O problema de dez reais versus problema de dez mil reais

Há um ditado na finansfera que diz que finanças pessoais não são complicadas – quem as complica somos nós*.

E realmente, não há razão para nós tornarmos complicado o processo de enriquecer: ganhe dinheiro, gaste menos que você ganha, invista as suas economias. Outras melhorias terão um efeito mínimo na sua performance fora estas três variáveis.

Ainda assim, se o processo é tão simples e descomplicado como costumo descrever, existe uma realidade paradóxica: quase ninguém consegue enriquecer consistentemente. A maioria esmagadora ainda depende dos seus empregos, acredita que o INSS irá sustentá-los até o fim da vida, e acredita que esta situação é perfeitamente normal, já que é perpetuada pela sociedade.

Existem várias causas para esta situação atual mas, recentemente, escutei no Podcast do The Minimalists uma entrevista que realizaram com o autor de finanças pessoais americano Ramit Sethi, autor do best-seller I will teach you to be Rich, onde ele averiguava uma coisa que ele chamou de “problemas de 3 dólares” versus “problemas de 30,000 dólares.” Neste episódio, Ramit argumentou que muitas pessoas acabam por confundir a necessidade de frugalidade com mesquinheza e “pão-dureza” extrema, e ao aderí-la esquecem-se dos seus problemas financeiros maiores, como quitação de um financiamento enorme da casa ou carro ou pagamento de suas dívidas.

Em outras palavras, concentrando-se num problema de dez reais (“este café de R$10 sai por R$5 lá na esquina”), elas se esquecem do problema de dez mil reais (“empurra com a barriga esse financiamento, mês que vem a gente vê de novo”) que realmente lhes assola e mantém pobres.

Ao passo que eu acredito muito no poder da frugalidade e que ela pode nos auxiliar, sim, em juntar muito dinheiro ao longo prazo, o ponto dele também é importante: afinal, de nada adianta tirar a água de dentro do navio sem antes tapar o buraco do casco que enche o convés. E assim, temos que prestar atenção para não perder o longo prazo de vista com o foco no imediatismo financeiro.

Vejamos neste post alguns exemplos de como isso pode acontecer e como evitar.

Há uma diferença entre frugal e mão-de-vaca

Muitos confundem a frugalidade com a apatia total e a falta de vontade ou desejo de fazer qualquer coisa que envolve gastar dinheiro, mas esta visão é estereotípica e errada.

Mão de vaca, pão duro, anti-social, as palavras são muitas.

A verdade, porém, é que todos os frugais e minimalistas gastam dinheiro e compram – às vezes muito! – coisas além da necessidade e por puro desejo. E isso é porque eles entendem uma relação crucial sobre o dinheiro: há um preço pago e um valor recebido em tudo aquilo que se compra. Não é “irônico” quando uma pessoa frugal aparece vestindo uma camisa de grife, ou um minimalista que tem seu carro próprio ou uma televisão em casa – simplesmente estes são o resultado do maior valor trazido pelo dinheiro que eles escolheram gastar.

Ao realizar tais compras, eles conseguiram receber um valor superior ao dinheiro que gastaram na compra, sendo assim uma escolha vencedora no final ao contrário, por exemplo, se a pessoa frugal tivesse escolhido uma camisa barata e de qualidade duvidosa, resultando em múltiplas compras ao longo dos anos e peças acabadas acumulando no guarda-roupa.

Neste ponto, a maior parte das pessoas teria se esquecido do custo cumulativo destas compras repetidas ao longo do tempo, focando apenas na idéia imediata de ter escolhido o melhor preço possível naquela hora. Porém, se você economizou R$50 comprando uma camiseta de R$20 ao invés de uma de R$70, como fica esta economia ao longo do tempo se você terá que trocar esta camiseta todo ano? Em três anos, ela já foi perdida.

O problema dos atalhos

Embora este seja um ponto um pouco extremo, ele exemplifica bem como funciona o ato de pensar no dez ao invés dos dez mil. Segundo Ramit, quando estamos pensando no possível ganho ou “atalho” no curto prazo, frequentemente acabamos por nos esquecer ou ignorar as consequências ao longo do prazo.

