O que faz um investimento seguro?

Qual é o segundo investimento mais seguro que existe depois do Tesouro Direto?

Calma. Releia a frase antes de tentar começar a responder. Respire. Pense com cuidado a respeito da pergunta.

Respirou? Beleza, pode responder agora.

Se você começou a pensar sobre algum CDB, LCI ou LCA por causa da garantia do FGC… pode parar. Você acabou de cair na pegadinha do óbvio-mas-não-óbvio.

Mas e aquele papo de ser um investimento seguro, afinal é renda fixa e garantida pelo FGC até R$250,000…?

Se você pensa desta forma, as chances são que você não está exatamente entendendo o que significa segurança nos investimentos. Não só esta mesma “garantia” lhe limita o horizonte de pensamento (“enquanto eu ficar abaixo dos 250 mil beleza!”), ela também nos torna cego para os riscos inerentes de qualquer investimento – incluindo a renda fixa.

Porém, há um outro quesito pouco explorado quando se trata de segurança em meio aos investimentos que até há relativamente pouco tempo era pouco considerado. Este é a proteção do poder de compra do seu dinheiro. Isso mesmo – a velha inflação que sileciosamente mas certeiramente irá reduzir o valor do seu patrimônio ao longo do tempo.

Combinando o poder corrosivo da inflação com um pavor irracional que muitos possuem quanto a imprevisibilidade da bolsa de valores no curto prazo, vemos que não começar a investir se torna o real risco de segurança financeira. Vejamos mais sobre isto, e como podemos reverter esta aversão a riscos neste post.

O que realmente é segurança para você?

O escritor americano Robert Kiyosaki famosamente parafraseia a frase do Pai Rico no seu livro Rich Dad’s Guide to Investing que “os ricos preferem ser ricos antes de serem confortáveis ou seguros, enquanto a classe média prefere estar segura ou confortável antes de estar rica.” Esta afirmação reflete como a percepção negativa do conceito de risco limita as pessoas financeiramente.

E esta verdade se reflete em quase todos os outros âmbitos do cotidiano. Temos medo de aprender ou praticar uma habilidade nova, e assim nos isolamos no conforto das habilidades atuais, quão medíocres possam ser. Tememos nos aventurar num novo emprego melhor e mais gratificante com medo do desconhecido, e preferimos aturar a mediocridade do emprego atual. O mesmo se aplica também nas relações interpessoais e experiências pessoais. Mesmo que o incerto ofereça mais possibilidades, nosso instinto muitas vezes fala mais forte e nos convence a ficar estáticos.

Ao investir este processo ocorre naturalmente também. Ouvimos coisas como investir é arriscado, perde-se dinheiro na bolsa de valores, e que tudo é um esquema. É difícil não temer um processo tão mal-dizido em meio à opinião comum. Contudo, o conceito de segurança predicado no conhecimento comum ilude o propósito dos investimentos, e isto é porque primariamente confunde-se volatilidade com risco.

A prova disto é como certos produtos de investimentos são vendidos ao público leigo:

  • “Invista no Tesouro Direto – ele é o investimento mais seguro do Brasil, garantido pelo Tesouro Nacional!”
  • “Estes CDBs e LCIs são assegurados pela maior aliança bancária do país para aplicações até R$250 mil!”
  • “Quer os retornos do mercado de ações com a segurança da renda fixa? Invista em COE!”

Termos como “garantia” e “seguro” são repetidos com frequência para acalmar mentalmente um possível investidor. Infelizmente, estes também são os termos que ofuscam uma outra insegurança, muito mais perigosa ao investir: não saber o que você está fazendo. Claro, a volatilidade é virtualmente nula ao contrário da bolsa, mas ao investir somente predicando nisso oculta:

  • A falta de transparência sobre as operações realizadas sobre o seu dinheiro durante a custódia (COE)
  • Uma condição financeira ruim da instituição emissora dos títulos, e a burocracia necessária para a requisição ao FGC (CDBs)
  • Indisponibilidade sistêmica, demora no resgate, e perda para a inflação (Tesouro direto)

Sim, até o Tesouro IPCA – que deveria render a inflação mais um adicional – perde para a inflação por conta do Imposto de Renda regressivo no vencimento que incide em todo o rendimento, incluindo o adicional.

Paralelo a estes riscos, ainda existe um problema paralelo ainda maior: a ação invisível da inflação. Será que quem procura obsessivamente por segurança poderia acabar menos protegido do que alguém menos “assegurado” neste caso?

