Estudo de caso #3 – Qual é o custo da independência?

Ganho em média 1200 reais. Devido a pequenos conflitos com minha mãe resolvi viver sozinha numa quitinete. Minha mãe irá cobrir parte dos gastos e eu irei pagar água, comida e transporte. Dá pra viver com 250 reais ao mês?

Sem dúvida, o sonho de quase todo jovem começando a trabalhar é sair debaixo da asa dos pais e morar sozinho, ou pelo menos fora da casa dos pais. Depois de anos vivendo na casa dos pais e com muita turbulência na adolescência, é normal que queremos viver nossa vida de forma independente.

A experiência não só tenha apelo emocional, mas também agregue muito no desenvolvimento individual. Mas, infelizmente, como diz o ditado: “não existe almoço grátis.” Morar sozinho, especialmente no começo da carreira profissional, traz custos altos e que podem impactar suas finanças numa hora crucial: na hora do despertar financeiro inicial.

Enquanto se tem a possibilidade de escolha, é fácil ver que morar dividindo com a família é uma boa forma para se controlar custos e ajudar no aporte, mas neste estudo de caso, surge uma outra pergunta: e se por motivo de força maior você precisasse sair de casa para viver sozinho? As vezes, o convívio dentro de casa é difícil, cheio de tumulto e conflito, e assim fica difícil para a pessoa encontrar paz para começar a se desenvolver pessoalmente.

Esta, infelizmente, é a situação do estudo de caso deste post. No caso, uma jovem – a chamaremos de Joana – fez a seguinte pergunta:

Embora o apelo emocional é grande, às vezes a procura obcecada pela independência pode mais atrapalhar do que ajudar. Que lições podemos tirar da situação da Joana?

Independência versus o custo de vida

Primeiramente, tiraremos todo o contexto cercando a situação atual da Joana e focaremos explicitamente nos números e no impacto financeiro. Como não temos muita informação para trabalhar, teremos que estimar e assumir alguns dados.

Joana possui R$1200 em média de salário líquido, e já fez os cálculos que a parte utilizável da renda após as despesas fixas seria de aproximadamente R$250. Isso lhe reduz a 950 reais de despesas fixas que – por sua própria descrição – já estão descontadas de aluguel, contas de luz e gás. Resta a nós averiguar o que seriam as outras despesas que amontariam para R$950; e para uma pessoa que está por necessidade tendo que sair e viver fora de casa com salário baixo, elas parecem um pouco altas demais.

A minha primeira recomendação à Joana é que reconsidere seus gastos e faça uma revisão geral do seu orçamento. Ela não está numa situação de luxo nem de querer conforto – ao meu ver, está mais próxima de sobrevivência. O que estaria comendo R$950 mensalmente fora os gastos essenciais de comida, água e transporte? Serviço de celular? Internet na quitinete? Ou seriam restaurantes e bares? Há alternativas para estes casos que devem ser consideradas.

Joana deve aplicar aqui a análise de preço e valor de forma bem mais rígida para descartar tudo aquilo que não é realmente essencial e não traga valor suficiente durante este período pessoal de crise. Ela precisa entender que esta não é uma situação de conforto vs aporte; é uma situação de dinheiro contado e com pouca margem para erro.

Se seus cálculos foram feitos corretamente, ela não irá passar no vermelho (aporte proporcional de 21%, inclusive), mas como a quantidade absoluta é baixa, sua margem de segurança não é grande, e a probabilidade de um imprevisto subir os custos do mês além do salário não é baixa.

Para se preparar contra esta possibilidade, minha recomendação seguinte é que ela inicie imediatamente uma reserva de emergência pessoal. Enquanto para muitos a reserva de emergência é mencionada pensando no âmbito de investimentos, para Joana a emergência é real. Cada centavo que ela ganhar terá um propósito específico: ou pagar contas, garantindo a sobrevivência do mês, ou complementar a reserva e garantir que imprevistos não se tornem uma tragédia. Enquanto Joana, em sua situação financeira apertadíssima, não juntar pelo menos seis meses ou mais de custos de vida poupados, não deveria nem pensar em começar a investir.

Estas são as duas primeiras coisas que eu sugeriria a ela SE ela optasse por morar sozinha. Aqui existe um grande “se,” um que deveria ser considerado muito bem antes de se tomar uma decisão.

