Bancos: ruim com eles, pior sem.

O despertar da educação financeira é um processo interessante. Primeiro vem a fase da feliz ignorância: dinheiro é um “a mais” na vida, você poupa o que consegue, e gasta a diferença em passivos e outras coisas supérfluas. Reserva de emergência é aquilo que tem em conta corrente, reze para que nunca seja necessário utlizá-la. Investimento é coisa de gente rica e sabe-se lá o que se passa por trás dos bastidores.

Em seguida, a pessoa acorda e descobre que existe mais para a vida do que ficar cegamente ganhando e torrando dinheiro. Eventualmente ela descobre que o banco na verdade não é o seu amigo ou uma entidade prestativa – muito pelo contrário, ele mais parece um vilão, o seu maior inimigo financeiro. Durante esta fase, abomina-se o banco e busca-se todas as alternativas de investimentos que não o envolve. Corretoras independentes, fintechs e o Tesouro Direto se tornam os novos campeões do recém-chegado ao mundo dos investimentos. Poupança e previdência nunca mais!

Esta a situação que a maioria dos iniciados na educação financeira se encontra. Com o passar do tempo, porém, uma coisa engraçada acontece: ao amadurecermos financeiramente e ganharmos experiência e visão de longo prazo, o banco volta a se tornar um companheiro e possível auxiliador das nossas finanças pessoais. Este ponto contraditório se torna claro quando começamos a enxergar o banco como simplesmente uma ferramenta que deve ser usada da maneira certa.

Sim, você ainda precisa usar o banco para determinadas situações, mesmo sendo indocrinado a nunca utilizá-lo como diz a maior parte da educação financeira.

Como você pode utilizar o banco como uma ferramenta para o seu próprio benefício, e como combiná-lo com as outras entidades do seu arsenal financeiro? Vejamos neste post.

“Custo Zero” e o risco escondido dos pequenos e independentes

O grande atrativo das corretoras independentes e outras plataformas alternativas para investimentos está no custo operacional reduzido – geralmente a custódia e corretagem. A ausência destes custos operacionais torna a nossa jornada financeira muito mais eficiente, especialmente dado o efeito destrutivo que tais custos recorrentes tendem a acumular com o tempo.

Comparadas com os serviços e produtos oferecidos pelos grandes bancos, as corretoras de investimentos independentes são atrativas por oferecerem alternativas que não possuem taxa de administração anual, e recentemente passaram a eliminar inclusive a corretagem cobrada por operações na bolsa, o que as tornou ainda mais atrativas. Porém, neste jogo de eliminar custos, uma importante consideração é casualmente esquecida.

Há uma máxima quando se fala de economia e finanças que afirma que “não existe almoço grátis,” e é aplicável em quase tudo no âmbito de gestão de recursos. O conceito por trás da máxima é que qualquer coisa envolve algum custo, portanto, se algo aparenta ser gratuito, é porque o custo foi simplesmente direcionado a algum outro pagador. Exemplos disso são eventos gratuitos realizados pelo governo (custos arcados com impostos pagos pela população), amostras grátis e provas de produtos (custos bancados pela empresa visando atrair clientes), e operações de ONGs (custos cobertos por doações de quem acredita em suas causas).

Até mesmo a enorme quantidade de conteúdo “gratuito” na internet é pago de alguma forma, como visto pela explosão de propagandas em vídeos e páginas atualmente.

“Custo zero” para pequenas corretoras não foge à regra – a corretagem é uma fonte de renda da corretora e, ao optar por zerá-la, a corretora precisa arcar com os custos de outra forma, especialmente com a chuva de clientes buscando o menor custo. Isto aumenta o risco da operação da própria corretora que passa despercebido para a maioria dos novos investidores. Se a corretora ou banco digital resolve cortar uma de suas fontes de renda, como fará para lidar com os custos crescentes da clientela crescente?

Difícil de engolir que seja, este risco pode ser mitigado e evitado utilizando um grande banco. Esta frase pode soar como um insulto contra tudo que você aprendeu na educação financeira, mas quando se considera os ricos envolvidos, o argumento é lógico.

Por exemplo, a chance de uma corretora independente quebrar é muito maior que a de um grande banco, e mesmo com a custódia estando na bolsa em si, ainda há um processo para mudar a custódia para outra entidade, o que lhe custaria oportunidade de investir durante esta indisponibilidade, ou até mesmo um advogado para auxiliar no processo. Além disso, não ter uma corretora integrada significa que é necessário um TED para conseguir investir (um TED de R$15 mensais resulta num custo total de R$2295).

