Como funciona a margem de segurança nos investimentos?

The three most important words in investing: Margin of Safety. – Warren Buffett.

Se você já leu alguma literatura sobre o Warren Buffett, é provável que já tenha ouvido falar do termo margem de segurança, um conceito tão fundamental sobre o jeito dele investir e uma estratégia crucial em diversos outros conceitos da vida. Desde o gerenciamento de riscos, planejamento financeiro pensando em reserva de emergência, e na sua própria alocação de ativos compondo sua carteira de investimentos, sempre há o conceito da margem de segurança por trás da sua estratégia, silenciosa mas certamente garantindo que você estará resguardado no caso do pior acontecer.

Buffett é provavelmente a figura mais famosa a referenciar tanto este conceito da margem de segurança, mas a verdade é que não foi ele o autor original desta idéia. Como quase tudo na história das coisas de sucesso, Buffett adaptou a idéia original criada pelo seu mentor Benjamin Graham, que teve que aprendê-la na marra após ver quase todo seu patrimônio derreter no Crash de 1929.

Lastreando-se em alguns conceitos simples, Graham e Buffett desenvolveram uma estratégia que ao longo do tempo se tornou extremamente eficiente para produzir retornos aos investidores, sendo provada novamente geração atrás de geração – inclusive até pela estrela do crash do Subprime Americano de 2008, Michael J Burry.

Como uma estratégia tão simples e tão antiga consegue até hoje trazer tantos retornos ao investidor? Como ela funciona? Vejamos neste artigo.

A origem da margem de segurança

Para entendermos o que é a margem de segurança e como ela funciona, nada melhor do que voltarmos quase um século atrás para ver o contexto de como ela foi concebida.

Na década de 20, Benjamin Graham, um imigrante judeu pobre em Nova Iorque, estava disposto a virar o jogo na sua vida como muitos outros imigrantes. Ele havia visto sua mãe Dorothy perder quase todo o dinheiro deixado pelo seu pai fazendo trading com ações e sabia que deveria ter uma forma melhor de aproveitar estes ativos. Buy and hold parecia muito mais certeiro numa economia que só tendia a crescer, fazendo as empresas das quais era acionista se valorizarem sem fim. Isto é, até um dia marcante no Outono de 1929.

Como os milhares de investidores pegos “de surpresa,” Graham perdeu quase todo o seu dinheiro com o crash de 1929, um acontecimento que o marcou para sempre, ensinando-lhe uma dura lição: o mercado nem sempre é racional na sua precificação de seus ativos. Ao contrário dos outros milhares de investidores que pararam de acreditar na bolsa, porém, Graham tornou esta experiência numa ótima chance de aprendizado.

Após observar o maior desastre financeiro da sua vida, Graham concluiu que o único jeito que um investidor poderia comprar ativos financeiros com garantia que não perderia dinheiro é quando o mercado estivesse os precificando abaixo do seu valor real – o contrário do que o resto fazia. Quanto mais abaixo do valor real do ativo, maior segurança o investidor teria contra alguma crise econômica como acontecera com ele. Esta diferença entre o preço de compra e o valor do ativo é a margem de segurança que o investidor possui. Embora não possa garantir que você irá enriquecer, ela pode garantir pelo menos que a compra não irá deixá-lo pobre.

Graham publicou este seu estudo em seu famoso livro O Investidor Inteligente, que foi algumas décadas posteriormente adotado pelo seu discípulo mais famoso – Warren Buffett de Omaha, que tornou o princípio bem conhecido ao redor do globo por conta da sua performance astronômica.

A sua simplicidade realmente impressiona: compre ativos que estão com preços suficientemente baixos em relação ao seu valor. Porém, na prática, encontrar uma estimativa correta para o que é de fato o valor de um ativo é mais complicado do que parece. A ciência do valuation, considerada pseudociência e prone a manipulação por alguns, busca responder esta questão milionária. E gostando ou não dele, alguma forma do valuation é necessária para calcular esta variável importante do valor intrínseco.

Valor intrínseco e a evolução financeira

A teoria do tolo maior nos diz que não há um valor absoluto que podemos atrelar à alguma coisa: há apenas o valor que as pessoas estão dispostas a pagar. Tal filosofia é condizente com a origem de todas as bolhas especulativas que aconteceram na história, mas para calcularmos a margem de segurança, precisamos de fato ter algum número como base. Entra em cena o valuation.

O valuation busca remover toda a hype, euforia ou depressão da análise de um ativo através da análise crua e fria dos números financeiros deste, e concluir a análise chegando a um número, que representa o preço justo e real do ativo em questão. Segundo esta análise, se feita corretamente não há nenhuma sombra de subjetividade humana, e este número representa o preço real, completamente livre de especulação que o ativo possui. E é em cima deste valor intrínseco que a margem de segurança deve ser aplicada.

