Seguindo sem reservas: contra-exemplo do Mr Money Mustache

Quando falamos sobre educação financeira, podemos traçar uma pequena “grade” contendo todos os passos e aprendizados necessários para alguém se tornar financialmente alfabetizado e pronto para traçar sua rota até – finalmente – a independência financeira. Dependendo de onde você se encontra, financeiramente falando, alguns conceitos podem ser já bem simples, enquanto outros, novidades. Por exemplo, se você nunca se importou com dinheiro até agora, conhecer o seu dinheiro em detalhe pode ser uma grande surpresa, com muitas descobertas interessantes.

Entretanto, todas as boas práticas financeiras tendem a se converger a alguns pontos comuns, que se tornam conselhos financeiros gerais. Não acumule dívida, gaste menos o que você ganha, invista a diferença, etc. Imagine, então, a minha surpresa quando eu descobri que um dos “gurus” de finanças pessoais e mentor indireto de muitos na Finansfera – Mr Money Mustache – quebra uma das “regras” mais básicas: ele não possui reserva de emergência.

Sim, MMM afirmou em um dos seus vídeos que ele não possui uma parte do seu capital alocado numa reserva de emergência, indo contra a recomendação de segurança básica da finansfera inteira. Ele possui, como veremos, uma boa lógica por trás da sua decisão, e anos de experiência com este tipo de vida, mas ainda assim esta notícia é surpreendente, ainda mais vindo de um dos autores mais seguidos de finanças.

Como ele segue sem reservas financeiras no planejamento, e o que podemos aprender com este contra-exemplo?

Margem de operações como camada de emergência

O argumento central que MMM usa para justificar a não-utilização de uma reserva de emergência tradicional fixa e líquida é que, por conta de sua frugalidade elevada (apelidada por ele de mustachianism), ele consegue minimizar seus custos de vida o suficiente ao ponto de criar uma margem que consegue absorver custos adicionais não planejados.

Assim, ao invés de ter uma reserva de emergência tradicional, MMM consegue absorver o impacto de um gasto inesperado através da simples redução do aporte mensal.

Mr Money Mustache (Peter Adeney) explica como os “Mustachians” criam margens naturais para acomodar gastos inesperados

Um conceito não-ortodoxo, com certeza, que MMM justifica com a aversão de ter dinheiro parado e não rendendo quando nossos objetivos FIRE requerem uma maximização na rentabilidade. Segundo ele, você deve deixar o dinheiro alocado na forma mais produtiva possível, e ele enxerga uma reserva de emergência parada como um desperdício de recursos que poderiam alimentar o FIRE.

Este é um dos casos raros onde ao invés de seguir o conselho de praxe, a pessoa opta por fazer “aquilo que lhe faz mais sentido.” Podemos ver exemplos como esse em algumas atitudes que o Warren Buffett toma em relação aos seus investimentos e estilo de vida (por exemplo, tomando coca-cola e comendo como um garoto de seis anos aos 89 anos de idade).

Certamente, MMM teve anos de experiência com o seu próprio estilo de vida FIRE, e concluiu que está confortável o suficiente com esta situação para deixar de lado a reserva de emergência. E embora eu acredite que sua frugalidade seja uma boa inspiração para todos, este não é um caminho recomendado para iniciantes. O caminho tradicional de como começar a investir de quitar dívidas, iniciar uma reserva e só depois investir é recomendado. Apenas com muita experiência pessoal você terá confiança para começar a traçar seu próprio caminho.

Springy debt: um conceito útil, mas arriscado

Mr Money Mustache menciona em seu blog um conceito que ele usa para lidar adicionalmente contra as imprevisibilidades financeiras do cotidiano: ele o chama de Springy Debt. Este conceito é baseado em outro mecanismo que é um pouco de um tabu financeiro: cartões de crédito.

Em resumo, Springy Debt aumentam a sua margem de operação usando crédito para expandir temporariamente os gastos além do que você conseguiria aportar. Neste modelo, se algum gasto aparecer e você não conseguir pagar tudo com o seu salário mensal, você poderia temporariamente “pegar emprestado” de uma linha de crédito a quantia faltante e cobrir o buraco rapidamente no mês seguinte (e não acumular a mais). Com consciência e disciplina suficiente, este modelo pode ser mantido se estes gastos não forem grandes.