Considere, por exemplo, uma pessoa com suas finanças apertadas que ainda assim se encontra nas premissas de uma loja popular de roupas, empacada na decisão sobre comprar ou não algumas peças de roupas. O vendedor amigável a conforta, apontando que ela pode fazer o cartão de crédito da loja e obter um desconto de 10% comprando através dele.

Através deste simples e aparente “atalho,” porém, ela estará essencialmente trocando um problema pequeno e momentâneo por um problema maior ao longo do prazo, seja por acumular as dívidas deste cartão de crédito, cultivação da cultura de consumismo alimentada pela facilidade da compra, ou a velha e insaciável adaptação hedônica de sempre querer mais.

Ao resolver um problema de R$10 na frente, ela acumulou outro muito maior do que poderia imaginar ao longo de um prazo que também não soube enxergar.

É por razões parecidas que também costumo considerar pouco as compras de passivos como carro próprio e casa. Não há dúvida que é um ótimo bem de consumo para se ter e usufruir quando precisa, conveniente para acessar locais distantes ou carregar uma família, mas de um ponto de vida de investimentos é uma das decisões que irá apenas ancorá-lo ou – pior – tornar-se um vício e uma dependência da qual seu estilo de vida magicamente não poderá mais escapar.

Objetivos, prioridades e planejamento

Grant Cardone em seu livro de estratégia de vendas Sell or be sold afirmou que é previsível, e até esperado, que o seu cliente não tenha dinheiro para comprar o seu produto: e é por isso que existem os bancos.

Mindset ótimo para o vendedor, porém péssimo para o consumidor, indo contra basicamente toda a teoria por trás da educação financeira. Por esta e outras razões o planejamento financeiro é importantíssimo, tal como ter sempre em mente seus horizontes e objetivos financeiros antes de qualquer decisão complexa.

Você precisa saber dizer, por exemplo, se você prefere estar aconchegado ao invés de financeiramente próspero, se seu apetite para enriquecer e aportar é maior do que o valor que alguma compra de algum passivo poderá lhe proporcionar. Pode ser que, dependendo do seu alinhamento preço-valor, uma compra lhe traga muito mais realização do que você poderia obter de outra forma – estes, como o carro, são valores e definições pessoais demais para serem julgados de fora.

Porém, como já descrito no triângulo de acumulação patrimonial, é necessário equilibrar a economia com o quanto se ganha para enriquecer de verdade. Você pode pensar que está maximizando a economia ao tentar pegar um atalho na hora da compra, mas como este mindset se tornará ao longo do prazo? Como eu sempre digo, ninguém nunca enriqueceu jogando seu dinheiro fora.


Você conhece alguém que resolve problemas de dez reais no imediato, mas acaba acumulando um problema de dez mil reais ao longo da vida? Como você arrumaria a situação desta pessoa se fosse com você? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


* Esta frase eu ouvi primeiro do Marcelo do Vida Rica e achei genial!

3 comentários sobre “O problema de dez reais versus problema de dez mil reais

  1. Conheço várias pessoas que tem essa mentalidade, na verdade desde que investimentos virou modinha é o que as pessoas tem feito.

    O que não falta é gente sem nenhum conhecimento de educação financeira que resolveu virar investidor, agora sobra no mercado especialistas em daytrade, vendedor de pirâmide e influenciers financeiros de Youtube com interesses comerciais obscuros.

    A galera tem que aprender primeiro a controlar seu orçamento e a descobrir onde estão os seus gargalos, é como você mesmo diz no começo do texto, é uma questão de gastar menos do que ganha e investir, o problema é que na hora de resolver a primeira parte da equação o pessoal tá mirando no lugar errado.

    Abraços,
    Pi.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Poupador!

      É verdade isso mesmo, o que mais vemos hoje é gente ensinando a enriquecer vendendo curso de como enriquecer (meta-pirâmide?)

      Combinando com o nosso FOMO de estar jogando fora nosso tempo que poderíamos estar enriquecendo, temos a receita perfeita para uma pirâmide total.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  2. Pingback: Convertibilidade ao dinheiro: a melhor medida do pragmatismo financeiro – Pinguim Investidor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s