Convertibilidade ao dinheiro: a melhor medida do pragmatismo financeiro

Virou Outubro e com ele, talvez seja hora de largar os conceitos avançados de investimentos e voltar um pouco aos básicos da educação financeira e rever a filosofia de como o dinheiro possui valor.

Mesmo que nem sempre queremos nos tornar Platão ou Freud e fixar na metafísica sobre o dinheiro representa, é bom de vez em quando nos perguntarmos da onde vem o valor que tiramos de uma quantia de dinheiro para alinharmos nossos objetivos e termos certeza que estejamos caminhando na direção certa, qualquer que seja o âmbito. E quando se trata de dinheiro, é importante sabermos e revermos a importância que ele possui na nossa vida para não cometermos um grande erro com nossas economias e gastarmos ele da forma errada.

Ouvimos muitas coisas sobre o valor e a utilidade do dinheiro, mas no fim das contas, o pragmatismo dele nos aponta a apenas uma possível resposta: uma medida de valor e padronização de troca, que viabiliza o comércio além do tradicional “escambo.” Nesta definição, porém, revela-se uma grande fraqueza sobre o dinheiro: ele é, essencialmente, efêmero. Uma vez utilizado, ele se acaba, e não poderá lhe servir mais de qualquer outra forma.

Esta realização realmente nos força a pensar cuidadosamente sobre como utilizamos o nosso dinheiro: procuramos evitar a compra de passivos financeiros e acumular ativos que se valorizam conforme o tempo, procuramos gastar apenas com aquilo que nos traz valor e realização pessoal, e temos uma tendência natural a economizar. E ainda assim, um detalhe muito importante passa despercebido em meio a este fato, e nos cega novamente a outro detalhe importante para o planejamento financeiro tranquilo e o enriquecimento.

Vejamos a importância da convertibilidade ao dinheiro neste post.

O paradoxo da utilidade do dinheiro

A percepção do dinheiro como uma ferramenta habilitadora e medida de valor é conhecida desde que somos crianças: o dinheiro da mesada é esperado, antecipado e deve ser usado apenas para uma ocasião especial. Se instruídos da maneira certa, aprendemos a economizá-lo, juntando meses equivalentes de mesada para conseguir uma quantia suficiente para comprar aquele brinquedo dos sonhos, ou ir para o cinema ou uma festa com os amigos.

Ainda assim, quando se finalmente junta o suado dinheiro e alcançando o seu objetivo, algo interessante acontece: você perde todo o dinheiro e precisa novamente começar do zero.

Você leva o brinquedo até o balcão, entrega as cédulas e moedas da carteira e recebe o brinquedo… mas perdeu todo o dinheiro no processo. Você sai do cinema satisfeito, tendo assistido um ótimo filme… mas percebe que agora está sem aquele dinheiro que permitiu ter essa experiência em primeiro lugar.

Este é o paradoxo da utilidade do dinheiro: ele é o habilitador de bens e serviços numa sociedade moderna e medida de valor num livre mercado – mas se torna absolutamente inútil uma vez que utilizado.

Esta é a ironia quando você está poupando e procurando juntar dinheiro para alguma causa: imediatamente quando você alcançar seu objetivo e poder comprá-la, terá retornado à estaca zero, financeiramente falando. O dinheiro é efêmero, e estaticamente apenas representa a capacidade de realizar alguma coisa.

Este fato nem sempre é óbvio, e o grande comércio utiliza isto ao seu favor, capitalizando na volatilidade da mente de quem quer comprar alguma coisa: compre, consuma mais, realize os seus sonhos agora, quando você tem a oportunidade. Todos estes são truques mentais que separam o seu pensamento racional da efemeridade do dinheiro e aproximam o seu monkey brain do desejo do consumo.

Sabendo deste fato, pessoas com mais conhecimento financeiro se preparam mentalmente e buscam reduzir a compra de passivos financeiros. Estes não apenas deixam de trazer dinheiro, mas também possuem custos adicionais ao longo da possessão, e um acúmulo desenfreado destes pode quebrar qualquer rico, independente do salário. Menos carros, casas e roupas, mais ativos. Esta é a fórmula para sempre ter dinheiro, correto?

Ironicamente, esta afirmação pode não estar 100% correta também.

Passivos não trazem dinheiro, e alguns ativos… também não?

Autores como Robert Kiyosaki frisam o acúmulo de ativos, mais vulgarmente classificando-os como “aquilo que põe dinheiro no seu bolso”, como a panacéia contra a pobreza, o garantidor do dinheiro. E ao passo que estão corretos na maior parte da definição, existe um pequeno “porém,” que à primeira vista é um mero detalhe, mas pode fazer uma grande diferença no longo prazo.

Este “porém” é o fato que, tal como os passivos financeiros, certos ativos e investimentos não provém dinheiro, tornando-se essencialmente iguais ao dinheiro quando se trata de usabilidade.

