Resource Scoping, ou por que você não deve pegar sempre o maior e mais bonito

Afinal, vale a pena pagar bem mais e comprar o iPhone ao invés de outros smartphones baratos, já que ele tem especificações boas e pode durar por mais tempo no futuro?

Esta pode ser a pergunta mais feita durante a última década inteira com a popularização dos smartphones e aumento de explosivo dos dispositivos Android em competição aos iPhones. Ainda mais com as emoções e preferências fortes de cada usuário, com “guerrinhas” de Android vs iPhone pipocando em vários fóruns e cantos da internet com argumentos de veracidade duvidosa.

Deixando de lado os argumentos pessoais e de preferência pessoal, porém, esta pergunta ainda esconde um dilema maior das finanças pessoais: vale a pena gastar a mais para ter um bem que pode durar mais tempo até a troca? Existem várias histórias que parecem suportar este argumento. Alguns minimalistas, por exemplo, passaram a comprar coisas como roupas de marca porque embora o custo inicial ser maior, a qualidade e a durabilidade delas é superior. Será que esta idéia, porém, poderia ser levada para outras coisas da vida?

Embora o apelo à primeira vista faça sentido – você gastar uma quantia maior de antemão, mas ser compensado no fato que o seu produto não precisará ser reposto tão cedo – existem outros fatores que devem ser considerados, senão uma jogada de marketing poderá tomar do seu julgamento. Entra aqui um fator bem conhecido entre aqueles que trabalham na TI, chamado de Resource Scoping, que ajuda você a pagar apenas aquilo que você precisará.

Pague o quanto você precisa, não o quanto você quer

Quem trabalha na TI já conhece o ciclo de desenvolvimento de negócios: negociar os requerimentos com o cliente, desenvolver, testar, homologar com o cliente e operar. Neste processo existe um passo importante que previne que a tanto a solução de TI tenha custos astronômicos quanto que parte dela caia no esquecimento e nunca seja utilizada: Resource Scoping. Este processo leva em consideração os requerimentos do cliente versus o que realmente é necessário para a operação. E por trás de tudo, o orçamento denominando quão largo o escopo do projeto pode chegar a ser.

Traduzindo isso para o nosso cotidiano, isso significa que não importa qual passivo escolhemos comprar, temos sempre que ter em mente qual é a nossa intenção de utilização. Muitas vezes a propaganda bilionária por trás de algum produto nos convence a pegar aquele que é o maior, mais bonito e que vem com mais acessórios, mas isso se torna uma despesa de dinheiro após a compra. Vejamos alguns exemplos.

Uma tendência que cresceu muito na década passada foi dos moradores de cidades comprarem carros utilitários embora nunca tenham saído de um perímetro urbano na vida. E se antes faltava algum apelo na estética dos sedãs de passeio, dos designs de carrocerias bonitos se foi compensado através de uma “fusão” bizarra dos dois: nascia o “SUV de luxo.”

Hyundai Tucson: um exemplo de aberração que nem é sedan nem utilitário
Hyundai Tucson: um exemplo de aberração que nem é sedan nem utilitário

Esta categoria de carro representa uma solução meia-boca para dois problemas distintos (economia e praticidade na cidade, e confiabilidade no meio rural), e acaba por não ser eficiente para nenhum deles. E ainda assim, as ruas das cidades se encheram com esta nova tendência, resultando em mais trânsito e muito mais dinheiro jogado fora através de gasolina supérflua queimada para andar 5km entre um ponto e outro com trânsito. E nas raras ocasiões que tais pessoas precisem pegar um fora de estrada, nunca chegariam a precisar da tração extra. Ainda assim, o apelo da propaganda parece ter funcionado, pois o número de vendas deles só têm crescido.

Uma pessoa racional teria pensado nas suas necessidades quando se trata de um carro e pensado sobre para que utilizaria o carro, e com qual frequência. Numa cidade um carro compacto e econômico não só economizaria na gasolina mas também com custo de manutenção e revisão. Assim funciona o Resource Scoping de maneira prática.

Igualmente, os cinco aplicativos de celular mais baixados do mundo atualmente são todos redes sociais: WhatsApp, Facebook e Messenger, Instagram e Snapchat. A utilização destes pode variar de pessoa a pessoa, mas num mundo onde frequentemente nossas lacunas de tempo são preenchidas olhando um smartphone, estes aplicativos dominam nossos dias. Porém, estes aplicativos não requerem nada de especial de um smartphone (talvez por essa mesma razão se tornaram tão populares) e de fato, vários celulares antigos ainda conseguem utilizá-los sem problemas.

Você precisaria de um iPhone 11, avaliado a partir de R$4500, apenas para passar 90% do seu tempo nestes cinco aplicativos descritos acima – vendo vídeos, tirando fotos amadoras, escrevendo emojis? Qualquer resposta racional vai concluir que não. Qualquer smartphone de linha mais acessível, que sai por menos de R$800 poderia muito bem atender à estas necessidades.

