“Não é suficiente, então não vale à pena.”

Mesmo que eu siga os seus conselhos e corte este gasto recorrente da minha vida, só estarei economizando uns R$80000 ao longo de dez anos, e isso não é suficiente para se aposentar. Portanto, pra mim não vale a pena o esforço e o sacrifício.

Quantas vezes já não tentamos convencer alguém a economizar mais e viver uma vida mais eficiente financeiramente apenas para que esta pessoa trágicamente conclua que ela não conseguirá economizar o suficiente para se tornar FIRE e, por isso, conclui que é inútil tentar.

Esta visão de curto prazo e imediatismo é a causa mais comum pela qual as pessoas não conseguem enriquecer em primeiro lugar. É uma relação direta com a mentalidade de quem não consegue economizar ou aportar a mais. O imediatismo é a razão pela qual as pessoas desistem de tentar qualquer coisa que não dê resultados em menos de um ano, ou precise sacrificar alguma coisa que não traga um retorno imediato que justifique esta “privação.”

O problema é que na mesma moeda, esta mania de ver tudo no curto prazo é a mesma razão pela qual a maioria nunca irá enriquecer. Cada vez que você se convence que R$80000 lá na frente não é o suficiente, R$40000 não é suficiente, ou até mesmo R$10000 no fim de dez anos não são suficientes, você está se colocando mais fundo numa posição de não enriquecimento, de mediocridade financeira. Isso é porque esta visão e mentalidade ignoram a capacidade que temos de combinar economias e apreciá-las de uma maneira similar aos juros compostos, e também da capacidade humana de se motivar e conseguir poupar ainda mais. Vou detalhar mais sobre esse tópico a seguir.

Vivendo o Hoje às custas do Amanhã

O conceito econômico de escassez afirma que no momento em que um recurso é utilizado para um fim, ele deixa de ser utilizável para qualquer outro. É assim que funciona com dinheiro vivo, onde ao pagar alguma coisa com ele, ele imediatamente é perdido.

Quando uma pessoa pensa a curto prazo, ela vê apenas este lado da natureza do dinheiro. Munida de uma nota de cinquenta reais na mão, ela pensa “aqui estão cinquenta reais que eu posso gastar com alguma coisa, mas uma vez que gasto, nunca mais vou poder recuperá-los. Preciso então gastá-los da melhor maneira possível e fazer a melhor escolha!” Sequer por um minuto a capacidade mágica do dinheiro de produzir mais dinheiro passa por sua mente, e ela enxerga o mundo sob essa ótica de que precisa sacrificar alguma oportunidade com o uso do dinheiro.

Infelizmente, nesta hora a maioria das pessoas escolhe o lado menos doloroso deste “sacrifício” e assim opta por não aportar o dinheiro, mas sim gastá-lo na forma de algum passivo. O resto é a história que conhecemos: vive-se o hoje às custas do amanhã.

Esta mentalidade de escassez neste caso é limitante, e também a abordagem errada quando nos referimos ao nosso planejamento financeiro. A verdade é que quando temos este mindset estamos nos colocando numa posição mutuamente exclusiva: ou podemos escolher e economizar, ou podemos aproveitar a vida. E enquanto é possível utilizar esta escassez como uma ferramenta para viver uma vida mais eficiente, a escolha não precisa ser extrema, e você pode muito bem começar a escolher abundância também.

Se tratando de orçamentos, por exemplo, o guru de finanças pessoais Ramit Sethi descreve em seu livro I will teach you to be rich uma maneira flexível de se atribuir um destino ao dinheiro. Ramit afirma que 10% do salário deve ser destinada à economias de longo prazo (aposentadoria), e 10% para economias de curto prazo (uma viagem, compras maiores como carro ou casa, faculdade, etc). Fazer esta distribuição flexibiliza a distância entre o hoje e o amanhã responsavelmente, e torna minimiza a percepção de escassez. De repente, o dinheiro não será apenas utilizado remotamente na aposentadoria: passos intermediários existem.

Com prática, a percepção de escassez se torna cada vez mais fraca graças à frugalidade, e com o tempo ela pode até desaparecer. E neste ponto um fator importante começa a tomar força: começamos a ver outras oportunidades para economizar sinergisticamente.

O poder da motivação humana nos pequenos resultados

Voltando ao assunto original, realmente cortando apenas R$10 diários não paga o suficiente para se aposentar. Porém, ao tirarmos a visão de escassez da mente, nos tornamos aptos a enxergar a nossa rotina de outra forma. Vemos oportunidades para nos tornarmos mais financeiramente eficientes.

Talvez não seja mesmo só o corte do café da tarde que irá lhe levar ao FIRE. Por outro lado, aquela bebida encarecida do restaurante a quilo também não está ajudando nada. E já que tocamos no assunto, será que vale a pena mesmo comer num lugar cheio, sobreprecificado, que ocupa uma boa parte do tempo livre e cuja qualidade nem vale o que se paga? Ou haveria alguma alternativa ao seu alcance?

Existe um truque para conseguir se motivar a realizar aquelas tarefas gigantes das quais somos desencorajados apenas ao pensar. Tomemos, por exemplo, arrumar a casa. Uma tarefa que muitos têm arrepios, mas que se “quebrada” em pedaços menores, não se torna um grande sacrifício. Se você se convencer a simplesmente fazer cinco minutos de faxina num único canto da casa e nada mais, uma mágica acontece: ao fim dos cinco minutos, você se torna mais motivado e inclinado a continuar a limpar pelo menos mais um cômodo. Ao final deste cômodo, outro cômodo… e quando você menos esperava, você já limpou a casa inteira!