Embora eu não seja um especialista em valuation, esta é uma explicação rápida de como funciona. O valor intrínseco do ativo é calculado baseado em projeções futuras de fluxo de caixa que a empresa deve receber com base na sua performance até hoje. Como não é possível repassar completamente o lucro para os investidores (é preciso consertar o maquinário, reinvestir em infraestrutura maior e melhor, pagar e contratar funcionários, etc), é preciso considerar esta diversão do fluxo de caixa antes de se calcular o valor final entregue aos acionistas, chamado em inglês de owners’ earnings.

Além disso, há o efeito da inflação a ser considerado. Como o dinheiro de daqui a dez anos não valerá o mesmo que o de hoje, é necessário descontar do fluxo de caixa futuro a depreciação causada pela inflação para obter um valor futuro que é equivalente ao que pode ser pago hoje pela empresa. Ao final de uma análise considerando todos os efeitos “negativos” ao fluxo de caixa aos acionistas, o que temos é um valor final justo que reflete o preço justo da empresa pelo menos até 10 ou 15 anos à frente. Podemos então aplicar a margem de segurança: comprar apenas quando o preço advertido pelo mercado estiver significantemente abaixo deste valor intrínseco.

Algumas vezes uma imagem fala por 1000 palavras:

Como o Value investing funciona com a margem de segurança. Crédito: Arbor Investment Planner.

Abaixo do valor justo – compra. Acima – venda. Novamente, a simplicidade é plausível uma vez que o valor fora identificado. Porém este é o “X” da questão: será que vale a pena para você, pequeno investidor, investir seu tempo aprendendo a fazer um valuation preciso para conseguir “acertar” nos seus investimentos?

Vale a pena para o pequeno investidor seguir a margem de segurança?

Existem coisas ao investir que não fazem muito sentido quando não temos uma porção significante de capital investido, um exemplo sendo o famoso hedging dos fundos de investimento. Devo comprar ouro? Dólar? Commodities? Para o pequeno investidor não faz muita diferença.

Embora não hajam barreiras para a aplicação da margem de segurança, novamente o pequeno investidor provavelmente não vai ver muita diferença se pensar sempre em termos de margem de segurança e valuation, e se recusar a comprar até que seus ativos desejados cruzem o threshold de segurança (exceto talvez durante uma crise generalizada). Isto é porque, segundo estudos nos Estados Unidos, esta técnica, apelidada de buy the dip (compre o fundo), ao longo prazo não ganha de uma outra técnica muito mais simples: o Dollar-Cost Averaging.

Em Português pleno, isso significa que vale muito mais à pena o pequeno investidor simplesmente comprar um pouco à cada mês com regularidade a fim de criar um preço médio e construir seu patrimônio constantemente. As chances que você conseguirá prever o próximo “fundo” do mercado com precisão são muito pequenas, e você não é o Warren Buffett nem possui sua alavancagem líquida para comprar “caminhões” de ações quando a oportunidade surgir.

Ainda assim, a margem de segurança não deve ser ignorada por completa. Ainda há um lugar para ela em sua análise como, por exemplo, saber quando um ativo está superprecificado e comprar um outro a um preço melhor, melhorando seu poder de compra. No Brasil, o Décio Bazin refraseou este mesmo conceito sob a ótica de um outro indicador: o dividend yield.

O “método Bazin,” como ficou conhecido em seu livro, consiste em comprar ativos de qualidade apenas quando seu DY for superior a um certo valor, geralmente 6% ao ano. Esta técnica é condizente com a margem de segurança porque indica que a empresa continua pagando bons dividendos mesmo com um preço depreciado – resultando numa boa oportunidade de compra. Mas novamente, se você sempre esperar por esta oportunidade, poderá perder a oportunidade de construir seu patrimônio e arrecadar renda passiva durante este mesmo período.

Eu particularmente utilizo a margem de segurança para o meu planejamento de reservas de emergência e como um indicador secundário sobre os ativos que invisto. Não deixo-a ditar se devo deixar de comprar no momento, mas a utilizo como um alerta quando estes estão muito acima do justificável. Acredito também que todo investidor deveria entender pelo menos um pouco sobre estes dois conceitos – margem de segurança e valuation – portanto, estes são dois livros que li e me ensinaram bastante sobre estes assuntos:

  • The Warren Buffett Way – Robert G Hagstrom. Ensina como Buffett pensa e aplica a margem de segurança em suas decisões.
  • The little book of Valuation – Aswath Damodaran. Valuation na prática e com dados históricos, perfeito para quem não quer um curso inteiro.

Como você aplica a margem de segurança nas suas decisões financeiras? Acredita que não é necessária para o pequeno investidor? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Roman Kraft on Unsplash

2 comentários sobre “Como funciona a margem de segurança nos investimentos?

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