Acabe com a sua miopia financeira antes que ela acabe com o seu patrimônio

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Quando se trata de enriquecer, temos sempre três pilares básicos necessários para alimentar este processo: receita, economia e investimentos. Qualquer um, independente do seu salário, consegue se tornar rico sob qualquer circunstância se simplesmente maximizar estas três variáveis. Porém, há um ingrediente comum necessário por trás de todo o processo: o tempo.

Qualquer pessoa que se aventura no mundo dos investimentos eventualmente passa a conhecer o famoso termo dos Juros Compostos, que rendem sobre o dinheiro aplicado e também sobre os juros rendidos sobre eles mesmos, numa forma de recursividade matemática. E a mágica destes novamente revolve sobre o fator do tempo, é só através do tempo que os rendimentos se acumulam de uma forma apelidada de efeito bola de neve.

Por conta desta dependência crucial sobre o tempo, é ilógico pensar em não utilizar o tempo para contribuir para o seu enriquecimento, mas a presença de perguntas como as do início deste post em vários fóruns na internet nos mostra que muitas pessoas não compreendem este aspecto dos investimentos. Elas sofrem da tão comum miopia financeira, que as força a planejar, pensar e agir a curto prazo. Se a primeira vista levar ao curto prazo é ruim para o enriquecimento, esta prática também se torna detrimental para a sua situação financeira ao longo do tempo.

Veremos neste post como esta miopia financeira pode causar mais problemas do que parece a princípio.

Não-linearidade e os acontecimentos esperados

A mente humana tende a ser determinística e lógica: esperamos que as coisas que experienciamos no passado aconteçam novamente no futuro se as condições se repetirem. Olhamos para o céu, vemos nuvens pesadas se carregando e esperamos chuva mais tarde. Este é um trato evolutivo que usamos para nos tornar mais preparados com as situações da vida, tal como nossa tendência a perceber as coisas de forma relativa e comparativa, e nos protege no dia-a-dia. Esta tendência, porém depende de um conceito central para funcionar: linearidade e determinismo.

Linearidade é a capacidade de alguma coisa ser estimada e prevista com precisão mesmo com poucos dados disponíveis. Ao analisar um gráfico ou relação matemática, por exemplo, podemos ver a tendência e estimar aonde ele estará em um certo ponto à frente, similarmente com o determinismo do instinto humano.

Alguns investimentos de renda fixa e a poupança tendem a se comportar desta forma também, e podemos estimar o quanto teremos ao fim do vencimento do investimento. Com o Tesouro Selic, por exemplo, temos uma aplicação financeira rendendo juros compostos constantes (exceto considerando as decisões econômicas do Copom), e podemos “prever” o quanto teremos ao final de um período de tempo matematicamente:

Final = Montante * e ^ (juros * tempo)

Aplicações em CDB e LCA/I funcionam da mesma forma.

Quando se trata de renda variável como ações e fundos imobiliários, porém, a linearidade essencialmente desaparece. Toda a certeza matemática oriunda dos juros passa a ser uma estimativa com base de dados históricos, mas sujeita a especulações e flutuações. Como o próprio nome já diz, a renda varia tanto para cima ou para baixo, com o investidor tendo quase nenhum controle sobre o comportamento. Ainda assim, fala-se que a bolsa “retorna 22% ao ano” como uma certeza, então qual é o fundamento desta afirmação?

Resposta: estimativa e médias aritméticas. O retorno da bolsa é calculado sobre vários anos, geralmente décadas, e utilizado como uma projeção simples sobre como um investimento se comportará ao longo prazo. A palavra-chave aqui novamente é: longo prazo. Quando se trata de renda variável, qualquer promessa de rentabilidade é inconclusiva ao curto prazo; ela reflete a média que o investimento têm rendido ao longo dos últimos anos. A verdade é que, quando se diz que a bolsa tem rendido alguma porcentagem, tendemos a pensar de forma linear, como a foto abaixo:

An exponential curve

A realidade, porém, é que o retorno da bolsa se comporta bem mais imprevisivelmente:

Stock market variation vs exponential curve

O fato é que, se tirarmos a “média” desta distribuição, podemos ver que o gráfico pode ser simplificado se interpretarmos como uma distribuição linear. Um conceito lógico e simples, mas difícil de ser explicado para o ser humano emocional, que espera tudo ser determinístico. Quando os investimentos em bolsa começam a cair, a expectativa é quebrada, e o pânico começa a se assentar do inesperado. Vários investidores iniciantes passam pelo mesmo problema e com o pânico acabam vendendo no fundo, no efeito que é conhecido na finansfera como mãos de alface.

Como você pode impedir que esta situação aconteça com você? Simples: tenha sempre uma boa reserva de emergência líquida suficiente para cobrir qualquer inesperado sem que você precise tocar nos seus investimentos.

Vale notar também que o próprio Tesouro IPCA, classificado como renda fixa, também possui estas variações ao longo do tempo por conta de variações na economia e na taxa de Juros, não sendo assim recomendado resgatá-lo antes do tempo.

