Será que finalmente a poupança passou a valer mais a pena que o Tesouro Selic?

A morte da taxa Selic para os míseros patamares dos 2% ao ano de atualmente (leitor do futuro: vide data de publicação!) não é nenhuma surpresa para o investidor de longo prazo: ela vem sido lentamente anunciada desde o começo de 2019. Muitos pularam o barco desde a primeira vez que ela baixou para os 6% ou até mesmo antes, alegando que a renda fixa já era a “perda fixa” desde sempre.

Cada vez que a Selic caía, era interessante ver como as opiniões reagindo às notícias se dividiam em alguns grandes grupos: de um lado, os pró-renda variável que comemorávam que seus ativos iriam subir com a nova facilidade das empresas realizarem empréstimos e financiamentos. Do outro, rentistas se desesperando ao ver sua grande promessa de retornos seguros e garantidos se esfarelando meio porcento de cada vez. E o mais curioso sem dúvida é um excêntrico terceiro grupo.

Estes são os não-investidores que nunca saíram da poupança, e que zombam de quem esteve investindo em renda fixa por esta estar igualada – senão pior! – à tradicional poupança bancária atualmente. Finalmente eles venceram! – ou pelo menos é o que acham.

Artigos comparando a poupança, tanto antiga quanto nova, com o Tesouro Selic pipocaram com as mais recentes quedas da taxa Selic, mas como o rendimento da poupança desde 2012 está atrelado e menor que a própria Selic, é um pouco estranho afirmar que a partir de um certo ponto um investimento como o Tesouro Selic “perderá” para a poupança. Ainda assim, existem taxas extras (administração, imposto de renda) que não são aplicáveis à poupança – será que com tudo considerado a poupança pode chegar a ganhar?

Neste post compartilho meus cálculos e minha conclusão para esta pergunta que não quer calar em nesta fase de 2020.

Resultados: os números, nus e crus

A grande vantagem das provas matemáticas é que, quando as premissas estão corretas, o resultado é incontestável. Ironicamente, esta se torna também sua grande desvantagem: é preciso estar certo que as premissas realmente estão corretas.

É por esta razão que minha conclusão pode não ser completamente correta no fim das contas, e se você encontrou algum erro nestes cálculos, por favor me informe nos comentários. É através deste processo de melhoria contínua, por exemplo, que o software livre se aperfeiçoa a cada dia. Segue a lógica:

A taxa Selic atualmente está em 2% ao ano, com a poupança rendendo 1.4% ao ano (70% da taxa Selic). Para render menos que a poupança, uma aplicação teria que render menos que 70% da taxa selic depois de todas as suas taxas serem consideradas.

O Tesouro Selic está rendendo a Selic + 0.03% (basicamente a mesma coisa que a Selic, mas vamos considerá-lo), mas possui a incidência de duas taxas ao longo de sua “vida útil”:

  • A taxa de administração anual (0.25% ao ano) cobrada semestralmente.
  • O imposto de renda na hora da venda do título, cobrado regressivamente entre 22.5% a 15% (para mais de dois anos de aplicação).

Ainda há a incidência de IOF regressivo para aplicações que duram menos de um mês, mas como quando investimos este é um espaço de tempo curto demais, podemos ignorá-lo seguramente.

Vamos considerar para o teste uma aplicação com duração de um ano e que, para o teste, não houve variação na taxa Selic que é o que eu acredito que o governo deseja. Será que a poupança ganha do Tesouro Selic? O rendimento da poupança é intuitivo: 70% da Selic sem qualquer incidência de imposto de renda nem obrigação fiscal na hora de declarar. Já com o Tesouro Selic a conta é um pouco mais complexa: considerando os dois custos extras mencionados acima, temos:

Rendimento Líquido = ((Rendimento Bruto) * (1 - Taxa Adm)) * (1 - Imposto)

Rendimento Líquido = ((0.02) * (1 - 0.0025)) * (1 - 0.225)

Rendimento Líquido = 0.0154 = 1.54%

Ou seja, rendendo líquido 1.54% ao ano, o Tesouro Selic ainda ganha da poupança em 2020.

