Ouro é investimento? E prata? E o dólar? E bitcoin?

Em tempos de crise, é comum que as pessoas percam a fé nos investimentos tradicionais da bolsa como ações e fundos imobiliários e comecem a pensar em maneiras de se proteger contra oscilações “arriscadas” do mercado. Nestas horas, tornam-se populares as medidas de hedging que os grandes gestores de fundos de investimentos adquirem para “amenizar” as quedas da renda variável, mas para amaior parte dos investidores pequenos e iniciantes, seus patrimônios não possuem alavancagem o suficiente para ter um efeito significante.

É comum ouvirmos nessas horas sobre alguns ativos como ouro, prata e o dólar como “seguros” contra a crise, e que o bom investidor deve tê-las sempre com um certo peso em suas carteiras. Ao passo que estes veículos são mesmo ativos no sentido de tenderem a se valorizar com o tempo ao contrário de passivos financeiros, eu não os incluo na minha definição formal sobre o que um investimento deve ser e prover.

Isso não significa que você não deve investir em metais preciosos, commodities, moedas ou terrenos – apenas que para mim, todas estas classes não se enquadram com a minha filosofia de investimentos. Explicarei neste post o por quê.

Fluxo de caixa e a definição do investimento

Embora existam muitas definições sobre o que compõem investimentos e ativos financeiros, a minha regra de ouro é lastreada no conceito da independência financeira como a liberdade para viver sem precisar trabalhar por conta de ter os seus custos de vida cobertos por renda passiva. Os investimentos são aqueles ativos que auxiliam você a chegar mais próximo deste objetivo, fornecendo principalmente um aumento da sua renda passiva.

Embora esta visão previdenciária sobre o investimento pode ir contra as definições de algumas pessoas, ela providencia uma visão de planejamento que prioriza diminuir os riscos financeiros que uma pessoa possa ter ao perder sua fonte de renda principal. Afinal, tornar-se financeiramente independente não significa que você deve abandonar um trabalho que você gosta de fazer; apenas que você tem a segurança em fazê-lo.

Desta forma, investimentos em ouro, commodities, terrenos, moedas e criptomoedas, embora tendam a se valorizar, falham em produzir este efeito de renda adicional. Portanto, não adicionam à margem de segurança financeira (o fluxo de caixa) que ações e fundos imobiliários provém com seus dividendos outros proventos. A única forma de você obter lucro nestes veículos é vendendo após a valorização, numa manobra condizente com a técnica de day trading e em ETFs como o BOVA11. Isso lidando com a variável liquidez de tais produtos (negociar e vender um terreno pode levar mais tempo do que o esperado).

Isso significa que não há usos para tais investimentos? Não. Tal como a poupança numa carteira de investimentos, eles também têm seus nichos.

Ouro e outros como reserva de valor e hedge

Embora não possam gerar fluxo de caixa de forma ideal, ativos como o ouro podem ser utilizados como uma forma de reserva de valor, ou hedge contra oscilações da bolsa.

Há uma razão pela qual o Ray Dalio, gestor do fundo legendário Bridgewater Pure Alpha que durante décadas nunca teve nenhum ano com retorno negativo e autor do livro Princípios aloca 15% do seu portfólio em commodities, sendo 7.5% especificamente ouro. Conhecido como o “portfólio para todos os climas” (All-weather portfolio), o Pure Alpha foca em estabilidade e tranquilidade para o investidor, e foi um dos poucos a terem rentabilidade positiva mesmo durante a grande crise do Subprime Americano em 2008.

Neste ponto é preciso colocar uma vírgula no argumento: o Pure Alpha não era um fundo de investimento qualquer – ele é um hedge fund privado, cuja aplicação mínima é de US$791063 para um investidor que tem no mínimo 5 milhões de dólares de net worth.