Evolução da minha carteira de renda fixa com 75% Tesouro IPCA+ vs o CDI (período de 12 meses)
Evolução da minha carteira de renda fixa com 75% Tesouro IPCA+ vs o CDI (período de 12 meses). Renda “fixa?” Sim – se você deixar até o fim.

Este efeito ilógico é perigoso porque, ao curto prazo, é difícil dizer se os investimentos estão na hora certa de vender ou não – você precisa aprender a curar esta vontade com paciência.

Paciência é tanto um hábito quanto uma habilidade

Se a miopia financeira é a doença que mantém os investidores iniciantes quebrados, a paciência do investidor é a cura. É apenas olhando o longo prazo, praticando uma boa rotina graças aos nosso hábitos e praticando a paciência de esperar os resultados financeiros funcionarem que podemos realmente compreender o poder que os juros compostos têm sobre as nossas finanças.

Embora digam que a paciência é uma virtude que parece ser herdada apenas por alguns indivíduos bondosos, ela é também um hábito que pode ser desenvolvido e curado com a prática constante. E no âmbito dos investimentos e das finanças, a aplicação é a mesma. Você pode amenizar a ansiedade e a falta de paciência nos seus investimentos simplesmente aplicando a racionalização dos seus objetivos.

Lembre-se: investir e poupar possuem objetivos distintos, e no caso dos investimentos, o seu horizonte de tempo deve ser tratado como inexistente. Seus objetivos com investimentos de longo prazo devem sempre ser para complementar ou sustentar a sua vida financeira com renda passiva. Qualquer outro caso requer uma abordagem de “poupança” para a qual o objetivo é juntar uma quantia finita o mais rápido possível.

Desligar-se das fontes de notícias financeiras também é uma boa oportunidade para reduzir sua ansiedade e influência, assim como praticar uma dieta de baixa informação. Escolha algumas fontes de notícias que você confia, priorize o conhecimento sobre informação solta, e confie no seu conhecimento. Conforme você passa a praticar estes pilares, a sua paciência financeira irá aumentar, e a ansiedade diminuirá.

Investir com foco em poupar é uma receita para uma tragédia

Com isso, vemos finalmente por que a miopia financeira pode se tornar perigosa quando se trata de obter “prazos” para os seus investimentos em renda variável: a venda no fundo.

Quem acredita que o mercado só tende a subir de forma linear pode chegar a pensar no investimento como simplesmente uma forma “turbinada” de poupar. Afinal, um retorno de 20% ao ano garantido é muito melhor que as migalhas da renda fixa, correto? Neste engano de objetivos e implementação mora um grande perigo.

Digamos que um investidor estipulou que aportando regularmente em BOVA11 com a taxa de retorno médio atual conseguiria poupar a quantia que deseja em um espaço de 18 meses. Ele se planeja, passa a economizar mais no seu estilo de vida, e começa a comprar cotas. Seu plano parece dar certo – o mercado está subindo, suas cotas se valorizam e ele vê os ganhos nos primeiros 12 meses. A partir deste marco, porém, a economia entra em contração e o mercado desaba, trazendo rentabilidade negativa.

O investidor decide continuar seu plano e aportar regularmente, mas cada vez mais suas cotas estão desabando, e tudo indica que ele não irá alcançar seu objetivo no tempo necessário. Neste ponto, ele precisa tomar uma dura decisão: vender suas cotas ao valor baixo ou confiar no mercado para tentar “recuperar” o investimento até seu prazo?

A verdade é que se este investidor tivesse enxergado a renda variável como um veículo de investimento – e não poupança – ele nunca chegaria a tal “dilema” para decidir. Se simplesmente focasse na sua capacidade de economizar, e utilizar a bolsa como maneira de obter renda passiva dos seus proventos, ele teria a confiança para atingir seu objetivo de maneira previsível, enquanto aproveitando a volatitilidade dos ativos para conseguir aportar mais em tempos de baixas.

É desta forma que devemos pensar: quando investimos, pensamos nos negócios que estamos comprando, e como eles poderão nos trazer lucro como se estivéssesmos comprando-os diretamente. Esta, afinal, é a abordagem que o Warren Buffett utiliza também. A valorização dos investimentos é um benefício colateral, mas o verdadeiro valor está no fluxo de caixa que o investimento poderá lhe prover ao longo do tempo: para isso, é crucial que você tire o conceito do curto prazo nos seus investimentos. Os míopes não irão enxergar este potencial do tempo.

Este conceito também é a guideline #28 do Jeito Pinguim de Investir: “A árvore do dinheiro é plantada com dinheiro – e regada com tempo.”


Você conhece alguém que sofre de Miopia Financeira? Quais conselhos daria a ele/ela? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by PHÚC LONG on Unsplash

8 comentários sobre “Acabe com a sua miopia financeira antes que ela acabe com o seu patrimônio

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