Observações: como o cenário consiste no período de apenas um ano de investimento, a alíquota utilizada foi a maior, de 22.5%. É claro que, como bons investidores, procuramos deixá-lo investido o mais longo possível, com a alíquota caindo até o mínimo dos 15%

Vitória para o Tesouro Direto!… ou seria?

O que isso significa para mim?

Se você estava esperando que seus investimentos no Tesouro Selic ainda não perdessem para a poupança, pode comemorar agora por alguns minutos. Porém, volte logo para a realidade porque independente da conclusão, a verdade é que ambos ainda possuem um rendimento irrisório, baixíssimo, praticamente iguais, e – mais importante – também perdem para a inflação.

Vale a pena mesmo no final das contas?

No seu estado atual de perder para a inflação, o status da renda fixa como forma de investimento realmente é de utilidade duvidosa. Afinal, nem o principal ou os rendimentos conseguem ganhar da inflação-base, o que dirá por exemplo de manter o seu poder de compra em meio à inflação “artificial” – e talvez arbitrária? – dos demais prestadores de bens e serviços da sociedade moderna que não seguem algum índice econômico?

Claramente o papel da renda fixa e do Tesouro Selic numa carteira de investimentos mudou drásticamente desde que os dias do 12% ao ano, 1% ao mês tornavam o Brasil o “paraíso do rentista.” Pode-se dizer que a renda fixa ainda não está completamente morta graças ao Tesouro IPCA (que mesmo assim teve seu rendimento bastante afetado), mas mesmo assim é importante notar que nem ele pode prometer pagar o ajuste da inflação ao fim do período investido.

Como uma forma de manter a reserva de emergência, ainda há uma utilidade no Tesouro Direto e demais renda fixa, especialmente se combinado com uma parte líquida na própria poupança. Ambos continuam sendo as aplicações mais estáveis e seguras atualmente, e não vale a pena correr um risco significantemente maior para conseguir uma rentabilidade extra irrisória numa modalidade onde a rentabilidade não é objetivo primário.

Ficar na briguinha do selic vs poupança causará você a perder as oportunidades bem maiores ao seu redor…

Num cenário como este para a renda fixa, a resposta para “onde investir” portanto se torna novamente a renda variável.

Abra seus horizontes

Investir na renda variável não é muito diferente para quem fez o dever de casa quanto ao preparo para começar a investir e entende bem os conceitos-base da estratégia sensata de investimentos: longo prazo, aportes dinâmicos, e com foco em proventos buscando a independência financeira.

Já possuindo esta base de conhecimento, podemos ver que investir na bolsa de valores é análoga à renda fixa, inclusive na hora de analisar os ativos onde investimos – afinal, a “segurança” da renda fixa também não é garantida dependendo dos ativos que escolhemos. Prestamos atenção nos sinais vitais das empresas e ativos que investimos para escolher aqueles que nos parecem que irão sobreviver um longo tempo com resultados consistentes no futuro.

Será que desta forma acertaremos as novas estrelas do mercado? Será que teremos analisado e corretamente investido na próxima MGLU3 ou outra ten-bagger da bolsa? A minha resposta para estas perguntas é: estando diversificado o suficiente e investindo regularmente, isso não importa. É mais importante que a nossa estratégia cubra nossos requerimentos defensivos consistentemente do que arriscar o patrimônio buscando respostas na bola de cristal.

E antes que o time do “a renda fixa morreu” comece a cantar a vitória, ainda temos mais um fator jogando para o favor dela além da reserva de emergência. Se a história nos ensina uma coisa, isso é que o sobe e desce dos juros também tende a ser um processo cíclico, especialmente numa economia volátil e menos amadurecida como a do Brasil (altos juros também marcaram os anos 80 nos Estados Unidos, por exemplo).

Com a volatilidade política sendo praticamente parte integral do cotidiano Brasileiro, quem garante que a Selic não poderia voltar aos patamares dois dígitos de 2016 no futuro? Não estou dizendo que é hora de vender nem comprar. Mas é hora de repensar o foco e os seus objetivos financeiros.


Você acha que ainda vale a pena comprar o Tesouro Direto ou a renda fixa atualmente? Em quais casos ainda valeria a pena? Acha que a poupança está igualada ao Tesouro Selic? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Zdeněk Macháček on Unsplash

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