Quando o que vende na Bolsa não vale tanto quanto o que vem estampado na bolsa

Para quem acompanha os ultra ricos e outros HNWIs, ler na Forbes sobre a corrida até o topo da riqueza é um passatempo interessante, talvez até uma novela. Quem está no topo agora? Quem irá ultrapassá-lo? Quem são os outros rivais e participantes na corrida? Um verdadeiro BBB da elite!

Por não realmente acrescentar nada em conhecimento para mim como investidor, tendo a me desligar deste tipo de veículo, tal como as outras “notícias” de finanças que cantam as oportunidades douradas apenas depois que estão saturadas e perdem glamour. Porém, quando a notícia que Bernard Arnaut, fundador e CEO do grupo LVMH, se tornou o homem mais rico do mundo apareceu no meu feed, não pude deixar de olhar.

O que me tornou curioso para ler a matéria não foi o fato dele ter superado Bill Gates, dono do título por anos e anos seguidos no passado, ou o Warren Buffett, guruzão e ídolo de quase toda a finansfera. Foi porque ele conseguiu fazer tudo isso numa área para onde poucos olhavam; a indústria do Luxo.

Quando pensamos numa pessoa extremamente rica, bilionária por exemplo, geralmente pensamos em alguém que fez fortuna na área do petróleo, mercado imobiliário, ou até mesmo a alta tecnologia como nos casos dos bilionários recentes. Estes são mercados que tradicionalmente possuem muita demanda crescente e com empresas trilionárias no ramo, de onde tradicionalmente saíram vários dos mais ricos da história. Mas quando tratamos da indústria do Luxo, e de uma empresa principal que literalmente vende bolsas feitas de plástico, temos uma surpresa considerável.

Ao ouvir tais perguntas como estas, algumas pessoas sentem inveja ou são rápidas para comentar negativamente, mas eu vejo de outra forma: me inspiro e procuro analisar que lições posso tirar de tudo isso.

Que lições podemos tirar desta ascenção?

O sucesso não é monolítico

A primeira lição que posso tirar da história de Arnaut é que você não precisa seguir um caminho predefinido para obter sucesso na vida. Ao passo que as empresas tradicionalmente mais rentáveis estavam em outros campos como indústrias de base e infraestrutura, Arnaut conseguiu montar sua fortuna num nicho onde relativamente poucos acumulavam dinheiro.

Embora o campo dele é algumas dezenas de bilhões de dólares acima do que a maioria das pessoas vive, eu e você podemos tirar lições parecidas: não é sempre aquele caminho que é popularizado pela sociedade que é a chave para o sucesso. Afinal, o que representa o sucesso nos dias de hoje? Subir a escadinha de alguma multinacional de office-boy até diretor? Fazer consultoria de negócios independente? Gastar com Pós-Graduação, MBA, doutorado e se tornar o maior expert em determinado assunto? Remar ao contrário, não ir para a escola e tentar a sorte com o empreendedorismo, sendo o seu próprio chefe e dono do seu negócio?

Qualquer que seja sua ideia, é importante saber que o sucesso não é monolítico. Não existe uma única forma de trabalhar, desenvolver carreira ou viver que é unicamente bem-sucedida. O sucesso é uma definição pessoal que precisa vir de dentro da sua convicção, senão estará arriscando deixar que algum fator externo defina-o para você. Certamente Arnaut trabalhou bem na sua própria definição, apostando na indústria do luxo e do glamour como a sua própria forma de sucesso ao invés de procurar qual indústria dava mais dinheiro. Devemos adaptar esta forma de pensar para a sua vida também.

Olhando para onde ninguém esteja olhando e seguindo em frente

Arnaut conseguiu se suceder através da dominância de um nicho menos explorado. Embora não se pode dizer que não haviam competidores no ramo da moda e do luxo, não há dúvida que seu trabalho conseguiu ir muito mais a fundo que qualquer um deles.

Ao explorar tal nicho, o grupo conseguiu assegurar um ambiente onde pôde gerar um crescimento nunca antecipado por outros no mercado financeiro. Desde sua concepção em 1987, seu retorno pode não ter sido “explosivo” quanto a alta tecnologia no fim do século, mas no longo prazo o grupo conseguiu silenciosamente escalar até o patamar que se encontra avaliado hoje, na casa dos 390 euros por ação.

Esta idéia do “caminho menos trilhado” não é nenhuma inovação exclusiva do grupo, e já havia sido detalhada e explorada anteriormente pelo ex-gestor do fundo Magellan Peter Lynch, em seu livro One up on Wall Street (O jeito Peter Lynch de Investir). Segundo Lynch, uma das melhores formas de obter retornos extraordinários sobre ações é encontrar empresas rentáveis que ainda não foram “descobertas” pelos institucionais de Wall Street, aproveitando-se assim da valorização dele ao longo do prazo quando isto acontecer.

E ao passo que os olhos institucionais estão sempre procurando a próxima “disparada,” uma empresa no ramo fashion e do luxo geralmente não fica no radar. Quem conseguiu comprá-la ainda na época dos seus fundamentos com certeza colheu resultados extraordinários.

