Segurança demais pode ser um problema? Porque o risco também é importante

É impossível falar sobre investimentos sem mencionar a palavrinha mágica: risco. Já se fala da máxima “o retorno é proporcional ao risco” como uma medida dos investimentos, e esta é uma das maiores dificuldades para começarmos a ter o mindset correto do investidor.

Somos, por razão evolucionária, uma espécie com uma aversão ao conceito de perda, e a exposição ao risco nos apresenta um potencial para perda que normalmente preferimos evitar. Construímos toda a sociedade baseada na intenção de reduzir riscos de alguma forma de perda. De fato, estudos mostram que na média, para que alguma decisão que pode envolver alguma perda “valha a pena” psicologicamente, a recompensa a ser ganha deve ser o dobro do potencia da perda.

Com tanta orientação para evitar perdas e riscos, poderíamos pensar que evoluímos da maneira certa e que segurança nunca pode ser demais. Ou pode? Surpreendentemente, existem alguns casos onde correr risco de menos pode resultar numa perda maior do que correndo um nível de risco saudável. Embora um conceito contra-intuitivo a princípio, isto se torna compreensível quando entendemos a relação que um risco calculado possui com os retornos de alguma ventura.

Neste post iremos explorar alguns destes casos da vida real, até fora dos investimentos, através de exemplos.

Xadrez: quem não expande, perde.

O jogo do xadrez é praticamente sinônimo com estratégia e intelectualidade. Raciocínio rápido, visão espacial, previsão dos movimentos a 5 ou 10 jogadas de distância, todas estas habilidades são cruciais para se tornar um mestre neste jogo de tabuleiro secular.

Ao contrário do que muitos iniciantes pensam, o Xadrez bem jogado não é uma questão de proteger ao máximo as suas peças, mas sim de realizar sacrifícios bem-calculados para avançar e dominar as posições do tabuleiro. Iniciantes jogam sob a influência da aversão à perda e procuram proteger demais certas peças, especialmente as com maior poder de movimentação, às custas de uma estratégia vitoriosa.

Centenas de anos de estudo do Xadrez e seus jogos históricos, porém, levaram a uma conclusão comum da macroestratégia vitoriosa para vencer: é preciso se expor e arriscar algumas peças para garantir alguns pontos chaves da estratégia. Ela inclui:

  • Dominar o centro do tabuleiro.
  • Fazer o “roque” com o rei cedo.
  • Desenvolver (avançar) as peças o máximo possível
  • Avançar sempre em direção à condição de vitória (cheque-mate).

Todas estas guias envolvem correr algum tipo de risco e evitar a tradicional “defesa a qualquer custo” que a princípio parece ser melhor. Não é por pouco que uma grande parte da estratégia do Xadrez se refere especificamente às aberturas do jogo, que buscam realizar exatamente os passos acima.

Microsoft Windows: quanto mais segurança, menor performance.

Houve uma época em que o sistema operacional Windows costumava ser sinônimo de vírus e outros problemas de computadores, mas talvez por conta da minha preferência por Linux, eu acredito que esta época continua até hoje.

Seja com o Windows 95 que congelava na hora de desligar, o Windows ME marcou o fim da era do DOS como um grande caos de bugs e problemas, ou mais recentemente versões como o Windows Vista ou o 8 – cuja interface mesclada de tablet confundiu muito mais do que ajudou – o nome Windows ao longo do tempo esteve carregado de criticismo de utilização. E como a cereja deste bolo, o termo “segurança” era sempre um assunto quente.

Dentre uma das várias causas-raíz dos problemas com vírus, adware, worms e outros programas maliciosos que infestam o Windows, grande parte vinha de um princípio da arquitetura utilizada: até o Windows XP, as permissões do usuário primário por padrão eram de administrador, permitindo que ele fizesse – e quebrasse – qualquer coisa no sistema. E os vírus que entravam também compartilhavam este tamanho “poder,” aproveitando-se do livre acesso para conseguir infectar completamente a máquina.

Sistemas Unix como Linux e Mac, por outro lado, dificilmente sofriam de tais desastres de segurança por conta de um sistema de isolamento de acessos com décadas de maturidade.

A solução paliativa encontrada pelos usuários foi através de um programa extra que teoricamente complementaria a faltosa segurança do sistema: o antivírus. Alguns chegaram a especular que era uma parceria oculta entre a Microsoft e os desenvolvedores como Norton ou McAffee. Este era vendido como uma bala de prata às ameaças constantes do Windows – é só instalar que vai estar protegido.

O custo, porém, vinha em performance: tais programas faziam uma “blitz” nos dados do PC, monitorando e filtrando tudo o que acontecia na máquina procurando por programas maliciosos, tornando-a sobrecarregada e lenta. Um trade-off significante na época dos jogos de PC competitivos, e escritórios demandando produtividade.

Este exemplo mostra como o “custo da segurança” quando não se tem um design bem-realizado pode vir a custar a performance de um sistema. Com a chegada do Windows 7 e em diante, a situação de segurança começou a melhorar por via dos controles de acesso do usuário (UAC). Ainda assim, no começo era irritante lidar com um pop-up deste a cada quinze minutos:

UAC on windows vista by howtogeek.com
Isto é um computator ou uma babá?

