Faux-Minimalismo: quando o menos nem sempre é mais (para as finanças)

No caminho para uma vida com mais realização pessoal e sentido, muitos se viram para o minimalismo como uma filosofia de vida para se liberarem do mal do consumismo descontrolado como fonte de prazer e organizarem melhor suas vidas em torno daquilo que realmente lhes faz feliz.

Eu mesmo tenho tentado me aventurar neste mundo e me tornar mais minimalista, mas ainda existem algumas barreiras me segurando: seja algum hábito que eu tenho, gazingus pin sendo comprado por impulso, ou até mesmo por não medo de me desfazer de alguma coisa que eu possa “vir a precisar.” Acredito que tenho tido um pouco de progresso individual, mas ainda tenho muito a evoluir neste quesito.

E enquanto o movimento do Minimalismo têm ganhado força mundialmente, em parte por conta de filósofos minimalistas famosos como Josh Millburn e Ryan Nicodemus, não posso deixar de notar que uma outra parte do mundo também tem aproveitado o crescimento deste movimento para lucrar vendendo o seu complemento aos adeptos desta filosofia. Nada de novo e nem errado aqui; afinal, quando se descobre ouro em algum lugar, lucra quem vende as pás.

Design simplista? Qualidade sobre quantidade? Acumular experiências ao invés de coisas? Sim, soam todos como atitudes bem orientadas ao minimalismo, mas será que continuam orientadas ao bem-estar da sua carteira? Para mim, alguns destes conceitos formam o que vim a chamar de faux-minimalismo, uma filosofia disfarçada de minimalismo, mas com a segunda intenção de obter o seu dinheiro e tirando parte da sua liberdade financeira em troca de uma aparência de minimalista.

Quais aspectos deste falso minimalismo podem deteriorar suas finanças? Vejamos neste post.

O bem-estar mental não deve custar a sua liberdade

Em âmbitos como a moda, design, decoração e bem-estar, “minimalismo” se tornou uma palavra premium, tal como a expressão “sem glúten” ou “gourmet” fez com a culinária. Basta mencionar que é do estilo minimalista e você estará justificado a cobrar acima pelo “valor agregado” ao produto.

Não é supresa nenhuma, pois afinal, o este é o propósito do marketing, especialmente para aqueles que não possuem uma idéia clara sobre seus objetivos de vida, com frases de venda como:

  • Usar preto é a chave para o minimalismo e a simplicidade. Troque seu guarda-roupa multicolorido hoje mesmo!
  • Seus móveis não são visualmente elegantes e adicionam muita informação na sua sala. Troque-os por esta coleção escandinava minimalisma para entrar em harmonia!
Móveis de “design escandinavo” vendidos pela IKEA – será mesmo que é só encher a casa deles e ela se torna magicamente minimalista? Crédito: IKEA

E, claro, não poderíamos esquecer deste clássico:

  • A vida é feita de experiências, e não coisas. Você precisa passar o resto da sua vida viajando para os locais mais exóticos e caros se quiser se tornar realizado!

Será mesmo que estes são os princípios que o minimalista segue em sua vida? Ou seria apenas mais uma esperta jogada de marketing feita para arrancar o seu dinheiro da forma mais silenciosamente possível?

O argumento da “experiência” na minha opinião é especialmente perverso. Ao passo que minimalistas tendem concordar que ter coisas demais é danificante à sua saúde mental, quase ninguém objeciona as viagens e um hábito de viajar constantemente quando, financeiramente falando, não há diferença entre os dois.

Deveria ser óbvio, mas da mesma forma que comprar um computador ou celular novo não te traz dinheiro, ficar viajando para lugares longes e encarecidos também não vai te deixar mais rico. Porém, a julgar do número de pessoas que consideram uma viagem um “investimento,” fica claro que este conceito não está entendido pela população.

Pergunta: O que você acha do dinheiro gasto em viagens?

Resposta: Investimento com certeza!

Pela última vez, vamos esclarecer: viagem não é investimento, da mesma forma que um carro não é investimento, e nem a sua própria casa. A razão é simples: ele não são ativos financeiros e não trazem dinheiro para você. Muito pelo contrário, custam as vezes até mais do que aparentam custar. Eles são bens de consumo e podem agregar bastante valor justificando a compra, mas não são investimentos que trazem retorno financeiro.

Além disso, qualquer pessoa que realizou o “sonho de consumo” deste grupo e deu a volta ao mundo lhe dirá que a partir do décimo país, a experiência é basicamente igual: você é sempre o turista, não fala a língua, não conhece a cultura e, francamente, tampouco se importa – daqui a pouco você vai embora mesmo. Só perguntar para o Mark Manson. Que dose de adaptação hedônica!

