O real custo das coisas é por uso, não tempo

Quando se trata de enriquecimento, uma regra é clara: devemos economizar e concentrar nossos gastos em ativos financeiros, que se valorizam com o tempo e nos trazem dinheiro, e minimizar os gastos que temos com passivos que só tendem a depreciar e acumular custos ao longo do tempo. Neste ponto, fale a pena lembrar da frase clássica de Robert Kiyosaki, que explica que Ativos colocam dinheiro no seu bolso, passivos tiram dinheiro do seu bolso.

No meio deste caminho trilhado, várias perguntas começam a surgir na luz deste simples conceito. Existem disputas emocionais e culturais, como a questão do carro e da casa própria sendo passivos numa sociedade que os valoriza como símbolo de status social. Ou até mesmo se quando se mora em cidade pequena ou isolada é necessário ter o carro próprio. Infelizmente, para a maioria destas perguntas não há resposta comum correta, pois mesmo que fizermos um ponto racional, nossas crenças e cultura emocional nos tenta provar o contrário.

Não há como escapar de ter passivos acumulando no decorrer das nossas vidas. Afinal, ainda precisamos de roupas, comida, certos bens e meios de produção para sobreviver. E convenhamos que nunca conhecemos ninguém que fica alegre só de comprar ativos. Porém, existe ainda mais uma regra que devemos nos conscientizar toda vez que cogitamos comprar ou usar um passivo, e esta é a do custo por uso.

Simplificadamente, ela diz que o custo de cada um dos nossos passivos aumenta a cada vez que optamos por utilizá-los. Uma afirmação simples, até meio óbvia a princípio, mas que muitos se esquecem ou preferem ignorar quando um novo passivo aparece em suas vidas. Porém, se não respeitada, a regra do custo por uso pode trazer um desastre financeiro na sua vida. Vamos explorar mais as implicações deste princípio financeiro neste post.

O que mais está por trás de um passivo?

Além da regra do Kiyosaki, passivos tendem a fazer mais do que simplemente tirar dinheiro do seu bolso. Costumo fazer a analogia da sua situação financeira como tentar boiar no meio de um lago onde não dá pé.

Você pode se manter boiando e respirando se fizer algum esforço e bater os braços e as pernas, mas no momento que parar, irá para o fundo do lago. Ativos financeiros são como bóias que podem lhe manter flutuando – se forem grandes o suficiente. E os passivos? Os passivos são como uma grande âncora amarrada aos seus pés, te afundando mais rápido que você consegue nadar para cima.

Infelizmente, há mais do que simplesmente a depreciação do passivo que lhe acarretam custos ao longo da vida. Na maioria das vezes, cada vez que você um passivo, mais custo ele lhe acumula. Estes custos são meio óbvios a princípio, mas novamente nossa psicologia costuma jogar contra nós, e tentamos mascará-los ou ignorá-los mesmo quando eles estão empilhando no nosso extrato bancário.

Consideremos o clássico exemplo do carro. Quando você compra o carro, além dele começar a se depreciar no momento que você liga a chave, ele também começa a acumular outros custos: seguro, vaga no prédio, imposto… Só que os maiores custos associados ao carro estão longe de serem estes – podemos inclusive dizer que são cascalho fino perto dos outros. Estes maiores custos são os custos operacionais de ter e utilizar o carro.

O seguro do carro não é nada perto do quanto você paga a cada vez que enche o tanque a cada uma semana ou duas. O IPVA é barato perto do custo acumulado dos estacionamentos pagos toda vez que sai com o carro. E ainda tem a manutenção periódica, troca de pneus, pedágio e gasolina utilizada em longas viagens. Todos estes são custos operacionais que aumentam a cada vez que você usa o carro.

Este conceito é aplicável para qualquer outro passivo que você poderia acumular. Pensemos na casa própria. Além dos pagamentos do financiamento mensal e os impostos, temos que arcar com os custos de morar na própria casa. Afinal, energia elétrica, gás, água e internet não são gratuitas. Dado este contexto, é difícil chamar de ativo um bem que custa tanto para simplesmente ser mantido por mês. Novamente, quanto mais se usa, mais custos se acumulam.

É difícil novamente se colocar numa situação onde não dependemos de nenhum passivo na vida. Este não é o ponto que estou tentando marcar neste artigo. Porém, você precisa ter consciência de quanto estas coisas estão realmente lhe pesando no fim das contas. Um simples exercício de orçamento poderia nos ajudar a ver estes custos ocultos, mas nem todos temos esta consciência de anotar tudo.

É importante, porém, saber que o conceito oposto – custo por prazo de possessão – é uma ilusão criada para justamente tentar te convencer que você pode usar as coisas à vontade uma vez compradas sem custo extra.

