Resolvendo a curto e longo prazo

No decorrer da rotina diária da cidade, temos aquela impressão que sempre estamos na correria. Não tenho tempo para isso, não vai dar para fazer aquilo. Estou ocupado, me desculpe. Quem tem tempo para cuidar disso, diante da correria da vida moderna? Desculpa, não tive tempo para ver isso.

Quem nunca viveu por estas situações desde adulto? Enquanto nossa percepção é relativa, e muitas vezes a falta de tempo é simplesmente a vontade de fazer coisas demais, ela nos leva a acreditar que temos que resolver nossos problemas da maneira mais rápida possível a fim de nos economizar tempo para outras tarefas importantes.

Infelizmente, este mindset de operar sempre no ambiente mais próximo pode ser exatamente a razão pela qual os problemas diários se tornam recorrentes. Essencialmente, ao optar por uma solução a curto prazo, frequentemente estamos sacrificando uma solução definitiva eficiente por uma paliativa que nos custa menos tempo ou esforço.

Ao pensarmos sempre no imediatismo, naquilo que nos facilitará imediatamente, estamos simplesmente resolvendo uma ocorrência a curto prazo, mas deixando de solucionar a causa do problema maior ao longo prazo. Ao fazer isto, uma pessoa essencialmente tenta tapar o sol com a peneira, porque o tempo que ela passará resolvendo o mesmo problema corriqueiramente seria o tempo que ela poderia ter utilizado para resolver a causa-raíz do problema de uma vez para sempre.

Esta dualidade infelizmente também se reflete no âmbito financeiro. O imediatismo nos causa a “apagar nossos incêndios” financeiros com soluções paliativas que muitas vezes se tornam problemas consequentes em si mesmas – pense nas consequências que um empréstimo não pago pode ter. Como, então, podemos nos resguardar destas situações perigosas e sermos mais eficientes com nossas soluções ao longo prazo? Vejamos neste post.

Causa e efeito financeiro

Olhe ao seu redor e veja quantas pessoas possuem problemas financeiros no seu cotidiano. Elas são várias, e se manifestam primariamente através do esporte nacional da reclamação. A situação nunca está boa para suas finanças, e os bons tempos quando vêm são completamente ignorados em prol do conforto e lazer.

Se você se lembrou de alguém que se encaixa na descrição do parágrafo anterior (quem sabe já foi até você mesmo?), este alguém provavelmente se encontra sempre em tal situação porque concentra seus esforços em combater o efeito e não a causa dos seus problemas financeiros. Porém ao passo que seria ilógico culpar um bebê pela gravidez indesejada, as causas dos problemas financeiros não são exploradas o suficiente para serem solucionadas. Muito pelo contrário; na maior parte das vezes estamos tão ocupados e envolvidos tentando lidar com os efeitos dos nossos problemas financeiros que ficamos cegos para aquilo que realmente está causando-os.

Uma pessoa que sempre se encontra endividada, tendo que fazer um malabarismo com as faturas do cartão de crédito e o cheque especial, está tão ocupada em conter o incêndio financeiro que ameaça se alastrar em sua casa que não irá prestar atenção ao quê está de fato alimentando o fogo. A situação é compreensível: a sua prioridade é outra. Porém, a verdade é que esta mesma cena irá se repetir daqui a outro mês porque o fogo não foi apagado – apenas amenizado. Resolver o efeito não tem nenhum efeito sobre a causa.

Observe o contraste com a pessoa endividada que olha todas as suas faturas, cruza-as com as demais contas da casa e contracheque e começa a formular um plano para conseguir pagar as dívidas e faturas atrasadas de forma inteligente, visando quitá-las no menor tempo possível. Ela deriva um plano, ataca as faturas menores primeiro para se sentir mais motivada a continuar, e migra para as maiores e mais sérias. Seu estilo de vida sofre temporariamente: ela não vai mais a restaurantes ou bares, happy hour nem pensar, cancela a academia e se exercita no parque. Ao fim de três meses, porém, a última das faturas é paga e ela se encontra livre de dívidas.

Essencialmente, ao atacar a causa do problema diretamente, ela sofreu um pouco mais no curto prazo, mas criou um alívio duradouro que irá lhe durar o resto da vida. Este é o poder que existe em ter a visão da causa versus efeito e abordar a solução de maneira duradoura a longo prazo.

