A percepção relativa humana e seus impactos nas finanças

Responda rápido, sem procurar no Google: qual é o peso médio de um elefante africano adulto? Você tem dez segundos para responder. Valendo!

Seu tempo está esgotado. Quanto você acha que é? Uma tonelada? Dez toneladas? Vinte?

Procurar uma resposta sensata para esta pergunta foi provavelmente bem difícil. Mas antes de mostrar a resposta, vamos tentar uma pergunta alternativa: quantos rinocerontes pesa um elefante?

A resposta para esta pergunta se torna mais fácil por simplesmente ter se tornado uma questão de comparação entre duas coisas já de certa forma conhecidas.

Quem já passou por um processo seletivo de contratação com certeza já viu as perguntas mais bizarras que os recrutadores fazem ao grupo. Uma das clássicas é: quantas bolas de golfe cabem num Boeing 747? E aqui nem o Google pode te ajudar se é para ser resposta objetiva. Como no exemplo dos elefantes, uma “cola” de comparação poderia lhe ajudar aqui também, mas não se preocupe, não é a resposta objetiva que eles estão procurando.

Perguntas inesperadas à parte, a nossa dificuldade em estimar grandezas como essas do zero se dá em parte porque o cérebro humano é incapaz de processar grandezas absolutas, apenas relativas. Em outras palavras, só conseguimos completamente entender alguma coisa quando colocamos outra coisa familiar ao lado para comparar.

Podemos, por exemplo, fazer o mesmo tipo de pergunta acima para o número de estrelas no céu, quantidade de grãos de areia numa praia, população de um determinado bairro, etc. Mesmo que saiba o número exato, você só irá realmente compreender sua magnitude se compará-lo com outra coisa que realmente entende. E a mesma coisa acontece com os sentimentos: frequentemente nos comparamos com os outros nos quesitos de felicidade e sucesso.

Este fato felizmente (ou não) se derivou da nossa evolução como seres humanos, e tem profundos impactos na nossa psicologia, percepção das coisas e – finalmente – até nas nossas finanças pessoais.

Como a “relatividade humana” pode ter impactos positivos e negativos na suas finanças, e como você pode arranjá-la de modo a ter os melhores resultados desta consequência evolucionária tão naturalmente humana?

Aproximando o inalcançável: números grandes nem sempre são tão grandes assim

Nossa necessidade de relatividade a princípio parece jogar contra nós quando estamos iniciando nossa jornada até a independência financeira. Quando não se tem nenhum planejamento financeiro tudo parece muito grande, impossível de se alcançar. Pois afinal, quanto de dinheiro precisamos para nos tornar financeiramente livre; um milhão de reais? Cinco milhões? Dez?

Alguém vê alguma semelhança com as perguntas anteriores?

Felizmente, como descrevi num post anterior, existe uma forma eficiente de calcular exatamente quanto dinheiro precisaremos acumular para alcançar a liberdade financeira, conhecida como a regra dos 4%. Recapitulando, se você somar todos os seus gastos mensais e multiplicar o total por 300, terá a quantidade que precisará ter investida para conseguir viver dos juros produzidos – teoricamente para sempre.

Com isso, um número anteriormente astronômico, na casa dos dez milhões acaba sendo muito menor na realidade do seu estilo de vida atual. Por exemplo, se os seus custos totais são de RR$2500 ao mês, você precisa de R$750000 – menos de 1 milhão de Reais. Ainda assim, se são aparentemente muitos zeros, você pode usar um outro truque para suavizar a experiência.

Certamente, ao garantir que todos os seus custos sem distinção serão cobertos pela sua renda passiva, a quantia será uma garantia de liberdade financeira. Mas e se cortarmos os gastos não-essenciais, como entretenimento e restaurantes da equação? Aplicando a regra novamente, teremos a quantia necessária para cobrir os gastos essenciais da sua vida – uma condição de segurança financeira.

Nesta condição, você ainda teria que trabalhar para cobrir os gastos extras como compras materiais supérfluas, mas teria a tranquilidade financeira para conseguir cobrir todas os gastos críticos se alguma coisa acontecesse. E a quantia necessária é muito menor, o que lhe motiva para buscar este milestone intermediário.

Só é necessário tomar cuidado para não se esquecer de considerar os efeitos da inflação para não correr o risco da sua renda perder o poder de compra.

Onde a relatividade nos prejudica: o Decoy Effect

A relatividade humana pode ser utilizada para nos prejudicar se ela for artificialmente manipulada para nos convencer que alguma certa escolha é melhor que alguma outra.

Vamos dizer que você está numa lanchonete onde vende-se batata frita em dois tamanhos diferentes:

  • Pequeno (R$6)
  • Grande (R$12)

Mesmo estando com fome, você fica um pouco receoso sobre comprar o tamanho grande porque é mais que o dobro do preço do pequeno, e não vê muita vantagem em escolhê-lo. Porém, se colocarmos uma escolha bem estudada entre as duas opções, a nossa percepção muda drasticamente:

  • Pequeno (R$6)
  • Médio (R$10)
  • Grande (R$12)

De repente, o tamanho grande não parece mais tão mais caro do que antes porque podemos compará-lo com o médio e perceber que a diferença é de apenas dois reais. Nossa mente usou a “isca” do tamanho médio para concluir que o grande não é tão assim desvantajoso; de fato, ele parece muito mais atraente agora. Esta manipulação da percepção é chamada de the decoy effect

Não se iluda: esta técnica de colocar uma “isca” disfarçada na prateleira apenas para tornar os preços mais caros atrativos por comparação é praticada em todos os lugares que você possa imaginar. Tamanhos “especiais?” Aham. Três por dois? Certeza. Plano “econo-premium?” Pode apostar. O vendedor não coloca estas opções para te ajudar, e sim para manipular a sua percepção para convencê-lo a optar pelo mais caro no final.

