Lidando com os efeitos dos cisnes negros

O período da quarentena em meio ao Coronavírus continua se arrastando, e cada vez mais as previsões sobre estabilização, controle e resolução se tornam menos claras. Os otimistas dizem que tempos melhores estão para vir, os pessimistas apontam que estas eram as mesmas previsões de um ou dois meses atrás. O resto acompanha tudo à distância, grudados às suas fontes de notícias.

Hoje, não há dúvidas que a pandemia do Coronavírus é um Cisne Negro, um evento de probabilidade baixíssima mas com efeitos catastróficos tal como classificado pelo estatístico Nicholas Taleb. Ninguém poderia ter previsto no seu início em Dezembro as proporções que poderia ter atingido, e hoje as suas consequências vão se alinhando como troféis fúnebres.

Lançamentos de filmes sendo cancelados. Ultra Music Festival e outros festivais de músicas foram cancelados. A NBA nos Estados Unidos foi cancelada, assim como a Eurocopa da UEFA de 2020. E a cereja do bolo não veio muito depois: em 24 de Março, os Jogos Olímpicos de Tokyo 2020 foram atrasados para 2021.

Os efeitos deste Cisne Negro foram avassaladores – e evoluíram mais rapidamente do que poderíamos ter esperado. Foram pouquíssimos os que realmente puderam se preparar; a maioria simplesmente de repente se encontrou numa condição de quarentena forçada. Tais acontecimentos são úteis para nos lembrarem de como podemos mentalizar e nos preparar para Cisnes Negros, e se sé realmente possível se preparar.

Eficiência e sanidade com o Threat Modeling

Para fazer qualquer forma de planejamento de segurança, temos que nos relembrar de um conceito base da segurança da informação: threat modeling

Formar este conceito é necessário para que se você quiser corretamente alocar recursos de forma eficiente para se resguardar dos riscos com a quantidade correta de recursos ou esforço. Ele resolve o velho problema de tentar matar uma barata com uma bazuca; você não quer desperdiçar os seus recursos limitados alocando demais para um problema pequeno, nem usar menos para um problema enorme.

Para realizar um threat modeling coerente, é necessário racionalizar o que é cada custo com sua probabilidade de acontecer e o dano patrimonial associado. Porém, por definição, a maioria dos Cisnes Negros estão exclusos desta análise, já que são considerados raros demais para acontecer. Isso implica que, ao passo que racionalmente a proteção é suficiente, a maioria das pessoas não está preparada racionalmente a lidar com Cisnes Negros.

Felizmente, isso não é uma coisa ruim. Graças à uma flexibilidade operacional, podemos lidar com consequências inesperadas de outras formas.

Agilidade e flexibilidade são as chaves para resolver problemas

Ao invés de tentar criar um plano de contingência para tudo do zero, é muito mais eficiente planejar o conhecido e lidar com o desconhecido enquanto acontece. Esta provavelmente foi a única opção de muitos quanto aos impactos do COVID-19.

Como nunca tivemos a chance de tentar lidar com as causas e efeitos de uma pandemia altamente contagiante, nos resta proteger o nosso patrimônio com o que temos de conhecimento e experiência (reserva de emergência, contingentes operacionais), e simplesmente continuar a operar com a maior flexibilidade possível.

Este conceito ficou muito claro com o estabelecimento do home office enquanto as pessoas foram mandadas para isolamento e quarentena; quase que da noite para o dia, escritórios se tornaram vazios, VPNs foram instaladas e formas de trabalho online e na “nuvem” se tornaram o padrão. Teleconferências e trabalho de pijamas seguiram.

Este é um exemplo de agilidade aplicada para resolver um problema novo, nunca antes visto, de forma a melhorar conforme o feedback recebido. Essa flexibilidade permitiu que a produtividade continuasse, mas infelizmente outras coisas se tornaram menos previsíveis, como empregabilidade e salários.

Estas são coisas que geralmente temos pouco ou nenhum controle sobre. O que podemos fazer neste caso?

Estoicismo: foque naquilo que você tem controle imediato

Felizmente, ainda não tive nenhum impacto quanto neste ponto, mas em preparação à qualquer situação adversa, resolvi tomar decisões lidando com a parte do problema que eu poderia controlar.

Especificamente, foquei em dois pontos de controle:

Até hoje existe gente no meu escritório que escreve diariamente no grupo de WhatsApp como eles estão preocupados com uma possível “manobra do RH” ou sobre como esta crise do Coronavírus pode só estar começando. Porém, esta enorme preocupação não irá agregar em nada prático. Se eles simplesmente passassem a cuidar daquilo que conseguem controlar, teriam uma paz de espírito maior, e poderiam se preparar melhor para resolver os reais problemas que importam.

Este é um dos traços da filosofia de vida estóica que nos preparam mentalmente para conseguir enfrentar de controle limitado ou difícil. Ao racionalizarmos a dicotomia do controle, traçamos uma linha dividindo a esfera de onde temos controle daquela que não temos, e focamos nossa energia apenas na anterior. Qualquer esforço jogado na posterior será simplesmente em vão, dada a natureza da situação.

Praticar esta dicotomia do controle pode parecer um pouco controverso a princípio, pois parece o hábito do avestruz de enterrar a cabeça na terra para não encarar a realidade. Porém, uma análise racional revela a verdadeira forã neste quesito: você não está ignorando o problema, está simplesmente direcionando os seus esforços para uma forma produtiva de resolvê-los.

É esta a forma de racionalidade que combate a ansiedade e nos mantém focado nos objetivos embora a sensação de pânico e desespero ao redor. E há de se dizer que ela se torna bem importante em tempos como estes, incertos e nunca visto antes.

Problemas com o “cenário do pesadelo”

Por fim, compartilho uma idéia que o pesquisador de segurança digital Bruce Schneier, um dos maiores nomes no âmbito de segurança da informação do mundo, publicou a respeito de sempre pensar a respeito do “pior cenário possível.”

Para Schneier, a noção de sempre pensar no pior, de sempre colocar o “pesadelo” à frente de tudo não adiciona significantemente em termos de segurança, mas por outro lado, nos deixa muito mais paranóicos como efeito colateral. A razão desta ineficiência? O pior cenário não é o cenário mais provável de acontecer, e investir recursos para se proteger dele não possui retorno por não ser utilizado. Schneier critica duramente os modelos de segurança que, lastreando-se sempre na premissa do “pesadelo,” optam por sacrificar elementos como liberdade e privacidade por conta de uma “segurança” a mais.

Pela mesma razão que o nosso exercício de Threat modeling anterior aceitava excluir algumas categorias de ameaças, é mais eficiente se proteger contra cenários reais e com grande probabilidade de acontecer. Há uma possibilidade do mundo acabar amanhã, mas há uma possibilidade absurdamente maior dele não acabar – em qual delas você irá contar?


Como você está lidando com os efeitos colaterais do COVID-19 na sua cidade? Que mudanças foram acarretadas? Você acha que ele pode ser considerado um evento de Cisne Negro? Escreva sua opinião nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Image by Alina Kuptsova from Pixabay

3 comentários sobre “Lidando com os efeitos dos cisnes negros

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