A vantagem da escassez

Somos de tempos em tempos surpresos por uma história de sucesso que aparece e ganha atenção na mídia. Já conhecemos alguns destes “contos da Cinderela” onde uma pessoa que veio do nada, sem recurso nenhum, e armada apenas com a sua força de vontade suprema consegue dar a volta por cima de uma forma completamente inesperada e se tornar alguém altamente bem-sucedido.

E como só tomamos conhecimento quando já estão com sucesso, todos são impressionados. A reação inicial sempre é a mesma: como uma pessoa com tão pouco conseguiu atingir tanto?

Numa época onde todos têm uma grande pressão para obter recursos escolares como faculdade e pós-graduação, e acreditam que apenas com muito dinheiro e recursos é possível obter sucesso, tais histórias soam simplesmente impossíveis de serem realizadas.

A minha visão, porém, não poderia ser mais diferente: para mim, nada é mais natural do que alguém utilizar a falta de recursos para conseguir se tornar bem-sucedido.

Um pensamento contrário à tendência de todos a acharem que é a abundância a receita para sucesso, talvez. Porém, dada a quantidade de casos de sucesso e fracasso que existiram na história da humanidade, me torna cada vez mais mais aparente que é a escassez que forma a nossa base para conseguir alcançar o sucesso na vida. Por quê?

Porque é apenas com o conceito da escassez que podemos aprender a ser altamente eficientes.

Escassez é a mãe da eficiência

Quando estava no primeiro ano, uma das primeiras lições de economia que me passaram na escola foi sobre a escassez. Não tenho educação formal na área, mas me parece que todo o estudo sobre economia é focado neste conceito de escassez.

No ponto de vista puramente econômico, a escassez é um limite sobre os recursos que você possui, e o fato que uma vez utilizados, eles são perdidos. Você possui uma quantidade limitada de tempo num dia, e na vida. O dinheiro, mesmo que abundante, também é escasso porque uma vez que gasto é perdido para sempre – por isso a necessidade de se investí-lo numa maneira que lhe traga ainda mais dele.

Este fato do uso ser finito é o que nos leva a, consequentemente, adotar a eficiência para conseguir sobreviver e utilizar ao máximo o que temos ao nosso alcance. Olhado sob estes olhos, se torna lógico porque tantas pessoas com escassez acabam por obter tanto sucesso.

A reação que as pessoas expostas à escassez é de fazer o melhor uso possível dos seus recursos, procurando usá-los “até o talo.” Isto é eficiência na gestão, e seu impacto pode ser visto em vários casos além das finanças, como na tecnologia:

Computadores antigos não tinham muitos recursos e precisávam utilizar cada ciclo de CPU e bit de memória para conseguirem realizar suas operações. Linguagens de programação como C e Assembly desta época faziam bem esta gestão, mas tinham a contrapartida de serem bem mais complexos para serem implementadas de maneira correta. Programas bem-escritos eram poucos, mas de alta qualidade. As empresas de tecnologia que conseguiram dominar estas áreas nesta época estão bem-sucedidas até hoje.

Com a explosão nos recursos de computadores a partir dos anos 2000, programadores tiveram acesso a tantos recursos a mais que não precisávam mais se preocupar com o gerenciamento de preciosos recursos. Línguas modernas, como Java e C#, mal realizamn gerencialmento de memórias, o que leva a programas enormes, devagares e de qualidade duvidosa. A computação perdeu a eficiência, mesmo que a quantidade de recursos aumentara de forma exponencial.

No FIRE, a frugalidade é provavelmente o conceito mais próximo da eficiência. Com base o salário líquido total, podemos derivar a eficiência como o volume de aportes que são feitos mensalmente: quanto maior o aporte, com menos é possível viver a viada e maior a eficiência na economia.

Alternativamente, podemos ver a porcentagem de quanto da nossa renda passiva consegue cobrir as nossas despesas de vida. Se é 0%, você é completamente dependente do seu salário, se for 100%, parabéns: você é altamente eficiente, e independente do salário ou trabalho para viver.

Estoicismo: praticando a escassez artificial

Neste ponto, você pode estar se questionando se seria possível ainda conseguir “treinar” a vida num ambiente de escassez se você (in)felizmente não nasceu num ambiente tão pobre quanto tais pessoas que viram capas de revista. Seria a escassez genuína a única forma de obter sucesso na vida?

