Kit de Sobrevivência Japonês e o planejamento financeiro

O Japão está localizado exatamente em cima do que é conhecido geologicamente como o Círculo de Fogo do Pacífico, e com isso possui uma incidência grande de terremotos naturalmente. Além disso, está situado num corredor de tufões, onde durante o verão as águas aquecidas do Pacífico geram vários tufões todos os anos. Em meio a tantos desastres naturais, o cotidiano e estilo de vida da população não poderiam sair completamente ilesos. A preparação e as contramedidas estão construídas dentro da infraestrutura do país, nos prédios, ruas e casas.

Esta influência também leva a população a aderir à preparação como parte da sua rotina. Uma das preparações recomendadas é que cada residência mantenha um Kit de Sobrevivência pessoal, cuja função é garantir a sobrevivência dos residentes por até 72h sem assitência caso algum desastre os force a abandonar a casa. Este kit de sobrevivência é parte da cultura local, e há vários guias online com instruções de como você pode construí-lo, com quantidade variável de recursos.

Não posso deixar de enxergar a semelhança entre este kit de sobrevivência com a tradicional reserva de emergência recomendada de praxe na educação financeira. Ambas são necessárias para situações inesperadas, imprevisíveis, e existe mais de uma forma de criá-las dependendo da sua situação pessoal, e nem sempre é todo mundo que se prepara corretamente quando a tragédia bate. No ano de 2019 apenas, dois tufões (Faxai e Hagibis) causaram grandes danos em Tokyo em um espaço de tempo relativamente curto, uma ocorrência incomum na região, e que mostrou que a emergência nem sempre é uma probabilidade remota.

O que podemos aprender com o kit de emergência japonês, e como isso aplica à nossa própria preparação financeira?

Escopo de planejamento: realismo e resiliência

Naturalmente, quando falamos sobre planejamento contra desastres, temos que definir o escopo sobre o qual estamos baseando a preparação. É esta definição que nos permite arranjar nossos recursos limitados para lidar da melhor forma com a situação. A pergunta essencial é: contra o que estamos nos preparando? Dependendo da resposta, nossa preparação pode mudar de tamanho e escopo.

No quesito de segurança da informação, por exemplo, existe um problema chamado de Scope Creep, que é o resultado de um mal planejamento onde se adicionam cada vez mais funções a um sistema de segurança que nunca são utilizadas. Como resultado, o sistema se torna mais complexo e caro de se manter sem trazer nenhum benefício prático a mais.

Com o nosso planejamento de emergência, não podemos refletir isso. Lembremos que o melhor uso possível do dinheiro é como capital aplicado para gerar renda passiva e, consequentemente, liberdade. Para atingir a liberdade financeira o mais rápido possível, é necessário manter apenas o mínimo necessário de dinheiro da forma líquida, sem rentabilidade.

Como exemplo, a maior parte dos kits de emergência pessoal é designado para garantir a sobrevivência de uma pessoa por até 72 horas. Este número não é mágico, e sim baseado em algumas premissas:

  • O sobrevivente mora numa cidade média ou grande.
  • Acesso à civilização e outras pessoas não foi completamente cortado.
  • Não há perigo mortal iminente como guerra nuclear ou contaminação do ar.
  • Serviços públicos de socorro e emergência poderão chegar ao local em até 72 horas.

Certamente não é um cenário romantizado como um “apocalipse zumbi,” e não chegam nem perto daqueles kits mostrados em tais filmes, com pilhas de armamentos e dezenas quilos de comida enlatada estocadas num sótão fortificado.

Quando que um kit desses iria ser prático? Tantas armas pra quê?
Quando que um kit desses iria ser prático? Tantas armas pra quê?
Este, sim, é um kit mais realista. Nada de se sobrecarregar com coisas para usos fictícios. Carrega-se apenas o necessário
Este sim é um kit mais realista. Nada de se sobrecarregar com coisas para usos fictícios. Carrega-se apenas o necessário

Nossa reserva de emergência, igualmente, deve ser calculada com precisão baseada em métricas. Uma métrica de praxe é ter o seu custo de vida atual por seis a doze meses guardados como reserva. Para chegar a esse número, ajuda anotar os gastos mensais a fim de se fazer um orçamento mais controlável. Porém, este “número mágico” de seis meses de custos não é completamente sem desvantagens; ele representa uma parte do patrimônio que não renderá.