Além disso, reclamações de uso das plataformas gratuitas é uma tendência crescente. Uma busca por alto no Google revela várias situações frustrantes com o uso do home broker de corretoras baratas ou zeradas como a Clear, Rico e bancos digitais como o Nubank e Inter. Se você recebe aquilo que você paga, é alguma surpresa que isso acontece?

Tudo isso é evitado quando se utiliza um grande banco. E mesmo quando se considera a corretagem cobrada para se investir, a segurança de não precisar acionar a troca de custódia e ter o dinheiro disponível na conta é um fator importante. Seria alguma razão para você largar a sua corretora imediatamente e voltar ao seu bom e velho banco? Isso vai depender da sua percepção de risco, novamente. Porém, é necessário falar sobre outro assunto para qual o banco pode não ser só uma conveniência, mas pode ser a única alternativa segura existente: a reserva de emergência.

Dilema da reserva de emergência

A reserva de emergência era para ser supostamente um conceito simples: junte o equivalente a entre 6 a 12 meses de vida poupados e faça o uso quando algum custo extraordinário inexperado aparecer. É importante fazer a manutenção da reserva, repondo sempre que algum gasto a utilizá-la, mas depois disso a história acaba. Não há mais nenhuma outra razão para se preocupar com ela.

Esta história simples, porém, frequentemente se torna polêmica por conta de pessoas que optam em considerar a reserva como um pequeno investimento. O racional por trás disso é que a reserva de emergência toma uma grande parte do patrimônio quando estamos iniciando nos investimentos e não estamos estabelecidos ainda. Portanto, por que não fazer uso deste pedaço do patrimônio tornando-o minimamente rentável com alguma certa segurança?

Para resolver este “problema,” algumas pessoas se tornam criativas, citando alternativas desde o Tesouro Selic (tido como o mais seguro, até mesmo “risco zero”), CDBs “garantidos pelo FGC,” ou até mesmo produtos fintech como a Nuconta do Nubank (conta corrente que rende 100% do CDI com garantia do FGC). Eles partem do princípio que, como há alguma forma de proteção, vale a pena tomar um pouco do risco para não deixar a quantia parada.

Para mim, porém, esta decisão é imprudente quando se trata da sua última linha de defesa, a sua única certeza quando se trata do mundo de risco dos investimentos. Este é o único caso onde você não deveria se arriscar, pois não é possível saber quando será necessário resgatar e utilizar o dinheiro. E o risco não é apenas financeiro (i.e. vender na baixa), mas também de liquidez.

Por exemplo, imagine que você precise sacar parte do dinheiro que possui no Tesouro Direto para o dia seguinte, mas é sexta-feira às 18:00. Você só poderá fazer a operação na segunda-feira às 10:00, tendo que passar o fim de semana sem contar com ele. E mesmo assim, há casos inesperados onde a negociação do Tesouro Direto é suspensa, seja volatilidade na taxa de juros, indisponibilidade técnica do sistema do tesouro Nacional, ou até mesmo agora, com a crise do coronavírus novamente algumas negociações foram bloqueadas.

Com outros produtos como CDBs com liquidez diária ou os produtos das Fintechs, o risco está nas instituições financeiras falindo. Mesmo com a cobertura do FGC o risco de liquidez permanece pois há um intervalo entre a indisponibilidade e o ressarcimento. Durante este período (quanto tempo durará?), se você necessitar do dinheiro, ele novamente não estará em mãos. E dependendo da instituição, ela pode estar carregando mais dívida que parece.

A alternativa? Poupança num banco sólido. Lembre-se que isto é uma reserva, não um investimento. Rentabilidade não é necessária aqui – apenas garantia e segurança. São inclusive os próprios grandes bancos que compõem o fundo trilionário do FGC, tamanha é a garantia financeira que eles são capazes de providenciar.

Isso significa que eu volto atrás para voltar a amar os bancos? Não, muito pelo contrário. É uma questão apenas de utilizar cada ferramenta no seu lugar correto – e o banco se prova bem útil quando usado da maneira correta.

