Novas taxas da B3: como me impactam?

No primeiro dia útil de 2020, a B3 anunciou a operacionalização de novas taxas sobre o capital custodiado e proventos que aumentaram a cobrança sobre o pequeno investidor. Essa notícia abalou o início de ano dos investidores com muita pedrada em vídeos e comentários na internet sobre como isso foi uma manobra para descorajar o pequeno investidor a fazer Buy and Hold, incentivo para trade e como a B3, em sua posição de monopólio de bolsas no Brasil, está desfrutando de uma posição de vantagem desigual que deveria ser acabada.

Como todo bom praticante do estoicismo, em meio à esta situação de pessimismo, podemos aproveitar para colocá-lo em prática e avaliar como podemos fazer o melhor uso desta situação em princípio aversa.

Quais lições podemos tirar destas atualizações, e como podemos melhor lidar com elas financeira e pessoalmente?

Impactos das novas taxas no seu patrimônio

Notícias ruins piores primeiro, vamos ver quais são os impactos destas novas taxas sobre os seus investimentos.

Primeiramente, a B3 passa a cobrar uma taxa de transferência de ativos (TTA). Parecido com o jeito que a corretagem funciona, o volume diário total de operações a partir de R$20000 será taxado em 0,00260% tanto para o comprador quanto o vendedor.

Esta é provavelmente a mais inofensiva das taxas, pois são poucos aqueles que conseguem um aporte total mensal maior que R$20 mil para investir, mas para quem consegue movimentar mais capital pode se tornar um vazamento significante de dinheiro. Eu particularmente não fui afetado diretamente por ela ainda, mas não posso deixar de pensar que quando eu prosperar mais à frente, e puder investir um capital maior, poderei deixar de ser “café com leite” e ser afetado por ela.

Além disso, um ponto que a B3 clarifica: esta taxa não se aplica para operações de Day Trade. Esta cláusula fez algumas pessoas pensarem que o racional da B3 foi para encorajar mais pessoas a virarem day traders na bolsa, e eu concordo.

A próxima taxa, e provavelmente mais perniciosa de todas, é a tarifa sobre Processamento de Proventos Financeiros. Em resumo, esta tarifa cobra 0.12% de todos os proventos que você receber. Ela significa exatamente aquilo que você não quer acreditar que ela singifica: sim, seus dividendos de ações e aluguéis de FIIs serão taxados – mensalmente. Se há alguns meses tivemos petições e campanhas contra a tributação governamental de Dividendos, a B3 saiu à frente e passou a perna em todos nós instituindo esta taxa de forma privada. E com sua posição de monopólio de bolsa, não há muito o que podemos fazer com relação aos investimentos do Brasil.

O impacto mais óbvio é a sua redução de renda passive mensal, pois agora todo mês a B3 irá remover 0.12% dela automaticamente. O impacto menos sutil, porém é no custo de oportunidade que esta simples taxa tem ao longo de uma vida inteira investindo, pois é um dinheiro literalmente perdido que você deixa de ter a oportunidade de reinvestir para aproveitar os juros compostos.

Suponhamos que você tem R$100000 em FIIs rendendo o equivalente a R$6000 anualmente em dividendos. Mensalmente isso seriam R$7,20 sendo retidos pela B3 de forma bruta. Porém, se levarmos em conta o quanto estes R$7,20 poderiam nos comprar se reinvestidos com frequência, a situação muda. Usando a regrinha dos 173, vemos que ao longo de um período de dez anos, esta taxa sozinha nos deixa de ganhar R$1240 em oportunidade perdida.

A taxa final instituída é parecida a já existente no tesouro direto: a B3 passa a cobrar uma taxa de custódia sobre o valor aplicado em bolsa, regressivo a partir dos 0.05% ao ano. Esta é novamente mais uma taxa que a princípio não parece ter muito impacto sobre o patrimônio, mas a situação começa a pesar mais para quem possui muito patrimônio. Um recém-maturado milionário passa a pagar anualmente R$130 de custódia. Um decamilionário, R$7200 sem incluir as outras taxas acima.

Mudando a percepção e o mindset: é possível ser positivo durante a negatividade?

Agora que vimos com detalhes as novas taxas aplicadas, podemos ver que as manchetes sobre este assunto nos causaram mais afobação do que o necessário. A verdade é que ninguém gosta de pagar novas taxas ou impostos (este também é um pilar do Jeito Pinguim de investir), e na primeira vista notícias como esta soam nos nossos ouvidos como uma ameaça ao nosso patrimônio; um ataque aos nossos bens.

Aplicando o Estoicismo aqui, podemos racionalizar o temor das taxas através de uma aplicação dos números e perceber que, os impactos não são uma ameaça grande ao nosso patrimônio e investimentos. Embora a idéia de pagar para uma empresa de monopólio uma taxa auto-instituída sem chances de refutar traga um gosto ruim à boca, é muito provável que mesmo com esta mudança sua rotina de investimentos não deverá mudar muito. Mesmo com mais de R$1M em patrimônio, as taxas pagas pelo pequeno investidor não são exorbitantes.

A incidência destas taxas me levou a lembrar de uma lição que um colega de trabalho inconscientemente me ensinou quando estava iniciando a minha carreira, e a época de declaração do imposto de renda havia chegado. Estávamos fazendo a conta dos impostos e ele, recém-contratado na empresa como eu, comentou que o imposto de renda era o único que ele gostava de ver crescendo. Quando perguntei por que, ele respondeu: “Porque ele é único que aumenta proporcionalmente ao meu salário.”