Todos concordariam que cotas do Tesouro Direto ou propriedades de terra são, sem sobra de dúvida, ativos financeiros e uma forma de investir dinheiro. Afinal, historicamente tenderam a se valorizar conforme o tempo, e nada nos leva a duvidar desta tendência. Porém, considere esta situação: você não tem dinheiro líquido nenhum e a sua única propriedade de valor são cotas do Tesouro Direto ou terrenos baldios. Você conseguiria pagar o seu aluguel apenas com o que possui?

A resposta é não – exceto se optar por vender algumas cotas ou terrenos e se desfazer deles. Soa familiar ao dinheiro?

Há uma classe inteira de ativos financeiros que se encaixam nesta definição: ouro e metais preciosos, dólar e mais recentemente o bitcoin. Todos são ativos que, em termos de usabilidade, são indistinguíveis do próprio dinheiro: no momento que você precisa obter valor deles,, eles se perdem para sempre. Você não consegue utilizá-los enquanto acumula, e eles simplesmente representam o potencial de realizar alguma coisa.

Por isso, quando ouço frases como as seguintes, não posso deixar de expressar uma certa frustração:

  • “Vou comprar dólares em espécie a partir de agora. O real não pára de desvalorizar e essa é a tendência!”
  • “Quem guarda, tem. Um dia esta outra casa vai valer muito, mesmo que me custe tanto para mantê-la em meu nome agora”
  • “Os tempos estão incertos na bolsa – hora de comprar ouro e seguir na estabilidade.”

Cada um destes ativos é financeiramente inútil até serem vendidos, e no momento da venda desaparecem da carteira para sempre. Financeiramente indistinguíveis de uma reserva variável de dinheiro intocável até a venda.

Fluxo de caixa é garantia de sobrevivência financeira. Convertibilidade ao dinheiro é a aplicação prática

Por isso, comecei a adotar uma métrica prática para averiguar o valor de algum investimento: a convertibilidade ao dinheiro. Sumarizando a regra, um investimento traz valor de maneira proporcional ao quanto ele pode proporcionar ou converter-se a uma forma de dinheiro que eu posso utilizar.

Esta regra pode ser vista como uma extensão da definição crua do Kiyosaki de “colocar dinheiro no seu bolso,” mas leva um passo à frente, respondendo à seguinte pergunta: “como eu faço para o meu dinheiro continuar existindo comigo mesmo depois de tê-lo gastado?”

Embora a resposta ainda não seja perfeita, é possível emulá-la utilizando um conceito chamado fluxo de caixa, que é a garantia que aquele dinheiro que você precisa para sobreviver durante o mês voltará para você no próximo. Renda passiva, cash cow, fluxo de caixa, o que quer que você chame, esta segurança de saber que você vai conseguir ter dinheiro novamente para continuar com o seu patamar de vida é a verdadeira segurança financeira – independente do seu salário.

A convertibilidade ao dinheiro também me ajuda a ser pragmático e manter a racionalidade na hora de fazer algumas decisões financeiras, e explica em parte porque, por exemplo, meu patrimônio se encontra principalmente em Reais em meio ao grande medo atual que nossa moeda continue a se desvalorizar em relação ao Dólar.

Ainda são os reais que estou contando para sobreviver a maior parte da minha vida, e portanto ativos que criem fluxo de caixa mais diretamente em reais são mais valiosos para mim. Minha carteira ainda não está tão amadurecida quanto grandes investidores e o fluxo de caixa do exterior não é uma prioridade ainda tão grande quanto estabelecer a segurança e a previsibilidade da renda passiva no Brasil. Eventualmente, com uma camada de segurança já bem estabelecida, eu concordo: diversificar para fora é interessante.


Em suma, você precisa de dinheiro para viver, e dinheiro vivo. Carrões, casarões, roupas de marca e iPhones não irão pagar suas contas e botar comida na mesa, mas nem irão as cotas do tesouro direto que você tem ou dólares no fundo da gaveta. Você precisa de dinheiro vivo, mas também de uma forma de produzí-lo para sempre tê-lo quando precisar. A maneira mais sensata de realizar isto é via fluxo de caixa.

O que você acha do princípio da convertibilidade ao dinheiro? Acredita que há mais valor do que o “potencial” agregado em investimentos que não geram fluxo de caixa, tal como na renda fixa? Escreva nos comentários.

Parte do conteúdo deste post foi inspirado no livro Mind over money de Claudia Hammond. Este, por sinal, foi o único livro de finanças que li até agora que não lida primariamente com o mercado americano (Europa e Reino Unido são os temas). Finalmente!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Yaopey Yong on Unsplash

3 comentários sobre “Convertibilidade ao dinheiro: a melhor medida do pragmatismo financeiro

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