7 perguntas erradas a serem feitas sobre os investimentos

Um dos desafios no nosso caminho de aprendizado é que frequentemente nossas maiores e mais sedentas perguntas não são respondidas pelos nossos materiais, recursos, e aulas até bem mais tarde. Os professores e os livros ajudam, mas preferem se manter em curso com o plano da aula, evitando as nossas preciosas perguntas até mais tarde.

Na educação financeira muitas vezes não é diferente, e muitas vezes começamos com nossas perguntas e dúvidas pessoais sobre o dinheiro, que nos fazem querer pular os básicos sobre finanças pessoais para ir direto à conceitos relativamente mais avançados. Em fóruns, este tipo de pergunta constantemente leva bordoadas de investidores mais experientes, rendendo o carinhoso apelido de “sardinha” que leva muitos a se desencorajarem de continuar a aprender. A verdade, porém, é que perguntas como “qual é o melhor investimento que posso fazer” são evidência que quem pergunta não possui base de conhecimento geral suficiente para tratar de uma pergunta tão específica.

Neste post abordo esta questão do aprendizado financeiro de uma forma similar: aprenda educação financeira correta através das perguntas erradas que são frequentemente feitas sobre investimentos, finanças pessoais e da bolsa de valores. Não só você estará evitando os erros alheios de muitos ao seu redor, mas também aprenderá quais os fundamentos deve-se ter primeiro para posteriormente ir explorando com mais detalhes.

Este post mistura educação com humor, portanto deve transmitir a mensagem bem eficiente. Porém, como todo conteúdo disponível neste site, deve ser notado que ainda assim representa apenas a minha opinião e que não estou de forma alguma recomendando qualquer forma de investimento. Dito isto, vamos em frente.

Quanto posso ganhar por mês/ano investindo na bolsa?

Como não estou 100% certo desta resposta, terei que consultar com o meu melhor equipamento de previsão de acontecimentos futuros:

quem tem bola de cristal
Ó, bola de cristal… ajude-me a chegar ao milhão!

Como já diria o Bastter, “ao ser humano não foi dado o dom de prever o futuro,” e ao tentar responder esta pergunta, isto é exatamente o que é necessário. Tentar predicar seus investimentos e a razão de investir em primeiro lugar com os retornos esperados é uma estrategia miópica e perdedora, no mínimo. Isto é porque ao medir por períodos curtos como meses ou até um ano, estamos quebrando a mais importante das relações quando se trata de investir: a do tempo.

Dada a natureza variável da bolsa, não podemos deixar que um limite de tempo dite as nossas decisões de investimento, e sim questões mais práticas como fundamentos dos ativos investidos, aptidão a risco e nossos objetivos financeiros. Como uma máxima, eu costumo afirmar que investir não tem prazo.

Outro problema é que esta mesma pergunta é ambígua quanto ao termo “ganhar dinheiro.” O que significaria ganhar dinheiro neste caso: valorização das cotas dos investimentos ou ganho em renda passiva? Dependendo da sua definição e objetivos, sua resposta pode ser bem diferente.

Por que ativo XYZ está caindo/subindo?

Boa pergunta. Favor consultar a bola de cristal da questão acima, porque eu que não sei.

Em uma nota mais séria, há dezenas de razões pelas quais preços de ações oscilam na bolsa, na sua maioria por conta de percepções de pânico e euforia futura. Algumas vezes resultados trimestrais não são tão favoráveis quanto esperados, causando desapontamento entre os especuladores. Notícias ruins ou boas podem afetar o mercado de maneira similar. Mas novamente, viver tentando prever o futuro desta forma são ineficientes e um jogo perdedor para o investidor de longo prazo.

Ainda assim, precisamos saber se a empresa ou ativo que investiremos é um bom candidato para se valorizar e prover rendimentos interessantes. Neste caso, a análise fundamentalista deve ser aplicada, que busca estimar sobre um longo prazo como algum ativo poderá se sair com base nos status financeiros da empresa – especialmente em termos de lucro. Investidores podem ser ainda mais conservadores e aplicar um conceito de margem de segurança, garantindo que mesmo que apenas haja uma valorização “natural” do ativo, a compra será protegida e você não irá perder dinheiro.

