Quando ser um “contrário” não é vantajoso

Até que descobrimos a independência financeira, geralmente vivemos uma vida bem padrão. Vamos para a escola, brincamos no nosso tempo livre, estudamos para o vestibular, fazemos faculdade e finalmente nos acomodamos no nosso trabalho nas próximas décadas. A partir daí, dinheiro é recurso para se divertir, comprar coisas que você não precisa, e outras das “felicidades” da vida adulta, como o happy hour, casa e carro próprio.

Em determinado momento, a educação financeira nos mostra que este modo de vida esbanjante é ineficiente, e estamos na verdade fazendo tudo errado. Aprendemos que os bancos não nos oferecem os melhores investimentos, que economizar e ser frugal não é sinônimo de deprivação ou limitação, e que o aporte constante é uma das forças mais poderosas do universo. Tendemos, então a nos tornar um termo que a finansfera gosta de jogar por aí: um contrário.

A essência do contrarianismo é que as oportunidades inexploradas se encontram além daquilo que é considerado popular, e atravessando o caminho menos explorado, podemos obter mais valor do que fazendo aquilo que é esperado da maioria.

Este mindset é rapidamente apontado como adotado por várias figuras bilionárias como Warren Buffett, Ray Dalio, que não seguem tendências de mercado, e traçam suas próprias estratégias impopulares de investimento com sucesso enorme. Empreendedores bem-sucedidos que “nadaram contra a maré das massas” em direção ao seu próprio sucesso também são apontados como contrários em seus próprios âmbitos.

Eu acredito profundamente que ser um contrário é essencial para atingir o sucesso – afinal, fazer parte da média é a antítese do sucesso. Porém, como tudo na vida, o contrarianismo deve ser balanceado dentre a vida total, e há uma hora e um contexto correto para aplicá-lo. Se abraçarmos a essência de ser um contrário em todos os momentos da vida, estaremos essencialmente nos tornando adversos e intragáveis para os grupos sociais nos quais participamos, resultando em simplesmente isolamento e oportunidades de networking perdidas.

Quais são alguns perigos de abordar o contrarianismo em todos os momentos da vida, e quais são os contextos onde ele se torna valioso?

Ostracismo ao estranho do grupo

Seres humanos são gregários e partem do princípio de aceitação social e majoritária para saber o que é certo de se fazer. Talvez este traço seja originário da nossa evolução e da nossa tendência de sempre enxergar tudo de maneira relativa, comparando o desconhecido com o conhecido para conseguir ter uma idéia melhor. Querendo ou não, todos tendemos a associar aquilo que é geralmente aceito com aquilo que é correto.

Quando alguém em nosso círculo social apresenta uma idéia diferente, revolucionária, e que até parece ser boa, porém, uma coisa interessante acontece: esta pessoa se torna o estranho do grupo. Mesmo que com boas intenções, o novo “estranho” é visto sob uma ótica de suspeita e aversão porque aparenta ao grupo que o “estranho” possui alguma vantagem sobre o resto do grupo por seguir a boa idéia. Finalmente, a idéia e o indivíduo que a ofertou são tidos como nocivos, e efetivamente ejetados do grupo.

Este é o acontecimento do Efeito Vegano, e é comumente visto em grupos como veganos, crossfitters, minimalistas e – como você já deve ter sentido – investidores. Ninguém gosta de achar que está perdendo alguma coisa, e ao tentar convencê-los a seguir alguma idéia diferente, você aparenta possuir alguma vantagem a mais, e se torna a ameaça do grupo. E, infelizmente, quando se pratica o contrarianismo este é exatamente o efeito que tende a acontecer.

Contrários experienciam este isolamento do grupo ao adotar idéias que essencialmente consideram que o que o grupo faz é errado. E mesmo que no fundo sabemos que esta é a abordagem correta a se seguir, o efeito de cegamente seguir o contrarianismo a toda situação trará dificuldades sociais maiores que os benefícios pessoais.