Por esta razão, eu divido a minha reserva em camadas com liquidez e rentabilidade variadas, fazendo desta forma uma mistura com equilíbrio na carteira onde parte da reserva não se encontra 100% parada. Outra alternativa é obter múltiplas fontes de renda independentes, que continuam a lhe prover fluxo de caixa com previsibilidade mesmo se uma ou outra for afetada.

Manutenção regular e reposição

Embora o kit de emergência deve ser utilizado apenas nos seus devidos momentos específicos, é necessário um cuidado regular para revisar o conteúdo e especialmente as datas de validades dos mantimentos utilizados. Mesmo comidas não-perecíveis quando não observadas durante períodos longos podem expirar, se tornando inutilizáveis na hora que mais precisamos delas. Você não quer abrir o kit depois de abandonar a casa numa tragédia e descobrir que toda a comida venceu há dois meses.

Desta mesma forma funciona a nossa reserva de emergência; nossas necessidades financeiras podem mudar por conta de nossa evolução e a reserva calculada anteriormente pode não necessariamente refletir a nossa situação atual. Por exemplo, nosso estilo de vida pode ter mudado e nosso custo mensal ter sido alterado. Ou novas formas de investimentos ou fontes de renda nos trazem uma segurança percebida maior que antes, e não dependemos mais de uma reserva de emergência tão extensa. Nestes casos, você pode sim reavaliar a reserva de emergência e inclusive mover parte dela para outros investimentos.

Outra forma que pode nos influenciar são as oportunidades. Tal como as emergências, elas ocorrem com pouca previsibilidade, mas possuem impacto positivo. Viagens, cursos, bens em promoção significante são todos exemplos de oportunidades que podem acarretar no uso da reserva de emergência para cobrir o custo. Usar a reserva não é um tabu aqui: se a sua percepção de valor lhe convencer, utilize a quantia líquida na reserva temporariamente.

Há uma condição, porém: reposição. Todo o valor utilizado, drenado da reserva, terá de ser reposto o mais cedo possível. Oportunidades são bem vindas como fonte de valor, mas a utilidade da reserva como fonte de segurança deve sempre ser honrada.

Para refletir: exposição a risco e desenvolvimento

Por fim, deixo uma reflexão além da metáfora do kit de emergência.

O Japão é um país que possui uma incidência natural de ambos terremotos, maremotos, tufões e atividade vulcânica pelo país inteiro. Além disso, o país sofre crises artificiais como vazamento de material radioativo provido das usinas e alguns atentados terroristas. Ainda assim, o país segue sendo um dos mais ricos do mundo e com uma altíssima qualidade de vida medida pelo IDH.

Enquanto isso, países como o Brasil e muito do ainda considerado Terceiro Mundo não são expostos a nenhum destes riscos, e possuem proporcionalmente muito mais recursos que o primeiro mundo. E ainda assim, possuem desenvolvimento e economias que não seguem as proporções dos seus potenciais de desenvolvimento.

Considerando os eventos naturais aos locais, é relativamente mais arriscado morar no Japão que no Brasil. Será que esta exposição natural ao risco foi um fator que contribuiu ao desenvolvimento do país, tal como acontece nos investimentos? Tal como o fator da escassez não podemos deixar de considerar a influência desses fatores como contribuintes ao crescimento. E assim também fica a metáfora para a vida: mais crescem aqueles que se expõem aos riscos.


Quais são os riscos que você se expõe naturalmente na vida? Como você se prepara contra eles? Você possui uma “reserva de emergência” da vida? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Um comentário sobre “Kit de Sobrevivência Japonês e o planejamento financeiro

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