Posso pegar um empréstimo para investir?

Da mesma forma que você pode sentar o pé numa curva fechada, fazer sexo sem camisinha, ignorar seus backups, e deixar a porta de casa destrancada ao sair, é claro que você pode investir na bolsa na margem, utilizando dinheiro que não é seu. Afinal, você é adulto e sabe exatamente o que está fazendo, certo?

Ok, chega de sarcasmo.

Investir desta forma é arriscadíssimo porque, novamente, assume que é possível prever o futuro e saber que determinado ativo não só certamente irá se valorizar, mas também acumular uma margem de valorização suficiente para pagar os juros do empréstimo inicial. Seguir este exemplo é mais do que nunca uma verdadeira receita para o desastre – evite isto, e apenas invista o dinheiro que você sabe que não irá precisar se perder.

Muitos chegam à conclusão desta pergunta analisando histórias de como empreendedores aceleraram o crescimento dos seus negócios próprios através de financiamentos e empréstimos. Isto, porém, é uma estratégia diferente de investir em renda variável. Um empreendedor possui formas de acelerar vendas e rendimentos de forma muito mais ativa para gerar caixa. O investidor, por contraste, possui controles muito mais limitados.

Quando devo realizar o lucro do ativo XYZ?

Se você tem uma vaca leiteira, você colhe o leite dela toda semana ou a abate de uma vez pela carne?

Não existe uma resposta correta quanto à esta pergunta porque ela depende largamente das suas preferências e planejamento pessoal. Tendo em vista a acumulação de patrimônio e aposentadoria precoce via FIRE, porém, é de consenso geral que “realizar lucros” (lê-se: vender um ativo que se valorizou) é algo a se evitar sob condições normais.

A razão disso é que nossos ativos (os investimentos) representam uma coisa maior do que simplesmente um dinheiro rendendo: gerando fluxo de caixa, eles nos proporcionam liberdade financeira. Quanto mais renda passiva você recebe, menos dependerá da sua renda ativa, como o trabalho, e mais segurança terá que poderá viver da sua forma sem um emprego. Ao vender o seu ativo, este fluxo de caixa deixa de existir. Mas claro: sua visão pode ser diferente dependendo dos seus objetivos.

Existem, porém, situações específicas onde o oposto é verdadeiro. Uma delas é quando o ativo se valoriza a um ponto extraordinário, causando você a questionar se ele não está no meio de uma bolha financeira. Quando alguém lhe oferece comprar uma nota de R$50 por R$100, faz sentido vendê-las. Com ações, um P/L absurdamente alto pode indicar que é hora de vender – embora quando vender ainda é discutível.

Outra situação é quando os fundamentos da empresa mudam consideravelmente, e ela não representa mais uma boa empresa para investir. Como o ex-gestor do fundo Vanguard Magellan Peter Lynch exemplifica, devemos nos desfazer das ações “quando a história da empresa mudar.” Parou de vez de dar lucro? Hora de dar tchau.

Até quando devo deixar o meu dinheiro investido?

A vida toda! Afinal, você sempre precisará de mais dinheiro entrando, até o fim da vida, e é apenas com dinheiro investido que conseguirá garantir isso.

Para mim nada ilustra melhor este ponto do que a posição do Warren Buffett com a Coca-Cola: ele começou a investir nela nos anos 80, e desde então ganhou algumas dezenas de bilhões de dólares em ambos dividendos e valorização das cotas. Agora imagine se ele tivesse decidido que após seu primeiro bilhão já fosse suficiente, e seria a hora de terminar a posição. Que desperdício seria! Há uma razão pela qual até hoje, pós-90 anos de idade, ele continua investido.

Um ponto interessante é que, ao passo que alguns ativos individuais podem sim ser exauridos no decorrer da sua carreira (vide ponto anterior), a sua carteira de investimentos é perene. Ativos ruins são eliminados, outros melhores tomam seus lugares, e a carteira é rebalanceada conforme seus objetivos.

