Você não precisa ser especial em tudo para vencer

“Três meses atrás, eu estava pobre e endividado. Hoje, tenho mais de um milhão de dólares e renda passiva constante graças a meus negócios online que desenvolvi com esta técnica especial, que vou compartilhar com você neste curso exclusivo!” – Algum influencer no YouTube.

Bilionários, campeões mundiais, recordistas olímpicos, experts do assunto, superlativos, número 1 de alguma coisa. Você já ouviu falar nestas pessoas ou, se procura se desenvolver com frequência, provavelmente pesquisa suas histórias regularmente. E enquanto elas podem ser um tanto inspiradoras para espelharmos nossos objetivos, se dependermos apenas desta parte da literatura para nos mentorar, acabaremos com expectativas surrealmente altas sobre o que é necessário para ter sucesso – o que é uma receita fácil para a decepção.

Ao passo que para alcançar o sucesso é necessário, sim, estar fora do conceito da média, há um desentendimento que surge quanto ao requerimentos de fato que compõem o sucesso. Tais desentendimentos são aumentados ainda mais por conta da nossa exposição constante às tais “histórias de sucesso” e outras imagens expostas de casos extraordinários de sucesso que são passadas como a única forma de suceder na vida.

Em primeiro lugar, as histórias destes superlativos são exceções dentre as exceções, e sua existência ao longo de diversas outras não tão destacadas significa que não são a única forma de se “ganhar o jogo.” Outro desentendimento é sobre o que significa ter sucesso em si. E é importante frisar o lugar destes superlativos no conceito de sucesso, pois do contrário, estaremos caindo num outro jogo nada relacionado ao nosso próprio planejamento: o do marketing.

Os problemas de procurar ser o melhor em tudo

Embora a posição de melhor em alguma coisa é extremamente desejável, é necessário saber em quais posições almejar ser o melhor é, de fato, beneficiente a você. Como elaborei num post anterior, para atingir o top 5 de alguma coisa, tudo o que você precisa fazer é ultrapassar os demais 95%, mas o grande jogo está em descobrir qual coisa vale a pena suceder.

Ao passo que muitos acreditam que é necessário suceder nos âmbitos onde os holofotes costumam focar: o melhor jogador de futebol, o melhor artista de cinema, a melhor banda, o investidor mais bem-sucedido… Mas a verdade é que as chances de você como um novato se destacar e suceder num nestes nichos é muito baixa – especialmente se é o primeiro lugar que você está esperando. Muita competição e requerimentos acirradíssimos tornam a seleção um processo difícil. Além disso a partir de um certo nível, a diferença de habilidade se torna mínima para os olhos leigos. Isto é: a pessoa já é tão boa que suas habilidades conseguem satisfazer com facilidade qualquer requerimento normal.

Consideremos o golfe, por exemplo. Não há dúvidas que seu melhor jogador de todos os tempos – disparado – é o americano Tiger Woods. Ao contrário do Futebol, por exemplo, não há competição sobre quem é o melhor como Messi vs Neymar vs Cristiano Ronaldo vs Pelé – Tiger Woods está tão mais à frente do que o resto da liga que a competição simplesmente não existe. E esta jogada do próprio Tiger no USA Masters de 2005 é considerada a melhor jogada na história do Golfe (começa aos 20 segundos do vídeo):

Agora, você vê alguma coisa de mais no vídeo acima? Seja sincero – qual é a grande sacada dessa jogada que a torna tão importante? Como um leigo no esporte, eu sinceramente não enxergo o ponto importante dela. Aficionados do Golfe serão rápidos para me criticar, dizendo que houve um enorme planejamento e técnica para tirar a bola do bunker e encurvá-la no verde, mas vários outros jogadores profissionais poderiam ter este nível de jogo sem precisar fazer esta tacada em particular. Valeu a pena mesmo ser o melhor do mundo para só conseguir fazer esta tacada?