Embora perfeitamente lógica no papel, Springy Debt nunca seria uma solução que eu recomendaria para ninguém. Simplesmente não há por que correr um risco de perder o controle dos gastos, e arriscar tornar a linha de crédito uma dívida, para manter a quantia da reserva investida e em produtividade. Este não é o propósito da reserva de emergência para início de conversa. Springy debt deveria ser utilizado apenas por pessoas muito disciplinadas que estão acostumadas com os seus gastos.

Se você não gosta da idéia de separar entre 3 a 6 meses de custo de vida sem rentabilidade, a minha solução de dividir a reserva em camadas diferentes de liquidez é uma alternativa interessante. Você pode tirar parte da reserva da poupança e aplicar em renda fixa como o Tesouro Direto para deixar rendendo um pouco mais e sem sacrificar muito a liquidez.

Frugalidade e flexibilidade como ferramenta, mas segurança em primeiro plano

Antes que atiremos pedras no Mr Money Mustache por pregar estas idéias radicais, temos que nos lembrar da situação de onde ele escreve. Semelhante ao Jacob Fisker do Early Retirement Extreme, MMM prega fortemente a idéia da frugalidade, e a flexibilidade que ela pode providenciar. E esta é uma das maiores vantagens que a frugalidade nos oferece: conseguir aguentar ambos tempos de abundância e escassez por conta de um estilo de vida financeiramente resiliente.

É a frugalidade que nos permite lutar contra a adaptação hedônica e não nos abalar se algum imprevisto nos força reduzir os custos de vida, e assim nos tornamos resilientes e adaptáveis à mudança. Enquanto isso, a maioria das pessoas só enxerga a frugalidade como uma auto-privação, uma espécie de tortura a si mesmo. Não poderia ser mais longe da realidade.

Ainda assim, como o ditado fala, a segurança deve estar em primeiro lugar. O controle tradicional de iniciar um orçamento e poupar a reserva de emergência mês a mês ainda funciona e é recomendado. O ponto importante é que, mesmo se você não receber retorno ao formar a reserva de emergência, o processo de poupar lhe ensinará a ser frugal e como aportar, e esta habilidade é útil posteriormente quando começar a investir. E, como todos os bons hábitos, este lhe pagará juros compostos.


O que você acha sobre o método do Mr Money Mustache de não possuir reserva de emergência? Você acha isso aplicável em alguma situação da vida? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Loic Leray on Unsplash

14 comentários sobre “Seguindo sem reservas: contra-exemplo do Mr Money Mustache

  1. Investidor do ABC

    Durante muito tempo também não tive reserva de emergência. O que fazia era colocar 10% dos 10% que aportava do meu salário até atingir 3 meses de salário. Demorou bastante tempo até conseguir chegar aos 3 meses, mas ao mesmo tempo me motivou ver o dinheiro crescendo e pude aprender a investir em ações e outros ativos. Se fosse ficar somente colocando na reserva acho que isso iria me desmotivar bastante. O legal era a emoção também de ver as ações subindo (ou descendo!) e receber dividendos, proventos, etc.

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    1. Olá ABC,

      Interessante essa abordagem; parte do aporte se torna um aporte em si. Eu acho que mais pessoas devem seguir este método também, por vontade de querer começar a investir logo. Estariam cobrindo parcialmente as obrigações com a reserva, e ao mesmo tempo começando a puxar rentabilidade.

      E realmente, nada dá tanta satisfação quanto ver os dividendos caindo em conta mesmo. O Rockefeller estava certíssimo.

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. Olá, Pinguim.

    Eu não sabia que ele não tem reserva de emergência.

    Eu também não tenho. Invisto há alguns anos e nunca tive RE.
    Eu compro praticamente tudo no cartão de crédito assim faz com que eu aporte mais. Claro, faço isso porque tenho controle. Também no mês que preciso de alguma coisa eu aporto menos.

    Abraços!

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    1. Fala Cowboy!

