O Robin Hood da vida real não se deu bem no final

No começo deste mês, um engenheiro de testes ex-contratado Ucraniano da Microsoft fez a capa de vários jornais e veículos de notícias online com uma manchete que parecia ser tanto assunto de filme policial quanto um conto do Robin Hood na vida real: Volodymyr Kvashuk roubara do seu empregador mais de 10 milhões de dólares durante o curso de dois anos lá trabalhando.

Várias perguntas vêm à mente ao ler uma manchete como estas: como uma empresa de tal porte não detectou um desvio tão grande de dinheiro? Como uma pessoa conseguiu desviar tanto dinheiro por tanto tempo sem ser detectada? Como conseguiu declarar licitamente tanto dinheiro, ou explicar as compras luxuosas que resultaram deste dinheiro?

Uma coisa é certa: não há como simpatizar com o lado do contratado neste caso, nem quando se gosta tanto do Software Livre. A atitude dele foi desonesta e completamente egoísta, buscando nada além do seu ganho próprio e um dinheiro rápido e fácil. Felizmente, a justiça foi feita, mesmo se tardia, e ao fim das contas Kvashuk servirá nove anos de prisão pelos seus atos, seguindo de uma provável deportação dos Estados Unidos.

Ainda assim, o caso traz algumas considerações sobre todo o acontecido e a quantia monstruosa de dinheiro envolvida, que para muitos de nós será mais do que poderíamos pensar em ganhar durante nossas vidas. O que seria possível realizar caso este dinheiro fosse lícito? Qual o padrão de vida que poderia ser comprado? Seria possível se aposentar em qualquer lugar do mundo com esta quantia no bolso?

Vejamos mais sobre este curioso caso neste post.

Como o esquema funcionava

Kvashuk fazia parte de uma esquecida, porém importante divisão de qualquer organização que desenvolve software: o setor de qualidade e testes.

Embora pouco conhecida – e talvez até vilificada em meio ao variado enredo de software que envolvem programadores, administradores de sistemas, designers, artistas e até marketeiros – a equipe de qualidade é ultimamente responsável por garantir que o software publicado pela organização não terá bugs e performará com máxima fidelidade aos requerimentos do cliente.

Esta nobre responsabilidade, porém, muitas vezes é esquecida em meio aos demais objetivos da organização, que na maior parte das vezes está mais concentrada em produzir versões novas e mais software do que garantir que estes funcionem bem. O lema atual, adaptado de grandes empreendedores de tecnologia, parece ser: “vai fazendo; se quebrar, nós fazemos um novo.”

Move Fast and Break Things
Crédito: XKCD

Aproveitando-se da relativa obscuridade do departamento, Kvashuk descobriu que parte de sua rotina de testes do processamento de pagamentos digitais (que envolviam créditos reais da loja virtual da Microsoft) podia concluir com a quantia paga sendo direcionada à sua própria conta pessoal.

Até este momento, o desvio não possuía poder muito grande, pois era o equivalente a roubar vale-compras do iTunes ou da Amazon nas Lojas Americanas. Estava longe de alcançar qualquer dimensão milionária, e nem de tornar-se útil por conta de não envolver nenhum dinheiro “real.” O pulo do gato foi o momento em que Kvashuk descobriu uma forma de converter estes créditos da Loja Microsoft em ativos tangíveis através de uma operação similar à lavagem de dinheiro.

Embora os créditos da Microsoft apenas o permitiam comprar software e hardware disponíveis na loja, era possível também vendê-los diretamente a outros compradores na plataforma trocando-os pela criptomoeda Bitcoin. Uma vez realizada a “venda,” a última parte consistia em converter o dinheiro digital em moeda espécie, a qual era realizada através de serviços como o CoinBase.

Através deste processo de conversão, Kvashuk mudou de mero ladrão de galinhas para um fraudador profissional de grande porte, desviando 10 milhões de dólares no processo. Sua atitude também mudou, com ele passando a se esbanjar no dinheiro “fácil.” Durante a sua fraude, Kvashuk mergulhou no estilo de vida milionário, completo com um Tesla novo no valor de $160 mil e uma mansão à beira do lago Washington no valor de $1.6 milhões.

É meio inacreditável como tanto dinheiro conseguira ser desviado imperceptivelmente em tão pouco tempo (se os valores estiverem corretos, Kvashuk desviara uma média de $416,000 ao mês da Microsoft), mas eventualmente a justiça foi feita mesmo que tardia. Suspeitando do dinheiro desviado, especialistas foram atrás de rastros de metadados e análise de tráfego dos locais de trabalho de Kvashuk, o que concluiu em sua apreensão em Novembro de 2020.