Outro exemplo no qual eu tenho um pouco mais de conhecimento: Wes Peden é um dos melhores malabaristas do mundo. Nascido nos EUA e formado pela Dans og Hogskolan da Suécia, Peden ganhou o International Jugglers’ Association Juniors Championship e foi votado como o melhor malabarista do ano consecutivamente de 2012 a 2019. Embora seja difícil achar um único feito no malabarismo equivalente à “melhor tacada da história do golfe,” eu pessoalmente considero esta sequência de início dele de 5 clavas (head balance, blind kick-up, 4-up multiplex in doubles + pirouette, cascade) como algo extremamente técnico e difícil:

Novamente, você vê alguma coisa de mais no vídeo acima? Valeu a pena ter começado a praticar malabarismo desde os cinco anos de idade e se formar numa escola profissional de circo para chegar neste nível? Já não seria impressionante o suficiente se você soubesse fazer uma fração do malabarismo que ele? Eu pessoalmente enxergo o valor por trás disso, mas é porque eu entendo do malabarismo.

Estes dois exemplos mostram que, depois de um certo nível de habilidade, não há mais diferença prática nos resultados. Para qualquer propósito prático e cotidiano, você já consegue satisfazer qualquer requerimento.

Quando investimos, a mesma coisa acontece: você não precisa copiar o Warren Buffett, nem buscar ser o próximo Warren Buffett para já ter um resultado excelente com o seu patrimônio investido. Simplesmente praticando os básicos, comprando menos passivos e adquirindo ativos pensando num ponto de vista previdenciário, você poderá melhorar muito a sua situação financeira e chegar à sua própria independência financeira.

Isso não significa que você pode ser letárgico na hora de suceder – você precisa sim se afastar da média, da manada, e das crenças populares sobre o dinheiro se quiser enriquecer. Mas a sua vitória não precisa ser a mesma que os Warren Buffetts e Ray Dalios cobiçam.

Defina o que é o sucesso antes que o definam para você

O ex-gestor do Fundo Magellan e figura influente dos investimentos Peter Lynch escreveu em seu livro One up on Wall Street que é possível para o pequeno investidor conseguir vencer um gestor de um grande fundo no quesito de investimentos. Inspirador que seja, muitas objeções foram levantadas quanto a este ponto, as quais Lynch justificou dizendo que as satisfações que os fundos devem aos seus cotistas, órgãos reguladores e empresas os seguram muito em termos do que seus gestores poderiam fazer – dependências que a pessoa física não possui.

Eu particularmente enxergo uma resposta diferente à estas objeções: a verdadeira razão pela qual o pequeno investidor triunfa é porque ele consegue criar e alcançar a sua própria definição de sucesso, sem depender de padrões estabelecidos por outros. Definindo a condição de vitória, as suas próprias regras, recursos e prazos, o pequeno investidor essencialmente cria um jogo que ele tem certeza que pode ganhar.

Você pode até considerar esta escolha mesquinha e covarde, mas veja a alternativa que a mídia lhe tenta vender. Se depender do Instagram, para vencer na vida, você deve:

  • Ter um carro de luxo comprado novo.
  • Ter gadgets e eletrônicos de ponta, renovados a cada lançamento.
  • Ter um cargo de – no mínimo – diretor numa empresa conhecida.
  • Viajar para locais paradisíacos pelo menos duas vezes por ano (providenciando fotos para provar).
  • Estar em forma física perfeita, e aparência impecável.
  • Família e filhos no mesmo nível de vida que você.
  • Acertar em tudo, nunca errar.

Ah, e não podemos esquecer:

É nesta liga que você quer mesmo jogar? É neste campeonato que você quer competir e vencer? O que você estar ganhando ou provando para alguém ao tentar “ganhar” aqui?

Esta é uma receita de bolo para um desastre emocional e financeiro, a qual eu me recuso a seguir. O FIRE me providenciou uma resposta alternativa a este estilo que a mídia tenta vender, uma que eu posso adaptar à minha própria realidade e vencer. Você também pode conhecer melhor sobre este caminho que eu e vários outros FIREs resolveram trilhar no meu livro, RICAmente, onde eu elaboro de maneira simples os passos para caminhar em direção à sua independência financeira.

Você precisa ganhar do leão?

