prático e de leitura rápida sumarizando as lições mais importantes que você precisa saber para orientar e levar a sua vida financeira para a direção correta da independência financeira, independente de onde você começar. Ele está disponível para o Amazon Kindle e em formatos EPUB e PDF.

Independente do seu objetivo final – seja acumular milhões ou simplesmente seguir com um FIRE na medida ou parcial – faça um favor para você mesmo no futuro e tome controle das suas finanças hoje mesmo. Hoje você pode amar o seu trabalho, não ter nenhum problema com “dar o sangue” ou acreditar que nunca precisará de uma fonte alternativa de renda, mas é preciso entender que o trabalho é um relacionamento bidirecional – e um dia seu trabalho pode parar de amá-lo de volta.


O que você acha do conceito da empregabilidade como uma medida de quão útil você é para a sua empresa – justiça imparcial ou prática predatória? Acredita que a história dos programas ou do cavalo Boxer poderia acontecer com você um dia? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Um comentário sobre “Até quando você será útil para os outros? O que acontece depois?

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