Surpreendentemente, a resposta é sim.

Risco demais é ruim, de menos também.

Já houve o tempo quando o Brasil era considerado o “paraíso da renda fixa” por conta da alta taxa Selic da época. E não era por conta do baixo desenvolvimento do país: situações parecidas aconteceram nos Estados Unidos e na Europa durante os anos 70.

Em 2020, porém, este não é mais o caso, e com a Selic rendendo menos que o FGTS, a segurança providenciada dos investimentos de bom crédito e lastreados na Selic passou a perder contra inflação – em outras palavras, dinheiro lá aplicado passa a valer menos conforme o tempo, parecido com dinheiro parado.

Se para você parece que de repente o impossível aconteceu, saiba que é simplesmente a manifestação prática da relação entre risco e retorno. Em tempos de inflação descontrolada, a Selic subiu em paralelo para conseguir pelo menos acompanhá-la, e em tempos de relativa estabilidade, faz sentido esta rentabilidade ser diminuída em meio ao risco reduzido da situação econômica.

Seguindo aqui a proporção do risco e o retorno, uma coisa interessante aparece: quem escolhe não se expor ao risco (ou não se expor completamente) acaba se arriscando mais do quem arrisca. Se você não quer se expor completamente, por exemplo, poderá deixar todo o seu dinheiro em conta corrente ou na poupança, ou seguindo numa vertente mais paranóica, deixá-lo guardado em espécie num cofre escondido, com medo de um possível confisco da poupança.

Protegido dos fatores externos? Com certeza. Mas ao mesmo tempo terá um problema ainda maior: seu dinheiro será deteriorado pela certeza da inflação. Ou até literalmente, já que as cédulas se decompõem naturalmente com o tempo.

Lição do Xadrez: quem não abre o suficiente, perde

Talvez nada exemplifique tão bem esta ocorrência como uma história relatada no livro The Little Book of Value Investing de Christopher Browne, gestor do fundo Browne & Tweedy. Nele, Browne conta sobre uma recém-viúva nos anos 70 nos Estados Unidos cujo marido havia deixado uma fortuna de pouco mais de 1 milhão de dólares para ela e os filhos.

A mulher sabia que não tinha o conhecimento para nem investir corretamente e nem continuar o negócio do marido, e assim pediu ao planejador financeiro da família para investir no produto mais seguro que existia. O planejador obedeceu, e prontamente investiu toda a fortuna herdada em US Treasury Bonds (equivalentes ao Tesouro Direto no Brasil). A partir deste dia, a mulher continuou a viver utilizando apenas os rendimentos gerados pelo principal aplicado, numa maneira similar à famosa regra dos 4%.

Browne explica que embora a viúva não perdeu dinheiro no decorrer da vida (o milhão continuou mais ou menos intacto até falecer), nos seus últimos anos ela já estava vivendo numa situação onde o dinheiro não era mais suficiente, e ela necessitava do suporte financeiro dos filhos para conseguir viver. Simplesmente falando, a inflação acabou com o poder de compra do seu velho dinheiro.

Browne aponta que se ela simplesmente tivesse investido uma parte significante deste patrimônio em ações, não só teria acompanhado a inflação com o poder de compra, mas também teria tido muito aumentado em muito o seu patrimônioi – mantendo-a verdadeiramente independente. E ainda por cima, seria fácil: ao contrário do Brasil, os Index Funds dos Estados Unidos acompanham um índice e também repassam seus dividendos aos cotistas, uma verdadeira forma passiva de investir.

Ter uma estratégia defensiva é importante, mas defender demais pode levar à derrota. Esta é uma lição não só financeira, mas aplicada ao peculiar esporte do Xadrez. Nele, o ataque e domínio de porções estratégicas do tabuleiro (especialmente o centro) são imprenscindíveis para a vitória. Jogadores iniciantes hesitam em começar a atacar por falta de experiência e querem se defender, e com isso são derrotados. Há uma razão que inúmeras aberturas de xadrez existem, todas montando um ataque diferente.

Portanto não se iluda: risco de menos ao investir é tão arriscado quanto risco demais!


Certamente a percepção de risco errada é um fator destrutivo nas finanças da maioria da população. Porém, se você fosse perguntado “qual é o segundo investimento mais seguro depois do tesouro direto,” como responderia? Em que se basearia? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Um comentário sobre “O que faz um investimento seguro?

  1. Pingback: Segurança demais pode ser um problema? Porque o risco também é importante – Pinguim Investidor

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