Para concluir o post, segue uma metáfora que resume as vantagens e necessidades de “ser melhor.” É uma história que ouvi quando criança, mas se mantém verdadeira até hoje:


Durante uma exibição do circo local, o domador de animais perdeu o controle sobre o leão e este acabou se soltando do picadeiro, procurando furiosamente alguém para atacar. Ele olhou com sangue nos olhos para a platéia, que começou a se dispersar em pânico.

Neste momento, um homem da platéia se agachou para amarrar melhor seus sapatos e fez alguns alongamentos básicos para começar a correr, ao passo que um outro que o observava o criticou:

“Sua preparação é inútil. Um homem nunca vai conseguir correr mais rápido que um leão!”

Nisto, o outro retrucou: “Mas eu não preciso correr mais rápido que o leão. Eu só preciso correr mais rápido que você!”


E, simples assim, não precisamos sempre vencer o leão na vida. Na maioria das vezes, apenas vencer nossos vizinhos é suficiente. O melhor relativo muitas vezes é melhor que o melhor absoluto.

Como você enxerga os superlativos do sucesso contra os seus objetivos de vida? Acredita que sucesso absoluto é sempre necessário para vencer? Como lida com tais histórias de sucesso para se inspirar? Escreva nos comentários!

Bônus: e eis uma pequena prova que eu entendo de verdade quando se trata de malabarismo:

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Este post foi inspirado em parte pelo excelente artigo do Marcelo no site Vida Rica.


Photo by Razvan Chisu on Unsplash

9 comentários sobre “Você não precisa ser especial em tudo para vencer

  1. Pinguim Investidor,

    Muito bom o seu post.

    Em um mundo no qual saber muito sobre muitas coisas tornou-se quase que obrigatório, fazer o caminho inverso e se tornar expert em apenas uma área pode ser visto até como absurdo, mas também acredito que seja a melhor maneira de se conquistar algo na vida e se sentir bem por ter feito algo que valeu a pena.

    A sua lista de itens necessários para se vencer na vida mostra o quanto a corrida para o alcance de tais objetivos pode ser frustrante, pois a maioria não passa de uma idealização na qual nos querem fazer acreditar. Seria como a corrida de ratos, mas em relação a algo mais amplo da vida.

    Boa semana!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo elogio, Simplicidade!

      É verdade, tantos “requerimentos” surgiram sobre produtividade que, ao completarmos todos, nos tornamos completamente improdutivos.

      E você tem razão, tentar ganhar a vida ditada pela mídia é além da corrida dos ratos. É frustração personificada.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  2. Fala Pinguim!
    Rapaz, interessante analogia. Nunca tinha parado pra pensar desta forma.
    É claro que, ao falarmos de esporte, existem muitas variáveis – como talento nato, composição física, metabolismo, além – claro – de muito treinamento. Muitas vezes, vemos Olimpíadas ou Jogos Mundiais sendo decididos por um milésimo de segundo.
    No entanto, quando falamos do mercado financeiro, essa “preparação” que você menciona, funciona exatamente assim. Após um certo ponto, você já não agrega tanto valor aos conhecimentos financeiros. E, sinceramente, acho até mesmo que começa a perder tempo.
    Se desgatar buscando ter um resultado 0,1% melhor que os outros, acaba fazendo você perder foco de gerar mais renda ativa e poupar mais, para conseguir mais aportes.
    Ótimo post e reflexão.
    Ah, quase esqueço. Parabéns pelo malabarismo excepcional! Só consigo fazer bem com duas bolas. kkk, com três já fica complexo.
    Grande abraço, Stark.
    http://www.acumuladorcompulsivo.com

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo comentário, Stark!

      Concordo 100%. Quando você quer ser mesmo o numero 1, precisa sim daquela preparação. Mas para todos os outros casos não é necessário. Princípio de Paretto aplica bem aqui: 80% do conhecimento necessário em 20% do material.

      E o malabarismo é que nem o desenvilvimento pessoal: um pouquinho todo dia e você vai melhorando… quem sabe eu não faço um episódio disso? Hehe

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: O que o iPad Pro me ensinou sobre finanças – Pinguim Investidor

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