Consumismo japonês: o primeiro mundo não é tão melhor assim com as finanças pessoais…

Quando se trata de frugalidade, nós do FIRE caímos entre dois hábitos; ou achamos que somos melhores que todos os outros ao nosso redor, ou que a maioria é melhor que nós e precisamos ainda melhorar muito. Na maioria dos casos que vejo e leio na internet, os FIREs apreciam olhar o consumismo alheio no seu cotidiano e reportar isso de uma forma relativamente anônima. Eu mesmo faço isso de vez em quando!

Essa realidade dopada de consumismo descrevida na Finansfera como “matrix” é comum no Brasil, onde 40% da população se encontra endividada em 2019, mesmo na economia em boas marés e um sentimento econômico otimista em geral no país, como comentei anteriormente.Mas e quanto ao mundo em geral? Será que os outros países também têm problemas com dívidas e consumismo demasiado?

Certamente, existem alguns países que são exemplos a serem seguidos, como a Finlândia com uma sociedade que valoriza a Natureza como fonte de felicidade. Porém, poderia ser essa a realidade onipresente do mundo desenvolvido? Infelizmente, não.

Ao contrário que muitos brasileiros pensam, o primeiro mundo não é muito diferente de nós no quesito de consumismo ou frugalidade. É verdade, a realidade de fora é bem diferente, e poderíamos dizer que o “baseline” da riqueza é significantemente mais alto, mas o comportamento individual consumista e falta de frugalidade são males que afetam quase o mundo todo igualmente.

Poderia ser que uma “abundância de dinheiro” percebida, ou uma economia mais estável, fazem a percepção gringa a acreditar que o dinheiro é infinito, e que nunca irá faltar um salário no fim do mês? Parcialmente por base neste mito, neste post descrevo como a sociedade japonesa possui um consumismo tão forte que quase a iguala à brasileira em termos de dívida e má gestão do dinheiro.

Era uma vez a frugalidade: “mottainai” e a sociedade moderna

Quando pensamos no consumismo, geralmente temos em mente países como os Estados Unidos, onde a propaganda e a mídia já nos refletem aquela imagem do American Way of Life para girar a economia. Não temos geralmente a imagem da sociedade japonesa, que, pelo menos no Brasil, tem o esterotipo de ser “pão-dura” e não querer gastar. E isso não é por menos: as gerações mais antigas do Japão praticavam um conceito de frugalidade forte, talvez até herdado dos tempos de guerra chamado mottainai (勿体無い).

Mottainai é um ditado que busca realizar duas coisas: economizar no uso dos recursos e minimizar desperdício. É um ditado que perpetuou no Japão desde sua antiguidade e tomou força durante e depois dos tempos de guerra, quando recursos estavam extremamente escassos no país. Durante este tempo, racionamento e a destruição de grande parte do país forçou as pessoas a procurar maneiras alternativas para conseguir sobreviver com o pouco, incluindo usar restos de comida, cascas e sementes para o sustento e aquecimento das casas.

Com o advento do “milagre japonês” e a recuperação econômica que seguiu nos anos 50 em diante, alguma coisa foi perdida deste ditado. A sociedade que uma vez teve que lidar com a escassez de recursos se viu novamente com uma abundância inesperada que repentinamente não os forçava a serem mais frugais, e muito pelo contrário: com o intuito de “crescer o país” e fazer a economia girar, a ordem era para que a população abrisse a carteira para comprar mais bens. Como consequência, a população se tornou ineficiente, e começou a jogar fora grande parte do seu consumo.

Hoje em dia, “Mottainai” se tornou uma grande ironia na sociedade japonesa, com seu desperdício anual médio de 6.5 milhões de toneladas de comida. Ao andar pelas lojas, vemos coisas miúdas vendidas em camadas e camadas de embalagens plásticas que não agregam proteção nenhuma ao produto, e propaganda forte para as pessoas abrirem as suas carteiras.

Num país onde atualmente 25% da propulação é empregada temporariamente com salário mínimo, tal consumismo demasiado parece ilógico., mas tudo é explicado quando vemos o mindset que predomina a sociedade atual.

“É barato, vamos comprar ao invés de manter”

Papel Higiênico vendendo na Black Friday do Japão
Até Papel Higiênico na Black Friday? Partiu comprar!

