Como solicitar o auxílio coronavírus do Japão?

A crise do COVID-19 continua se extendendo e seus impactos se alastraram por todas as economias do globo. Seu impacto devastador vem por conta de um efeito dominó na economia. Incapacitadas de fazer negócios de forma tradicional, pequenas e médias empresas viram seu tão esperado fluxo de caixa secar, e com isso não puderam segurar muitas despesas com suas reservas de emergência, descontando o resultado despejando a maioria dos seus funcionários, resultando num desemprego múltiplo em cadeia.

Desta forma, governos ao redor do mundo acionaram pacotes emergenciais de auxílio financeiro para garantir a sobrevivência da população neste momento de desemprego – ou sub-emprego – forçado. Por exemplo, no Brasil o governo federal habilitou o Auxílio Emergencial da Caixa, consistindo de R$600 mensais por três meses para quem qualificar, e nos Estados Unidos, o congresso aprovou o CARES Act que destina um pagamento de US$1200 para cada indivíduo entre outros benefícios.

No Japão, a decisão de passar um auxílio financeiro foi debatida por um bom tempo pelo governo federal e atrasada em comparação aos demais países, mas em Abril foi aprovada uma medida de auxílio emergencial para todos os moradores do Japão. A medida é em geral bem mais generosa do que a instituída no Brasil, mas sua forma de solicitação é um pouco mais complicada. Depois de garimpar e procurar bastante sobre como a solicitação deve ser realizada, resolvi explicar aqui os passos que devem ser seguidos neste processo.

Diferenças entre o auxílio Japonês e o Brasileiro

O auxílio do governo japonês é bem diferente do brasileiro, e de certa forma mais generoso.

Em primeiro lugar, a quantia é bem maior: o auxílio prevê um pagamento de 100,000 ienes, aproximadamente igual a R$5323. Além disso, não há discriminação sobre quem poderá receber este auxílio: todos os moradores do Japão – tanto japoneses e estrangeiros residentes – são elegíveis para recebê-lo, ao contrário do Brasil, onde há requerimentos de renda, contrato trabalhista e situação financeira para se qualificar para o pacote.

Ao contrário do auxílio de três parcelas oferecido no Brasil, o pacote japonês consiste de apenas um único pagamento, seguindo um modelo parecido com o implementado nos Estados Unidos.

Podemos traçar as diferenças entre os pacotes japoneses e brasileiros à várias diferenças entre os dois países, começando com o tamanho da população (212 milhões de pessoas no Brasil versus 126 milhões no Japão) que significa menos pessoas para “fatiar o bolo,” e também à situação econômica dos dois – o PIB do Brasil é de US$ 1.87 trilhões enquanto que o do Japão é de US$4.97 trilhões. Não só o Japão é mais rico, também possui menos bocas para alimentar – assim fica claro porque o pacote parece ser mais generoso.

Não é esta a primeira vez que o governo japonês oferece este tipo de auxílio financeiro para a população. Em 2009, seguido dos efeitos catastróficos da crise econômica do Subprime Americano e – ironicamente – coincidindo com a epidemia da gripe H1N1, o governo japonês também emitiu um auxílio financeiro, mas muito mais modesto (apenas 10000 ienes por pessoa, ou R$523).

Solicitando o auxílio no Japão

Um dos problemas que atrasou para saber como aplicar para receber o auxílio é que haviam muitas informações ambíguas e especulativas na internet sobre o processo.

O governo japonês anunciou com uma certa demora tanto a emissão do pacote quanto a declaração do estado de emergência nas grandes cidades japonesas, o que levou muitos jornais a fazer especulações e gerar ansiedade em suas matérias sobre como seria feito o auxílio. Além disso, o governo modificou o escopo do auxílio durante o planejamento – de 300,000 ienes a determinados indivíduos para 100,000 ienes a todos – e gerou ainda mais ansiedade na divulgação da informação.

Felizmente, hoje o processo está bem divulgado e temos a informação mais completa. Aqui estão duas formas possíveis de realizar o processo.

Online

Se você possui o seu My Number (equivalente ao CPF no Brasil) na forma de um cartão de chip, poderá fazer a aplicação inteiramente online.

my number como cartão de chip
Exemplo de MyNumber Card

A aplicação online pode ser feita através desta página do governo japonês. Por conta da grande demanda recebida, há uma lentidão recente neste site, e ele sai do ar algumas vezes por conta de manutenção. Ainda assim, é a maneira mais simples de se realizar a solicitação.

Instruções detalhadas (em Japonês, infelizmente) de como preencher o formulário online se encontram aqui.

Infelizmente esta é a minoria dos casos, pois converter o documento na forma de cartão requer uma aplicação extra após o recebimento que não é obrigatória. A maior parte dos estrangeiros que conheço, por exemplo, nunca se importou em convertê-lo. A razão pela qual o cartão – e não o documento original – é preciso neste caso é que é necessário utilizar a senha cadastrada no cartão e na prefeitura para realizar a solicitação, o que não existe no documento em papel.

Felizmente, ainda há uma outra maneira de realizar a solicitação de maneira tradicional, offline mesmo, através dos correios.

Via correio

Começando em Maio, o governo começou a enviar formulários de aplicação para o auxílio via correio. É um formulário por residência, sendo este endereçado para o “head of household” (chefe de família), que é tipicamente o morador que estabeleceu o contrato de moradia da residência, mas os demais moradores poderão receber seu auxílio também.