Quando o ativo XYZ cairá o suficiente para eu conseguir comprar a um bom preço?

Detetive tentando encontrar uma pista
Galera tentando acertar o fundo be like… Crédito: Clipartion.com

Se você seguir a análise técnica, pode até tentar prever o movimento num futuro próximo, como dentro de algumas horas ou dias. Os próximos meses? Bola de cristal ou nada!

Como um pequeno investidor individual, vale muito mais a pena colocar de lado esta história de tentar “acertar o fundo do poço” e simplesmente utilizar uma estratégia passiva e eficiente, chamada de Dollar Cost Averaging ou DCA. Este termo em inglês à primeira vista sofisticado na verdade é muito simples: consiste em simplesmente investir uma quantia fixa todo mês que passar.

Ao apostar na constância dos aportes e não na própria “vidência” sobre quando será o fundo da queda de um ativo, você coloca em prática a máxima de comprar menos na alta e mais na baixa sem nem precisar pensar sobre isso – seu próprio poder de compra em relação ao preço dos ativos o realiza.

É por esta razão, entre outras, que nos beneficiamos quando uma queda generalizada na bolsa ocorre; temos a oportunidade de fazer um DCA mais efetivo (comprar mais ativos por preços menores) e reduzir nosso preço médio. Quando o mercado voltar a subir (e isto é, sim, uma certeza), nossos retornos serão ainda maiores.

Posso usar a reserva de emergência para investir numa oportunidade recente do ativo XYZ?

Depende: você venderia o airbag do seu carro para comprar um som maneiro para ele que entrou em promoção?

Ironia à parte, esta é uma pergunta de preferência pessoal, e como muitas desta lista, não existe uma única resposta. Uma coisa, porém, é certa: reserva de emergência é feita para o único propósito de amenizar emergências financeiras.

Ela não é para conseguir rentabilidade como um investimento, e nem para financiar suas compras na próxima promoção do shopping.

Muitos se perdem na definição e confundem a preciosa reserva (importante e nunca devendo ser mexida) com o caixa operacional do dia-a-dia (que flui e está planejado no orçamento do mês). Porém, não se confunda, a reserva de emergência é um colchão de segurança para o imprevisível.

Existem, claro, exceções bem específicas à uma regra rígida como essa. Cabe a você julgá-las, mas como boa praxe, tudo o que você utilizar da reserva de emergência deve ser reposto imediatamente. Viu algum ativo atrativo cair de preço e usou parte da reserva para complementar? Ótimo, agora reponha-a com o primeiro aporte do mês, e não volte a investir até que ela esteja refeita. O mesmo se aplica se foi utilizado para comprar algum passivo como uma viagem ou um celular novo. Tape o buraco antes que você caia nele.

Há ainda quem planeja uma segunda forma de reserva – a de oportunidades. Esta é uma quantia independente da reserva de emergência que justamente é reservada para momentos como o desta pergunta. Se você esteve monitorando o preço de algum ativo e notou que ele caiu abaixo do seu limite recentemente, pode utilizá-la para maximizar seus aportes sem culpa. Algumas vezes também é referida como “caixa” do portfólio.

Porém, novamente, como descrito na pergunta anterior, você na maior parte das vezes não terá alavancagem suficiente com este “caixa” para produzir um efeito suficientemente grande como fazem os grandes gestores. O DCA continua sendo sua melhor opção.


E aí temos: sete perguntas erradas feitas sobre os investimentos que nos ensinam insights poderosos sobre como o pequeno investidor deve se portar e proceder ao investir na bolsa. Eu mesmo já fiz perguntas como estas no início da minha carreira investindo, e eu tenho certeza que você também, em algum ponto.

Então comenta aí: você já passou por estas perguntas e considerações durante a sua história de investimentos? Quais outras “perguntas erradas” você já ouviu de iniciantes que não foi inclusa aqui, e qual seria a sua resposta?

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Tim Mossholder on Unsplash

2 comentários sobre “7 perguntas erradas a serem feitas sobre os investimentos

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