A pessoa mais rica do cemitério

Há algumas semanas, recebi a notícia que uma pessoa com quem trabalhei num projeto passado havia falecido. Ela não era muito próxima de mim, mas havia trabalhado com ela por um tempo e pude evidenciar que ela era muito querida entre as pessoas do seu time, e rapidamente as condolências foram aparecendo pelas redes sociais e grupos de WhatsApp. Uma mulher com uma carreira de sucesso, trabalhando em vários países e com vasta experiência e vários contatos.

O fator que mais chocou a desta notícia foi que ela não tinha muita idade, nem problema de saúde qualquer aparente. Tinha provavelmente em volta dos seus 40 e poucos, e se foi da noite pro dia – sem adoecimento e sem acidente. E sem um plano sobre para onde iriam seus bens e ativos.

Este acontecimento me lembrou de uma frase que li a um tempo atrás sobre como, independente dos seus objetivos financeiros e de vida, você não deve querer ser a pessoa mais rica do cemitério. O dinheiro tem os seus usos, e cada um deve utilizá-lo conforme suas prioridades e percepção de valores. Porém, se você prioriza o dinheiro apenas para ter dinheiro, você está num caminho perdedor.

Viver a vida significa aproveitá-la, mas também significa fazer a manutenção dela, cuidando para que você possa aproveitá-la durante o maior tempo possível com recursos e saúde abundantes. Como você pode fazer uma conciliação entre estes dois extremos desta forma?

Se você não estiver aqui para viver a vida, tudo será em vão

Nós do FIRE e das finanças somos focados nas metas de longo prazo, no enriquecimento e na disciplina para manter nossa estratégia ao longo prazo. Essa priorização pode causar um desentendimento dos observadores externos, que confundem a frugalidade com privação e pobreza. Porém, sabemos que esse caminho não significa a deprivação da vida em si, nem com sacrifício.

Tomando uma lição do palestrante Eric Thomas, a prioridade para nos salvar pertence apenas a nós mesmos; ninguém vai conseguir viver a nossa vida e nem cuidar de nós, senão nós mesmos. Tal como acontece nas finanças, se você não tomar as rédeas para cuidar da sua saúde mental e física estará jogando todo o seu suado esforço fora daqui a um tempo.

Atingir a independência financeira vem com seus custos e esforços, como estudos a mais, preparação, orçamentos, e economias, mas ela nunca deve custar a sua saúde. Afinal, você está se planejando para o futuro, mas se você não estiver presente para aproveitá-lo qual é o propósito deste planejamento?

Isto não deve ser entendido, porém, como “a vida é curta, vamos aproveitar” e seguir com uma vida hedonística e sem propósito até que alguma tragédia aconteça. Muito pelo contrário; devemos lembrar nessa hora dos nossos dois melhores amigos, e fazer um favor a nós mesmos no futuro. Um favor para cuidar da sua saúde física, da sua saúde mental, dos seus relacionamentos importantes como família e amigos, e, como sempre, das suas finanças.

Lembre-se: há uma rezão pela qual num avião comercial, quando as máscaras de oxigênio são liberadas, você deve colocar sempre a sua primeiro antes de ajudar aos outros.

Evite os riscos de desastre

Se vivêssemos puramente na aversão aos riscos, morreríamos de inanição porque não poderíamos nem confiar na nossa própria comida ou água. Já falei de gestão de risco antes, e como eles são necessários para garantir retornos significantes na vida, mas existem aqueles que são simplesmente absurdos e podem ser evitados com facilidade.

Se houvesse uma porta em qual você tivesse a chance de 1 em 100000 de ganhar R$1 milhão, você passaria? Provavelmente sim. E se esta mesma chance de 1 em 100000 fosse para morrer; você ainda passaria? Provavelmente não. Ainda assim, as pessoas correm riscos similares a estes no seu dia-a-dia, acumulados sobre uma vida inteira.

Por exemplo, num estudo conduzido em 2012 pelo National Healthcare System da Grã-bretanha, estimou-se que a falta de exercício é responsável por aproximadamente 53 milhões de mortes anualmente. Esta proporção é equivalente a 0.075% da população mundial, e uma probabilidade mais de dez vezes maior que o exemplo acima da porta. Sem contar que esta probabilidade aumenta com a idade.

Este é o poder que um hábito ruim tem sobre a sua vida. Você ainda acha que não se exercitar não é arriscado?

