Como ganhar dinheiro em qualquer oportunidade – descoberta de ouro

Estamos acostumados a escutar nas mídias as histórias dos altos e baixos dos ciclos econômicos, estimulados sobre notícias e especulações do futuro da economia. Se nos deixarmos levar por estas fontes de informação, um pessimismo constante pode nos levar à conclusão que nunca estará bom para investir ou preparar o futuro financeiro.

Alternativamente, um otimismo exagerado pode nos levar a acreditar que estes são os melhores tempos da história, e nos levar a tomar decisões drásticas ignorando possíveis riscos, lastreadas no conceito que os tempos sempre estarão bons.

É este otimismo “perene” que nos deve alertar contra possíveis riscos escondidos por trás de uma nova tentativa, para que possamos sempre calcular nossas decisões financeiras e tomar consciência de tudo. Ignorar esta etapa pode nos tornar cegos a riscos até óbvios, e não há um melhor exemplo para este efeito do que a descoberta de ouro na Califórnia em 1848, talvez a maior da história.

Durante este período de oportunidade e afobação, centenas de milhares de americanos largaram tudo o que possuíam em suas casas e foram tentar a sua fortuna numa única promessa: campos ricos de ouro na costa oeste dos Estados Unidos. Infelizmente para estes sonhadores, pouquíssimos conseguiram de fato enriquecer e atingir prosperidade em meio a este cenário de euforia, mesmo com tanta propaganda positiva em jogo.

Como um investidor, este ambiente lhe soa familiar? A verdade é que muitos Bull Markets, incluindo o mais recente de 2018~2019 se comportam de maneira similar, muitas esperanças, afobação, e pouca atenção aos riscos e custos envolvidos. Felizmente, alguns poucos sonhadores da Califórnia conseguiram enriquecer com estratégias menos convencionais, indo contra a média.

Quais lições não-convencionais destes casos de sucesso podemos aplicar nas situações atuais também? Vejamos neste post.

Inflação oportunista: por que quase ninguém enriqueceu?

A primeira pergunta que fica em relação à estas histórias é: se havia uma grande oportunidade confirmada de enriquecer, por que quase ninguém conseguiu? Afinal, a oportunidade e o enriquecimento eram reais; no fim desta temporada de ouro, mais de 340 toneladas do metal precioso foram extraídas do solo. O que impediu os pioneiros a se tornarem lendas e enriquecer?

A resposta envolve um fato curioso da natureza humana: o oportunismo. Qualquer notícia que se espalhe rapidamente irá ser seguida por pessoas querendo se aproveitar dela, e a promessa de ouro foi um exemplo extremo. Enquanto que as milhares de pessoas se instalavam às pressas nas cidades minúsculas, oportunistas utilizavam a falta de recursos locais à sua vantagem, e assim começaram a oferecer serviços com seus próprios preços exorbitantes pela falta de competição.

Por exemplo, um único ovo chegava a custar US$25, e um par de botas novas até US$2000, utilizando valores ajustados à inflação de 2019. Com este custo de vida inflado artificialmente, é difícil imaginar como alguém teria chance qualquer de acumular riqueza, já que isto é o resultado de não só o que você consegue ganhar, mas também de quanto consegue economizar e investir.

Mesmo que um garimpeiro conseguisse uma renda diária de US$1000 atuais, seus custos de vida facilmente eram levantados o suficiente para alcançar este patamar. E com uma taxa de aporte perto de zero, sabemos que enriquecer se torna muito difícil.

É interessante ver que esta mesma situação se repete a cada vez que temos um Bull Market ou tempos de otimismo econômico, como acontecera no Rio de Janeiro entre 2010 e 2014. Otimismo, uma chuva de promessas e empresas abrindo a cada dia. Salários subindo e pessoas trocando de empregos, procurando subir de vida através de salários maiores, e a cidade acompanhava, encarecendo seus produtos e serviços numa corrida sem fim.

Uma época de oportunidades? Sem dúvida. Mas a oportunidade era para todos.

As três categorias de sucesso

Analisando o Gold Rush por completo, as raríssimas exceções que conseguiram de fato enriquecer podem ser classificadas em três grandes categorias que obtiveram sucesso durante o período das oportunidades.

A primeira categoria é a dos apoios operacionais. Durante a febre do ouro, milhares de pessoas migraram à minúsculas cidades do interior da Califórnia que, até então, não passavam de 200 ou 300 pessoas. O fluxo enorme de novas pessoas significou uma escassez enorme nos serviços básicos que atendiam estas cidades, desde moradia e alimentos até produtos como roupas e sapatos.

