Educação Financeira #5 – o Dinheiro e a ilusão do valor

“Eu não invisto na bolsa porque não quero perder dinheiro quando o mercado cair.”

No caminho da educação financeira, muitos mitos são destruídos e novos conceitos aprendidos. Alguns são simples e fáceis de serem absorvidos, mas outros são contra-intuitivos ao conhecimento financeiro e levam mais tempo para serem realmente compreendidos. Crenças financeiras, por exemplo as que “o dinheiro é a raíz de todos os males,” ou que “o dinheiro corrompe as pessoas,” são parte de nossa educação desde pequenos e levam tempo para serem desfeitas. Igualmente, compreender que o ato de investir para independência financeira não tem um prazo estipulado também não é rapidamente aceitável em nossa sociedade imediatista.

Um conceito que inicialmente foi difícil de compreender, mas a cada dia que passa se torna mais verdadeiro é o seguinte: o dinheiro é mais ilusão do que real. Li sobre este conceito pela primeira vez no livro Pai Rico, Pai Pobre do Robert Kiyosaki, onde ele menciona que uma das diferenças entre os ricos e os pobres é que Os ricos sabem que o dinheiro é uma ilusão.

No livro, Kiyosaki usa como exemplo deste conceito o fato que ele conseguiu comprar e vender um imóvel por um grande lucro usando apenas um empréstimo bancário e seus contatos de negócios, nunca vendo o dinheiro em si durante a transação, mas eu acredito que o conceito é vai além disso. Enxergar o dinheiro não como dinheiro em si, mas como uma forma de obter liberdade, por exemplo, é uma forma poderosíssima de treinar a sua mente para enriquecer e obter segurança e independência financeira.

Além disso, nossa percepção de risco, valor e utilidade do dinheiro é um diferencial enorme na hora de saber utilizá-lo ou se preparar contra as oscilações da bolsa e outras coisas situações adversas na sua vida.

Como ver o dinheiro como uma ilusão pode te ajudar a investir melhor?

O dinheiro possui o valor que você atribui a ele

Primeiramente, temos que tirar um desentendimento da mesa: quando estou falando de ilusão, não digo que não devemos nos importar com o dinheiro, mas que você deve saber do valor que ele traz a você.

Para muitos, por exemplo, o dinheiro é visto como um recurso finito que você armazena numa conta bancária, parecido como a água num balde ou caixa d’água. Tal como a água, se você abrir a torneira e consumí-lo, você perde o recurso inicial e acaba com menos que tinha anteriormente. Para não deixar que a caixa “seque,” você precisa achar formas de continuar enchendo-a, geralmente na forma de um emprego.

Visto desta forma, o dinheiro líquido é o recurso mais importante que existe, especificamente considerando a velocidade que você consegue alcançá-lo. Isso explica porque para tantos a velha poupança ainda é considerada o melhor “investimento” possível. Ficar sem “acesso” ao dinheiro é um risco de inanição.

Além disso, esta mentalidade considera o volume do dinheiro como constante que só possui a capacidade de diminuir ou manter-se, mudando apenas com atividade humana. Isso explica a aversão de muitos contra a volatilidade dos investimentos, onde uma baixa temporária é igualada à “perda” de patrimônio.

Esta visão do dinheiro atrela um valor efêmero e limitado a ele, quando na verdade para o investidor de longo prazo, previdenciário e seguidor do conceito do FIRE precisa justamente do oposto – enxergar a abundância do dinheiro. Ver o dinheiro como uma ferramenta, uma oportunidade latente para se produzir mais dinheiro através de investimentos é mais produtivo.

Para exemplificar este visão do dinheiro, gosto de citar uma frase do Grant Cardone sobre a utilidade do dinheiro. Em uma de suas palestras, Cardone diz e eu o parafraseio:

O dinheiro parado é inútil. Fluxo de caixa é quem manda. Esta nota de cem na minha carteira não tem utilidade pra mim exceto quando ela conseguer me trazer outra nota de cem.

E assim temos o que para mim representa o maior valor possível que o dinheiro pode prover: uma forma de liberdade provida através de fluxo de caixa quando investido.

Volatilidade ou risco?

Uma das formas de se calcular o risco envolvido de um ativo frequentemente utilizada é a sua volatilidade. A lógica é que ativos considerados “estáveis” têm seus preços mais previsíveis e assim passam certeza e confiabilidade ao investidor. Como um exemplo, consideremos o Tesouro Selic: ele possui uma taxa fixa de valorização (a Taxa Selic), e volatilidade zero por ser renda fixa. Logo, é considerado um ativo de baixíssimo risco, inclusive visto como o de menor risco no país inteiro por muitos.

Porém, volatilidade apenas não deve ser utilizada como um equivalente ao conceito de risco. Isso é porque existem ambos exemplos de ativos não-voláteis e arriscados e ativos voláteis não-arriscados. Um bom exemplo do primeiro foram as debêntures das Rodovias Tietê (RDVT11), que embora sendo renda fixa viraram pó após a empresa ter anunciado que não iria cumprir com suas dívidas aos cotistas. Mesmo sem volatilidade, o valor caiu para zero da noite pro dia e, sem a proteção do FGC como acontece com outros investimentos de renda fixa, os cotistas essencialmente perderam tudo o que fora investido.

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Igualmente, ações e renda variável, voláteis e frequentemente vistos como ativos de risco, quando vistos a longo prazo possuem risco baixo, especialmente quando diversificados e vistos a nível de mercado. O famoso gráfico de Jeremy Siegel, em seu livro Stocks for the long run, indica bem esta relação:

Gráfico demonstrando retornos financeiros de ações versus outros ativos de Jeremy Siegel

Esta relação é novamente ilustrada numa frase do Warren Buffett citado no livro The Warren Buffett way, referindo-se à capacidade do mercado em criar riqueza. Nela, Buffet explica que o mercado americano teve um retorno médio anual de 10.4% durante o século XX inteiro.

Com tamanho retorno, deveria ser impossível não ter ganhado dinheiro com ele, mas o imediatismo dos investidores em não querer investir ao longo prazo os tornou vítimas de flutuações temporárias de preços a curto prazo, e no pânico, venderam na baixa para não continuar perdendo. Enquanto isso, os investidores de longo prazo sabiam que a baixa nos preços era uma coisa efêmera, temporária, e uma ilusão quando comparada aos reais valores dos ativos em si. Eles sabiam que só consolidariam as suas perdas e as admitissem e vendessem.

É como a finansfera costuma falar, VOL é vida!


Saber atribuir o valor ao dinheiro, e saber reconhecer quando ele representa uma ilusão é um conceito um pouco complicado de se compreender no começo, mas eventualmente se torna natural do processo de investir e poupar.

Você já chegou a pensar sobre o dinheiro como uma ilusão na vida? Qual valor atribui ao dinheiro nas suas ocasiões? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

4 comentários sobre “Educação Financeira #5 – o Dinheiro e a ilusão do valor

    1. Fala Marcelo!

      Legal a frase, realmente faz todo sentido! Eu lembro de um conceito no Xadrez onde aqueles que tentam defender demais perdem o jogo por ficarem encurralados pela ofensiva do adversário. Uma bela metáfora para aversão de risco, né?

      Abraços e seguimos em frente!

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