Colocando em outro ponto de vista, você poderia comprar um celular que te atende as necessidades, e ainda assim investir a diferença em fundos imobiliários para ganhar R$20 todos os meses. Pense: um celular que não traz tanto valor a mais vale R$240 de renda passiva para você e a liberdade que ela te traz?

Poderia se fazer um caso quanto a pessoas que trabalham essencialmente com seus smartphones e que dependem deles para gerar renda. Pessoas como gestores de mídias sociais, fotógrafos e outros poderiam até ter um caso válido para comprar o iPhone, mas para a maioria esmagadora não se trata de uma necessidade. Pensar nas necessidades primeiro e depois partir para a busca ajuda a eliminar esta possibilidade.

Cuidado com a obsolência planejada

Outro problema que infelizmente está se tornando cada vez mais presente é a defunção proposital dos bens materiais por seus fabricantes. Já havia mencionado este conceito, chamado de obsolência planejada em outro post, e é ele a razão por trás dos novos bens, especialmente os eletrônicos “envelhecendo” cada vez mais rápido hoje em dia.

Resumidamente, não importa o quão brilhante, bonito, hi-tech e futurístico pareça o seu novo badulaque no momento que você comprou, dentro de três anos ele estará tão inútil quanto aquele que você acabou de descartar. Atualizações de software, imposições arbitrárias de requerimentos e partes e peças não-substituíveis como baterias, todas causam os bens materiais atuais a se degradarem numa velocidade muito maior que antigamente. E, ironicamente, pagar mais por qualidade aqui também não irá lhe salvar.

A Apple, por exemplo, foi acusada na França de intencionalmente querer reduzir a vida útil e eficiência dos iPhones 8 e anteriores por conta de atualizações de software que eram “pesadas demais” para os modelos considerados “antigos.” Sim, as mesmas pessoas que compraram o iPhone naquela época, visando justamente ter uma vida útil mais longa por conta da qualidade inferida, sofreram um tiro pelas costas quando a própria Apple começou a empurrar requerimentos arbitrários sob a ameaça de incompatibilidade.

Isso não está limitado apenas ao mundo dos dispositivos, infelizmente. Hoje em dia, por exemplo, carros têm integrações com computadores e dada a complexidade crescente destes, cada vez mais difícil se torna consertá-los por um mecânico comum. Saber nosso escopo de recursos aqui nos auxilia, pois temos desde o começo um plano para utilizar o produto ou serviço: e embora pode não proteger completamente de uma obsolência induzida artificialmente, protege nosso dinheiro ser gasto adicionalmente sem necessidade.

Lembrete: dinheiro é liberdade primeiro, diversão depois

Por fim, de forma nenhuma condeno quem está querendo trocar de celular ou realmente iria usufruir de uma compra mais cara se estiver se alinhando com seus valores. Para mim, a mensagem principal é: o dinheiro sempre e em primeiro lugar deve ser considerado pelo sua habilidade de trazer liberdade, e depois com suas outras funções. Lembre-se que é o fato de pagar-se primeiro que possibilita você a aportar pensando no seu futuro, e assim acumulando liberdade através de investimentos para renda passiva.

Da próxima vez que você estiver considerando uma nova compra e as possibilidades que poderá te trazer, recomendo que pense na utilidade que você precisa e quanto dela realmente está diluida no custo e quanto acabará por ser supérflua e um desperdício.


Quais são os exemplos de escopo supérfluo que você já comprou em algum bem material e nunca acabou utilizando? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Photo by fran hogan on Unsplash

3 comentários sobre “Resource Scoping, ou por que você não deve pegar sempre o maior e mais bonito

  1. Fala Pinguim.
    Essa é uma ótima reflexão que, confesso, eu deveria usar mais frequência em minha vida.
    Mas tem ponto específico aos iPhones que você não mencionou, e tem tudo a ver com nosso foco em investimentos.
    Eu já fui usuário de Android e hoje sou do iPhone. Quando vendi meu Android, tive muita dificuldade. Uma desvalorização absurda.
    Isso não acontece com os iPhones.
    Os produtos da Apple (tenho quase todos), são os que menos se desvalorizam ao longo do tempo.
    Eu nunca compro o “IPhone lançamento”. Geralmente compro a geração anterior, muitas vezes usado mesmo. Utilizo por dois ou três anos e vendo com pouca desvalorização.
    É algo a se pensar.
    Obrigado pela reflexão. Um forte abraço.
    Stark.
    http://www.acumuladorcompulsivo.com

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Stark!

      Obrigado pelo comentário! A sua observação é ótima, eu mesmo quase nunca vendi um eletrônico (prefiro reaproveitá-lo e continuar utilizando até não dar com o Linux) então não tenho experiência com a revenda. Interessante este ponto da desvalorização. Qual porcentagem do preço você geralmente consegue recuperar? Tratando de passivo nunca pensei em considerar.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: O real custo das coisas é por uso, não tempo – Pinguim Investidor

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