Conversar com as pessoas é a melhor forma de se entender os costumes de uma sociedade. Colhendo informações entre uma pessoa e outra, descobri que o mindset japonês moderno é a antítese da frugalidade que nós do FIRE pregamos. A justificativa das pessoas é que as coisas vendidas no Japão são baratas o suficiente para conseguirem ser repostas com frequência ao invés de mantidas e reparadas.

À primeira vista, isso pode fazer sentido, dado que com mais ou menos vinte dólares é possível se obter várias coisas do uso diário, desde que bem-procurada: um par de sapatos, uma roupa, vários utensílios domésticos, etc. Esta ilusão de preço acessível esconde um grande perigo financeiro: o custo oculto das compras repetidas.

Para confirmar ainda mais esta idéia, diversas lojas japonesas como a Daiso, Seria, possuem um vasto estoque de mercadorias semiduráveis acessíveis, conceitualmente parecidas com as antigas lojas de 1,99 do Brasil. Ao contrário destas, porém, tais lojas oferecem um inventário amplo, vendendo de louças, peças de roupas, papelaria, comida, e até acessórios de mobília doméstica. A mensagem que se reafirma é que a vida é descartável, essencialmente o custo de comprar novo é negligível, e não há sentido em ficar com coisas velhas, ainda que se encontrem em bom ou ótimo estado de uso.

Com isso, o padrão japonês moderno de se gerenciar os bens materiais acaba sendo: comprar, usar por mais ou menos um ano, e descartar para comprar um novo em folha. Isso se torna ainda mais aparente com lojas de roupa acessíveis como a Uniqlo, que anualmente lançam coleções virtualmente idênticas ao anterior, mas todos voltam a comprar por serem novas e “baratas.”

O custo desta “vida descartável” pode ser exatamente alguns anos ou décadas a mais de trabalho, afastando a sua independência financeira. Se anteriormente escrevi que passivos acumulados são custos parasitas que afundam as suas finanças, ao descartá-los, está essencialmente atestando ao fato que jogou dinheiro no lixo.

Se você compra uma roupa a $15 a cada três meses apenas para jogá-la fora, estará perdendo $1000 em oportunidade perdida ao longo dos anos. Levando tal hábito para a vida toda, e com todos os nossos bens materiais, temos a receita perfeita para o empobrecimento.

Certamente alguns pensariam que a sociedade japonesa, sendo de primeiro mundo, não tem problema com isso por serem ricos e terem salários abastados. Ou teriam?

Crescimento da dívida na população e o “payday loan”

Como escrevi anteriormente, não há salário grande suficiente que sustente um consumismo ilimitado, e a sociedade japonesa não é uma exceção. De fato, tanto consumismo já está começando a ser sentido pelos trabalhadores japoneses, que mais e mais estão dependendo de empresas que realizam empréstimos chamados de payday loans ou sarakin.

Tais empréstimos funcionam como um adiantamento do salário para ser utilizado quando se percebe que o dinheiro não vai durar até a data do pagamento. Baseando-se na promessa que o pagamento do empréstimo irá ser liberado em breve na data do salário, alguns se enrolam com este tipo de empréstimo e o levam em frente numa forma de “conta a pagar” perene, junto às outras do mês. A partir daqui uma bola de neve se forma, tornando-se rotina com o acúmulo e assim ficando difícil de ser quebrada e resolvida.

O efeito já é sentido significantemente na população; atualmente, 10% da população se encontra com dívidas de sarakin, e uma família em cada sete não possui nenhuma forma de economia. Tais empréstimos costumam chegar até 18%, o que num país onde os juros são negativos se torna essencialmente uma fortuna.

Não há dúvida por que anúncios dessas empresas de empréstimos se tornaram tão onipresentes onde for nas grandes cidades do Japão.

NoLoan, Promise, etc são todas empresas de agiotas disfarçadas e legalizadas

Arrumando a casa

Quais lições ficam para nós quanto a esta situação?

Primeiramente, nenhum salário é alto suficiente para sustentar um padrão de vida consumista. Não importa se a pessoa ganha R$1000 ou R$10000, a única parte que você pode aportar é aquilo que você economiza sem inflar o seu padrão de vida.