A falácia do rodízio nos passivos financeiros

Atire a primeira pedra quem nunca na vida entrou num restaurante rodízio com toda a fome do mundo e pensou: “é hoje que eu vou dar prejuízo neles!” No decorrer da refeição, você faz todo o esforço para comer o máximo possível para conseguir “recuperar o investimento” no pagamento fixo, e sai do restaurante quase sem conseguir respirar, pensando que saiu na vantagem.

A verdade é que, em todos os conceitos, quem perdeu nesta história foi você, não o restaurante.

O restaurante sabe que manipulando a sua consciência para não pensar no custo da comida mas em outra variável – no caso, sua capacidade de comer – ele pode te convencer a pagar a mais por algo que você não precisa. É por isso que ele calculou precisamente o preço por pessoa da refeição rodízio para que não só cubra os custos (baratos) dele em produzir a comida em massa, mas também tirar de você um lucro. E ainda nem falamos do preço da bebida. No fim das contas, você acaba perdendo em dobro: pagou mais do que deveria e comeu bem a mais, impactando a sua saúde.

Esta “falácia do rodízio” é pertinente também quando trata dos passivos financeiros. Somos tentados a acreditar que os custos tenderão a ser diluidos conforme você for usando o passivo ao longo do tempo. Esta mentalidade é tão pertinente que tendemos a averiguar coisas como durabilidade e tabelas de depreciação quando compramos alguma coisa, e podemos até optar por pagar a mais por isso. Ao pagar R$50000 num carro novo, somos induzidos a pensar que iremos diluir estes custos ao longo dos anos de possessão, e com isso eles não se tornam tão “dolorosos” como a pancada inicial.

Esta falácia do “custo por tempo” é uma grande jogada de marketing e psicologia. Consideremos uma casa que não possui ar condicionado, e de repente se escolhe fazer o investimento inicial e instalá-lo. A partir deste ponto, temos um fator psicológico nos influenciando para utilizá-lo a mais: afinal, já tivemos o esforço e o investimento para comprar e instalar, portanto é nosso direito utilizá-lo ao máximo, correto?

É este tipo de mentalidade que leva a acarretar muitos outros custos que não fazem parte do “pacote inicial.” Um pequeno hábito de ligar o ar condicionado se traduz num grande buraco para a conta de luz no final do mês. Para combatê-la, basta manter em mente que os custos das coisas não são determinados pelo tempo de posessão, mas sim pelas vezes que escolhemos utilizá-las. Você já causou um dano financeiro comprando o ar condicionado; não aumente-o mais ainda aumentando o seu uso.

Qual é o desconto se eu não comprar?

A verdade é que mesmo com muita consciência financeira sobre os custos de um passivo, é difícil viver uma vida 100% livre deles. Eles compõem a nossa vida, e certamente são a razão pela qual nossa economia consegue girar. É importante, porém, ter a consciência das formas que seus custos se acumulam.

Reconsiderar a frequência de uso, o valor trazido por eles, e necessidade são bons pontos de partida para viver uma vida mais eficiente financeiramente, e devem ser sua primeira linha de defesa quando considerando alguma nova compra. Lembre-se sempre de ter mais ativos do que passivos no patrimônio para conseguir se manter sobrevivendo financeiramente. Se você não se policiar quanto a isso, pode terminar de formas similares às dezenas de artistas que entram em falência mesmo depois de uma vida inteira de salários altos.

E quando estiver em dúvida, lembre-se: o custo das coisas é por uso, e não por tempo!


Qual é a estratégia que você usa para reduzir a incidência de passivos na sua vida? Quais regras utiliza para estimar ou calcular o custo total de uso? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

3 comentários sobre “O real custo das coisas é por uso, não tempo

  1. Achei excelente essa perspectiva, Pinguim!

    Incontáveis vezes vejo isso, hoje principalmente com acessórios gourmet. O cara gosta de provar cervejas artesanais, compra 1 por semana e degusta cada uma, como se fosse um evento. Ai ele compra uma cervejeira, pra que fique na temperatura perfeita, então ele compra mais 40 cervejas, para encher a cervejeira. Ai toda semana ele vai e compra mais várias cervejas artesanais, bebe igual um opala 6 canecos, ferra a saúde e beber aquela cerveja perde aquela função de desfrutar com prazer aquela única cerveja (ligado à escassez).

    Vale lembrar que o CPU (custo por uso) pode ser olhado de uma outra forma também: naqueles produtos em que “não se gera um custo extra por cada uso”, a medida que se vai usando, “mais barato” vai ficando. Assim é com algumas roupas de maior qualidade e com um preço maior. Você paga R$ 60 numa calça, mas somente a consegue utilizar por 6 vezes, depois fica praticamente inutilizável (rasga, estraga, algo assim). Pode valer mais a pena uma calça que custe R$ 300, mas que você a utiliza com a “mesma qualidade” por 50 ou mias vezes, fora a pegada ambiental.

    Abc,
    FPI

    Curtido por 1 pessoa

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