Stocks e bonds: 100% de segurança precisa de renda variável

Voltando ao mundo dos investimentos, há quem diga que não existe investimento mais seguro que o Tesouro Direto – ainda mais o Tesouro Selic. Afinal, um investimento que é garantido pelo tesouro nacional não tem como errar, correto?

Se a definição de segurança for “não ter calote” ou “garantir que o dinheiro seja pago no fim,” realmente não há como argumentar. Porém, em 2020, existe outra certeza que invisivelmente afeta o seu patrimônio: a inflação. As taxas de juros pagas pelo tesouro nacional, e junto delas as taxas do CDI, estão marcadas hoje tão baixas que simplesmente não conseguem acompanhar o crescimento da inflação, causando uma deteriorização do poder de compra do dinheiro aplicado.

Ainda assim, há quem continue a confiar em tais produtos por conta da percebida “estabilidade” em relação ao sobe-e-desce imprevisível da renda variável. “Treasury bonds” (similares ao Tesouro IPCA do Brasil) emitidos pelo governo dos Estados Unidos são possivelmente o investimento mais garantidos do mundo, e alguns Americanos insistem em apenas investir neles por temer a variação do mercado. E aqui há uma grande surpresa: pesquisas indicam que quem adiciona um pouco de renda variável numa carteira de bonds possui uma performance mais estável do que puramente 100% bonds.

Esta pesquisa é referenciada no livro The Intelligent Asset Allocator de William J Bernstein, que analisou a performance de milhares de portfólios desde os anos 70 nos Estados Unidos. Sua conclusão é unânime: não só incluir stocks num portfólio dramaticamente aumenta sua performance financeira, mas também pode ser menos variante do que um portfólio puramente investido em bonds estatais.

Bernstein conclui a pesquisa afirmando que até mesmo o mais conservador dos investidores nos EUA precisa investir uma parte (15%) da sua carteira no mercado de ações através de Index Funds.

Mantenha seu cinto de segurança afivelado

Embora risco certamente possua seu lugar numa estratégia de investimentos, este post não é uma chamada para você começar a pular de bungee jump, voltar bêbado de madrugada sozinho para casa, ou parar de respeitar as leis de trânsito ou os limites de velocidade. Nem todo risco é criado igual, e é necessário filtrar para saber quais valem a pena serem arriscados.

Um clássico exemplo é o do cinto de segurança. Uma pequena amolação quando somos crianças e queremos brincar no banco de trás, inicialmente queremos nos livrar e nunca atá-lo nas viagens longas. Mas continuar com esta rebeldia no decorrer da vida é tolice: não utilizar o cinto de segurança não traz nenhuma vantagem para a pessoa, embora aumente dezenas de vezes o risco de dano corporal. Não tem desculpa aqui: coloque o cinto, e ponto final.

Da mesma forma, alguns outros riscos nos investimentos podem ser uma corrida sem cinto mascaradas de oportunidade. Um exemplo disso são as debêntures: um investimento que junta a falta de rentabilidade da renda fixa com a falta de garantias da renda variável: risco sem retorno. Por que alguém em sua sã consciência investiria nelas?

Portanto, é necessário averiguar o retorno esperado comparado ao risco corrido. Você pode descobrir, por exemplo, que ficar uma vida sedentário sem nunca se exercitar é mais perigoso do que fumar vários maços de cigarro por dia, e a solução não requer mudanças muito radicais. Em algumas formas de trading, o retorno pode ser alto, mas ao custo de muita experiência e um risco altíssimo.

Não existe uma forma correta de averiguar o nível correto de risco para uma pessoa – o seu apetite para risco deve ser medido individualmente. Pode ser que você não esteja preparado para uma exposição muito grande, mas lembre-se: existe, sim, algo como correr risco de menos.


Como você considera a exposição de risco ideal na sua vida? Conhece outras formas fora dos investimentos onde não correr risco suficiente causa malefícios a você? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

5 comentários sobre “Segurança demais pode ser um problema? Porque o risco também é importante

  1. Abel Ladrone

    Houve uma época em que o sistema operacional Windows costumava ser sinônimo de vírus e outros problemas de computadores, mas talvez por conta da minha preferência por Linux, eu acredito que esta época continua até hoje.

    TA POR FORA EM PINGUINZITO…MSFT CONTINUA RAINHA ABSOLUTA, WIN10 MELHOR QUE QQ LINUX OU MACKAKINHO

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    1. Interessante ver como gente que nunca experimentou *NADA* além do computador que papai deu quando tinha 6 aninhos pra jogar joguinho depois da escola se acha o super hacker entendido de de tecnologia – incluindo o fato que ambos Mac e Windows adotaram coisas do Linux para melhorarem e se tornarem o que são hoje (lê: um pouquinho menos merdas).

      Ainda assim, valeu pelo comentário, “Ladrone,” é bom se expor à uma diversidade de opiniões. Aliás, que belo sobrenome que você tem, não é mesmo? Deve condizer bem com o que você e a sua família são.

      Abraços e seguimos em frente!

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    1. Fala Aposente!

      Obrigado pelo comentário cara! É bem assim como você escreveu: quem não se arrisca perde para a certeza no fim das contas.

      É tomando riscos calculados – e aprendendo com os erros! – que crescemos e nos tornamos melhores.

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. Pingback: O conceito da segurança dos investimentos pode não ser o que aparenta… – Pinguim Investidor

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