Sobra cognitiva e a quarentena

A quarentena global que o COVID-19 impôs à todos foi sem dúvida um efeito contra o qual quase não foi possível prever. Com milhões de pessoas confinadas às suas casas, e, subitamente com todo aquele tempo que a princípio nunca conseguiam reservar de volta às suas mãos, igualmente elas não estavam preparadas para o que aconteceria em seguida. Num ambiente estranho, um home office que cada vez mais “home” do que “office” perfeito para aumentar as distrações, e com vastas oportunidades para procrastinação facilitadas como a abertura dos canais de TV a cabo, disponibilização de programação de entretenimento gratuita, simplesmente não pudemos resistir a uma tendência natural do ser humano: a procrastinação.

Se você acha que esta tendência a procrastinar é algo moderno, fruto de um mundo repleto armadilhas de atenção – como cada um dos seus aplicativos no seu smartphone – porém, pense novamente. A verdade é que durante cada fase da evolução da sociedade humana como um todo, todas as vezes que alguma grande invenção ou descoberta é feita que libera mais tempo para as pessoas, a tendência à procrastinar imediatamente se instala. Um grande exemplo foi a crise do Gin de Londres no Século XIX, onde um país recém-transformado pela revolução industrial encontrou grande parte da população ociosa na maior parte do dia, sem mais precisar trabalhar horas por dia no arado para receber comida, por exemplo. Para “passar o tempo” antes impossível de ser obtido, as pessoas passaram a se intoxicar com álcool, especialmente o forte Gin da época.

Tendências como esta nos mostra um exemplo de sobra cognitiva, onde as pessoas recebem a oportunidade (seja em tempo, segurança ou realização fisiológica) de utilizar seu intelecto, mas acabam por disperdiçá-lo em prol do ócio ou outra atividade não-produtiva. Este termo foi criado pelo sociólogo americano Clay Shirky em seu livro Cognitive Surplus para descrever a tendência atual que, graças aos nossos dispositivos e entretenimento disponível 24 horas por dia, ignoramos nosso potencial cognitivo para “descansar a mente” com entretenimento e outros disperdícios mentais. E especialmente durante esta quarentena do COVID-19, pudemos ver a estensão que esta sobra cognitiva pode ter, começando na nossa própria rotina.

É importante observar a nossa própria sobra cognitiva como uma reflexão sobre o quanto estamos produzindo durante esta quarentena. E embora este tópico possa esbarrar na constante fala de produtividade, há um assunto mais profundo sobre o desenvolvimento pessoal que precisamos observar nestes casos: o nosso constante aprendizado.

O custo de cognição perdida

Clay Shirky exemplifica a sobra cognitiva com o grande vício em bebidas alcólicas que dominou Londres em meados do século XIX. A revolução industrial, alimentada pelo maquinário movido a vapor, aliviou a necessidade do extensivo trabalho que existia para conseguir realizar as tarefas diárias para a sobrevivência, como obter comida, água e produzir coisas para vender. Quando os cidadãos britânicos viram as máquinas a vapor reduzirem o tempo necessário do trabalho a ponto de devolverem horas dos seus dias, uma grande pergunta começou a pairar: o que fazer com tanto tempo livre agora? A resposta mais simples foi se intoxicar com álcool.

Se você acha que a primeira época da proibição começou com o Al Capone nos anos 20 dos Estados Unidos, reconsidere. Quando o governo britânico, frustrado e assustado com a bebedeira que havia tomado conta das ruas de Londres, tentou ilegalizar o Gin para conter a desordem, um grande tráfico de Gin começou numa escala não diferente do sistema de Capone e seus bootleggers. E para quem pensa que o problema dos britânicos não se repete hoje em dia, basta apenas olhar no bolso e achar o seu smartphone. Este dispositivo é 100% projetado para capturar um recurso que hoje é tão valioso quanto escasso: a sua atenção.

Somos bombardeados por notificações todo o tempo que nos distraem e trazem para dentro de sites e aplicativos designados para nos manter envolvidos o mais possível.

A solução que eventualmente funcionou? Investir em parques públicos, bibliotecas e outras formas de entretenimentos sociais sóbrios – que eventualmente tomaram o lugar da bebida como o passatempo preferido. Logo, as pessoas não mais recorriam à bebida de maneira automática, e a ordem se re-estabeleceu.

