Estudo de caso: o que você faz quando a mangueira de dinheiro seca?

O ano era 2006. Sentado à frente do monitor em mais um pacato dia no escritório, Carlos recebe uma ligação que mudará a sua vida para sempre. Do outro lado da linha, um amigo empresário de muito sucesso e conexões, possui uma proposta de emprego a princípio impossível de recusar: trabalhar como contratado para a ONU. Havia apenas um pequeno porém: o local de trabalho eram bases e campos de operações próximas a diversas áreas de conflito no mundo, onde guerra, conflitos étnicos e ataques eram rampantes.

Embora qualquer um em sua sanidade mental teria recusado na hora uma proposta de emprego que envolvesse um grande risco de vida ou saúde, Carlos considerou seriamente a proposta e acabou aceitando-a por conta de um (grande) diferencial: a promessa de um salário insanamente alto.

Segundo a proposta, Carlos não apenas teria um salário mais que o três vezes maior do que o mesmo cargo em qualquer outra empresa, mas também contaria com um adicional de insalubridade,um adicional de risco trabalhista e um seguro de vida e acidentes que, embora apavorantes, tornaram a proposta melhor que qualquer outro emprego que havia trabalhado até então – e talvez até da vida. Além disso, estaria ganhando integralmente em Dólar e – provavelmente a cereja do bolo – não pagaria um sequer centavo em impostos por estar em áreas considerada “Duty free.”

Carlos quase que de imediato aceitou a proposta e seus próximos cinco anos foram de muita agitação, situações tensas e memórias para uma vida toda. E em paralelo, o salário altíssimo e sobrevalorizado jorrava dinheiro todos os meses, como uma verdadeira mangueira de dinheiro abastecendo a conta bancária aparentemente sem fim.

Felizmente, esta não é uma história de tragédia de guerra. Ele não sofreu nenhum acidente ou foi ferido em conflito, nem sofreu algum dano psicológico que o traumatizou durante os seus próximos anos. Porém, uma coisa foi certa: ao retornar ao Brasil, certamente a mangueira legendária de dinheiro havia finalmente se acabado.

Isto não foi um impecílio para Carlos, que havia preparado uma boa reserva. Afinal, quando se vive numa base militar ou selva isolada de grandes cidades, não há nem como gastar dinheiro, e todos os custos de vida são cobertos pela operação. Uma vez em solo brasileiro, porém, ele resolveu colocar seu dinheiro para bom uso, e seguiu aquele velho plano de vida que ouvira da sua família e comunidade: comprou sua casa própria, um carro e recriou suas raízes novamente no país com um novo emprego.

Sentindo-se mais confiante da sua então fortuna já acumulada, começou a esbanjar: primeiro veio o Macbook Pro, seguido de alguns smartphones de ponta. Casou-se com sua esposa e tiveram uma grande festa para comemorar, trocando de carro menos de dois anos depois. Adotou o hábito de viajar internacionalmente pelo menos duas vezes ao ano, que mostrava orgulhosamente através das fotos no escritório.

Tudo parecia estar bom naquela época de economia crescendo, até que um dia fatídico em 2016 deu início a uma época de desgraça. Carlos acabou perdendo seu emprego na mesma época que eu também perdi o meu, e a partir daí sua situação desandou. Sem o seu confiado salário no fim do mês, sua vida inflada perdeu o combustível e começou a entrar em parafuso. O pífio seguro desemprego não cobria mais seus custos de vida e os passivos que haviam se acumulado no fim do mês. Contratações eram poucas na cidade, e os salários estavam tocando o chão. A uma vez confortável reserva feita pelo seu tempo internacional já havia se deteriorado anos atrás, deixando seus meses de caixa contados – e o relógio avançava mais rápido a cada dia.

Depois de quase um sofrido ano inteiro, a situação de Carlos finalmente se estabilizou com um novo emprego. Porém, durante esta onda de baixa no mercado, não conseguiu o salário estelar de anteriormente, e sim uma verdadeira subsistência. Só lhe restaram as memórias dos “tempos dourados” de glória, sobre os quais continua até hoje contando as histórias: “ah, naquela época…”

Não há dúvida que Carlos aprendeu uma dura lição na marra sobre como independente de quão grande o salário, um dia ele pode se acabar, e antes que isto aconteça é preciso estar preparado. Quais outras lições podemos tirar desta história? Vejamos neste post.

Não é apenas de renda que se enriquece

A triste e repetida realidade desta história é que quase ninguém percebe que o processo de enriquecer envolve mais do que apenas o seu salário ou renda mensal. Tal crença leva à sobre-confiança em cima do emprego, carreira e – pior – da aposentadoria via INSS que quase todos estão apostando em cima com suas contribuições e planos de vida.

A realidade é que a renda, embora contribuindo muito no início da carreira financeira, é incapaz de sozinha garantir que uma pessoa mantenha-se rica ao longo da vida pela própria característica de renda ativa; você precisa trabalhar para obtê-la. Ao investir e tornar seu patrimônio um capital produtivo, você garante a outra metade: renda passiva que, embora a princípio nada comparável ao salário, é o que irá crescer ao longo do seu tempo investindo e conseguirá manter você rico. Você precisa das duas formas para enriquecer eficientemente.

Triângulo de Acumulação patrimonial: simples, fácil e extremamente eficiente para enriquecer.

Aquele que conseguir identificar esta importante relação conseguirá entre os pilares e o ato de enriquecer conseguirá juntar patrimônio de maneira consistente ao longo da carreira. Quem apenas se concentrar no poder da renda, não importa o quão alta seja, terá problemas para conseguir manter o patrimônio no futuro, especialmente se seu estilo de vida estiver artificialmente inflado.

