A bolha do Uber?

Quando o Uber foi lançado e entrou no mercado brasileiro, a inovação foi completa. O aplicativo havia introduzido um novo modelo de negócios que desbancou os negócios dos taxistas e abriu uma competição diversificada antes nunca vista na história. O conceito do sharing economy começou a engatinhar e logo foi tomando espaço.

O transporte foi democratizado e as pessoas finalmente possuiam uma alternativa mais barata para prencher algumas lacunas cruciais do transporte urbano brasileiro. E, colateralmente, o Uber serviu de “colchão de segurança” amenizando o impacto da crise econômica iniciando em 2015, oferecendo uma forma de renda temporária para aqueles que perdiam seus empregos.

Avançando até 2020, a situação se tornou bem diferente. Aplicativos competidores entrando e competindo por mais motoristas e passageiros, continuidade da crise e falta de empregos causou um aumento significante do pool de motoristas fora de proporção com os passageiros, e a remuneração – variável como sempre – hoje tem um apelo mais duvidoso. Não é a primeira vez que falo do Uber no blog, mas desta vez trago luz a um insight que vi num post do SubReddit de Investimentos: estaria o Uber direcionado para uma bolha?

Os insights recebidos desta filosofia servem para além do aplicativo em si, mas para também outros produtos e serviços que entram na moda e crescem rapidamente. Uma bolha como essa pode afetar além do mercado e ir diretamente na vida pessoal das pessoas. Vejamos com mais detalhes.

Reação em cadeia de dependências

Em princípio, o modelo de negócios do Uber era simples e com pouco overhead de custos: uma empresa tinha um subcontratado que trazia seu próprio instrumento de trabalho e cobrava uma comissão sobre o lucro do subcontratado. Fora esta comissão, a empresa tinha quase nada de relação com os recursos do subcontratado, que deveria arcar com combustível, manutenção e outras despesas com o carro. Esta foi uma maneira que o Uber conseguiu reduzir os custos operacionais, repassando-os para os motoristas e consumidores finais.

Com a crise de 2015, muitos desempregados começaram a olhar para o Uber e outros aplicativos como uma forma de emprego temporário. A lógica era: você mesmo não trabalhando na sua área poderia tirar um salário paliativo, e usar o tempo sobrando para procurar emprego ou se aperfeiçoar. Esta alternativa se tornou tão popular que você provavelmente também conhece um ou outro que se tornou Uberista nesta época. Era comum também ouvir nas conversas da viagem aquela mesma história de como o motorista trabalhava na empresa X e havia sido recentemente demitido e estava lá enquanto procurava uma recolocação no mercado.

Havia uma pequena barreira, porém: para trabalhar com o Uber, ainda era necessário ter seu próprio carro. Enquanto alguns dos desempregados já contavam com ele, muitos não o tinham e queriam participar. A solução encontrada foi alugar um carro para o trabalho com o Uber. O racional era simples: paga-se X para alugar um carro mensalmente, e diariamente consegue-se tirar Y com o Uber. Enquanto Y > X, você poderia lucrar em meio aos custos com uma certa margem. Menos desejável que se ter o carro? Talvez. Era ainda assim mais desejável do que não ter um salário.

Quem percebeu estas tendências foram as locadoras de carros, e elas foram rápidas para agir. O Uber havia baixado os requerimentos de carros, permitindo até populares a serem utilizados. Assim, frotas e frotas de modelos populares foram compradas para serem disponibilizadas à crescente demanda de motoristas sem carros. Criou-se então, uma nova dependência na cadeia: Passageiros dependendo de motoristas que dependiam locadoras que dependiam de fabricantes de carros. O detalhe, porém, é que finalmente todos dependiam ainda de um único recurso finito: demanda dos passageiros.

Com a enxurrada de novos motoristas e aplicativos, o que temos é uma situação similar a uma bolha. Muita oferta sendo predicada numa promessa de demanda futura, na qual sabemos que há um limite.

Mais importante que tentar prever quando o estouro acontece, alguém mais consegue ver este padrão se repetindo com outras coisas na vida? Este tipo de visão pode ajudar a ver a sustentabilidade dos negócios.

Sustentabilidade e aplicabilidade do modelo de negócios

Quando você possui um negócio como a indústria alimentícia, seu modelo de negócios é simples de se entender, e você consegue trabalhar o lucro proporcionalmente à fome e demanda que existem no local. A sustentabilidade do seu negócio se dá em parte da sua simplicidade: restaurantes e supermercados existem porque as pessoas precisam comer. Seus ativos são um estabelecimento, o inventário de comida e algumas cozinhas e refrigeradores.