Jacob Fisker já havia escrito sobre os efeitos da “vida descartável” em seu livro Early Retirement Extreme, e apontava a frugalidade e consciência nas compras e no estilo de vida como uma das principais razões pela qual conseguiu se aposentar numa escala de 5 anos trabalhando. As compras conscientes citadas por Fisker seguiam exatamente o oposto da vida descartável: roupas, sapatos e utensílios extremamente duráveis, e – mais importante – reparáveis, que poderiam ter seu uso estendido quase que indefinidamente. Quantas vezes você faz compras com este nível de consciência de uso?

E, finalmente, dívidas são uma das piores coisas que podem acontecer para as suas finanças pessoais; a atitude para elas deve ser de prioridade máxima. Não sanar uma dívida e “rolar” com ela durante os próximos meses é um dreno que roubará de você um custo de oportunidade ao impedir que você invista tal dinheiro regularmente. Que fique claro: dívida e financiamento não são outra conta a ser paga todo mês; elas devem ser quitadas o mais rápido possível com a maior prioridade.


Você já havia ouvido a expressão Mottainai? Qual é a estratégia que você usa para eliminar desperdício e consumir menos? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Jezael Melgoza on Unsplash

10 comentários sobre “Consumismo japonês: o primeiro mundo não é tão melhor assim com as finanças pessoais…

  1. Salve, Pinguim!
    As pessoas romantizam muito o primeiro mundo. Lá, tal como cá, também é formado por uma grande população de ignorantes financeiros. É por isso que as crises são gigantescas quando ocorrem, porque está todo mundo endividado.
    Já conhecia o Mottainai, inclusive recomendo o material da Tiemi Yamashita:

    Ela também gravou um podcast com o Luciano Pires: http://www.portalcafebrasil.com.br/lidercast/lidercast-111-tiemi-yamashita/

    Parabéns pelo post!
    Abraço!

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    1. Olá Marcelo!

      A minha resposta veio antes tarde do que nunca haha.

      É verdade, assim como em qualquer lugar, no primeiro mundo também se tem muito da “inflação artificial” do estilo de vida proporcional ao salário. E você acertou em cheíssimo: quase todos são endividados, as ruas estão literalmente cheias de mortos-vivos financeiros.

      Não conhecia a Tiemi, obrigado por compartilhar. Vou dar mais uma olhada no material dela.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Salve Pinguim. Eu viajo bastante e confesso que não encontrei ainda uma cultura que se pareça com o meu modo frugal de pensar e viver. Achei que a cultura japonesa poderia se aproximar um pouco mais, mas talvez não, pelos fatos que você nos trás.
    Especialmente com a questão do plástico e do descartável, fico horrorizada com o modo como as pessoas em geral lidam com isso: como se fosse absolutamente normal tudo vir excessivamente embalado. Só que é bem difícil lidar de uma forma diferente quando tudo a nossa volta funciona em torno do descartável.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Adriana!

      Obrigado pelo comentário! É verdade, já faz um bom tempo desde a época quando o Japão tinha essa cultura de ser frugal e conservar recursos. Hoje em dia esta mentalidade nem entre os mais velhos existe mais, já que estes estão “aproveitando a aposentadoria enquanto dá.”

      A vida descartável realmente é um horror, especialmente com tudo parecendo durar cada vez menos embora uma tecnologia crescente a cada dia. Onde será que vamos parar né?

      Abraços e seguimos em frente!

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  3. Fascinante post, Pinguim. Não fazia ideia que no Japão as coisas estavam assim. O que sempre lia e escutavá falar era que a poupança lá era forte a um nível que chegava a ser um problema porque haveria pouco giro na economia , mas agora vejo que não é verdade, infelizmente para os japoneses. Aqui em casa faço assim: o ventilador ficou ruim, desmonto ele, passo óleo nas peças, limpo a sujeira que acumulou , e então monto de novo, e, voilá, funcionando de novo, quase como novo. Imagino que outras pessoas fossem comprar outro ventilador…
    Forte abraço

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Mago!

      Obrigado pelo comentário. É isso mesmo, teve uma época que era bem como você descreveu, e as pessoas costumávam poupar bastante. Eventualmente o consumismo acompanhou a tendência e hoje a sociedade é 100% dos descartáveis.

      Acho que são poucos os que pensam em reparar e aproveitar os bens que têm como você descreveu. Ou pior: jogam o ventilador fora e tentam “subir” na vida comprando ar condicionado (e pagando a diferença todo mês).

      Abraços e seguimos em frente!

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  4. Pingback: Ninguém se importa com o que você faz – e por isso, você é livre – Pinguim Investidor

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