Parece mágica? É exatamente este método que Marla Cilley a.k.a. FlyLady incentiva seus leitores a tratar da arrumação da casa. Dividindo uma tarefa gigante em passos pequenos – e mais importante, que são percebidos como fáceis de serem cumpridos – você pode alcançar qualquer objetivo sem o drama do esforço. Cilley chama este conceito de Five-minute room rescue, e o resultado é transformador: limpar a casa se torna não um fardo, mas uma consequência. É este o conceito central que Cilley aplica em seu livro Chaos to clean in 31 easy babysteps

Como podemos aplicar isso nas nossas finanças? Exatamente da mesma forma. Imagine que você queira economizar mais nos seus hábitos diários, mas teme que estará correndo algum sacrifício. Você pode atacar aquelas coisas que considera mais supérfluas, como aquele cafezinho de R$7 todo dia depois do almoço. Será que vai doer tanto mesmo se você ficar sem ele?

No momento que você conseguir e sentir que o sacrifício não é tão grande, experimente expandir daí. Será que você precisa mesmo pedir bebida enquanto almoça fora? E se você pudesse economizar neste gasto? E já que estamos aí, será que não vale a pena tentar pular este gasto por inteiro e começar a trazer de casa a comida? Será que não valeria fazer isso para também economizar tempo de tabela?

O resultado financeiro é direto desta sinergia: se com o cafezinho você consegue economizar R$26320 ao longo de dez anos, podemos somar:

  • R$22590 ao não pedir bebida durante o almoço (-R$6,00/dia)
  • R$78960 ao evitar restaurantes e trazer a própria comida no expediente (-R$16,00/dia).
  • R$45120 ao evitar um hábito de happy hour sem significância toda semana (-R$60,00/semana)
  • R$15300 ao trocar a mensalidade da academia por exercícios aeróbicos e pesos livres em casa (-R$100/mês)

Total: R$188.290,00 economizados ao longo de dez anos por conta do custo de oportunidade.

Ao nos depararmos com este número, é impossível não se questionar se não vale a pena mudar alguns hábitos ruins para melhorar a nossa vida financeira por completo.

Automatizando o caminho para a riqueza

A maior parte das dietas falha ao longo prazo por um grande motivo: elas limitam a sua liberdade de escolha, e se tornam cúmplices da sua própria disciplina até que mais cedo ou mais tarde, você desiste e se rende aos sentimentos. Orçamentos funcionam de maneira parecida, e por isso são difíceis de se implementar sem a quantidade de disciplina necessária para mantê-los em operação. Felizmente, economizar e garantir um aporte constante não precisam ser tão difíceis: basta você realizá-los antes de fazer qualquer outro gasto.

Esta técnica é conhecida também como pagar-se primeiro, e é uma garantia que – aconteça o que acontecer no decorrer do mês – o seu planejamento financeiro para o futuro será honrado. Você pode arranjar esta técnica de várias formas, mas idealmente ela deve ser automatizada para evitar de cair na mesma tentação de anterior de querer apaziguar a sensação de sacrifício. Colocando alguns sistemas automáticos nos seus devidos lugares, o processo pode se tornar transparente e indolor. Você pode automatizar transferências bancárias para a sua corretora no dia que o salário cai ou, se já tiver experiência o suficiente, poderá até transferir antes, controlando as reservas e contando com o salário caindo no dia previsto.

Este é o método do Milionário Automático tal como descrito pelo planejador americano [David Bach em seu livro de mesmo nome](https://www.amazon.com.br/gp/product/B07SKP9SZF/ref=as_li_qf_asin_il_tl?ie=UTF8&tag=pinvest-20&creative=9325&linkCode=as2&creativeASIN=B07SKP9SZF&linkId=d1e4410bd0d3af7038ac83cfdcbc483e
). Bach descreve como é possível para qualquer um enriquecer se simplesmente a escolha de alocar uma porcentagem do seu salário para os investimentos a longo prazo, antes mesmo que possam ver o dinheiro.

Lembre-se: sacrifícios não precisam ser sacrifícios

Este argumento sobre o custo de oportunidade faz total sentido racionalmente, mas ainda nos resta uma barreira para ser resolvida: o sentimento de sacrifício que nos força novamente para uma mentalidade de escassez.

Algumas técnicas podem ser usadas para “amenizar” esta situação. A primeira é que você não precisa cortar completamente qualquer coisa da sua vida. Viver sem um café diário é difícil? Experimente uma vez a cada três dias. Substitua com chá ou outra bebida, ou até mesmo água. Uma vez que você se “condiciona” com a redução dos hábitos, eles se tornam muito mais flexíveis graças à nossa adaptação hedônica.

E, finalmente, “sacrifício” é um termo que sempre será relativo à nossa percepção das coisas. Aquilo que pode ser fácil para alguém reduzir pode não ser para outro, mas finalmente podemos tirar o zoom da situação para vê-la por inteiro. Neste contexto, fica mais fácil averiguar a diferença; o que vale mais a pena – um café e outros prazeres efêmeros ou uma vida de riqueza perene no futuro?

Aquilo que você não percebe como um sacrifício não se torna um sacrifício na sua vida. Busque uma vida financeiramente eficiente e você não terá remorso ou arrependimento.


Como você lida com o fato que apenas cortando certos gastos na sua vida não é o suficiente para se aposentar? Você racionaliza e olha para o futuro? Como se mantém motivado? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Caleb Jones on Unsplash

7 comentários sobre ““Não é suficiente, então não vale à pena.”

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