Este acontecimento ilustra como apresentando uma tarefa ou acontecimento mais interessante do que a alternativa da procrastinação evita que a nossa sobra cognitiva acumule e se torne eventualmente destrutiva. Começamos de forma inocente, sem perceber: só um post no Facebook, só mais um vídeo no YouTube, um GIF animado a mais engraçado… e quando se vê o dia vai embora sem você conseguir ter aproveitado dele. Repita isso durante meses e anos, e vemos por que a grande parte das pessoas nunca consegue melhorar sua situação atual. O segredo aqui é quebrar este círculo vicioso e colocar a nossa cognição para trabalhar num ciclo de melhoria constante, ainda que em incrementos pequenos.

Uma das melhores formas que eu encontrei para me reestabelecer neste ciclo de melhoria constante foi justamente através do aprendizado diário.

Aprendizado: a arte de se reinventar todos os dias

Quem diz não gostar de aprender alguma coisa nova está mentindo. Todos gostam de aprender – embora são poucos os que gostam de estudar. E é no aprendizado que conseguimos vencer tanto o acúmulo da sobra cognitiva quanto um outro velho inimigo da felicidade – a adaptação hedônica. Que forma melhor de se reinventar do que aprender uma coisa nova a cada dia ou semana?

Durante esta quarentena, não só realizei grandes aportes financeiros aproveitando a baixa temporária nos preços, mas também foquei minha energia num outro grande investimento pessoal: aprendizado de novas habilidades e novo conhecimento. Aproveitei para estudar bastante sobre empreendimento e investimentos, mas também resgatei alguns hobbies antigos como o do Linux, voltando a estudar administração de servidores, virtualização, Python e SEO. Nenhum destes assuntos me pareceu maçante, e me agregou conteúdo com potencial marketável (retorno no investimento positivo ao longo do tempo!)

Editando posts para o blog diretamente do terminal!

Aprendi e ver o aprendizado como uma forma de reinventar meu cotidiano todos os dias. Seja aprender uma coisa nova, um jeito novo de fazer uma coisa antiga, ou aperfeiçoar uma habilidade anteriormente faltosa que eu tinha, é no aprendizado – devagar ou rápido – que tenho driblado a adaptação hedônica e feito bom uso da minha sobra cognitiva durante tempos de isolação artificial. E isto têm feito toda a diferença para a minha realização pessoal de longo prazo.

Seus objetivos para as próximas semanas

Desafio você a tomar a mesma atitude que tomei quanto ao aprendizado e começar a fazer bom uso da sua cognição ociosa.

Reveja alguma coisa que você começou no passado e largou, pensando em continuar em algum tempo no “futuro.” Encare aquele desejo que você sempre teve de fazer aquela coisa que admira, mas sempre adiava a oportunidade para começar. Considere alguma coisa que você já faz atualmente e repense como você pode fazê-la de forma diferente ou melhor.

Utilize os próximos dias e semanas como uma oportunidade para aprender ou reaprender tudo aquilo que você não tinha tempo para tentar. Pois uma coisa é certa: quando tudo isso acabar e a situação geral se normalizar, você sentirá uma imensa falta deste tempo atualmente (exceto se você já tiver independência financeira).


Como você têm utilizado o seu tempo durante a quarentena? Acredita que está fazendo bom uso da sua sobra cognitiva ou poderia aproveitá-la de alguma forma melhor? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Clay Banks on Unsplash

2 comentários sobre “Sobra cognitiva e a quarentena

  1. Olá Pinguim. Ótima reflexão. Tenho vários cursos de interesse para fazer. Mas, (in) felizmente não entrei em quarentena. A empresa que trabalho é de um segmento que parou apenas por uma semana. Como principal executivo, também não tive folga nesta semana hehe, mas faz parte. Estou feliz que, ao menos, minha renda não foi tão severamente afetada como a maior parte da população mundial. Mas vale muito essa reflexão. Usar este tempo de forma inteligente é crucial. Estou usando o resto do tempo do dia para emagrecer e tenho obtido grandes resultados. Focando mais na alimentação caseira e em exercícios. Parabéns e o obrigado pelo post. Abraços, Stark.

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  2. Pingback: O que dá mais felicidade: dinheiro ou liberdade? – Pinguim Investidor

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