Quantas aposentadorias você já gastou na vida?

Solange mistura o açúcar no café olhando para baixo. “Está ficando difícil, Pinguim,” ela diz. Do auge dos seus 36 anos de idade e uma carreira brilhante de uma próspera empresa, a gerente de operações passa uma tarde de sábado em off comigo conversando num restaurante e me contando como estão as coisas e como vai sua vida ultimamente.

Uma pessoa trabalhadora, batalhadora e – há quem diga – para quem a sorte sorriu mais de uma vez, Solange veio de uma pequena cidade do interior do Rio de Janeiro para começar a vida profissional na cidade maravilhosa. Terminada a faculdade, conseguiu um emprego rapidamente e viu sua carreira subir de forma brilhante. Tornou-se o braço direito de vários diretores da empresa e obteve um salário de cinco figuras numa rápida escala, mergulhando assim na vida dos ricos rapidamente.

Esta mudança brutal, porém, não passou despercebida: Solange ajustara seu estilo de vida quase que imediatamente para “fazer jus” ao seu novo patamar salarial. Dez mil reais ao mês e obteve um carro novo. Quinze mil ao mês, seu primeiro apartamento comprado. Vinte mil, mudou-se com o marido para o segundo, e maior, apê. Isto sem contar viagens e procedimentos que “rechearam” os gastos entre um aumento e outro.

Solange nunca foi inconsequente com seus gastos, e felizmente nunca contraiu uma dívida ou passou por apertos financeiros. Ela sempre soube da importância de poupar para satisfazer seus desejos financeiros de curto prazo, e munida de um salário a princípio infindável, conseguia facilmente atendê-los sem risco ou sacrifício algum.

Por trás desta vida a princípio perfeita, porém, haviam muitos problemas enterrados. O ambiente de trabalho era pesado. Em algum momento nos últimos cinco anos, a situação começou a afundar. O prazer em servir e ser produtiva foi se esgotando. O trabalho passou a ser mais um fardo do que uma fonte de renda, e ela se tornou cansada daquelas cobranças constantes e broncas vindas do “alto escalão” imperfurável da empresa. E mais recentemente, tornou-se saudosa, pensando na sua vida de infância e adolescência na pequena cidade de onde veio, onde tinha uma vida pacata e tranquila, e como era a vida lá sem a pressão que sofre atualmente.

“Desejo muito voltar, viver perto da minha mãe e da minha família. Mas temo que nunca mais vou conseguir encontrar um emprego com um salário destes se eu fizer isto. A verdade é que eu não posso sair deste emprego. Por isso continuo aqui, me arrastando diariamente para sobreviver.”

E com as lágrimas se formando nos seus olhos, naquela hora tive que encará-la para lhe falar uma dura lição. Uma lição que ela não queria ouvir, mas provém a dura verdade. E a verdade é que a Solange já poderia ter se aposentado e saído deste emprego há anos – mas ela optou por gastar esta liberdade comprando outras coisas que julgou mais importante.

Você deixaria um passivo custar a sua liberdade individual?

A lição básica para todo mundo que deseja enriquecer é baseada no conceito fundamental de ativos e passivos. Aqui, a clássica definição do Robert Kiyosaki encaixa-se perfeitamente: ativos colocam dinheiro no seu bolso, passivos tiram dinheiro do seu bolso. Esta definição simplista e racional deveria ser suficiente para convencer qualquer um que para enriquecer você deve eliminar passivos da sua vida, e focar em comprar apenas ativos.

Infelizmente, um jogo de emoções e desejos e bilhões de dólares em propaganda contamina nosso julgamento, podendo nos convencer até que alguns dos passivos comuns da vida são equivalentes a investimentos em ativos financeiros. O carro próprio, por exemplo é um drama clássico da classe média: sonho de consumo abrangente e cativante, mas que não traz nada de valor financeiro. Ainda assim, a classe média e cada vez mais a classe baixa insistem em obtê-los muitas vezes por nenhuma outra razão do que uma simples e pura massagem no ego.

Qualquer que tenha sido as razões da Solange, o fato é que cada passivo que ela obteve se tornou uma âncora que a segurava de alcançar sua própria liberdade. Um salário alto não é suficiente para se manter um estilo de vida exagerado para sempre, nem mesmo para os artistas com cachês milionários, quando parte nenhuma deste salário é dedicada ao planejamento do seu futuro.

