Como comprar um carro de maneira inteligente

Quando se trata de passivos financeiros, sabemos que quase sempre são uma furada financeira esperando para acontecer. Passivos são tudo aquilo que não se valoriza com o tempo, possui custos adicionais de possessão, ou não produz um fluxo de caixa positivo para o investidor. Nesta categoria se enquadram sonhos de consumo comuns das pessoas como a casa própria, carro, e outros bens como eletrônicos e roupas.

Particularmente se tratando da casa e do carro, muitos possuem uma reação emocional adversa forte quando ditos que estes não são ativos financeiros, com suas depreciações, custos adicionais e impostos recorrentes. A verdade matemática, porém, não mente: o acúmulo compulsivo de passivos ao longo da vida é capaz de arruinar qualquer patrimônio, independente do salário que se recebe.

Na prática, porém, a situação nunca é tão preto-no-branco, e muitas pessoas acabam por depender de um carro particular para compensar a falta do transporte público em sua cidade ou no caso de famílias grandes que precisam de mobilidade. Portanto, mesmo que a vida sem passivos represente a perfeição teórica de uma vida financeiramente eficiente, na vida real pode ser necessário adquirir passivos ao longo da vida. Porém, a grande maioria realiza estas aquisições da maneira errada, financiando e se endividando para comprar e pagando uma quantia muito maior que o preço original no fim das contas.

Neste post, irei elaborar sobre como podemos comprar um passivo – como um carro próprio – de maneira correta, inteligente, e com o menor impacto financeiro possível.

Regra número 1: Evite.

A primeira regra que você deve manter em mente sobre passivos é: evite ao máximo a compra deles.

É preciso frisar esta regra novamente mesmo que eu esteja falando especificamente de como comprá-los neste post porque é fácil perdermos as contas de quanto nossos passivos realmente nos custarão ao longo do tempo – e estes custos se acumulam mais rápido do que esperamos. Se você acha que precisa de um carro para viver, pare, respire, e racionalize: é realmente uma necessidade que estou vendo, ou uma vontade emanada de uma propaganda?

Dar tempo à escolha ajuda você a acalmar os impulsos e evitar que você compre sem considerar todos os fatores que não são apresentados pelo vendedor. Trace um quadro de decisões composto de duas colunas num papel sulfite: a primeira contém as vantagens, a segunda as desvantagens. Averigue os resultados e peça para mais alguém da família averiguá-los – quanto mais imparcial o julgamenteo, menos influência emocional terá.

Você poderá chegar a uma conclusão que o Uber ou Táxi poderão cobrir o gap do carro com muito menos custos, ou que até mesmo alugar por um tempo curto é mais vantajoso.

Regra de ouro: se você não tem dinheiro, não compre

Se a sua análise fria e racional concluiu que você ainda precisa do carro, vem em seguida a regra de ouro de qualquer compra: se você não tem dinheiro, não pode comprar.

Simples e diretamente, se a sua reserva líquida de dinheiro for inferior ao preço do carro, não compre. Você deve economizar e esperar mais para ter o suficiente e um contingente a mais para conseguir finalmente comprar à vista, e sem nenhum financiamento ou empréstimo bancário.

A turma do cartão de crédito começa a levantar objeções neste ponto, dizendo que é possível financiar se conseguir pagar o total rapidamente, mas isto é colocar a vontade por cima da racionalidade. A verdade é: se você não possui dinheiro, acumular dívidas só irá piorar sua situação.

Ao invés de cair na tentação de contrair dívida ou financiar o carro para tê-lo o mais rápido possível, faça o inverso: planeje o quanto você precisa para comprar o passivo, e utilize esta meta para poupar o mais rápido possível o faltante. Este, afinal, é o objetivo da poupança.

Considere o fator da depreciação

Enquanto ativos como renda fixa e renda variável se valorizam com o tempo, todos os passivos tendem a se depreciar e valer cada vez menos conforme o tempo passa. Não há escapatória contra esta curva de depreciação, mas há uma característica importante sobre como esta funciona que pode jogar a seu favor quando se trata do tempo de uso de um passivo.

curva de depreciação

Ao olhar para a curva, podemos perceber que ela é mais íngreme no início, e quanto mais tempo passado, menor é a mudança de preço em relação ao tempo. No momento que você sai com o carro novo da concessionária, seu preço já despencou quase um quarto, mas depois de uns cinco ou sete anos, seu valor já não se altera tanto com o passar do tempo.

Desapontante como é este fato dos passivos, você ainda pode utilizá-lo a seu favor na hora da compra. Como? Estando sempre no lado direito da curva, e comprando sempre com alguns anos de uso. Quem compra um carro usado nunca vai experimentar a depreciação que um carro zero terá no começo do tempo, e ao se desfazer dele no final, o prejuízo será menor também, além de conseguir comprar por um preço muito mais acessível também.