Combinação estratégica do Pinguim

Gosto de simplicidade nas coisas que compõem a minha rotina, e portanto possuo uma arquitetura simples pra quando se trata do meu dinheiro.

Utilizo o banco primariamente para a minha reserva de emergência, a qual aloco em duas partes: o colchão e a reserva. O colchão é a minha reserva imediata com liquidez extrema e que posso acessá-la sempre que precisar. Para isso uso a boa e velha poupança, e nela tenho o equivalente a três meses de custo de vida alocados. O restante da reserva está investida no tesouro Selic, e possui mais ou menos seis meses de custo de vida alocados.

O grande lance desta alocação que reduz meu risco é que não conto 100% com o risco de nenhum investimento em questão, e até o colchão ser drenado tenho tempo e como preparar para resgatar parte da reserva maior. Enquanto isso, meu patrimônio “trabalhador” de verdade está seguramente alocado além da necessidade de resgate, formando o core do meu capital me provendo renda passiva regularmente.

Uma reserva de emergência dividida em camadas traz flexibilidade e resiliência ao portfólio.

Veja que um grande banco é crucial neste modelo de gestão de risco, pois quando você corre o risco de insolvência até na primeira camada de emergência (como ao utilizar Nuconta ou alguma renda fixa) estará essencialmente o modelo desaba. Você estará correndo o mesmo risco que Elon Musk teve ao investir tudo na Tesla e ficar sem dinheiro nem para pagar o aluguel – não necessariamente estará pobre, mas terá uma grande dor de cabeça ao arranjar um empréstimo.

E quanto a corretora? Ainda continuo com uma independente ao invés de investir com meu banco. Mas novamente, continuo a analisar a oportunidade de transferir a custódia. Algumas vantagens seriam um tratamento diferenciado por ter mais dinheiro dentro da instituição (serviço tipo personalitté, Prime, etc), benefícios em serviços fora do banco como salas VIP de aeroportos, e conveniência de não precisar mais de TED para resgatar dividendos ou aportar, mas ainda fico pensando na corretagem. Atualmente, possuo sim uma conta num banco digital, que utilizo apenas como plataforma de TED gratuito para as corretoras de investimento – fora isso quase não possuo saldo nela.

Ainda não cheguei a considerar o salto, mas acredito que aproximando da IF a segurança passada por esta estratégia (e a redução da necessidade de reinvestir com tanta frequência) pode ser um fator forte para ser considerado.

Conclusão

De maneira alguma estou tentando convencer você a investir com o seu banco, ou que fintechs estão amaldiçoadas a falirem. Apenas lembre-se que o fatídico almoço grátis simplesmente não existe, e com isso os riscos estão sempre envolvidos, quão ocultos estejam. Esta mesma regra se aplica para a natureza dos investimentos também: muito rendimento só pode ser proporcional ao risco que eles estão se expondo. Questione-se sobre os casos de CDBs pagando mais de 120% do CDI em tempos de juros baixos, e quem realmente está lucrando com a sua escolha em investir em tal veículo.

Eu mesmo ainda estou considerando a utilização do meu banco como corretora eventualmente, mas não estou 100% dentro desta possibilidade no momento. Possivelmente, meu próprio amadurecimento financeiro irá me trazer alguns insights de como poderia fazer um bom uso deste como um veículo para trazer mais tranquilidade, especialmente beirando a aposentadoria. Talvez você descubra alguma coisa similar.


E você, já considerou voltar a utilizar o banco em meio aos seus investimentos desde que começou a sua educação financeira? Em quais casos optaria por utilizá-lo? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by rupixen.com on Unsplash

19 comentários sobre “Bancos: ruim com eles, pior sem.

  1. PI,
    Antes de ir para uma corretora independente, pesquisei bastante. Seu texto está excelente. A transferência da custódia realmente demora, porém, enquanto os ativos não são transferidos, podemos tranquilamente operar na nova corretora. O colchão de emergência tem que ser em um bancão mesmo, e olhe q tem gente que tem dinheiro em espécie em casa também, pois existe a possibilidade de faltar papel moeda caso todos saquem ao mesmo tempo.

    Você tocou no assunto de ter privilégios em bancões ao deixar seus investimentos neles. Fiquei em dúvida agora. Não seria somente se investisse nos produtos financeiros deles não? Se não tiver essa restrição, o custo/benefício é muito bom. Não me importaria de pagar 2 corretagens e uma custódia por mês para ter as vantagens.

