Aposentadoria móvel e flexibilidade – ainda podemos confiar na regra dos 4%?

A maior fraqueza dos adeptos à filosofia FIRE (acrônimo para independência financeira, aposentadoria precoce em inglês) é a mesma coisa que os torna poderosos em primeiro lugar: os seus investimentos. Quando seguimos a filosofia à risca, buscamos acumular patrimônio investido para obter renda passiva o suficiente para cobrir todos os nossos gastos de vida – numa condição conhecida como Independência Financeira. Um conceito simples, mas que revolve em torno de uma questão de ouro: quanto, exatamente, é necessário para isso acontecer?

Como praxe, utiliza-se uma famosa guia conhecida como regra dos 4%, descoberta inicialmente pelo americano William P. Bengen em 1996. O estudo de Bengen e o Trinity Institute concluiu que, historicamente falando, recém-aposentados poderiam sacar anualmente até 4% das suas carteiras de investimento sem ficar sem dinheiro durante o resto da vida. Este número ficou tão famoso que nomeou a regra, e ficou conhecida como taxa segura de retirada (TSR).

Por trás da brilhante simplicidade desta fórmula, porém, existem vários pressupostos ocultos que, embora comuns no ambiente estudado por Bengen, podem ser longe da realidade de um FIRE brasileiro. E quando sua estratégia inteira de aposentadoria se baseia nesta única fórmula, um erro de cálculo pode se tornar um desastre no longo prazo.

Durante o começo da crise do coronavírus em 2020, muitos corretamente se questionaram sobre a validade da regra dos 4% num ambiente econômico mais volátil e menos maduro como o Brasil, culminando com o post da Yuka do Viver Sem Pressa onde ela disserta sobre a necessidade da flexibilidade numa vida pós-FIRE no Brasil. E em meio a tudo isso, com a bolsa novamente se recuperando, a velha pergunta permanece: ainda podemos confiar na regra dos 4%, afinal?

A realidade é que, embora sua aplicabilidade seja duvidosa num cenário de países em desenvolvimento, ainda podemos utilizá-la como um guia para o nosso macroplanejamento financeiro. Veja neste post como.

Aplicabilidade da Regra dos 4% no Brasil

Primeiramente, é necessário fazer observação importante quanto à literatura FIRE em geral. Em sua maioria esmagadora, ela é escrita por investidores norte-americanos (Estados Unidos e Canadá), sobre o mercado norte-americano, e quanto ao padrão de vida norte-americano. Ler sobre a taxa segura de retirada no mar de blogs FIRE e finanças e livros em Inglês é tão comum quanto as recomendações de investir em Index Funds, parecem se encaixar perfeitamente neste contexto.

Porém, ao tentarmos migrar e aplicar estes mesmos conceitos para o Brasil, várias inconsistências aparecem. Index Funds tais como os da Vanguard são uma utopia no Brasil, e suas “alternativas próximas” como BOVA11 simplesmente não decolam. Uma estratégia de investimento imobiliário a-la Robert Kiyosaki seriam ilegais pelo código Brasileiro. E, acima de tudo, viver colhendo 4% de juros dos investimentos é bem mais arriscado por aqui.

Já houve a época quando aplicar a TSR no Brasil era tão simples quanto aplicar dinheiro no Tesouro Selic e esperar os juros baterem com folga a margem mínima dos 4%, até mesmo depois do imposto de renda. Com a constante queda da taxa Selic nos últimos anos, porém, este “paraíso da renda fixa” não é mais possível. Isto também ilustra um outro ponto importante: quando os juros são alterados constantemente, não temos previsibilidade nenhuma para predicar a aposentadoria de uma forma tão estática. Utilizar esta estratégia com outros o Tesouro IPCA igualmente é difícil de prever, dada a variabiliade do preço do título ao médio e curto prazo.

Aplicar a TSR a uma carteira de renda variável igualmente é pouco previsível por conta da imprevisibilidade do mercado em intervalos curtos de tempo, embora tenha sido este exato modelo de carteira (mix de bonds e stocks) que Bengen havia considerado no seu estudo inicial.

Imagine, por exemplo, se você segue a regra dos 4% à risca e saca anualmente 4% do seu patrimônio inteiro de uma só vez para passar o ano (que é, por sinal, a recomendação do FIRE Americano). Você escolhe um mês do ano onde resolve sacar dinheiro o suficiente para você passar o ano inteiro como um salário ou mesada, e não pode atrasar ou adiantar muito em relação à data escolhida pois a quantia é sempre bem contada.