No caso do sharing economy, esta relação não é mais tão clara. O Uber, por exemplo, conta com pouquíssimos ativos por conta de considerar os motoristas (e seus carros) como subcontratados independentes. Quais são os ativos neste caso? Um aplicativo de celular gratuito? Alguns escritórios espalhados no mundo? Um pequeno exército de advogados tentando limpar a sujeira? Tais inconscistências e falta de clareza no modelo operacional de negócios se mostraram tão faltantes que foram até motivo de piada quando ano passado o Uber lançou seu IPO.

Numa empresa que ainda está alguns bilhões atrás de começar a trazer lucro, reverbera a idéia que um modelo de negócios simples e compreensivo pode ser crucial para o sucesso de um negócio. Poderia esta falta de clareza (inclusive nos números) ser uma das causas do comportamento como bolha? Só o tempo dirá.

Conclusão: Oferta e demanda e aplicatividade na vida

Se você acha que este problema está restrito ao Uber, pense novamente. O sharing economy continua se expandindo, e certamente a incidência mais recente foi manifestada nos aplicativos de entregas de comida. As ruas ficam lotadas de motoboys com mochilas de entrega de aplicativos diversos e alguns restaurantes possuem até seções inteiras dedicadas para estes aplicativos. No âmbito de acomodações, o AirBNB ainda não se tornou motivo para as pessoas comprarem apartamentos para listá-los lá, mas eu não me surpreenderia se em alguns anos, com os juros baixos, houvesse um incentivo e movimento generalizado para esta direção.

Enquanto ainda não temos dados históricos para saber como termina a história do Uber, podemos realizar que é um exemplo de como uma bolha pode não ser apenas financeira e também afeta a vida pessoa das pessoas. Com tantas pessoas trabalhando no Uber até hoje como um colchão de segurança financeiro, um estouro na bolha seria devastador – para onde iriam tantos Uberistas que o optaram justamente por não terem emprego? E como as locadoras fariam com tantos carros populares a mais em suas garagens, parados e essencialmente funcionando como passivos?

Não tenho nada contra a utilização e trabalho com o Uber, mas a verdade é que, novamente, afobação e ganância na sociedade formam os mecanismos habilitadores das bolhas dentro ou fora da bolsa. Se você conseguir prevê-las e a forma que podem atingí-lo, poderá se proteger dos seus impactos.


Você enxerga a situação do Uber atual como uma forma de bolha financeira? O que acha que poderá acontecer com os envolvidos nos próximos anos? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Fonte da matéria: https://www.reddit.com/r/investimentos/comments/ep7w2w/a_bolha_da_uber_no_brasil_conversa_de_bar_que_me/

5 comentários sobre “A bolha do Uber?

  1. Concordo com seu texto.

    O Uber é uma grande bolha, pra mim entra no mesmo caso da maioria absoluta desas empresas “disruptivas”, eu penso que o Uber é avaliado em bilhões com base na expectativa que gere lucro em algum momento no futuro, até agora a base de clientes atendidos tem crescimento, mas e o lucro? Esse continua como promessa de futuro. É inevitável que chegue o momento em que o crescimento vai desacelerar e ela vai se estabilizar, porém quando isso acontecer e ficar claro que eles continuam dando prejuízo a bolha vai explodir.

    O caso do Uber não é único, se olharmos nessa última década já vimos histórias parecidas de empresas como o conglomerado de Eike Batista e a Netshoes, ambos os casos se basearam em uma expectativa futura e no final das contas terminaram em pó ou vendida a preços irrisórios se comparados ao que “valiam” anos atrás.

    Hoje Nubank e Uber são duas grandes bolhas, ambos financiados pelo excesso de liquidez artificial no mercado financeiro global, os bancos centrais estão financiando essa festa de investimentos em “ativos podres”, uma hora ou outra isso vai explodir.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala, poupador!

      Obrigado pelo comentário. É verdade, tem muito conto da carochinha hoje em dia de gente que fala demais mas não tem nada concreto para mostrar. As empresas X foram o maior exemplo no Brasil nos últimos anos.

      Sem dúvida o conselho clássico de investir em empresas “chatas” sem emoção é um dos melhores que existe até hoje.

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. Hoje em dia o grande negócio é abrir startups, enfeitá-las, criar grandes expectativas, inflar o valor, e, das duas, uma: ou fazer um IPO e vender sua parte pros sardinhas tarados por IPOs, fazendo -os de otários, ou criar uma ilusão de ameaça para algum desses velhotes bilionários donos de empresas estabelecidas e oligopolistas, e tentar vender a startup pra ele. A maioria das empresas que surgem hoje em dia me parece isso aí mesmo: só promessa, muito enfeite e pouca substância, pouco valor de verdade.

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  3. Pingback: Como comprar um carro de maneira inteligente – Pinguim Investidor

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