      Obrigado pelo comentário Fiquei surpreso também em descobri que ele não tinha reserva. Eu acho que você bateu no ponto certo: autocontrole. Se você tem experiência com o seu patamar de gastos e consegue manter faturas de crédito sob controle, o cartão se torna um grande aliado (milhas, benefícios, etc). Porém, sem esta experiência pode se tornar um grande problema.

      Outro problema é algum risco sistêmico: acontecer uma coisa de alto custo que o cartão não segura ou uma fase sem emprego. Como pra mim ambos são casos possíveis eu prefiro ainda manter a minha mesmo sem render.

      Abraços e seguimos em frente!

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  3. Anderson

    Acredito que o caso dele, embora seja um pouquinho arriscado, é diferente porque ele já é FIRE, ou seja, tem um fluxo de renda passiva, e esta não é utilizada em sua totalidade (talvez até mesmo não utiliza nem mesmo a maior parte dela); então, querendo ou não, MMM recebe por mês quantia considerável, caso precise de um dinheiro a mais para pagar por um imprevisto, é só esperar o início de mês ou segurar alguma despesa orçada até a chegada do recurso mensal. Enfim, o caso dele possivelmente dá certo devido a essa circunstância. Ainda assim, não é muito recomendado, como falaste neste post, não ter reserva de emergência; afinal, muitos ainda não são IF, e mesmo os poucos que são, a maioria, creio eu, não têm renda passiva estrondosa que permita retê-la para pagar por despesas inesperadas.

    O cara que tem despesas orçadas em R$ 10.000,00, mas recebe uma renda passiva de R$ 50.000,00, não precisa ter uma reserva de emergência (pelo menos uma tão grande) porque sabe que a própria renda passiva dá conta de absorver por algum imprevisto pequeno, ou pelo menos negociar parte desse imprevisto; sei lá, ter que pagar por uma cirurgia que o plano não cobre ou coisa do tipo.

    Um bom dia!

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    1. Olá Anderson,

      Obrigado pelo comentário! Sim, acho que Adeney é bem diferente da maioria nesse ponto – até mesmo entre os blogueiros de finanças. Ajuda que ele além da experiência com gastos é FIRE, possui outras fontes de renda passiva e reputação suficiente pra levantar dinheiro extra se precisar. Diria que 99% da Finansfera não se enquadra nesta situação.

      E outra coisa é o limite prático do springy debt; tudo bem colocar no crédito um gasto médio extra não planejado, mas você não pagaria uma cirurgia de emergência ou obra na casa no cartão. Pra isso é melhor ter reserva.

      Abraços e seguimos em frente!

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  4. Pingback: "Não é suficiente, então não vale à pena." – Pinguim Investidor

  5. Eu também não tenho reserva de emergência, não vejo muita necessidade no meu caso, mas vejo necessidade de ter dinheiro em caixa para aproveitar boas oportunidades de compra de ações. Então o caixa é algo que eu tenho que estabelecer na minha carteira.

    Mas falando sobre reserva de emergência certamente não é todo mundo que pode se dar ao “luxo” de investir sem ter uma reserva, pois se você é trabalhador de empresa privada, sabe que um dia pode ser demitido, e nesse caso você não terá a opção de aportar menos, porque simplesmente não terá nada o que aportar. Mas no caso dele, que é FIRE, há a possibilidade de fazer isso. Ou no caso de um funcionário público, também é uma possibilidade, já que há mais estabilidade.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Calvin!

      Interessante a sua posição. Já vi muita gente chamando a tal da reserva de Caixa, mas eu acho que os dois têm um propósito diferente pro investidor. Pra mim caixa = oportunidade, reserva = emergências.

      Gosto de combinar as duas como camadas de liquidez variada, assim eu ainda consigo alguma rentabilidade ao invés de deixar os 6 meses completamente parados.

      Valeu pelo comentário!

      Abraços e seguimos em frente!

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      1. Sim, é exatamente isso. Passei a ter essa noção depois de ter visto alguns vídeos do Primo Rico. Já lá na Bastter, só se fala em reserva de emergência, e o que acontece é que tem gente que termina tirando dinheiro da reserva de emergência para investir em ações, algo que não deveria ser feito, porque existe essa confusão de reserva de emergência e caixa.

        Curtido por 1 pessoa

  6. Pingback: Como comprar um carro de maneira inteligente – Pinguim Investidor

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