Mas aí eu vou ficar sempre ficar de carro usado! Eu quero um novo!

Novamente, coloque a razão à frente das emoções e considere: o carro novo e o carro usado realizam a mesma tarefa. Será que o seu orgulho custa mesmo o preço a mais que você irá pagar duas vezes – uma na compra e outra na depreciação?

A verdade é que é necessário um certo “garimpo” para conseguir comprar um carro usado em ótimas condições, e em certos casos, um carro muito velho pode dar mais problemas e dor de cabeça do que a vantagem em custo. Porém, fazendo uma boa pesquisa, temos a verdadeira chance de fazer uma compra inteligentíssima: receber o valor de um carro de luxo pagando uma fração do preço do proprietário original.

Compre conforme a necessidade, não a vontade

Temos que comprar com a cabeça, não o coração: se você precisa do carro para transportar a sua família de quatro pela cidade e em rodovias asfaltadas, tudo o que você precisa é de um sedã ou hatch de passeio de tamanho médio. Você certamente não precisa de um utilitário ou picape 4×4, nem de um carro esporte.

Você já está fazendo uma compra utilizando uma parte significante do seu patrimônio. É uma quantia significante que poderia estar rendendo dinheiro para você, mas você optou em gastá-la com um passivo. Este custo de oportunidade sozinho já é motivo para pensar seriamente. Por que aumentar ainda mais o rombo causado pelo passivo adicionando custos e coisas que não são necessários exceto para massagear seu ego?

Lembre-se: o papel principal do dinheiro é prover liberdade ao investidor. Se ele não está investido em ativos previdenciários, que produzem fluxo de caixa, ele está sendo desperdiçado.

Este conceito é aplicável para a casa própria também: um estudo nos Estados Unidos mostrou que utilizamos apenas uma parte minúscula dos espaços das casas. Será que mais espaço ainda vai mesmo te deixar feliz?

american home heatmap
Heatmap de uma casa americana. Quanto de espaço é simplesmente ignorado na sua casa?

Pós-compra: quanto mais se usa, mais caro fica

Uma vez que você decidiu fazer a compra, há um reflexo natural em querer utilizar o carro o máximo possível para “recuperar o investimento” feito. Afinal, você já gastou o dinheiro mesmo, você tem mesmo que aproveitar, certo?

Errado: quanto mais você utilizar o carro, maior o custo para você.

Somos programados a pensar que quando temos um carro, cada dia que deixamos de utilizá-lo é dinheiro sendo perdido pois já “investimos” um montante significante nele. Porém, a verdade é que o custo do carro é proporcional ao uso: é gasolina utilizada, estacionamento pago, custo de pedágio, seguro, impostos e multas (carro parado em casa não gera infração). Portanto, novamente pense no caso de uso do carro, e utilize-o – sim – quando precisar, mas mantenha em mente os custos associados.


O drama da casa própria e do carro próprio é um conto tão velho quanto a vida moderna em si, e infelizmente se trata da velha batalha entre o nosso racional e o emocional. Mantenha estes pontos em mente se você está convencido que é preciso comprar um carro.

Se você tem um carro atualmente, como você decidiu fazer sua compra? Como decidirá na compra do próximo? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Felix Fuchs on Unsplash

8 comentários sobre “Como comprar um carro de maneira inteligente

  1. Mundo Soul

    Olá, amigo blogueiro! Talvez você me conheça, talvez não. Talvez conheça o meu modesto blog, talvez não.
    Lancei um podcast, MUNDO SOUL, e venho aqui convidar você e o seus leitores a escutá-lo. Talvez agrade, talvez não. Será um programa de conversas que não terá um formato de debate, mas sim de uma discussão aberta sobre os mais variados temas para uma boa vida.
    Fica aqui mais uma vez o convite. Se gostar, siga na plataforma escolhida e compartilhe.
    Valeu!
    Link no spottify (também disponível em outras plataformas) https://open.spotify.com/show/3RVLyhN1MUbNsCIIMZ9MxF

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  2. Essa questão sempre será muito relativa.
    Carro é um passivo, isso é uma verdade, porém o custo para adquirir e manter esse passivo pode aumentar a qualidade de vida de quem o adquire.
    Exemplo hipotético de alguém que mora em cidade grande e a distância e trajeto trabalho-casa podem ser realizados de maneira mais confortável e rápida de carro particular, além da questão de deixar filhos na escola, mulher no trabalho etc. Suponhamos que nos finais de semana o trabalhador gosta de passear, e ter um carro facilita muito para tanto.
    Ter um carro para se deslocar na hora que quiser e para onde quiser é bom, e tem gente que não gosta de andar de carro de aplicativo, pois, por mais que seja eficiente, você depende de alguém, e, às vezes, pode dar atraso ou algum aborrecimento. Carro alugado não sei como funciona e se sai mais barato do que custear um carro próprio.
    O fato é que, a depender da renda do trabalhador, é possível destinar um percentual x do orçamento para o custo com automóvel, pois, pode ser considerado um custo com conforto e bem estar aliado ao transporte.
    Ainda há os entusiastas, pessoas que gostam de carros e se sentem bem ao adquirirem um carro. Também não podem ser condenados. O cara se esforça para ganhar dinheiro, pode destinar uma parte aos seus gostos pessoais. Ficar se limitando demais causa frustração.