Isso mostra o poder que um hedge em ouro e commodities pode ter para “amenizar” a jornada de uma carteira de investimentos quando aplicado numa alavancagem significante. Se você está começando a investir, ou investindo de um ponto de vista previdenciário, o valor e o efeito destes na carteira se torna muito mais reduzido. Mais vale a pena contar com o fluxo de caixa provido pelos investimentos como medida primária de saúde financeira e aproveitar os momentos de “crise” e baixa do que tentar otimizar uma carteira relativamente pequena e com pouca alavancagem.

Possíveis alternativas

Mesmo não sendo capazes de gerar fluxo de caixa por si mesmos, estes ativos ainda possuem seus valores. Portanto, é ainda possível investir de forma lastreada neles para assim aproveitar seus benefícios de forma indireta.

Uma possível estratégia é pensar na lógica do gold rush que afirma “quando descobrirem ouro na sua vizinhança, venda as pás e picaretas.” Seguindo esta lógica, você poderia investir nas empresas que lidam com o processamento e o ciclo de vida do ouro: seja na extração, purificação, logística, armazenamento, lapidação e vendas. Igualmente, ao invés de investir num terreno diretamente e ter que arcar com os custos de desenvolvê-lo e torná-lo produtivo, empresas de produção agrícola e alimentícia podem ser bons intermédios num investimento indireto.

Tratando-se de moedas e câmbio, por exemplo, é mais vantajoso investir diretamente em empresas internacionais no país e moeda nativa onde são negociadas. Por exemplo, por que investir em IVVB11 (ETF que replica o S&P 500 em Reais) no Brasil quando você pode abrir uma conta de investimentos nos Estados Unidos e investir diretamente na moeda nativa usando um ETF como o VTI da Vanguard? Não só você estaria tirando parte do risco inerente do nosso próprio país e das políticas da bolsa, mas também poderá receber proventos nativamente em dólar, coisa que os ETFs Brasileiros não fazem. Exceto que, no momento atual em Maio de 2020, investir do dólar para o real parece ser um negócio muito melhor, dada a alta histórica do dólar correlacionando com uma bolsa brasileira em baixa.

Quanto às criptomoedas, sigo em frente cético. Só posso afirmar o seguinte: compre-as diretamente (evitando assim possíveis golpes) e proteja sua carteira digital como parte do seu patrimônio.


A minha filosofia de investimentos prioriza bastante o conceito de fluxo de caixa e renda passiva e portanto, investimentos em commodities, ouro, câmbio e outros possuem uma posição bem menos interessantes do que talvez para grandes fundos e outros investidores.

Qual é a sua opinião sobre o ouro ou câmbio como um tipo de investimento? Como você utiliza estes ativos nos seus investimentos? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Matt Flores on Unsplash

6 comentários sobre “Ouro é investimento? E prata? E o dólar? E bitcoin?

  1. Esse tipo de ativo é pra ser usado como a função que você explicou no post, como proteção de valor. Ouro e dólar entra nessa categoria, agora bitcoin não. O bitcoin quer se tornar uma moeda, ainda não é, e como não é ainda não é uma reserva de valor. Eu tenho bitcoin mas acreditando no futuro utópico dele, acho importante separar essas funções para se ter um investimento mais tranquilo

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Escola,

      Obrigado pelo comentário.

      Discordo sobre o bitcoin. Não importa o potencial ou o poder de compra da moeda, ela não possui a capacidade de “gerar outras moedas.” 1 BTC será sempre 1 BTC independente do que aconteça. Você deve torcer para que a cotação suba para conseguir receber algum valor sequer na venda do seu investimento no futuro.

      Só ativos previdenciários como ações e FIIs conseguem “se multiplicar” através do pagamento de proventos. Na minha opinião, qualquer outra classe de investimento é reserva de valor ou especulação.

      Sempre bom dar uma revisão na minha definição de investimentos para tirar qualquer dúvida: https://pinguiminvestidor.com/2020/04/27/a-diferenca-entre-poupar-e-investir/

      Abraços e seguimos em frente.

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