E se o tempo fosse literalmente dinheiro? Reflexões sobre “In Time”

Existe uma regra de ouro clássica no mundo das finanças pessoais que afirma que “tempo é dinheiro.”

Esta afirmação é verdade em vários sentidos, um deles com relação diretamente aos investimentos – juros compostos simplesmente não funcionam sem que tempo suficiente seja alocado para trazer resultados. No ramo do empreendedorismo, o tempo permite você realizar mais contatos com seus clientes e mais vendas. A relação entre o tempo e o dinheiro é clara sob esta luz, e muitos os veem como intercambiáveis.

Porém, e se o tempo e o dinheiro fossem literalmente a mesma coisa? Ou, mais interessante, e se o dinheiro equivalesse a sua vida, conforme o título do famoso livro de Vicki Robin?

Estes são os temas centrais de um filme menos conhecido lançado em 2011 chamado In Time, onde no futuro não existe mais o conceito de “dinheiro:” as pessoas trabalham para ganhar tempo, e morrem uma vez que seu tempo disponível se esgota.

Ficção a parte, o tema deste filme levanta a discussão antiga entre o desejo da humanidade pelo dinheiro versus o real valor e aplicabilidade dele: muitos seriam rápidos para afirmar que o dinheiro não traz felicidade, por exemplo, mas uma vez que este é igualado ao seu tempo de vida restante, as implicações são alteradas dramaticamente. Não só mais dinheiro = tempo, dinheiro também se iguala à sua vida restante. E de certa forma, partes dos conceitos deste filme já são realidade hoje mesmo.

Vejamos alguns insights que podemos tirar destra obra de ficção para nossa realidade.

Qual é o real valor do seu dinheiro?

O filme In time traz um choque inicial principalmente porque começa a questionar qual é o valor verdadeiro que o dinheiro traz para a sua vida. Quem costuma acreditar que o “dinheiro não traz felicidade” ou outra crença similar é exposto à uma realidade bem diferente no filme. E enquanto na vida real o dinheiro não necessariamente é igual ao tempo de vida, quando utilizado da maneira correta ele traz um valor bem parecido: a liberdade pessoal.

O conceito inteiro do movimento FIRE parte do princípio que o dinheiro pode comprar sua liberdade pessoal e libertar seu tempo da “prisão” que é o emprego e a necessidade de trabalhar por um salário, e o filme o leva um nível acima. Muitos penam para entender a relação direta existente entre o dinheiro que alguém possui e a quantidade de liberdade pessoal que elas possuem, e este filme providencia a melhor metáfora possível: com um “timer digital” embutido no antebraço direito, as pessoas que não trabalham veem a vida literalmente se esgotar a cada segundo, até que morrem quando chegam a zero (“time out”).

o relógio embutido das pessoas

Embora muitos sejam rápidos para dispensar este conceito literal como mera ficção, não há como não assistir esta metáfora e não pensar sobre como isto é aplicável mesmo no mundo de hoje. Em tempos de escassez, nosso dinheiro serve como um “escudo” quando acumulado na forma de um colchão de emergência, e é a única forma que temos de obter nossos requerimentos de vida como moradia, comida, e suporte médico. Em tempos de abundância, o dinheiro se torna uma medida de habilitação e liberdade, ditando o que conseguimos fazer sem sacrificar segurança financeira.

Cada vez que gastamos dinheiro com alguma coisa, temos que pensar que, essencialmente, estamos sacrificando parte destas utilidades de segurança e capacidade financeira, literalmente contribuindo para o nosso “time out” bem similar ao do filme. Ammenities e consumos pequenos do dia-a-dia podem não nos causar tal efeito no começo, mas seu uso constante ao longo se um grande período de tempo pode causar custos surpreendentes. E principalmente quando se trata de compras de grandes passivos, como a casa própria ou carro, o efeito da perda de capacidade e liberdade é excepcionalmente dramático.

Lembro disso numa cena no filme, onde o protagonista busca se hospedar num hotel de luxo e descobre que precisaria pagar dois meses de tempo por uma única noite de hospedagem.

Você pagaria um mês do seu trabalho para aproveitar o equivalente à uma noite? A resposta, sendo pessoal, dependerá da sua percepção de valor, mas é sempre importante considerar esta troca da liberdade trazida pelo dinheiro. Qual é o verdadeiro valor do dinheiro para você, e dada uma escolha, qual você prefere optar?

Regeneração infinita: o Santo Graal financeiro

Outro ponto do filme que atiça a audiência é que da mesma forma que o mundo atual, existe uma disparidade nas classes sociais entre os ricos e os pobres. E os ricos são muito ricos, com séculos e até milênios em seus relógios.

Quantos bilhões de dólares equivaleriam a quase dez mil anos de vida no filme?

Felizmente, nesta sociedade as mesmas regras dos juros compostos da vida real se aplicam à forma de riqueza deles, e os ricos não só conseguem se manter ricos, mas também enriquecer com consistência graças aos seus ativos e investimentos. Um dos antagonistas, por exemplo, é um banqueiro que acumulou um milhão de anos em sua cápsula de de tempo (equivalente a um cofre) pessoal.

Se seu dinheiro realmente equivalesse ao seu tempo restante de vida, você também não o acumularia e faria todo o possível para conseguir mantê-lo crescendo a cada momento ao invés de perdê-lo segundo-a-segundo? Este é essencialmente o driver primário do mundo FIRE, e ao contrário do mundo mostrado no filme, temos muito mais oportunidade e condições prósperas como uma inflação controlada. No filme, os preços aumentam arbitrariamente e com alta volatilidade, podendo dobrar de um dia para o outro.

