A renda fixa está morta? É facil? Não tem risco?

Quando começamos a investir, sem dúvida consideramos a renda fixa como um bom ponto de partida. É frequentemente advertida como segura, simples e fácil para o investidor iniciante entender e aplicar. Ativos de renda variável, como ações e fundos imobiliários, são entendidos como mais complicados e mais arriscados por conta da variação imprevisível do preço dos ativos.

Embora esta visão oferece uma explicação simplista e fácil de ser seguida, algumas pessoas recebem o entendimento errôneo que a renda fixa, por não possuir esta variação de mercado, acaba sendo sinônimo de ausente de riscos. Esta concepção ingênua é oriunda principalmente por conta da falta (percebida) de variação na rentabilidade, e é perigosa para o investidor que assim associa sua percepção de risco.

A verdade é que não existe investimento livre de risco, e aqueles que assim se ofertam ou estão mascarando o risco principal por trás de alguma outra coisa. Um instrumento financeiro sem risco poderia ser colocar o dinheiro debaixo do colchão, mas mesmo neste caso há o risco do dinheiro ser fisicamente destruído por algum motivo – até mesmo corroído com o tempo.

Neste post, explico quais são os riscos que existem na renda fixa, e – ao contrário da maioria esmagadora na finansfera – indico como você poderia incluí-la na sua carteira total.

Calote – o risco primordial

O risco principal de qualquer investimento, indepedente de ser renda fixa ou variável, é, essencialmente, o calote. Você empresta o seu dinheiro para uma instituição financeira com a promessa de que este dinheiro será retornado para você com um adicional de juros pagos por o utilizar durante um tempo específico. Se esta instituição não lhe pagar de volta, parabéns: você foi caloteado.

Tanto as ações quanto a renda fixa são mecanismos de financiamento, com um propósito similar à esta analogia do empréstimo, mas na renda fixa esta relação é bem mais direta. Quando você compra um CDB, por exemplo, está essencialmente financiando um banco ou empresa com o seu dinheiro e no caso do tesouro direto, literalmente está emprestando dinheiro para o governo.

É hora do troco! Cobrar juros ao invés de pagar!

O que poucos se lembram, porém, é que a taxa de juros pagos pelo produto é uma reflexão direta do risco envolvido no investimento – isto é, o quão provável é que o emissor do produto poderá não vir lhe pagar de volta quando acordado. E, seguindo a regra de ouro dos investimentos, quanto maior o risco envolvido, maior acaba sendo o retorno advertido.

CDBs rendendo 120% do CDI? Interessante no papel, e até atrativo, mas você já viu quem é que está emitindo? É um banco confiável, grande e com um grande histórico de lucros? Ou seria aquele banco pequeno e que vem gerando prejuízos consistentemente nos últimos meses ou anos de operação? É bem mais provável que seja o segundo e não o primeiro, pois um banco com boa forma financeira, lucros consistentes e operações bem estruturadas não teriam por quê emitir títulos de dívida para levantar fundos.

Nesta hora, muitos são rápidos para se lembrar de um grande fator que leva muitos a investir na renda fixa: o Fundo Garantidor de Crédito. O FGC é uma instituição privada formada pelos maiores bancos do país que promete agir como uma “rede de segurança” em alguns investimentos de renda fixa quando estes quebrarem, podendo assim honrar os pagamentos quando seus emissores falharem.

Como a maioria dos investimentos de renda fixa como LCIs, LCAs, CDBs, os zilhões de fundos de investimentos bancários e até produtos como a Nuconta do Nubank possuem a famosa proteção do FGC, muitos iniciantes pulam direto dentro destes investimentos sem pensar muito nas consequências, exceto talvez pela liquidez do título.

Esta cobertura do FGC, porém, algumas vezes oferece mais uma ilusão de segurança do que segurança real em si.

Primeiramente há uma limitação de quão generoso o FGC consegue ser: a cobertura só se estende a R$250.000 por CPF, a partir do qual o investimento não se torna mais garantido. E ao passo que esta quantia pode parecer grande inicialmente, está longe de ser suficiente para se tornar independente financeiramente, especialmente considerando a baixa atual nas taxas de juros. Se você se predicar sempre na “segurança” do FGC, simplesmente não se tornará rico e livre. Lembre-se: a cobertura é por CPF, não por produto investido.

O outro problema é que, embora o FGC honre os pagamentos no caso de um calote, não há uma regra bem-definida sobre quando isso deve acontecer. Um grande processo burocrático envolve a movimentação do FGC durante um calote, e qualquer coisa entre algumas semanas a até um ano pode se passar até que o seu dinheiro seja recuperado. Às vezes, pode até ser necessário entrar com alguma ação judicial. Tudo isso num investimento que deveria ser, a princípio, a parte tranquila da sua carteira, e que você não deveria se preocupar muito.

Num mundo onde a renda fixa serve para balancear a carteira de investimentos e complementar a reserva de emergência, correr este risco pode se tornar perigoso dependendo do tamanho das suas posições líquidas para emergências. Claramente, a renda fixa também precisa de análise séria antes de ser investida.