Algumas pessoas notaram esta tendência como oportunidade, tornando-se os provedores destes serviços básicos para as centenas de novos moradores que vinham se aventurar no ouro. Cidades como São Francisco, até então nada mais que um abandonado vilarejo, tornaram-se grandese pólos econômicos nestes tempos.

A segunda categoria foi uma versão mais agressiva da primeira: os empreendedores. Alguns poucos visionários conseguiram identificar corretamente que as necessidades dos novos garimpeiros eram comuns a todas as cidades onde o ouro estava sendo buscado. Eles se lançaram seus negócios em grande escala e colheram enorme riqueza onde os apoios operacionais colhiam migalhas. Um grande exemplo desta época, inclusive, sobrevive até hoje: trata-se da Levi Strauss Company, criadora do ubíquoto Jeans e denim moderno.

Outros empreendedores produziam e vendiam equipamento de mineração e garimpo para os milhares de recém-chegados e buscadores de riquezas. A beleza desta estratégia é que não importava o quão saturado os campos de ouro estavam, ou se o minerador em si conseguia enriquecer – perdas ou ganhos, chuva ou sol, os empreendedores conseguiram garantir suas riquezas. Foi durante esta fase que foi cunhado o velho ditado do “Durante a busca do ouro, venda as pás.”

A terceira categoria foi surpreendente, consistindo de alguns contrários que optaram por perseguir atividades paralelas ao extrato de ouro. Há o exemplo do minerador George Hearst que, embora tenha acumulado mais de 19 milhões de dólares em sua vida, nunca extraiu um único quilo de ouro em sua carreira. Enquanto todos estavam frenéticos atrás de ouro, Hearst optou por extrair quartzo. Eventualmente, dominou o mercado de extração de quartzo para a indústria crescente e investiu os proventos em minas de Prata nos Estados Unidos inteiro, multiplicando sua fortuna. Hearst eventualmente lançou uma editora e finalmente entrou para o senado americano.

Enquanto que as massas estavam literalmente se combatendo num campo extremamente competitivo, Hearst olhou para um setor com pouca atenção e capitalizou seus esforços nele. Com pouca competição à vista, não foi difícil para que ele logo dominasse o campo.

Lições para a modernidade

Pode parecer que um evento que ocorreu há um século e meio não pode oferecer nenhum insight significante para nossa vida tão diferente de antes, mas a verdade é que muita da natureza humana que possibilitou o efeito da corrida do ouro permanece idêntica até hoje. Isso nos traz algumas lições importantes que podemos tirar deste acontecimento histórico.

A primeira é que na maior parte das “grandes descobertas”, não são os verdadeiros pioneiros explorando o terreno que irão se tornar os mais bem-sucedidos da história. De fato, a primeira pessoa que descobriu ouro na Califórnia e serviu de estopim para o acontecimento morreu falida sem um tostão. Aqueles que calmamente analisaram a situação e descobriram oportunidades em meio a como elas se comportavam conseguiram extrair a verdadeira riqueza da situação. De forma parecida, até hoje idéias bem-sucedidas como o Uber e a tela de toque do iPhone não são completamente originais, mas suas grandes execuções foram construídas sobre idéias menos conhecidas.

A segunda é que durante qualquer operação e descoberta, sempre haverá uma distinção entre o apoio e a linha de produção. Na descoberta do ouro, a linha era a mineração e o garimpo, mas o apoio (casas, comida e serviços) era faltante. Quem pôde capitalizar em cima das operações de apoio conseguiu lucrar em cima das fortunas da linha de produção. E a melhor parte: com ou sem lucro, o apoio era necessário da mesma forma, permitindo a pessoa a lucrar na fortuna e na pobreza dos mineradores.

Este mesmo tipo de divisão apoio-linha sobrevive até hoje. Empresas de médio porte para cima sempre possuem o departamento de administração e RH. Prestadores de serviços terceirizados possuem contratos com muitos que não querem se preocupar com estes serviços. E num âmbito ainda maior, cidades e sociedades inteiras ainda dependem de serviços de apoio: luz, água, gás, alimentos… o consumo destes será perene enquanto a sociedade existir. Que belo insight para escolher empresas para investir, não é?


Você conhecia já a história da corrida do ouro? Quais insights pôde aprender desta fase de “mania” na história da humanidade? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Michael Weidner on Unsplash

Um comentário sobre “Como ganhar dinheiro em qualquer oportunidade – descoberta de ouro

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