Seria o Value Investing a bala de prata financeira?

Quando estamos aprendendo alguma coisa nova, é comum deixarmos que alguma forma de autoridade do conhecimento guie nossos estudos e decisões na fase inicial por conta de falta de conhecimento melhor. Afinal, estamos apenas aprendendo, precisamos de alguma entidade com conhecimento para nos guiar melhor, e quem melhor do que os mestres para nos auxiliar nestes casos?

No caso dos investimentos, não há dúvida que a melhor abordagem que podemos adotar é o clássico buy & hold a longo prazo. Há vários estudos publicados que documentam o espetacular retorno que esta estratégia possui ao longo prazo, mesmo com os altos e baixos que a bolsa experiencia. E, central ao conceito do buy & hold, há um outro pilar importantíssimo, necessário para um investimento sensato: o value investing.

Venerado como a escolha primária de investidores famosos e bem-sucedidos como o Warren Buffett e Charlie Munger, value investing com certeza possui um nome bem estabelecido entre os círculos de investimentos. Por outro lado, outros o consideram uma teoria ultrapassada, pois a eficiência do mercado eventualmente consegue nivelar diferenças na precificação ao curto prazo, e que um hábito de pequenos investimentos regulares é mais fácil e eficiente do que “acertar o fundo” do mercado.

Felizmente, não precisamos adotar monoliticamente o Value Investing para conseguir investir, mas adicionar partes dos seus conceitos pode melhorar incrivelmente a sua performance de investimentos. Neste post, explico como funciona o Value Investing, e como você pode começar a integrá-lo na sua própria estratégia.

As duas regras de ouro do Value Investing

Há apenas duas regras quando investimos. Regra #1 é: não perca dinheiro. Regra #2: nunca se esqueça da regra #1.

Warren Buffett

Quase todo investidor ou estudante de investimentos já leu esta frase em algum lugar na vida, e conseguem recitá-la de cor e salteado. Prints desta frase são jogados em diversos grupos sobre investimentos e conteúdo motivacional, Porém, o que realmente significa esssa frase num contexto de Value Investing é uma coisa que poucos entendem.

Ao contrário do que se imagina, as duas regras fundamentais do Value Investing não são estas que Buffett afirmou – elas na verdade formam apenas uma delas. O Value Investing em si é fundado no topo de dois conceitos:

  1. Valor intrínseco de um investimento, e
  2. Margem de segurança (da onde o ditado do “não perca dinheiro” vem).

Estes fundamentos também não foram autorados por Buffett embora sua grande popularidade, mas sim por seu mentor e influente Benjamin Graham, que os definiu no clássico dos investimentos Security Analysis nos anos 30.

Valor Intrínseco se refere ao “verdadeiro” preço pelo qual um ativo merece ser comprado ou vendido. Este seria o preço correto do ativo independente dos efeitos de pânico ou euforia causados pelas expectativas psicológicas da bolsa. A Margem de segurança se refere à quão abaixo deste valor intrínseco, imparcial e objetivo o preço de um ativo se encontra aceito pelo mercado – quanto mais abaixo, maior a oportunidade de retorno.

O Value Investing afirma que independente da irracionalidade do mercado em sobre- ou sub-precificar algum ativo ao curto prazo, ao longo do tempo ele irá “corrigí-lo” novamente para o valor intrínseco – seja subindo ou caindo. Combinando estas duas regras de ouro, teoreticamente é possível ter uma estratégia defensiva de investimentos onde os ativos não têm outra direção para ir senão para cima – um verdadeiro par de suspensórios para os seus investimentos.

Que gosto saber que as ações não têm como cair!

Olhando sob esta luz, a frase batida do “não perca dinheiro” toma um sentido completamente diferente. O que Buffett quer dizer é que não se deve comprar algum ativo que esteja precificado acima do seu valor intrínseco – segundo ele, é impossível perder dinheiro comprando um bom ativo que esteja subprecificado no momento.

Procurando barganhas, evitando armadilhas

Procurar tais empresas de alto valor, e preço baixo pode parecer com uma procura por promoções num período de altas vendas. Porém, pode ser também um convite para armadilhas na forma de empresas que podem estar baratas – mas não possuem valor em primeiro lugar.

Relembre que o Value Investing necessariamente conta com o conceito de Valor Intrínseco para justificar a margem de segurança por cima de alguma compra: ações e ativos ficam baratos sempre em relação a um determinado preço justo, calculado principalmente através de uma técnica chamada de valuation.