Porém, como quase sempre, a magnitude do dinheiro envolvido é impressionante para a nossa realidade, e temos dificuldade para compreender quanto de dinheiro realmente se trata. Imaginemos por um tempo que fosse lícito: o que Kvashuk poderia ter comprado com esta quantia?

O que este dinheiro poderia ter comprado?

Com dez milhões de dólares no bolso, Kvashuk poderia seguramente retirar uma renda mensal passiva de US$33,000 – facilmente suficiente para cobrir o custo de vida médio de uma família de 4 pessoas em Nova Iorque de $4800 ao mês – pelo resto de sua vida.

De fato, este dinheiro poderia cobrir facilmente o aluguel em qualquer uma das cidades mais caras de se morar no mundo, incluindo as estrelinhas de Dubai, Hong Kong e San Francisco.

Aplicando esta mesma quantia no Index Fund VTI da Vanguard, com seu DY médio de 1.83%, teria um “salário” passivo de US$183000 ao ano, aproximadamente quinze vezes maior que um salário mínimo Americano, sendo possível reinvestir a parte não utilizada destes $15250 mensais para obter uma renda passiva crescente a cada mês.

Não só ter um montante destes é mais do que suficiente para tornar qualquer um financeiramente independente em qualquer parte do mundo, seria possível inclusive comprar uma “segunda aposentadora” utilizando a renda passiva como salário.

Baseando-se no custo de vida de NYC de $4800 mensais, teríamos um aporte mensal de 69%, ou um fator pinguim de cerca de 2.21 : 1 – 2.2 meses de liberdade comprados para cada mês “trabalhado.” Começando do zero, seria possível cobrir uma segunda reserva de emergência de 6 meses de vida em menos de três meses, mesmo com um extravagante estilo de vida.

Isso sim é planejamento com segurança!

Algumas lições deste caso

Primeiramente, como sempre, vemos como o crime não compensa, e eventualmente a justiça acaba alcançando quem abusou das falhas do sistema. Não há como se simpatizar com o caso de Kvashuk, especialmente quanto ele conscientemente levantou o nível de sua fraude a níveis astronômicos.

Novamente, vemos que “viver a vida de milionário” sem ser um milionário é um ato perigoso para o nosso patrimônio e segurança financeira. Kvashuk contou com a premissa que sua fraude poderia caminhar indefinitivamente, de forma similar à qual muitas pessoas acreditam que seu salário sempre chegará no fim do mês, gastando o que possuía nos seus sonhos de consumo. E como nós sabemos, não é acumulando estes passivos que alguém enriquece.

Embora há um fator enorme na intenção maldosa desta história, podemos ver também como confiar na expectativa de um salário alto perene se torna a razão da sua própria desgraça. De maneira parecida com a história de Carlos e sua carreira internacional, Kvashuk não utilizou o dinheiro que recebera para montar uma fonte alternativa de renda, uma verdadeira segurança contra algum impecílio no futuro que o impedisse de continuar dinheiro. Tal como Carlos (este com dinheiro lícito), sua mangueira de dinheiro secou, e a ele só restaram as boas memórias e uma história para contar.

Interessantemente, não tenho nenhuma crítica quanto ao seu uso de Bitcoin pois, ao contrário de alguns especuladores que podem chegar a considerar a criptomoeda como uma forma de investimento, Kvashuk simplesmente a utilizou como um proxy para conversão entre uma unidade de valor por outra. Utilizada desta forma como um hedging temporário, é parecido como utilizar ouro ou alguma moeda estrangeira mais estável.

E finalmente, antes que você possa dispensar esta história como conto da carochinha ou coisa que nunca aconteceria na sua vida, é possível que algo similar (porém lícito) possa vir a acontecer na sua vida na forma de um windfall – uma chuva de dinheiro imediata e imprevista. Herança de algum parente, matrimônio, ganhos em algum processo e – porque não? – na loteria são alguns exemplos de probabilidade variável.

Embora não possamos “contar” com estes casos como nosso sucesso financeiro, é preciso estar preparado para caso algum deles aconteça para saber usar o dinheiro da melhor forma. Novamente, aqui o melhor preparo não poderia ser outro – educação financeira.


O que você achou da fraude praticada por Volodymyr Kvashuk: audácia e egoismo individual ou falta extrema de governança e auditoria corporativa? O que teria feito no lugar dele caso a quantia fosse lícita e declarável? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

2 comentários sobre “O Robin Hood da vida real não se deu bem no final

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