Ao “nivelar” sua vida com os avanços de salário e carreira, Solange essencialmente optou por trocar sua liberdade individual por passivos que simplesmente passaram a custar mais dinheiro ao longo do tempo. O trabalho para ela agora será em dobro: tanto para recuperar o dinheiro gasto nos passivos e também para arcar dos custos que se acumulam simplesmente de tê-los atrelados à sua vida. Se levarmos em conta um estilo de vida assalariado, isso significa que ela teria que trabalhar o dobro de horas para simplesmente chegar no zero-a-zero financeiro de ter comprado estes passivos.

E infelizmente, graças ao custo de oportunidade enorme na magnitude das suas compras (casas e carros), ela pode ter bem gastado a sua chance de conseguir se aposentar.

Gastando uma aposentadoria em meia vida

A parte mais assustadora da história da Solange é que, se ela simplesmente tivesse não comprado tantos passivos na vida, provavelmente não precisaria nem estar trabalhando mais hoje. Sim, ela poderia ter se aposentado precocemente simplesmente não comprando passivos.

Para entender como isso seria possível, temos que fazer algumas estimativas de preços. Ao longo de sua carreira, Solange comprou:

  • Um apartamento na zona norte do Rio de Janeiro em 2013 – R$550.000.
  • Outro apartamento no Rio de Janeiro em 2014 para acomodar a crescente família – R$700.000.
  • Seu primeiro carro – R$56.000 (baseado no preço dos usados)
  • Um outro carro alguns anos depois – R$75.000 (baseado no preço dos usados)
  • Pelo menos dois procedimentos estéticos e várias viagens ao longo dos anos – R$40.000

Apenas considerando o custo-base destes passivos, Solange gastou uma bolada de R$1,42 milhões. Não estão inclusos nesta conta os impostos pagos, seguros, escrituras, contas, e custo por uso como gasolina do carro ou manutenção da casa. Simplesmente considerando este montante “cru,” se Solange tivesse utilizado este dinheiro para investir em Fundos Imobiliários, poderia ter uma renda mensal passiva de mais de dez mil reais por mês – todos os meses.

Pode não ser igual ao salário que atualmente possui, mas conseguiria com facilidade cobrir seus custos de vida. E mais importante – lhe daria uma segurança financeira suficiente para conseguir sair do seu trabalho e se aposentar independente do governo hoje mesmo.

Mas claro, não podemos apenas contar o dinheiro bruto que foi gasto. Lembre-se que não só o dinheiro foi gasto, ele também deixou de ser investido – uma grande oportunidade perdida. Se tirarmos a média destes gastos por mês, Solange teria gasto uma média de R$13.900 reais ao mês apenas com este montante. Utilizando a regra dos 153, o custo total de oportunidade mensal de Solange não ter investido o dinheiro na verdade foi de R$2,13 milhões. Com este dinheiro aplicado em FIIs, Solange poderia estar ganhando R$17.000 por mês de forma completamente passiva. Se isto não é suficiente para se aposentar, você deve rever seus conceitos.

Não só Solange gastou R$1,42 milhões, ela também deixou de ganhar R$700 mil por não ter investido o seu dinheiro.
Se tivesse investido seu dinheiro ao invés de gastá-lo, Solange teria hoje uma renda passiva equivalente a 77% do seu salário. Seria mais do que suficiente para se aposentar, mesmo no seu estilo de vida luxuoso atual.

Em outras palavras, Solange gastou uma aposentadoria completa em metade da sua vida, jogando fora sua liberdade pessoal futura em prol de… status.

Você pode amar o seu trabalho, tem certeza que ele o ama de volta?

Neste ponto, muitos são rápidos para apontar que não há nenhum problema em realizar os gastos que Solange fez se eles realmente condizem com o seu conceito de valor recebido. Afinal, se Solange obteve realização pessoal e valor suficiente de todos estes passivos, não há como estar errado, certo?