Combinado com o conceito do valor do dinheiro, vemos que torná-lo abundante ao ponto dele tornar-se auto-suficiente é uma estratégia valiosíssima. O movimento FIRE é uma solução inteligente para este caso, onde não precisamos de montanhas infindáveis de dinheiro para simplesmente sermos livres, e sim saber exatamente o quanto precisamos para ter renda passiva suficiente para cobrir nossas necessidades e viver com tranquilidade.

Esta solução ótima e balanceada é o equivalente ao Santo Graal financeiro.

Se você não vê o dinheiro com valor correto, tenderá a nunca acumulá-lo ou utilizá-lo da forma correta

Em conclusão, é necessário ter uma percepção do valor do dinheiro muito bem balanceada para que realmente possamos usufruir do que ele tem a oferecer. Para isso, é necessário responder de forma bem pessoal a seguinte pergunta: qual é o valor que o dinheiro traz para mim, e existe alguma coisa de valor maior que posso ter ao gastá-lo?

Para mim, a resposta desta pergunta ainda é a Liberdade individual. Casos específicos podem surgir onde eu posso ainda comprar alguma coisa ou obter algum serviço que me traga uma grande realização, mas consigo identificar como estes “picos” de alegria podem ser facilmente consumidos posteriormente pela velha adaptação hedônica. Este mindset também contribuiu para que eu acumulasse patrimônio com muita eficiência também.

O outro lado da moeda, porém, é igualmente importante: qual é o valor que esta liberdade individual e riqueza irá lhe trazer? Se você não tiver um plano atrelando valor ao seu enriquecimento, irá certamente perder a realização da vida e possivelmente entrar em depressão. Tal é o caso de um dos personagens do filme que, embora milionário, bem sucedido e com mais de um século de vida acumulada, resolve doar todo o seu tempo ao protagonista e se suicidar por não ver mais sentido em continuar vivendo tanto tempo. Uma filosofia de vida bem-definida e resiliente, sede por aprendizado e exposição a novos conceitos são cruciais para qualquer vida com realização pessoal.

Enxergue o dinheiro pelo valor real que ele tem (e não pelo o que a mídia tenta te vender), e você estará com o mindset correto para enriquecer da maneira certa.


Se o tempo fosse literalmente seu dinheiro na vida, como isso mudaria a sua rotina e sua atitude ao dinheiro? Existem outros filmes que você já assistiu que abordam um tema parecido? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Imagens do filme In Time são de direitos autorais pertencentes a 20th Century Fox. Todas as imagens neste post foram utilizadas de acordo com o conceito do Fair Use Act, sem qualquer intenção de violação de copyright.

5 comentários sobre “E se o tempo fosse literalmente dinheiro? Reflexões sobre “In Time”

  1. Aportador Consciente

    Sob um ponto de vista mais filosófico: qual é o valor do dinheiro para mim? Moeda de troca com a qual posso obter benesses.
    Sobre a liberdade individual, é relativo. Posso ter alguns milhões, mas se os detentores do poder não forem meus aliados, meu dinheiro valerá pouco ou não valerá nada. Más ações dos governantes podem corroer ou destruir o patrimônio acumulado durante anos.
    A verdadeira liberdade individual é o conhecimento. O verdadeiro conhecimento não pode ser dilapidado ou roubado por terceiros. Com conhecimento posso ter minha liberdade afetada, mas não meu livre arbítrio.
    Sobre o tempo, ele é o caminho percorrido desde o nascimento até a morte, e acumular patrimônio nesse interstício é bom, é legal, mas o que fica, o que é importante são as realizações. O cara pode morrer com 70 anos e com 100 milhões na conta, mas é possível que não realize nada nesse tempo. Outro pode morrer e deixar apenas uma casinha, mas pode ter deixado muitas outras realizações.
    No fim, claro que o dinheiro tem a sua importância, mas não vejo que deva ser o propósito de vida. O conhecimento é o mais importante. Com ele, o dinheiro é consequência, é preservado o livre arbítrio, e o tempo será aproveitado.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Bela reflexão, Aportador!

      Acredito que em parte, o que você se referencia como conhecimento pode ser entendido como experiência de vida. E eu concordo completamente nesse sentido: o maior “patrimônio” que podemos obter em vida é justamente aquilo que vivemos e realizamos. Mais do que apenas viajar o máximo possível, é aquilo que realizamos e obtemos aquela sensação de realização pessoal .

      Obrigado pelo comentário!

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. André

    Olá Pinguim!

    Eu assisti esse filme há tempos. Ele possui uma premissa muito interessante que podia ser muito bem explorada – como seria a economia, as trocas de bens, implicações culturais, divisão do trabalho, etc, mas ele nada fez para isso.

    Ficou sendo mais um filme simples de “ação”, sem possibilidade de reflexões profundas, e pior: tornou-se um filme que exacerba a ideia de “soma zero” numa economia, uma fantasia socialista onde a elite sempre prospera à custa dos demais, onde é preciso tirar de alguém para ter alguma coisa.

    Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá André,

      Obrigado pelo comentário! É, acho que qualquer filme que se aprofunda demais no raciocínio é taxado imediatamente de chato e não vende. Por isso o bangue-bangue e distração pra encher linguiça. Ainda assim, achei o conceito interessante, mesmo que com uma dose grande de ficção.

      Abraços e seguimos em frente!

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