O valor de agregar valor

Enquanto isso, ainda fica uma grande pergunta: Como um mercado de bens completamente supérfluos (afinal, quem precisa de uma bolsa ou sapato caro para viver) consegue colher tanta rentabilidade? Como ainda conseguem sustentar tanto lucro? Parte da resposta inclui a quantidade de valor agregado em seus produtos.

Já havia anteriormente mencionado a importância de se diferenciar o preço do valor das coisas num âmbito pessoal, onde mais importante do que “fechar a mão” para os gastos é saber alinhar o dinheiro gasto com aquilo que lhe traz mais valor. Num âmbito corporativo, a empresa também deve conseguir juntar mais valor possível em suas operações para conseguir conquistar o racional e emocional dos seus consumidores. Enquanto o LVMH aparenta não se venturar muito além do seu nicho do luxo, a verdade é que ele conseguiu fazer isso através da diversificação dentro de várias categorias do luxo.

A marca flagship da Louis Vuitton é sem dúvida a mais popular do grupo LVMH, mas é apenas uma de várias que o grupo amalgamou durante sua história. Hoje, o grupo é composto por várias outras empresas de vários outros aspectos deste mercado: relógios (TAG Heuer), perfumes (Christian Dior), iates, e até mesmo a rede de hotéis Belmond. Além disso, reinventou-se no âmbito digital investindo pesado no e-commerce utilizando a plataforma de compras Lyst.

Parafraseando o que muitos falam sobre o Warren Buffett, é difícil passar um dia de compras de alta escala no mundo sem colocar dinheiro no bolso do Arnaut.

A bolsa não vale tanto quanto o que vem estampado nela

Por fim, vale a pena frisar a força principal que o grupo LVMH utiliza para movimentar todo o lucro e suas operações diariamente: a marca. Não há dúvidas que o ativo de maior valor no grupo inteiro não é qualquer uma das empresas individuais sob seu guarda-chuva, mas sim o impacto que sua suas marcas causam na mídia e na população. O investimento pesado em marketing e propaganda se pagou provavelmente por gerações por vir; ver o nome e a estampa da Louis Vuitton em vários lugares da mídia, ouví-la mencionada nas letras de música são sinais que seu sucesso está consolidado na cultura popular.

Este efeito é parecido com o que comentei anteriormente sobre o Arnold Schwarzenegger. Em ambos os casos, não há nada mais poderoso do que a imagem que eles conseguiram construir, que serve como identidade e autoridade nos seus respectivos campos. No caso do grupo LMHV, falar que a marca é valiosa é um forte eufemismo; a marca Louis Vuitton foi rankeada pela Forbes como a décima segunda marca mais valiosa do mundo, avaliada em US$39 bilhões e ultrapassando concorrentes como a Nike e Gucci.

Largest brands in the world, as ranked by Forbes
Crédito: Forbes Magazine

Se puder escolher a batalha, esteja do lado que ganha

A consequência negativa principal de marcas e conglomerados como o LVMH é o estímulo do consumismo desenfreado – tanto daqueles que conseguem comprá-los e daqueles que não. Um exemplo é a febre da Louis Vuitton na Ásia. Em 2018, por exemplo, a China sozinha contribuiu para um aumento de 13% em suas vendas.

Quantas destas pessoas poderiam ter sido mais racionais com o dinheiro e contribuído para o seu próprio crescimento pessoal financeiro ao invés de uma grande corporação? Embora a dinheiro realmente seja abundante hoje, você deve fazer o uso certo dele para que ele trabalhe para você nos seus planos.

A mensagem que fica é que nesta e em outras histórias de sucesso financeiro existem ambos os lados que ganham e perdem. Você deve sempre que puder optar por estar do lado que ganha na história: comprar ativos da empresa ao invés dos passivos caros das bolsas, roupas e artigos consumíveis.


Quais lições você tira da trajetória de Bernard Arnaut e os casos de sucesso menos cobiçados da mídia? Conhece casos similares? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Heidi Sandstrom. on Unsplash

2 comentários sobre “Quando o que vende na Bolsa não vale tanto quanto o que vem estampado na bolsa

  1. marcos celio carvalho defina

    Não conheço casos semelhantes a deste bilionário mas conheço pessoas que valorizam o luxo e que o ajudaram a ter a grana que tem hoje. Uma delas, amiga de minha esposa, comprou uma dessas bolsas numa viagem a uns dois anos para os EU numa loja de hotel e pagou a bagatela de 3500 dolares. Aí depois descobriu que tinha uma identica (piratinha chinesa) sendo vendida aqui em Brasilia na célebre feira dos importados por 850 reais . Ser humano é um bicho muito curioso.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo comentário, Marcos!

      É verdade, o que seriam dessas empresas de supérfluos senão o consumismo desenfreado das massas né? Temos que proteger nossas finanças, mas desejamos que mais de tais pessoas mantenham o caixa girando para nossos investimentos.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

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