Para realizar a aplicação, é necessário uma prova de identidade, que pode ser uma cópia de algum documento de identidade que você possui, incluindo:

  • Zairyu Card (在留カード)
  • Hokensho (保険証) ou cartão de plano de saúde similar
  • Carteira de motorista (免許証)
  • E o cash card do seu banco como prova de qual é a sua conta bancária
QuaisCópias dos documentos necessários. O Cash card é necessário para fazer o a transferência bancária.

Embora o pedido é ficar em quarentena em casa, você ainda pode ir a uma loja tipo konbini para fazer uma fotocópia da sua documentação. A aplicação completa com a prova de identidade de todos os residentes deve ser então enviada por correio (pode-se utilizar os postboxes mesmo). O formulário é o abaixo, anotado com legenda em Português. Clique aqui, ou na imagem abaixo para vê-la em alta resolução.

O processo é bem intuitivo, mas a grande pergunta que permanece é: quando o formulário chegará até a minha casa?

Prazos e datas

Um dos maiores medos que eu tinha era de ter confundido o formulário com outras propagandas que recebo via correio e ter descartado por engano. Felizmente, isto não aconteceu, pois os formulários ainda não foram enviados para a minha área de residência, mas ainda assim a ansiedade permanece: quando chegará?

A data do envio varia por prefeitura do Japão e, em alguns casos até mesmo por distrito e cidade. A grande parte das prefeituras começou os seus envios até o dia 18 de Maio, conforme descrito neste documento, mas algumas se posicionaram que irão realizar o envio bem mais tarde (Shizuoka, por exemplo, informou que começará apenas a partir de Junho), portanto é necessário consultar com a prefeitura da sua cidade. Por exemplo, a cidade de Toyohashi reflete a sua agenda nesta página.

Os pagamentos estão planejados para serem realizados a partir do dia 22 de Maio, mas novamente a data específica pode variar de prefeitura e cidade. Será realizado através de transferência bancária para a conta especificada na aplicação, sem a necessidade de ir à prefeitura buscar.

Mesmo que pareça muito tempo, a boa notícia é que o Governo Japonês determinou que as pessoas terão um prazo de três meses para realizar a solicitação, começando da data em que a aplicação começou a ser enviada. É um prazo mais do que suficiente, e bem mais sensato em comparação com a corrida que foi para aplicar para o auxílio no Brasil.

O que fazer com o pacote emergêncial recebido?

Enquanto o processo não é tão complicado quanto as dúvidas e ambiguidade da mídia o pareceu ser, resta ainda a pergunta de ouro: depois de você ter recebido o seu auxílio, o que você fará com o dinheiro?

Estamos no meio de uma época um pouco esquisita em termos de economia, com as bolsas ao redor do mundo num sobe-e-desce perante as previsões de produtividade do coronavírus. Isso significa que não é a hora de investir? Muito pelo contrário! Mas dependendo da sua situação financeira atual, é necessário pensar um pouco mais a fundo antes de aplicar tudo num investimento.

Antes de tudo, se você não possui uma fonte de renda atualmente (demitido, temporariamente dispensado, etc), a sua prioridade é sobreviver no Japão, e não investir. Se o dinheiro faltar, neste momento não há como você voltar ao Brasil por conta do bloqueio dos voos, e a quarentena nos aeroportos tornará o processo doloroso em dobro se você decidir voltar. Você deve utilizar este dinheiro para cobrir os seus custos de vida até a situação se normalizar e você puder arranjar um emprego normalmente. Depois disso, reponha suas reservas de emergência e só depois recomece a investir.

Neste caso, ser frugal não é uma escolha, e sim uma questão de sobrevivência. Mude-se para uma acomodação mais barata, cozinhe em casa, cancele serviços supérfluos, utilize o WiFi dos estabelecimentos, etc. É a sua sobrevivência que está em jogo. O livro do Pinguim Investidor poderá ajudá-lo.

Se a sua situação salarial não foi abalada severamente (home office ou redução apenas), esta é a melhor hora de praticar a frugalidade e reduzir seus custos. Você pode chegar a economizar uma grande parte do seu salário com facilidade, o que lhe aumentará ainda mais a sua longevidade financeira. Se você sentir que sua situação está segura o suficiente, aporte uma parte dos 100,000 e invista o restante normalmente.

Finalmente, se a sua situação financeira não foi abalada de forma alguma com esta crise, meus parabéns: esta é a melhor hora para você investir. Se você possui reservas de oportunidades, disponíveis, os ventos estão ao seu favor: a bolsa está em baixa, o que permite comprar mais ativos de valor, e além disso o dólar também está alto, o que permite o seu dinheiro em iene valer mais reais. Você pode aportar regularmente (estratégia conhecida como dollar cost averaging ou DCA), ou investir estes 100,000 de uma vez. Não caia na tentação de fazer um hedge no iene como moeda estrangeira – é hora de carregar nos ativos previdenciários que geram fluxo de caixa para você.

Estas são apenas algumas das dicas sobre o que você pode fazer com o dinheiro, mas a verdade é que não existe resposta correta; só não vale gastar este dinheiro em algum passivo!


Você tem alguma dúvida sobre o processo de aplicação para o auxílio do coronavírus no Japão? O que fará quando recebê-lo? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Picture by Purlzbaum on Unsplash

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