Efêmero ou duradouro?

Muitas das coisas que experimentamos no decorrer da vida são efêmeras: vêm em situações específicas, duram um tempo curto, e logo acabam, deixando um pequeno “gostinho de quero mais” para quem experimenta. Emoções são efêmeras, e certamente houve um grupo de pessoas que acertou na hora de capitalizar em cima delas: o marketing.

Quando se vive sob o conceito que o tempo é escasso e deve ser focado naquilo que é realmente importante, soluções efêmeras para nossos problemas cotidianos brotaram em quase todos os âmbitos da vida. Analgésicos que aliviam a dor por até cinco horas, remédios para “gripe” (porque não se têm nem tempo para tentar diagnosticar o que é resfriado) que mascaram sintomas, todos hoje vendidos sem necessidade de prescrição. Todas soluções de ação rápida, mas que igualmente rápido se acabam. E não é só no âmbito farmacêutico que esta forma de pensar acontece.

Quando estão se sentindo down, com alguma coisa que lhes deixa meio desanimadas e tristes, as pessoas hoje simplesmente compram um chocolate ou bebida e usam os efeitos para se alegrarem temporariamente. Ou colocam alguma coisa para assistir na TV. Todos estes métodos novamente se concentram em curar o efeito, e, mais importante, não geram efeitos duradouros e eficientes ao longo prazo.

É uma coisa completamente diferente tentar mudar a sua situação de vida, ou viver uma vida mais saudável para combater o mal-estar crônico e preparar uma vida melhor ao longo prazo. São poucos os que percebem que hábitos positivos como os de se exercitar, procurar valor, e se desenvolver não são apenas formas de se desenvolver pessoalmente, mas também soluções de vida duradouras, que combatem as causas de diversos problemas da vida.

Os escritores americanos Joshua F. Millburn e Ryan Nicodemus do site The Minimalists frequentemente aludem em seus podcasts que o bem-estar natural a longo prazo é um objetivo melhor e mais congruente com uma vida com sentido do que sensações curtas de alegria que duram pouco. É esta a mesma visão que você deve ter para viver uma vida de qualidade e com realização pessoal perene.

Pensando devagar vs Pensando rápido

Por fim, compartilho uma anedota similar que encontrei ao ler o livro O jeito Warren Buffett de Investir do escritor americano Robert G. Hagstrom. Em seu livro, Hagstrom descreve e compara Buffett com o investidor médio do mercado, como ele age, pensa e planeja diferente da maioria.

No livro, Hagstrom enfatiza o seguinte ponto sobre a estratégia de Buffett: ele pensa devagar enquanto o resto dos investidores prefere pensar rápido. À primeira vista “devagar” parece ser uma desvantagem em meio a um mundo de passada acelerada, mas sob uma segunda observação, Buffett essencialmente está praticando o conceito de se pensar e resolver coisas ao longo prazo. Enquanto que a maioria dos investidores são reativos e predicam suas ações em emoções e rumores do mercado, Hagstrom descreve Buffett seguindo o seu próprio curso e analisando o estado racionalmente, para somente após tal análise seguir em frente com a sua decisão.

Um exemplo de onde pensar rápido vs pensar devagar geram respostas visivelmente diferentes pode ser visto na seguinte charada: “Alguns meses do ano possuem 30 dias, outros 31. Quantos meses possuem 28 dias?” – Pensando rápido, a resposta é um. Pensando devagar, a resposta é doze. Qual foi a que você pensou?

Hagstrom afirma que a incapacidade da maioria de pensar devagar não é um atributo genético, tampouco ligado à inteligência da pessoa, mas sim do condicionamento geral que recebemos de sempre tentar resolver da maneira mais rápida possível. É uma minoria que se dá o trabalho extra mental de sentar e analisar situações e procurar a solução mais eficiente, e não a mais rápida. Porém, conversamente, é geralmente esta minoria que costuma se destacar do grupo. E enquanto provavelmente não poderemos escolher um único atributo que levou o enorme sucesso do Warren Buffett, podemos concluir que esta capacidade de pensar racionalmente e devagar contou bastante.


Como você gerencia os problemas na sua vida: busca soluções rápidas e a curto prazo, ou soluções definitivas e perenes? Qual alternativa traz mais resultado na sua vida? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

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