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  3. Supondo que a pessoa decida que pode custear um carro e que a aquisição lhe trará mais benefícios, aí entra a necessidade de usar a razão para escolher o modelo.

    Carro novo x usado – penso que se for para comprar um carro novo, e a pessoa só queira um meio de transporte, seja melhor adquirir um Hatch compacto barato. Preço menor, peças mais baratas, seguro mais barato, consumo mais barato, facilidade de posterior revenda.
    Não vejo vantagem em adquirir o SUV da moda ou o Hatch/sedã médio versão com maior número de plásticos. Um carro mais caro, nesse contexto, seria só pra impressionar vizinhos e parentes, fugindo do motivo mais razoável, que seria baseado no benefício de transporte/conforto.

    Importante selecionar bem a marca para mitigar alguns custos: carro francês/chinês têm histórico de desvalorização. Honda e Toyota tendem a desvalorizar menos, mas custam mais caro. O ideal é pesquisar a realidade do mercado para adquirir um produto que desvalorize menos que a concorrência, tenha um histórico de confiabilidade e que seja mais fácil de manter e de revender. Até a cor é uma variável a levar em conta. Nada de pegar carro amarelo, roxo, verde. Melhor escolher uma cor discreta que facilite a revenda.
    A perspectiva de uso também é um fator: a compra de um carro novo deve ter a perspectiva de uso de 4 a 5 anos, pelo menos. Trocar de carro a cada 2 anos não é plausível numa perspectiva de custo benefício, pois muitas marcas oferecem garantia até 5 anos, aumentando a segurança em caso de falhas no produto e diminuindo custos com depreciação, que é mais acelerada no começo da vida útil do produto.

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  4. Compra de carro usado é recomendável para quem tem mais conhecimento e experiência no mercado automotivo.

    Há alguns riscos envolvidos: carro batido e maquiado apresentado como novo; carros com problemas mecânicos crônicos apresentados como maravilhas tecnológicas; restos de rico a preços atraentes mas com peças e manutenção caríssima.

    Comprar de garagem pode causar dificuldades na negociação, pois dificilmente será vendido muito abaixo da FIPE, caso o carro seja bom. Se a pessoa tiver o dinheiro para pagar à vista, melhor tentar negociar direto com o proprietário, pois pode conseguir um bom desconto, além de poder avaliar o uso e histórico de manutenção do veículo.

    Ter algum conhecimento de mecânica ou um bom mecânico de confiança é ótimo, já que qualquer manutenção pode custar bem caro.

    Observar a quilometragem também é importante. Perto dos 60 mil km há uma manutenção grande a se fazer, então deve ser calculado o custo dessa manutenção para abater do valor de compra. Acima dos 100mil km é melhor evitar, pois o carro já estaria muito desgastado.

    A pesquisa de mercado também é válida para os carros usados. É bom evitar carros de difícil revenda ou com dificuldades para encontrar peças.

    Pesquisar as “bombas” também é importante: FIAT com câmbio duallogic, powershift da Ford, Citroen, Peugeot e Renault, Golf automático. Na verdade, comprar carro com câmbio automático sempre vai elevar o risco. Se quebrar, vai custar o preço de outro carro pra consertar, e pode não ficar bom.

    Num mundo ideal, o negócio é ter dinheiro para comprar à vista, de particular, carro manual, com cerca de 40mil km, máximo 4 anos de uso, aí aparecem oportunidades interessantes.

    Se o cara for entusiasta, aí vai do bolso e do conhecimento dele: tem os amantes de carros antigos, adoradores de Subaru, APzeros, opaleiros, fans de BMW, Audi, Mercedes etc.

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    1. Fala Aportador!

      Obrigado pelo thread detalhado meu caro!

      Concordo com muito que você falou aqui, carro como necessidade vai do julgamento de cada um, e no meu caso não faz sentido ter um agora. Minha família chegou a comprar um usado faz bastante tempo, 6 anos de uso mas com menos de 20000km rodados – demos bastante sorte. Desde então me desfiz dele (descobri que minha utilização é baixíssima) e agora invisto os gastos evitados em ativos de renda.

      E esse lance do mecânico é crucial mesmo. Eu até pagaria um mecânico pra fazer a consultoria se eu quisesse saber se o carro usado é furada – um gasto em antemão evitando muitos outros ao longo prazo.

      Abraços e seguimos em frente!

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