Se você tivesse sacado (isto é, vendido parte das suas ações) em Dezembro de 2019 em preparação para o ano seguinte, teria tido um montante excelente para passar o ano. Se tivesse esperado o ano virar para sacar em Fevereiro de 2020, porém, teria um montante péssimo. É simplesmente impossível tentar prever quando vai ser a melhor hora para vender as ações – especialmente quando elas são de fato sua previdência. Para um FIRE tranquilo, não dá para alternar entre anos de vacas gordas ou magras.

Sem falar que seguir esta linha de raciocínio de vender periodicamente ignora outra das maiores vantagens de se investir em renda variável: os proventos como fonte de renda passiva. É como se você estivesse sempre vivendo para engordar o gado e as galinhas para o abate, quando poderia muito bem colher o leite e ovos, e inclusive vendê-los.

Embora a aplicabilidade da regra dos 4% seja pouco consistente num cenário como o do Brasil, ainda assim temos casos onde podemos fazer uso dela para planejamento pessoal. A TSR ainda oferece uma maneira simples e rápida para estimar por alto quanto dinheiro você precisaria neste momento exato, especialmente se utilizarmos a sua forma mensal da regra dos 300 – onde você multiplica os seus custos de vida mensais por 300 para achar o montante mínimo para aposentadoria via TSR. E como os números produzidos pela TSR geralmente são muito grandes, ela ainda produz o benefício colateral de ajudar você a pensar grande, considerando inclusive algumas camadas de segurança antes de alcançar o seu objetivo financeiro.

Com tudo isso considerado, quando se trata de mensurar objetivos financeiros e a minha saúde financeira como um todo, minha preferência pessoal é utilizar outras métricas além da regra dos 4%.

Alternativas de como calcular a sua quantia necessária para aposentar

Pessoalmente, quando se trata da minha situação financeira atual, nenhuma outra métrica é tão relevante quanto a quantidade de renda passiva que consigo gerar com os meus investimentos.

Como Grant Cardone costuma dizer, o dinheiro em si é inútil – o verdadeiro valor está no fluxo de caixa que o dinheiro pode te trazer (cash is useless; cash flow is king). E é a totalidade da minha renda passiva, tal qual a oriunda das minhas outras fontes de renda além do meu emprego, que me torna cada vez mais livre e independente do meu trabalho atual. E quanto maior e mais diversificada, mais próximo eu me torno de completamente financeiramente independente, trabalhando ativamente ou não.

Portanto, ao passo que a regra dos 4% me serviu bem para traçar meus horizontes iniciais, atualmente utilizo outra forma para calcular minha distância da independência financeira: a curva do yield. Para isso, calculo o dividend yield do meu portfólio total dividindo a média dos meus últimos seis dividendos pelo total investido atualmente. Pegando emprestado a conta da TSR, divido os meus custos de vida atuais pelo yield médio, resultando no montante mínimo em renda variável que preciso ter para bancar este custo. Matematicamente falando, se torna:

Quantia mínima em RV = Custo de Vida mensal / (Média mensal dos dividendos / Montante atual)

Se você comparar o resultado desta conta com a TSR, verá que a quantia é significantemente menor, o que é animador, mas temos que considerar que esta deve ser o seu montante em renda variável apenas, ao passo que via TSR pode ser misturado com renda fixa. Adotar esta filosofia pode ser um grau de risco maior do que a sua situação atual, e você deve ponderar sua tolerância à risco quando considerá-la.

Existe algum “atalho,” truque ou macete para acelerar esta fórmula e chegar lá mais rápido? Como quase tudo nas finanças, infelizmente não. O seu trabalho duro bem-investido ainda é a melhor fórmula. Porém, durante esta quarentena, um dos livros que li mostrou uma abordagem interessante de um FIRE flexível que, embora ppossa não ajudar muito a atingí-lo mais rápido, pode garantir que os proventos FIRE durem muito mais tempo, até mesmo durante uma crise na bolsa como vimos recentemente.

Mobilidade e flexibilidade contam? Estendendo o poder do FIRE

Em seu livro Quit like a Millionaire, a autora FIRE canadense Kristy Shen detalha a sua jornada desde uma pobre infância até a independência financeira aos 30 seguindo uma receita simples de ganhar, poupar e investir. O que é interessante é que Shen sobreviveu duas grandes crises financeiras no seu caminho FIRE, sendo uma delas semanas após ela sair do seu emprego e se autodeclarar como aposentada. Ou seja: o verdadeiro cenário do pesadelo que descrevemos anteriormente.

Shen e seu marido não só sobreviveram à esta crise num tempo crítico do FIRE (muitos concordam que a performance inicial do recém-FIRE decide se ele conseguirá sobreviver), mas também enriqueceram durante os anos seguintes graças a algumas ferramentas financeiras e outra carta na manga: flexibilidade dos seus padrões de vida.