Felizmente, é possível simular uma situação de escassez sem forçar a si mesmo na miséria através de uma das técnicas que descrevi anteriormente do estoicismo: praticar a pobreza. Através dela, você pode selecionar partes da sua vida que são relativamente abundantes e voluntariamente se desfazer delas para experimentar a escassez temporariamente.

Um exemplo seria parar de usar o ar condicionado durante o tempo em casa para aprender a se tornar mais resiliente contra o calor, e no processo passar a depender menos dele e economizar na conta de luz. Usar o smartphone antigo temporariamente pode te ensinar a depender menos de certos aplicativos, ou até mesmo ficar sem ele temporariamente para aprender a não depender de tanta tecnologia podem ajudar bastante.

Uma prática frequente da pobreza pode ser utilizada como um “lembrete” regular de como você precisa manter a escassez em mente para sempre melhorar e se desenvolver. O caso oposto – a abundância – possui os efeitos contrários: pessoas mimadas e com uma mentalidade que sempre haverá mais depois, que o trabalho para procurar crescer não é necessário. E como também aparece nas mídias, estas pessoas podem vir a ter um fim trágico por não ter propósito definido na vida.

Escassez como fator de sucesso nas sociedades

A escassez como a fonte de eficiência e sucesso reflete além do indivíduo, e também pode ser vista na sociedade à sua volta, especialmente no contexto histórico.

Sempre tive uma grande fascinação pela história das civilizações humanas. Uma coisa que me sempre me interessou sobre elas é que, não importa onde no globo, todas as civilizações que dominaram suas regiões de influência não contavam com uma abundância de recursos naturais à sua disposição. De fato, podemos dizer que todas elas tinham a escassez de recursos como um fator comum, quase que unificante.

A mesopotâmia, considerado por muitos como o berço da civilização, por exemplo, não era um local de abundância; a região é árida e não possui uma grande quantidade de água para abastecê-la. E inclusive, não muito longe de lá, as três religiões dominantes do mundo moderno foram concebidas; todas num ambiente de vastos desertos árabes.

O império Mongol, que dominou grandes partes da Ásia e da Europa no século 12 se originou de tribos nômades que não tinham nem terra própria. E, mais recentemente, tivemos nações originando de ilhas minúsculas que, embora seu território e recursos naturais limitados, puderam dominar vários outros países e continentes: tais são as histórias dos impérios Britânico e Japonês.

Conclusão: Dubai x Nigéria… e o Brasil?

Para fechar este post, coloco um exemplo do efeito da escassez numa sociedade inteira. Neste vídeo tirado do YouTube, o entrevistador da Nigéria pergunta ao morador de Dubai qual foi o fator crucial que levou os EAU e Dubai a serem tão prósperos.

Nas próprias palavras do morador, a Nigéria tem uma população maior, mais recursos como florestas, água, minério e explora petróleo a mais tempo que Dubai, mas ainda assim Dubai conseguiu ultrapassá-la. Embora a parte da liderança por ditadura no fim do vídeo é questionável, não podemos deixar de pensar que existiu escassez na vida do povo que os levou a pensar sobre a sua sobrevivência em meio à tanta hostilidade.

E agora que assistimos o vídeo fica a pergunta: e o Brasil? Este país é em várias obras artísticas descrito como “abençoado,” “paraíso,” extenso e rico nos mais diversos recursos naturais. Nós não temos desastres naturais com frequência e nossa condição climática é diversa, e está numa das mais favoráveis para se habitar. Nossa constituição populacional também é diversa, temos pessoas de todos os tipos presentes.

Para todos os propósitos práticos, somos um país de abundância extrema. Será que foi por isso que não progredimos tanto?

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Enrico Mantegazza on Unsplash

4 comentários sobre “A vantagem da escassez

    1. Olá, Engenheiro!

      Concordo, é completamente contra-intuitivo como aqueles que não têm nada são justamente quem amalgama tudo no final. Acho que todos deveríamos experimentá-la em algum momento da vida para realmente aproveitar esse potencial.

      Abraços e seguimos em frente!

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    1. Olá, kspov!

      Obrigado pelo comentário. É verdade, é apenas na dificuldade, na presença de barreiras, que aprendemos e conseguimos crescer. O estoicismo nos ajuda a preparar até artificialmente se tais barreiras não existem em nossas vidas.

      Abraços e seguimos em frente!

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