De fato, esta manipulação é tão perniciosa que esconde alguns fatos simples e fáceis de entender se utilizarmos a racionalidade, como o fato de duas bebidas pequenas serem mais baratas que uma grande no Mc Donald’s.

A grama do outro sempre será mais verde… de alguma forma

A relatividade humana novamente pode acabar conosco se ignorarmos a racionalidade e apenas formos guiados pela nossas emoções. Um exemplo clássico é o velho ditado que “A grama do vizinho sempre é mais verde.”

Nossa visão relativa não nos facilita na hora de inspecionar e analisar o quanto já temos acumulado até agora, desde o patrimônio financeiro até a realização pessoal. Mas ao passo que muitos optam por vários benchmarks para comparação no mundo financeiro (CDI, Selic, ibovespa, etc), não existem tais referências para a sua vida pessoal.

Ou existem?

Hoje basta logar nas mídias sociais ou ligar a televisão que aparecerão várias “sugestões” de como sua vida deve ser. Tais “padrões” incluem que tipo de roupas você deve usar (que, estranhamente, mudam a cada duas semanas), qual carro deve dirigir, o que deve beber (onde fica claro que não beber é fora de cogitação) e para onde deve viajar, entre outros. Se ainda não ficou claro, estas são as propagandas influenciando você a gastar o seu dinheiro.

Em outras palavras, enquanto você não definir para você mesmo qual é o padrão que sua vida deve ter, haverão milhares de interessados que irão ditá-lo para você. Por esta razão, é necessário racionalizar as suas emoções, agradecer e contar com tudo aquilo que você já possui até agora.

A grama do vizinho sempre será mais verde de alguma forma enquanto você não definir quão verde é suficiente para a grama.

Racionalizando o absoluto e internalizando as referências

A melhor defesa pessoal contra a irracionalidade e as manipulações psicológicas da nossa percepção relativa é, novamente, aplicar a racionalidade. É apenas na racionalização que podemos quebrar sentimentos tóxicos como a cobiça e a inveja, e realizar que a situação alheia em nada influencia na nossa própria situação. De fato, é o contrário: se você quiser melhorar alguma coisa, é você que terá que mudar.

Além de aquietar a ansiedade e manter você focado naquilo que realmente importa, usar a racionalidade ajuda a visualizar as coisas como absolutas e sem precisar da comparação. Por exemplo, quando as pessoas veem um carro de luxo parado ao lado do seu no sinal, a maioria faz a comparação e pensa em como o delas não é tão valioso, assim chegando a conclusão emocional que não são ricas como o vizinho, sentindo inveja ou tristeza. Pensando de uma forma absoluta, porém, podemos ver que um carro de R$100,000 representa na verdade um grande desperdício; um passivo que depreciará e apresentará uma perda de patrimônio significativo. Eu chego inclusive a sentir é pena de quem comprou.

Enxergar números grandes como absolutos é também parte do processo do preparo mental para se conseguir alcançá-los como objetivos de vida. Para você 1 milhão de reais parece muita coisa? E 5 milhões? Se eles ainda parecem números enormes, inalcançáveis, é hora de começar a se acostumar com tais magnitudes, pois são onde os objetivos financeiros de muitos se encontram. Se você não conseguir nem se acostumar com estas grandezas nem em teoria, como vai acreditar que vai conseguir alcançá-los? Fixá-los na mente como objetivos e torná-los naturais é aclimação para a riqueza.


Você já era consciente da percepção relativa humana na sua vida? Como faz para controlá-la e impedí-la de afetar seu cotidiano de forma negativa? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Photo by Anika Huizinga on Unsplash

15 comentários sobre “A percepção relativa humana e seus impactos nas finanças

    1. Olá, Engenheiro@

      Fiquei fascinado pela percepção relativa desde que conheci o conceito; se você parar pra pensar, tudo na vida é apenas compreendido de forma relativa.

      Pra mim, ter objetivos intermediários na busca da IF (como segurança financeira) é um dos truques mais eficientes que conheci para “minimizar os números” mentalmente.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  1. kspov

    Caraca Pinguim….seus textos e provocações estão ficando cada vez melhores. Vc alcança uma profundidade em nossas mentes que é impossível não refletir sobre essas questões.

    Sempre agi mais pela razão do que pela emoção. Mas estar consciente é outro nível. Agir utilizando a razão, nem sempre quer dizer que você está consciente das coisas.

    Quando vejo essas promoções leve três e pague dois, a minha primeira reação era de não levar nada. Hoje paro e faço conta. As vezes não compensa, mas as vezes pode compensar sim. Uma coisa é certa. Agir com paciência , controlar a compulsividade é uma grande virtude de quem quer se tornar financeiramente independente.

    De qualquer forma vou ler esse teu texto mais vezes, e aos poucos me tornar mais consciente.

    Abs e bons investimentos

    Obs: depois vou ver os vídeos no youtube.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, kspov!

      Obrigado pelo comentário cara! Fico feliz em saber que consigo ajudar você e outros leitores com o meu conteúdo!

      Essa parte das promoções é um bom exemplo de aplicar a racionalidade: muitas vezes ao pagar mais conseguimos economizar ao longo prazo.

      É a consciência que nos ajuda a encontrar esse tipo de valor. É a consciência que, no fim das contas, nos torna consciente.

      Te espero lá no YouTube também!

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

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