O açougueiro e a nutricionista

Imagine que você está procurando conselhos de uma dieta para perder peso e viver uma vida mais saudável. A sua cidade é um pouco pequena e não há muitos profissionais que podem lhe aconselhar. Felizmente, você procura e encontra duas pessoas que poderão lhe ajudar: um açougueiro e uma nutricionista.

Você se senta com a nutricionista e explica a sua situação, seus objetivos e motivação. Ela lhe recomenda uma dieta balanceada de verduras, legumes, carnes e cereais na proporção correta, mas implementá-la corretamente irá lhe custar um pouco caro. Buscando uma segunda opinião, você se encontra com o açougueiro e pergunta sua recomendação. Ele responde: “carne.” Na semana seguinte, você consulta com os dois novamente. A nutricionista revisa o seu quadro e atualiza o cardápio adequadamente. O açougueiro novamente recomenda: “carne.”

Se esta história soa meio previsível para você, por que vemos esta mesma situação se repetindo diariamente no âmbito financeiro? Pessoas buscando orientações financeiras de corretoras comissionadas, assinando recomendações pagas em vídeos de youtubers populares com seus patrocinadores no fundo, enquanto que um sistema de comissionamento cada vez mais toma conta do mundo digital.

É crucial analisar onde os interesses estão por trás de cada recomendação e decisão na vida, especialmente quando é o seu dinheiro que está envolvido. Esta foi uma lição que, felizmente, aprendi cedo na minha vida financeira, e assim pude me orientar melhor financeiramente. Vejamos mais detalhes neste post.

O erro do Pinguim Investidor ao investir

Se você já leu sobre a minha história, viu que os meus primeiros passos em direção à educação financeira não foram os mais corretos: ao invés de investir da maneira mais eficiente para mim, fiz um plano VGBL de previdência com o meu banco.

Resumindo a história, eu havia lido bastante sobre ativos e passivos e o básico para começar a investir até aquele ponto, e me senti que tinha aprendido o suficiente para dar os primeiros passos no mundo financeiro. Escolhi ir então até o meu banco (instituição que eu acreditava ser a mais qualificada) e fazer o meu primeiro aporte. O gerente do banco me trouxe toda a sua atenção e várias lâminas de investimento com nomes atrativos. Fundo disso, fundo daquilo… etc. Cada nome excêntrico que soava complexo, e que certamente apenas um especialista poderia compreender. Felizmente, minha bondosa gerente me acompanhava e recomendava uma carteira personalizada baseada no meu perfil.

Quando eu menos esperava, papéis assinados e eu achei que tinha feito o melhor negócio possível para o meu patrimônio financeiro. Saí da agência me sentindo rico, orgulhoso por ter feito o meu primeiro investimento como o resto das pessoas ricas. Isto é, até que me aprofundei mais sobre o assunto e descobri meu próprio erro. E pior; havia atado o dinheiro de forma que não poderia resgatá-lo dentro de no mínimo seis meses.

A minha história demonstra a ingenuidade de um investidor – crendo que o Banco seja o especialista no assunto e tem os seus interesses em primeiro lugar – pode facilmente se enganar, essencialmente se consultando com o açougueiro ao invés da nutricionista. Felizmente, existe um método simples de se resguardar contra este tipo de situação: questionar para onde o dinheiro vai.

Proteja-se dos mal-intencionados: siga o dinheiro

Infelizmente existem mais “açougueiros” além do seu banco, e seus métodos e palavras são tão sutis que muitas vezes não os identificamos. Porém, ao realizar o questionamento sobre como o dinheiro flui por trás dos seus métodos, a resposta se torna mais clara.

No exemplo anterior, esse questionamento teria me levado à seguinte conclusão:

  1. Quem lucra comigo fazendo este investimento? O gerente do banco com uma comissão, o banco por ter o meu dinheiro em sua custódia para empréstimos.
  2. Se o gerente ganha comissão com a minha decisão, ele priorizaria os interesses dele ou meus? Os dele, comigo num distante segundo lugar.
  3. Se meu investimento resultasse numa perda na minha parte, o comissionado seria responsabilizado de alguma forma sobre isso? Não.
  4. Conclusão: o gerente do banco está me influenciando a agir em prol dos seus benefícios ao invés dos meus e portante não devo fazer o investimento.