Novamente, o minimalismo pode te trazer valor e realização pessoal, mas estes não precisam custar a sua liberdade financeira. Existe alguma alternativa? Felizmente, eu acredito que sim.

Mais eficiente que o minimalismo: mustachianism

Se o minimalismo procura viver bem com o menor número de coisas possíveis, descartando a sobra, a filosofia do mustachianism vai um passo além e diz: você deve aproveitar e fazer o uso de tudo que você já possui neste momento.

Com seu nome concebido pelo famoso Mr Money Mustache (MMM), o mustachianism prega a eficiência dos seus recursos e economia de dinheiro através da “desterceirização” da rotina da vida: tudo o que você possui atualmente pode ser expandido e melhor aproveitado se você simplesmente se dedicar e aprender a utilizá-lo da maneira certa.

Por exemplo, seria o seu computador que está ficando devagar ou é a sua utilização dele que está o tornando aparentemente inútil? Será que você poderia consertá-lo de alguma forma (mais memória, HD novo, etc) ao invés de ter que substituí-lo por completo? Será você poderia reciclá-lo simplesmente utilizando um sistema operacional mais leve como o Linux? Estas são algumas alternativas ao substituir completo da máquina que podem ser exploradas até enfim não ter mais jeito.

https://i.insider.com/56ccc87a8e91c68c3f573cb8?width=400
Peter Adeney – mais conhecido como Mr Money Mustache – blogueiro FIRE e autor do termo mustachianism.

MMM vai ainda mais à frente com esta filosofia e sugere que seus leitores comecem a fazer o insourcing (oposto do outsourcing) de suas tarefas e serviços para uma dupla combinação de aprendizado acumulado com custo operacional reduzido. Limpeza da casa, consertar problemas de fiação, tubulação ou ar condicionado, cozinhar, tudo feito dentro de casa visando um estilo de vida frugal e eficiente. Talvez um pouco extremo para a maioria das pessoas, mas a mensagem é clara: nada que não é extremo em alguma coisa pode se tornar extraordinário.

O mustachianism de nenhuma forma busca combater o minimalismo, e pelo contrário: pode ser uma ótima adição no mundo de um minimalista que busca trazer mais eficiência para seu estilo de vida, e aproveitar as coisas que já estão em seu alcance na casa. E certamente ajuda a combater a ânsia de se “tornar minimalista” comprando “coisas minimalistas.”

Não confunda os meios com os fins

Os Minimalistas Josh e Ryan em certo episódio do seus podcasts elaboraram que o minimalismo pode ser um ótimo complemento à sua rotina de vida, desde que utilizado da maneira certa – e isso significa seguí-lo como um meio e não um fim.

O minimalismo como um objetivo de vida é um conceito estranho até mesmo para um minimalista: será que é só mesmo jogar tudo fora, carregar o mínimo possível de coisas, e isso me tornará magicamente feliz? Eu acredito que seguir um “objetivo” como este ao pé da letra trará tanta infelicidade quanto acumular coisas inúteis. Por outro lado, o minimalismo como um meio oferece recompensas muito mais interessantes:

  • Um meio de tornar a vida menos complicada se livrando daquilo que não traz valor.
  • Um meio de identificar o que realmente traz valor à sua vida, e criar uma identidade própria e única.
  • Um meio de economizar dinheiro tanto na hora de comprar alguma coisa ou deixando de comprar, evitando custos de oportunidade destrutivos.
  • Um meio de ter mais flexibilidade na vida, podendo viver sem carregar passivos aonde quer que vá.

Eu acredito que, tal como o minimalismo, o FIRE traz suas melhores recompensas também quando pensado num meio ao invés de um fim. Seguindo a analogia, apenas acumular um montante de dinheiro e viver dos seus proventos não me parece ser um objetivo que trará felicidade duradoura. Como um meio, porém, provém uma filosofia de vida libertadora contra a infâme corrida dos ratos prende tantas pessoas aos seus empregos.

Com isso, continuo tentando abraçar o minimalismo na minha vida, mas sempre com uma pitada de sal contra os aproveitamentos da mídia em capitalizar em cima do conceito-base. Prática, e não alcance, do minimalismo parece ser uma das chaves para uma vida com mais realização e sentido.


Como você enxerga o minimalismo e o FIRE: um meio ou fim? Quais tentativas de capitalização do marketing você já viu em cima destas filosofias? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Um comentário sobre “Faux-Minimalismo: quando o menos nem sempre é mais (para as finanças)

  1. Pingback: Ninguém se importa com o que você faz – e por isso, você é livre – Pinguim Investidor

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