Infelizmente, neste caso o peso de todas estas compras foi tão grande que não importa o quão realizada ela pôde se sentir, o sacrifício da sua liberdade pessoal não será recuperado com facilidade. Embora não haja nenhum problema com obter a realização pessoal uma hora ou outra, para que este sistema funcione, é necessário ter sempre uma parte do dinheiro alocado para o seu futuro financeiro. Caso contrário, isto se torna apenas mais uma receita para o desastre financeiro.

Igualmente, há aqueles que acreditam não haver nenhum problema com esta situação contando que Solange estivesse perfeitamente realizada no trabalho e na carreira – novamente, uma situação completamente plausível. Afinal, se você ama o seu trabalho, ele não parece que é um trabalho, certo?

Aqui mora um grande perigo oculto. Independente de quão “sólido” o seu salário pode parecer, existem muitas incertezas de como ele continuará no futuro. Empresas grandes e pequenas quebram, governos falem e atrasam pagamentos, e privatização de estatais antes tão confiáveis com salários vitalícios são alguns exemplos de imprevistos financeiros que podem acontecer e arruinar uma “segurança” financeira predicada num salário. Em outras palavras, você pode, sim, amar o seu trabalho – mas até quando o seu trabalho irá lhe amar de volta?

Não só não depender do seu trabalho é uma questão de segurança, e não luxo, trabalhar também se torna muito mais prazeroso no momento em que você não depende mais dele, pois você passa a fazê-lo de puro prazer. Logo, possuir a sua independência financeira não é uma questão de luxo dos ricos ou privilégio – é a sua única defesa financeira contra um futuro incerto e catastrófico.

Se você quer tomar uma decisão hoje que irá garantir o seu futuro financeiro e o da sua família, leia o novo livro RICAmente do Pinguim Investidor. Ele contém uma série de lições financeiras e aplicações práticas que irão guiá-lo do zero até você estar preparado mentalmente para levar suas finanças ao destino certo.


Quais lições você daria à Solange sobre suas decisões financeiras até agora? Qual seria a melhor solução para ela tomar agora? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Antoine Da cunha on Unsplash

3 comentários sobre “Quantas aposentadorias você já gastou na vida?

  1. Pinguim Investidor,

    Excelente post. Os números falam por si só e são realmente impressionantes.

    Seu texto ilustra de forma bem clara o quanto o consumo pode nos afastar da liberdade e da tão sonhada IF.

    “mas ela optou por gastar esta liberdade comprando outras coisas que julgou mais importante.”
    No mundo em que vivemos, no qual o status, o “eu mereço” são tão fortes, a maioria das pessoas acaba caindo na ilusão do consumo interminável para manter o mesmo nível social que alcançaram.

    Sentir-se bem dessa forma acaba sendo uma armadilha e a insatisfação sempre estará presente, pois sempre há uma novidade no mercado.

    Você citou os carros.
    Cada ano há um modelo diferente, mudam uma lanterna ou algo mínimo muitas vezes. E muitas pessoas sentem que o carro anterior já ficou ultrapassado. E com esse sentimento, o pensamento de trocar de carro vai se formando e logo transforma-se em realidade, ou seja, mais um passivo que custará muito caro.

    Outro dia vi uma palestra com o Eduardo Becker, no qual ele falou que acorda feliz e não sente a necessidade de comprar coisas para se sentir bem. Que possui um carro velho e se sente bem assim.

    No final das contas, penso que muitas vezes as compras são mais para suprir lacunas que não somos capazes de preencher com algo que realmente trará alguma satisfação duradoura.

    Abraços,

    Curtido por 1 pessoa

  2. Reflexão muito boa, Pinguim. Hoje mesmo eu e meu marido estávamos conversando sobre elevar custos de vida. Estamos pensando em nos mudar de onde moramos para outra cidade (em breve irei divulgar) e estamos procurando imóveis. A vontade é alugar um apartamento novo, com sacada gourmet e tudo. Mas pensamos “é o momento certo para aumentarmos o padrão de vida?”. E a resposta é não. Nossos amigos moram em apartamentos lindos, mas eu e meu marido temos um projeto de vida, que é comprar a nossa liberdade. Nossos amigos não. E assim, com os dois pés no chão, estamos procurando de forma calma, sem pressa (a mudança pode ocorrer até a metade do ano que vem) um cantinho ideal para ser o nosso próximo lar. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

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