Como podemos lidar com este dilema de, por um lado, querer nos desenvolver pessoalmente e fazer aquilo que nos trará mais crescimento e valor, e por outro, não nos isolar do grupo por conta das nossas escolhas? Através da divisão de contexto entre a aparência externa e interna.

A vida interna e externa e camuflagem

Para combater esta situação, podemos utilizar uma estratégia similar à abordagem do estoicismo chamada de dicotomia do controle. Esta estratégia afirma que você pode dividir qualquer situação em duas esferas de controle: aquilo que você possui controle sobre, e aquilo que você não possui. O estoicismo afirma que não há razão em se preocupar com aquilo que você não consegue controlar, aceite-o e dedique sua energia para aquilo que você consegue controlar.

De maneira similar, podemos dividir a vida e nossas ações como contrários nas partes internas e externas. Internamente, seguimos fortes como contrários e seguindo os nossos princípios mesmo que contra a opinião popular. Externamente, nos mostramos da opinião comum e aceitando a rotina da média. É um erro se tornar tão contrário ao ponto de querer mudar a opinião alheia à força. Na maioria das vezes, tudo o que isso irá trazer será desaprovação alheia. O truque aqui novamente é moderação.

Por exemplo, embora eu não mais tenha o hábito de beber, isso não significa que eu tenha cortado 100% álcool da minha vida. Ainda saio para beber em ocasiões especiais, e consumo em casa durante celebrações. Às vezes, tais celebrações podem ser no círculo de trabalho, onde a manutenção do networking e as relações são importantes. Mesmo que eu acredite que gastar dinheiro desta forma é detrimente ao patrimônio, conservo meu contrarianismo e saio esporadicamente para algumas das comemorações.

Ao praticar este hábito, consigo garantir que não caio no ostracismo como o indivíduo estranho e ameaçador do grupo, e não deixo ser levado pela média e atingir negativamente o meu patrimônio. Muitas pessoas escolhem ser vocais e ativas neste quesito, “batendo de frente” contra as pessoas e os conceitos atualmente aceitos, quando na verdade deveriam se preocupar em ter boas relações e simplesmente focar no seu crescimento internamente.

Aprenda a “blend in” e seja feliz

Existe um conceito em inglês chamado blend in que para mim exemplifica bem como o contrarianismo deve ser praticado: na parte de fora, aprenda a se tornar parte do grupo e cultivar boas relações.

O fato que você investe, ou é um minimalista, frugal ou vegano não precisa ser divulgado 100% do tempo para o restante das pessoas do seu círculo social. Simplesmente, o retorno que você poderia ter não vale a pena o risco de se tornar o elemento estranho. Você pode deixar estas partes da sua vida de fora da sua aparência externa, e focar em ser um contrário nas partes que realmente importam, em como utilizar o seu tempo livre e nas suas demais escolhas pessoais. E nestes âmbitos, sim, você deve se esforçar para se distanciar da média por mais tempo possível se quiser alcançar o sucesso.

Claro que existem exceções de contrários públicos que explicitamente pregam e praticam suas idéias impopulares sem preocupação com qualquer repercussão (veja a maior parte dos políticos), mas estes são a minoria, e geralmente falam e praticam a partir de uma posição de poder. A nossa realidade geralmente é bem diferente.

E assim, termino com uma fala de Sêneca, um dos autores estóicos mais influentes, que exemplifica a dicotomia do contrarianismo de uma forma que não sacrifique a sua posição social:

Mostra-se autocontrole permanecendo abstêmio e sóbrio quando a multidão está bêbada e vomitando. Mas mostra maior autocontrole ao fazer o que a multidão faz, mas sem se deixar tornar conspícuo. Pode-se guardar os festivais sem extravagância.


Você se considera um contrário na vida? Acredita que viver no contrarianismo a toda hora pode trazer alguma consequência ruim na vida? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Timon Studler on Unsplash

Um comentário sobre “Quando ser um “contrário” não é vantajoso

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