E aproveitando-se da nossa atenção focada às redes sociais e facilidade de encontrar informação online, hoje temos cada vez mais açougueiros disfarçados de nutricionistas por aí…

COE é recomendado como uma “maneira de dobrar seu capital ou o dinheiro de volta” por diversas corretoras, que convenientemente se esquecem de mencionar fatos como que o seu dinheiro ficará retido e intocável por cinco anos, não há nenhum esclarecimento sobre a natureza do investimento além de uma idéia vaga, e que o comissionamento deles é altíssimo nestas vendas. Soa bom demais para ser verdade, e é; inclusive nos EUA a Securities and Exchange Comission alertou investidores sobre mal-intencionamento e falta de clareza sobre este tipo de investimento.

"Opere no mercado de renda variável com capital protegido; invista em COE!" - Propaganda da corretora
Seguro de renda variável? Ahã…

Em paralelo no âmbito das redes sociais, Debêntures “livres de imposto de renda” são ofertadas por YouTubers e suas corretoras parceiras como uma maneira mais eficientes de se investir na renda fixa sem precisar encarar o “enorme” risco da renda variável, quando na verdade estas Debêntures podem ser muito mais arriscadas que a própria renda variável. Mas como não há responsabilidade nem garantias da parte dos YouTubers além da sugestão sutil no post ou vídeo bonitinho, não porque eles pararem.

Siga o dinheiro e as respostas virão.

Conhecimento é a sua melhor defesa

Para sobreviver nesta selva de açougueiros disfarçados e encontrar nutricionistas genuínas, a sua melhor defesa é ter o maior conhecimento possível por trás do assunto. É por esta razão que recomenda-se que você sempre faça o seu dever de casa sobre o investimento que você está buscando fazer antes de seguir a recomendação de qualquer pessoa.

É por esta razão também que eu foco muito na necessidade de se aperfeiçoar constantemente na educação financeira e preparar o seu mindset do investidor muito bem antes de começar a investir. Quanto mais preparo você tiver, menos tempo precisará gastar analisando os interesses das instituições financeiras em relação aos seus.

Conhecimento é o fator determinante para trazer o seu sucesso em qualquer âmbito da vida, e financeiramente falando não poderia ser diferente. Eduque-se, leia bons livros, pesquise material de qualidade e esteja sempre disposto a se aperfeiçoar. Esta analogia do açougueiro e a nutricionista, por exemplo, foi retirada do excelente livro Dinheiro: Sete passos para a liberdade financeira do coach financeiro americano Tony Robbins. Esta é apenas uma das valiosas lições que o livro me trouxe, e o conhecimento que esta e outras leituras me trouxeram é parte do meu arsenal financeiro atual.

E, para quem ainda tem qualquer dúvida que COE é uma péssima escolha de investimento, segue o vídeo do Eduardo Moreira:


Você já chegou a se consultar com um açougueiro ao invés de uma nutricionista na vida? O que aconteceu? Que medidas toma para que não aconteça novamente? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Photo by Charles on Unsplash

12 comentários sobre “O açougueiro e a nutricionista

  1. Oi Pinguim. É bem isso mesmo que você falou. Um dia desses, perdi uma tarde toda explicando para uma amiga sobre os investimentos…. Aí ela abriu uma conta na corretora XP, e o que ela fez? Perguntou para o assessor qual investimento deveria fazer. Adivinha a resposta? Previdência privada…. sem comentários….

    Curtido por 2 pessoas

  2. marcelo

    em determinado ano fiz um VGBL e 4 a 6 meses encerrei depois de colocar na ponta do lápis que se eu colocasse na poupança eu ganharia mais no curto, médio e PRINCIPALMENTE no longo prazo.
    Estudo é a melhor coisa!
    Mas também tem que tomar muito cuidado com “cursos” que só alimentam os ganhos dos vendedores de cursos e não os seus.
    parabens pelo blog.
    abs!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Marcelo!

      Desepontante, não é mesmo? Conhecimento realmente é a melhor arma num mundo repleto de desonestidade e segundas intenções. Acho que em ambos nossos casos aprendemos uma lição dolorosa a curto prazo, mas valiosa ao longo prazo.

      Obrigado pelo comentário!

      Abraços e seguimos em frente!

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  3. Analogia interessante, Pinguim! Realmente está cheio de espertinhos por aí, nos bancos, nas corretoras, YouTube… é chato que as pessoas em geral são levadas pela moda, aplicam mas empresas que estão sendo mais faladas, seguem a dica do “guru” da vez, etc. Para a grande maioria, acaba sendo melhor colocar o dinheiro na poupança mesmo…

    Curtido por 2 pessoas

    1. Fala Mago! Obrigado pelo comentário, cara.

      Verdade, é só começar a seguir o dinheiro, saber de onde são os “parceiros” e “suporte” do site/canal etc e as máscaras começam a cair. Infelizmente este é o lado negro dos “influencers,” são poucos os que ainda conseguem ficar numa maneira neutra.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

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