Não há dúvidas que Carlos começou a sentir-se rico em face do salário enorme que recebeu durante seus anos de expatriado. Porém, a natureza incomum da remuneração deste trabalho também coincidiu com outra certeza: um prazo curto e determinado do contrato.

Carlos deveria saber que estes anos de abundância não durariam para sempre, e seu dever pessoal quanto a eles era de dar-lhes continuidade nos rendimentos através de um investimento. Desta forma, o salário recebido poderia ser colocado para render um outro salário enquanto não utilizado, uma verdadeira renda passiva.

O plano da classe média é por definição perdedor

Não podemos apenas culpar Carlos por sua ignorância financeira, pois afinal, ele simplesmente estava seguindo um plano que era o que seus pais, amigos e vizinhos sempre seguiram e acreditaram ser a norma – o plano da classe média.

Ao passo que a classe média ainda representa prosperidade em relação às classes mais baixas no Brasil, nas décadas mais recentes, ela se tornou uma armadilha de consumismo e estilo de vida para manter os potenciais ricos da classe média imóveis, e a classe pobre enxergando a classe média como um sonho de consumo.

Infelizmente, por conta da popularidade do conceito da classe média, as chances são que quase todos os “conselhos” financeiros que você já ouviu na vida fazem parte desta mesma armadilha:

  • Compre um carro – nada afirma o seu sucesso e patamar de vida tanto quanto um carro novo na garagem.”
  • “Ter sua casa própria é garantia de ter sempre um lugar para chamar de seu na vida.”
  • “Bens materiais não lhe trarão felicidades – memórias sim. Invista em viagens, e não coisas!

Um fato engraçado é que quase ninguém que dá estes tipos de conselho sobre dinheiro é rico de verdade, mas isso é previsível. De onde vêm estes conselhos, afinal? Da classe média, claro.

É triste ver que, seguindo a receitinha do bolo da classe média, Carlos essencialmente assassinou a sua própria possibilidade de obter liberdade financeira, algo que estava muito mais próximo que poderia imaginar quando retornou ao Brasil. Isso, pelo menos, é o que consigo imaginar analisando apenas dos seus gastos aparentes:

  • Apartamento de luxo no Rio de Janeiro: R$850,000
  • Carro médio: R$60,000
  • Carro de alta classe: R$90,000
  • Macbook Pro modelo 2012 novo: R$8000
  • Viagens internacionais: entre R$4000 – R$8000 (várias)

Contando apenas o custo direto destes passivos (vista grossa quanto aos custos adicionais como seguro, estacionamento, IPTU e IPVA, etc e a possível reserva de emergência que possuía), Carlos gastara próximo a 7 figuras de reais, uma quantia que facilmente poderia lhe render próximo de R$5400 ao mês se aplicado em fundos imobiliários pagando uma taxa conservadora de 0.60% ao mês. Isso se feito logo ao desembarcar no Brasil: sem nem mencionar algum salário ou emprego subsequente se desejado para complementar a receita total.

Esta é uma quantia generosa de dinheiro todos os meses, e embora talvez não suficiente para morar nas maiores cidades do país, é confortável suficiente para garantir um período sabático e garantir um bom colchão de segurança independente do trabalho.

Oportunidades de ganhos não devem ser jogadas fora

Para mim, a grande lição que posso tirar desta história é a utilidade e aplicação de oportunidades de grandes ganhos em determinada parte de nossas carreiras.

Carlos pode ter recebido o equivalente a um ticket dourado financeiro, mas certamente não foi sem custo – abrir mão do conforto e saneamento, correr risco de vida, longas horas de trabalho, isolamento da sociedade e não conseguir ver seus familiares durante vários anos seguidos foram alguns dos custos que ele teve ao longo desta fase. Em troca de todo este sacrifício, pode-se dizer que ele foi remunerado corretamente. Mas será que ele aproveitou bem esta sofrida recompensa?

O próprio fato que ele até hoje precisa trabalhar e se encontra à mercê de um salário já me traz a resposta: não.

Carlos literalmente, por falta de outras palavras, jogou fora todas as horas, dias e anos suados e sofridos do seu árduo trabalho comprando passivos sem retorno financeiro. É como ele tivesse assinado um atestado dizendo que “sim, perdi cinco anos da minha vida financeira, e teria que perder mais cinco apenas para empatar.”

Got liabilities?

E aqui mora a lição mais importante: quando você está operando uma mangueira de dinheiro, garanta que este dinheiro que jorra encontre um lugar decente para ser acumulado. Isso significa investir, perder o medo da bolsa, aprender a correr riscos, e saber da utilidade principal do dinheiro (oferecer liberdade).

E embora pode ser que você nunca trabalhe em zonas de refugiados ou guerra, pode ser bem provável que ainda trabalhe embarcado, faça turnos de madrugada ou feriados, encha-se de horas extras ou dê o sangue enquanto é jovem, energético e com tempo de sobra para trocar por dinheiro.

Você nunca sabe se uma oportunidade para ganhar muito dinheiro em troca de um sacrifício será única, ou se terá condições de passar por uma oportunidade parecida por uma segunda vez (saúde, idade, família, etc), portanto deve aproveitá-la da maneira certa – com educação financeira.

Parece até uma máxima de investimentos: sofra uma vez, colha os frutos para sempre.


Você conhece alguém que passou por alguma situação parecida com a do Carlos: uma mangueira jorrante de dinheiro que foi, eventualmente, desperdiçada? Que conselhos daria para ele neste caso? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!


Como todos os meus estudos de caso, “Carlos” é um nome fictício para uma pessoa de verdade. Seu nome e informações únicas e identificáveis de sua história foram alterados para proteger a sua privacidade.


Photo by Gary Chan on Unsplash

3 comentários sobre “Estudo de caso: o que você faz quando a mangueira de dinheiro seca?

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