Da mesma forma, percebi que quanto mais complexa minha situação fiscal, melhor para mim porque significa que meu patrimônio e investimentos se tornam mais complexos e rentáveis. Há três anos, fazia a declaração do imposto por mim mesmo, e só tinha a poupança como “investimento.” Hoje conto com a assistência de um contador pois entendo que o retorno dos meus ativos investidos compensa pagar por um especialista para analizar a complexidade. Assim, se estou pagando hoje uma taxa por investir em renda variável, percebo que é porque meus investimentos estão mais rentáveis do que antes.

Apliquei a minha racionalidade estóica para enxergar estas novas taxas como um ocorrência positiva. E se você não enxergava assim a situação, recomendo que experimente aplicar esta percepção a partir de hoje, pois irá transformar o jeito que as notícias ruins te impactam.

Alternativas – saindo do alcance da B3

Ao passo que sou um estóico, não sou nada bobo. Sabemos que mesmo aplicando a percepção correta, a medida da B3 foi egoísta e não tem um fundamento sólido para quem pratica o Buy and Hold a longo prazo. O próximo passo é tentar procurar alternativas e praticar a flexibilidade e resiliência nos investimentos além do escopo da B3. Você pode pensar nisso como uma forma de diversificação.

Me parece que a parte mais óbvia de evitar o alcance da B3 é investir numa outra bolsa. Como no Brasil é monopólio, o próximo candidato é o exterior, e para mim o mais atrativo é os EUA. Facilidade com a língua, familiaridade com os produtos e empresas e muita documentação disponível, investir com o Tio Sam parece ser uma ótima oportunidade para mim. E parece que tem muita gente já com essa idéia por aí…

Indignação total no subreddit de /r/investimentos

Existem várias matérias online dizendo como, com novas corretoras de investimento alternativas, hoje é muito mais fácil conseguir abrir uma conta e investir nos EUA diretamente do Brasil, mesmo não tendo residência lá. Eu particularmente comecei a namorar a idéia desde que conheci os mágicos Index Funds da Vanguard, mas achava na época que eu precisava estudar mais para conseguir alavancagem. Hoje já considero que possuo formação de investidor suficiente para tentar, então esta é uma idéia bem atraente como um próximo nível de diversificação.

Conclusão: flexibilidade e resiliência

Certamente este tipo de notícia não é bem-vinda para ninguém. Porém, como havia escrito num outro post a respeito da queda da taxa Selic, sempre podemos optar por ser resilientes e flexíveis contra uma adversidade destas, e mesmo alterando nossa percepção como no meu caso, podemos fazer que as notícias não sejam tão ruins quanto pareçam ser.

Procurar alternativas, criar resiliência na mente e afiar a disciplina para continuar a aportar e investir com consistência são as ferramentas que você poderá utilizar para garantir que conseguirá continuar a enriquecer embora taxas e outras condições adversas.


No que as novas taxas da B3 influenciaram os seus investimentos? Você tomará outras decisões ou iniciará outros investimentos com base nestas mudanças? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by JESHOOTS.COM on Unsplash

12 comentários sobre “Novas taxas da B3: como me impactam?

  1. Fala Grande Pinguim.
    Na minha opinião, independente desta ação bizarra da B3, devemos investir sim no exterior.
    É uma forma ótima de diversificar moeda e mercados, colocando grana nos EUA que possuem simplesmente mais de 50% de todos os ativos financeiros do mundo.
    É um mundo totalmente diferente. Nos EUA existem mais analistas de investimentos do que todos os investidores da bolsa brasileira.
    Ainda temos muito feijão com arroz pra comer e chegar perto deles, então, pra minha estratégia faz todo sentido diversificar com ativos americanos.
    Meu objetivo está perto de 30% de ativos americanos para 70% brasileiros.
    Vamos ver, é um bom caminho, mas ainda acho que o nosso Brasilzão oferece uma maior taxa de risco x retorno.
    Forte abraço.
    Stark.
    http://www.acumuladorcompulsivo.com

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala, Stark!

      É uma boa estratégia mesmo. Temos que crescer nossa resiliência e versatilidade mas a verdade é que um livre mercado indica que temos a liberdade para escolher alternativas que nos beneficiam. Se hoje é fácil investir no exterior, partiu.

      Quantos aos ativos nos EUA, qual é o seu plano? Pick stocks ou comprar VTI? Como os dividendos são repassados, pensei em fazer all-in de Index funds.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

      1. Minha estratégia é parecida com a nacional. Na minha carteira tenho empresas que crescem a distribuição de dividendos, e também empresas com resultados consistentes para proteger o patrimônio ao longo do tempo.
        Mas ainda não consegui comprar toda minha carteira teórica. Este ano preciso focar mais nisso.
        Grande abraço.

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  2. Fala Pinguim!

    Também fiquei puto com essa notícia, mas como também sou adepto ao estoicismo – procurei ignorar isso e focar no meu plano. Muita coisa vai mudar ao longo da minha jornada, então se à cada notícia ruim eu reagir de forma intempestiva posso correr o risco de largar tudo.

    Portanto, vou focar naquilo que posso controlar: poupar e aportar todos os meses.

    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Colheita!

      Verdade, podemos aplicar a visualização negativa ao máximo, mas não deixa de desfazer os impactos reais nos investimentos. Aí que entra a dicotomia do controle: foque apenas naquilo que você consegue controlar. Os seus aportes e capacidade para ganhar dinheiro continuam inabalados pela política da B3.

      Ótima postura!

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: Fechamento Janeiro 2020 – Começando o ano com tudo! – Pinguim Investidor

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