    Vlw! Sucesso!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala, caminhando e poupando!

      Obrigado pelo comentário! Que bom que você gostou do post. É verdade, tem muita gente que nunca não percebe a necessidade de liquidez altíssima e risco baixíssimo quando se trata do colchão, e até ouvi dizer em gente que tinha a reserva alocada em FIIs (!!!). Ainda não pensei em colocar debaixo do colchão, mas reserva em moeda estrangeira não me é uma má idéia.

      Não sei como os privilégios em todos os bancões funcionam, mas no meu (Bradesco) cheguei a ser um tratamento um pouco diferenciado por ter acumulado uma quantia simplesmente em poupança. Talvez mantendo sob custódia pode ser parecido, mas vale a pena checar.

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. Um texto sensato e que vai na contra-mão do ‘senso comum’ na finasfera. Parabéns pela ideia.

    Eu uso um bancão como principal instituição financeira, é ali que estão meus débitos automáticos, o recebimento do salário e é dali que faço pagamentos e transferências. Na minha opinião é tudo questão de jogar limpo e aberto, conversar com o gerente do banco não arranca pedaço de ninguém (ao contrário do que muitos pregam), não custa nada abrir o jogo e tentar chegar em um acordo agradável. Os segmentos especiais dos bancos tem benefícios interessantes, claro, acho que tem que analisar o que vale o ‘custo de oportunidade’, mas ser aberto ao diálogo não custa nada.

    Não sei se a minha realidade é diferente, no interior pode ser diferente da capital, eu pessoalmente estou satisfeito com o bancão.

    Acho interessante algumas propostas de bancos digitais, mas nunca me interessei por: dificuldades práticas de usar essas instituições no interior (um caixa do banco 24 horas está a 2 horas de casa) e por certo receio da estabilidade dessas instituições, eu sou muito pé atrás com essas ‘modinhas’, não apenas de fintechs mas em quase qualquer coisa. Conheço gente que usa fintechs como banco principal e para investimentos, eu pessoalmente não gosto, a questão é que são empresas jovens, a maioria não tem uma geração de caixa forte e lucro, na verdade se for analisar várias dessas empresas dependem de aportes de fundos de investimento internacional, é isso que mantém várias delas funcionando. Eu prefiro acompanhar por alguns anos para entender como essas empresas vão se consolidar.

    Poupador do Interior
    https://poupadordointerior.blogspot.com/

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Poupador!

      Obrigado pelo comentário, cara!

      O seu ponto é muito importante também: quando se trata de banco, quase tudo é negociável mesmo. Se até dívida de cartão de crédito os caras negociam, esse lance da corretagem e custódia com certeza poderiam ser negociados também (embora eu nunca tenha pensado nessa possibilidade).

      Também conheço gente que joga tudo na Nuconta como se fosse poupança e só consigo pensar no risco invisível que estão correndo. Eu uso só como conta operacional, e nunca deixo mais de R$2000 por mais de algumas semanas nelas.

      Abraços e seguimos em frente!

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  3. O que seria a camada “Conversíveis”?

    Minha reserva de emergência é similar a tua, uma parte na poupança e a outra no Tesouro Selic.

    Deixo pouco na poupança, pois em caso de assalto você corre o risco de ter que sacar tudo e entregar ao assaltante, então deixo somente 1 mês de despesas ou até menos do que isso.

    Estou cogitando dividir parte do Tesouro Selic e alocar num fundo DI do próprio banco, mesmo pagando abaixo de 100% do CDI. Por que isso? Pode ocorrer do Tesouro ficar fechado, como foi recentemente, então melhor não correr esse risco em caso de emergência.

    Ainda tenho pouco capital investido, mas daqui alguns anos pretendo migrar a custódia das minhas ações e deixar tudo concentrado no bancão.

    ótimo post, Pinguim!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Colheita,

      Ativos conversíveis são alguns FIIs e Tesouro IPCA que podem ser liquidados em caso de emergência grande onde o colchão de emergência não pôde cobrir. O “core” do patrimônio continuaria protegido nesse caso.

      Acho válido este ponto do fundo do próprio banco como suplementação da reserva – como sempre, o objetivo aqui não é rentabilidade, e sim segurança. Obrigado por compartilhar!

      Abraços e seguimos em frente!

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