Primeiramente, Shen possuía duas grandes defesas que amenizaram os impactos negativos de vender ações durante a crise: sua reserva de emergência e o que ela batiza de yield shield. Visto que seus ativos estavam com preços depreciados, Shen optou por segurá-los e utilizar os seus proventos como fonte de renda FIRE temporária, mesmo que sozinhos insuficientes para sustentar um ano inteiro de vida. Combinando estes proventos com a reserva cobrindo o resto, ela conseguiu sobreviver à crise sem sacrificar seu portfólio, que se recuperou e pôde ser utilizado normalmente nos anos seguintes. Este exemplo mostra quão importante é ter a reserva além das suas fontes de renda.

Além das ferramentas financeiras, Shen nos mostra um outro truque que utilizou para “estender” a capacidade do seu portfólio FIRE: morar em lugares mais baratos. Seguindo um padrão cada vez mais comum entre os FIREs, ela tornou sua vida de aposentada numa viagem constante, morando meses em cidades e países diferentes, misturando moradia com turismo. Esta é uma opção atrativa para aposentados com renda em dólar ou outras moedas fortes, e faz sentido para a comunidade FIRE norte-americana, que pode fazer seu dinheiro render mais em quase qualquer outro país do mundo.

Para um FIRE brasileiro, porém, esta opção é muito mais limitada. Especialmente com a desvalorização serial do Real em relação ao Dólar, é difícil fazer uma renda passiva em Reais render mais em países atrativos para aposentadoria, como na Europa ou no sudeste da Ásia. Parece que na Tailândia, porém, um FIRE brasileiro poderia em teoria prosperar, já que atualmente R$1 está cotado como 6.25 Thai Baht (oposto do dólar!). É só não ficar nas áreas turísticas!

Mais realisticamente, FIREs brasileiros poderiam aplicar a estratégia dentro do próprio país, procurando cidades no interior com custos de vida menor e maior qualidade de vida. Cidades na região sul são bem atraentes. É preciso considerar, porém, que embora alguns custos como moradia e serviços se tornam mais baratos, a menor infraestrutura pode aumentar outros custos, como o de transporte com carro. Indo um pouco mais além, países vizinhos como o Uruguai e a Argentina são também possibilidades positivas para a renda em Reais.


Você utiliza a regra dos 4% como estimativa do quanto você precisa para se aposentar financeiramente? Acredita que é uma forma segura de planejar o quanto precisará numa vida pós-FIRE? Estaria disposto a se mudar para aumentar o seu poder de compra pós-FIRE? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

20 comentários sobre “Aposentadoria móvel e flexibilidade – ainda podemos confiar na regra dos 4%?

  1. Nunca gostei da regra dos 4% e o começo do desgosto foi já no nome “regra”, já que pra mim tudo é adaptável e regra da uma conotação fixa.

    Achei o post muito bom e interessante, sou da filosofia que quando a hora chegar cada um vai bolar um jeito de curtir a IF da melhor forma personalizada possível =)

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo comentário Thiago!

      Realmente, se seguirmos “regras” na risca nos investimentos, não temos liberdade ou agilidade para melhorar. Eu concordo 100% com você: nós temos que saber algumas das formas de nos planejar e executar, e decidir depois por nós mesmos.

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. Concordo plenamente, Pinguim. Gostei do post, foi muito útil para mim. A regra dos 4% funcionou muito bem para mim durante anos, foi inclusive o que balizou o início da minha trajetória FIRE. Conforme vamos acumulando patrimônio, estudando e amadurecendo conceitos, a gente passa a compreender que não precisamos ficar em apenas um conceito. Obrigada, pela citação ao blog!!!! Beijos.

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  5. Melhor esse seu esquema de dividendos. Regrinha de 4% só serve pra vc começar, do meio da jornada pra frente vc tem que partir pra um calculo mais individual. Agora, no calculo por dividendos tambem é complicado né ? Porque os dividendos variam, vc tem que acertar um alvo movel. Com que yield basico vc tem trabalhado ?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Vagabundo,

      Sou bem conservador com yield de 0.5% ao mês. Atualmente está bem acima da média dos FiIs, mas sei que é temporário (Covid e os shoppings). Na minha experiência, caminha bem com o que recebo dos FiIs.

      Como você calcula os seus?

      Abraços e seguimos em frente!

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      1. Eu nao vivo de dividendos mas no momento estimo 6,5% ao ano pros meus FIIs e 3% para as ações. Baseado na minha performance em anos anteriores e um pouco de pessimismo por causa desse ano maluco.

        Curtido por 1 pessoa

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