Este preço justo é derivado olhando o potencial e a situação financeira da empresa: ela precisa estar em boa forma financeira e ter potencial para crescimento para ter um bom valor de fato. Comprar uma empresa simplesmente porque ela está “barata” sem oferecer valor é equivalente a comprar frutas em promoção porque estão quase apodrecendo.

As verdadeiras barganhas são raras de aparecerem: consistem em empresas com histórico e situação financeiras excelentes (lucros consistentes, pouca dívida ou controlada, etc), mas que temporariamente se encontram subprecificadas por conta de algum fator temporário, como uma notícia ruim que abala a imagem da empresa, ou alguma expectativa do mercado que não fora alcançada em determinada demonstração. Nestes casos, o valor e a capacidade da empresa não são sériamente abaladas, mas o preço pode cair consideravelmente.

Algumas formas de se determinar se o preço está relativamente baixo incluem comparar o preço da ação pelo valor patrimonial, que em teoria é o valor que a empresa pode converter para dinheiro no caso de venda ou liquidação.

Igualmente, saber quanto em ativos a empresa possui versus quantidade de dívida (ativos vs passivos) também nos dá uma ótima visibilidade de quão alavancada a empresa está, e a quanto risco está exposta: algumas vezes podemos querer fazer uma escolha mais conservadora ao invés da popular alternativa do “crescimento, crescimento, crescimento” de muitas carteiras por aí.

Uma ótima introdução ao conceito de como o Value Investing analisa as empresas que irá investir é o livro The little book of Value Investing de Christopher Browne, onde ele informa quais valores e razões são cruciais para identificar tais barganhas do mercado e ao mesmo tempo evitar as “pegadinhas” das empresas que mascaram a falência como uma fase temporária.

Na prática: aplicabilidade e outras considerações.

Ao passo que a teoria do Value Investing é completamente à prova de balas, sempre resta o fator do pragmatismo: está tudo muito bom, mas será que funciona para mim?

E como quase tudo, é difícil conseguir seguir 100% o Value Investing na sua estratégia de investimentos, tal como fazem os grandes investidores. Isso porque na maioria das vezes o pequeno investidor não possui nem alavancagem financeira ou conhecimento suficiente para conseguir reproduzir tais resultados. Você não tem 120 bilhões de dólares guardados para investir no momento de uma queda brusca de um determinado ativo, certo?

Para um pequeno investidor iniciante, vale mais seguir uma estratégia onde a receita total do salário é maximizada e os gastos são minimizados, e investir a diferença com regularidade para construir um patrimônio defensivo que pode complementar a sua renda independente do seu trabalho. Isso não significa que você não deve nunca seguir o value investing: você pode traçar alguns objetivos com certas empresas e aumentar seus aportes quando uma queda no mercado acontecer – e conversamente reduzir os aportes enquanto a euforia subir.

Finalmente, em seu livro Browne faz uma recomendação comum de várias outros educadores financeiros dos Estados Unidos: utilize fundos de índice (Index Funds) para compor a maior parte da sua carteira, e aplique os conceitos de Value Investing neles. Um conselho sólido para os Estados Unidos, mas infelizmente difícil de se replicar no Brasil por conta do não-repasse dos dividendos dos ETFs aqui.

Por aqui, pequenos investidores querendo uma estratégia previdenciária de investimentos ainda estão melhores utilizando uma carteira montada via stock picking) – escolhendo ativos individualmente, e diversificando o risco. Ainda assim, aplicar conceitos e níveis do Value Investing aos poucos e amadurecendo a sua experiência no mercado, é possível fazer uma estratégia vencedora e não demasiadamente arriscada ao longo prazo.


Certamente é difícil engolir o “extremismo” que certos aspectos do Value Investing parecem pregar quando estamos estudando o buy & hold. Não comprar enquanto todos acreditam ser a melhor hora, esperar quedas enormes para finalmente comprar ao preço-alvo de um ativo, ter reserva de caixa enormes para sobreviver períodos de bull market… todos propõem um grande exercício de paciência e disciplina ao investidor. Mas felizmente podemos experimentá-lo sem “mergulhar de cabeça,” misturando conceitos.

O que você acha do Value Investing? É um conceito defasado que não ganha da eficiência do mercado? É a bala de prata que garante a riqueza ao longo prazo? Prefere trading? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Um comentário sobre “Seria o Value Investing a bala de prata financeira?

  1. Kuka habeludo

    Po pinguim não viaja. Value investment é um p neologismo. Growth ou value outra palhaçada de wall street que só serve pra vc perder tempo. Investe mercado total e esquece. Vá trabalhar

    Curtir

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