Foque na causa raíz ao invés do efeito

A pergunta maior nesta situação não é sobre as finanças, mas sim sobre relacionamentos: por que Joana ainda acha melhor entrar nesta situação arriscada ao invés de tentar reconciliar com a família?

Infelizmente, como diria o escritor russo Leo Tolstoy, embora todas as famílias felizes sejam iguais, cada família triste é triste de uma forma única, então é difícil julgar a situação como um observador externo. Porém, uma coisa é clara: tentar arrumar as finanças é como tentar conter os efeitos enquanto deixamos as causas livres para causar mais dano.

Se Joana arranjasse alguma solução para conseguir se manter dentro de casa com sua família, a situação financeira agradeceria, porém ainda mais importante seria a melhoria das relações familiares. Embora uma lição difícil de se consolidar até para mim, relacionamentos em bom estado são sempre bem-vindos. Como pontes ligando cidades, eles habilitam possibilidades quando você precisar. E se tratando de família imediata, o impacto é sensível.

Como não posso julgar a situação com tão pouca informação, ainda haveriam alternativas para Joana se fosse impossível conciliar a moradia dentro de casa. Uma delas é morar com outras pessoas de confiança como amigos próximos ou parentes. Não só os custos de vida seriam diluidos, mas pessoas de confiança morando juntas podem oferecer suporte emocional entre umas e outras que não é presente quando se mora sozinho. Ao longo prazo, este suporte faz a diferença.

Igualmente, morar com amigos seria uma forma de Joana viver mais independentemente, ao contrário da proposição do post, onde sua mãe propôs cobrir a maior parte dos gastos. Dada uma situação familiar ruim, não é difícil imaginar o controle que sua mãe poderia exercer com a ameaça de cortar o auxílio financeiro. Tal controle não seria possível morando com amigos. Além disso, como demonstrado na série de livros dos Milionários de Thomas Stanley, filhos que não recebem auxílio familiar tendem a enriquecer bem mais.

A lição geral: o custo do orgulho

Colocando o caso específico da Joana de lado, na maioria das vezes, quando os jovens optam por sair da casa dos pais é uma decisão baseada apenas num único sentimento: orgulho. Procura por status, aparência e até mesmo auto-afirmação causam jovens a procurar por algum símbolo de “primeiros passos” em direção ao sucesso, mas pouca atenção é prestada para a etiqueta do preço. E como o caso da Joana ilustra, o impacto financeiro é devastador.

Uma personalidade que é altamente contra esta tendência é o empreendedor e YouTuber Gary Vaynerchuk, que ativamente prega que os jovens não devem perseguir tendências por conta do medo do julgamento alheio. Gary inclusive pede à sua audiência que volte a morar com seus pais se suas situações financeiras estejam ruim – uma manobra que para a grande maioria da sociedade americana seria inaceitável.

Gary demonstra o custo que o orgulho pode ter em várias decisões na vida de uma pessoa: seja se mudando para uma casa cara, comprando coisas materiais apenas para mostrar o status, frequentando eventos caros apenas para exibir as fotos nas redes sociais e até mesmo escolhendo o destino da sua próxima viagem pensando nas fotos que conseguirá postar no Instagram depois. E, novamente, se nada destas coisas lhe traz valor, este é um grande sinal que você deveria parar de praticá-las.


Qual conselho você daria para a situação da Joana? Você acha que valeria a pena procurar ser independente às custas de um grande corte nas finanças? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Kelly Sikkema on Unsplash

4 comentários sobre “Estudo de caso #3 – Qual é o custo da independência?

  1. Faltaram algumas informações básicas para poder julgar a Joana. Tenderia a responder para ela pegar esses 250 mensais e investir em sua capacitação no curto prazo para que surjam oportunidades de aumentar seu salário e consequentemente seus aportes.

    Aumentar o salário para 2000 é uma possível realidade assim e teoricamente ela conseguiria começar a juntar 1250 vivendo do mesmo jeito.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Engenheiro!

      É verdade, faltou muita informação pra realmente conseguir julgar a situação. Investir em si mesmo é uma boa idéia, mas acho que maior prioridade é juntar uma reserva de emergência. Muito arriscado conseguir poupar só isso por mês.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  2. Pingback: Qual o custo que o seu orgulho tem nas suas finanças? – Pinguim Investidor

  3. Pingback: Como comprar um carro de maneira inteligente – Pinguim Investidor

Deixe uma resposta para Pinguim Investidor Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s