Casos reais de calote com a renda fixa (e suas consequências)

Embora não sejam tão populares quanto outras notícias para saírem em capas de jornais, todos os anos alguns emissores de títulos privados quebram e falham em honrar seus pagamentos, com o FGC precisando entrar em cena para apaziguar a situação. Há casos, porém, onde o FGC não oferece proteção, e um calote nestas circunstâncias é desastroso – este é o caso das debêntures.

Com rendimentos no estilo da renda fixa, mas sem a garantia do FGC, as debêntures deveriam ser arquivadas como um caso ilógico onde ninguém deveria investir. Retorno da renda fixa e risco da renda variável? Como alguém poderia achar isto atrativo?

De alguma forma, muitas pessoas acabaram achando atrativo as debêntures emitidas pela Rodovias Tietê, que prometia honrar o pagamento depois que os fundos fossem utilizados para manutenção e expansão. O negócio parecia atrativo até que em 2019 um comunicado oficial fora emitido onde, essencialmente, a empresa afirmou que não iria honrar os títulos, priorizando outros pagamentos ao invés dos cotistas.

O caso foi cômico e parou até nas redes sociais.

Embora este caso tenha tido relativamente poucos danos causados, nada é comparável a grande crise do subprime Americano de 2008, que fora causado justamente por uma espécie de renda fixa nos Estados Unidos, chamadas de bonds, que funcionam de maneira similar ao Tesouro IPCA. Estudando as origens da crise, podemos traçar a mesma causa comum: calotes em escala enorme no mercado imobiliário.

Bonds lastreados no mercado imobiliário eram populares nos anos 2000 por conta de uma única premissa: embora alguém poderia se atrapalhar com pagamentos de contas ou outras dívidas, ninguém ousaria falhar com as parcelas da sua própria casa, afinal o impacto seria crítico. A realidade, porém, foi outra, e grandes bancos começaram a afrouxar seus requerimentos para financiamento de casas, visto a grande valorização dos seus bonds que novos financiamentos traziam. Um dia, vários destes financiamentos foram caloteados em série, e a realidade artificial inchada do mercado desabou, levando o resto do mundo consigo.

O mais interessante é que, assim como a renda fixa aqui, estes Bonds eram garantidos de forma similar por um órgão chamado Federal Deposit Insurance Company (como se fosse o FGC dos EUA), mas o rombo causado por esta onda de calotes foi tão grande que nem o poder de garantia de todos estes bancos foi o suficiente para segurar a falta de liquidez gerada na economia. A solução encontrada neste caso foi injetar artificialmente mais dinheiro na economia, tirado dos impostos pagos pela população.

É interessante (e ao mesmo tempo assustador) ver como nem em algo tão “imaculado” como a própria casa escapou do risco tão conhecido do calote. A crise toda de 2008 é um assunto muito interessante, e para quem gosta do assunto recomendo o famoso livro do Michael Lewis, The Big Short, para mais informações.

Utilização da renda fixa: cada ferramenta tem seu caso de uso

Por fim, de forma alguma estou dizendo que a renda fixa não possui o seu lugar numa carteira de investimentos – que é o sentimento atual com a Selic em sua constante mínima histórica. A diferença é que hoje, ela toma menos a forma de um “investimento” segundo a minha própria definição de investimentos previdenciários, e mais como um meio de campo entre a reserva de emergência e um lastro financeiro equilibrando o patrimônio.

A minha própria utilização da renda fixa é predicada como um conjunto entre caixa para investimentos e oportunidades (a qual utilizei uma grande parte durante a queda no começo deste ano), parte da reserva de emergência (com o montante mais crítico alocado diretamente na poupança), e uma pequena forma de hedging contra a minha carteira de renda variável. E embora no começo da minha jornada, eu pensava muito em apenas seguir com a renda fixa (Tesouro direto, principalmente), hoje vejo que ela mais serve para complementar a carteira do que ser o principal dos seus investimentos.

Finalmente, dada a situação atual da Selic, hoje não vejo razão para investir em qualquer outro produto da renda fixa além do Tesouro Direto. Embora este não possua cobertura pelo FGC, ele possui um garantidor ainda maior: o Tesouro Nacional Brasileiro. E embora não seja impossível que um governo quebre e não honre com seus pagamentos (aconteceu, por exemplo, na Grécia), eu considero esta possibilidade é bem remota até mesmo na situação econômica atual. Riscos maiores seriam falta de liquidez: problemas no sistema do Tesouro Direto, por exemplo, já impossibilitaram o resgate dos títulos por alguns dias no passado.

Atualmente, investir em CDBs com rentabilidade similares ou até maior seria correr um risco muito maior para obter uma rentabilidade insignificantemente maior. E outros produtos como LCIs que se vendem como “livre de imposto de renda” muitas vezes possuem um rendimento inferior ao CDI só para início de conversa, novamente tornando o Tesouro Direto o mais indicado.

A renda fixa não está morta, nem inútil. Ela simplesmente precisa ser a ferramenta correta no seu inventário.


Como você analisa a renda fixa na hora de investir? Acredita que é mais fácil de analisá-la? Como você usa a renda fixa nos seus investimentos? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Um comentário sobre “A renda fixa está morta? É facil? Não tem risco?

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