Sem contar coisas pequenas, que não requerem esforço para fazer, mas que ainda assim diminuem muito os riscos da desastre. Coisas como usar o cinto de segurança, ficar sob o limite de velocidade, são coisas simples que ainda assim melhoram muito mais a sua segurança total. Para que você iria correr um risco de desastre se a prevenção é tão simples?

Tenha em mente as possibilidades, mas não as tema

Finalmente, é necessário aceitar algumas certezas da vida para planejar o seu destino do seu dinheiro, começando pela maior delas: a morte. Aceitar a morte é diferente de temê-la, e simplesmente significa planejar-se pensando no que acontece no caminho e depois dela.

Uma grande perda para a família desta ex-colega de trabalho foi que antes de falecer, ela não havia deixado nenhum testamento ou planejamento sobre o que deveria acontecer com toda a sua propriedade. Para uma pessoa que havia acumulado uma quantidade significante de dinheiro, tal perda doeu. Embora ela não tivesse filhos, é certo que este dinheiro poderia beneficiar mais a sua família e seus entes queridos do que uma entidade anônima do governo.

Dependendo da sua situação familiar e idade, um testamento pode não fazer muito sentido no momento, mas não subestime sua utilidade ao longo de sua vida. Como adepto ao FIRE, seu patrimônio aumentará significantemente com o tempo, e você terá formado relações com alguém que poderá querer beneficiar no futuro. Novamente, o objetivo aqui não é contemplar a morte ou a possibilidade de acidentes, mas sim racionalizar este fato e se planejar para quando este irá acontecer.

Outro preparo é também aceitar o fato que suas despesas com saúde e apoio de vida irão aumentar significantemente com o tempo, especialmente nos seus últimos anos de vida. Isso é relevante para o seu planejamento FIRE parecido como a influência da inflação no cálculo dos seus custos de vida. Consigo ver duas formas que você pode se planejar contra esta certeza.

A primeira é “investir na saúde” diretamente através de um estilo de vida saudável para eliminar o risco acumulado do estilo de vida mencionado anteriormente. Exercitar-se e alimentar-se bem não precisam ser caros, mas como um FIREr, você pode querer algumas regalias a mais, e assim incluir a mensalidade de uma academia entre seus custos, por exemplo.

A segunda é utilizar a renda passiva que “sobra” da sua aposentadoria FIRE (um de seus contingentes de emergência) para reinvestir no montante visando um aumento dos custos futuros. Você não precisaria contar com tais altos custos no seu planejamento inicial do FIRE (já que, afinal, estes custos anormais seriam apenas para um curto espaço de tempo), mas estaria ao longo da sua “aposentadoria” se preparando para o momento.

O dinheiro traz liberdade. Dinheiro por si só não tem sentido.

Concluo o artigo trazendo de volta aquele conceito base do FIRE que ninguém deve esquecer quando trabalhar: o dinheiro proporciona liberdade.

Histórias trágicas como a deste artigo não são comuns, mas acontecem de tempo em tempo e nos assustam, como o caso do estagiário que morreu depois de trabalhar vários dias sem parar na Merril Lynch em 2013. Nossos objetivos pesam nas decisões que tomamos e certamente os objetivos deste estagiário – assim como muitas pessoas ao redor do globo – não estavam alinhados com este poder que o dinheiro possui. Tenha sempre em mente que o dinheiro deve ser primariamente usado como uma fonte de liberdade pessoal, e é medida direta do seu esforço investido.

Você não quer ver todo o resultado do seu esforço de uma vida inteira procurando por liberdade ser literalmente jogado fora antes do tempo.


Você conhece mais alguma história trágica como esta? Que conselhos daria para seus entes queridos para não “nadar, nadar e morrer na praia?” Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Photo by camilo jimenez on Unsplash

10 comentários sobre “A pessoa mais rica do cemitério

    1. Olá Foco, Força Fire!

      É verdade isso. Mas infelizmente parece que a realidade da maioria é isso; vive de trabalhar até a aposentadoria, depois disso usa as economias pra pagar médico e tratamento. Qual o sentido?

      Abraços e seguimos em frente!

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    1. Olá, Stark!

      Quanto tempo que não o via por aqui. Obrigado pelo comentário. É verdade, é difícil as vezes encontrar aquele tempo para conciliar com a família e os entes queridos, mesmo que afirmemos a nós mesmos que somos independentes. Mas temos que manter o elo sim, pois são nossa base emocional para operar.

      Se cuide também, e ótima virada do ano.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

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