Estoicismo praticado #1 – Visualização Negativa

Há alguns meses publiquei um post com uma introdução sobre o estoicismo e seus conceitos-base de funcionamento. O sucesso deste post foi grande, e ele se tornou eventualmente o post mais lido do blog. Fazendo juz à esta peça crucial da filosofia do Pinguim, resolvi iniciar mais uma série aqui: o Estoicismo Praticado, onde explico como cada um destes conceitos funciona na prática. Espero que gostem!


Uma pesquisa rápida sobre o estoicismo traz quase de imediato uma referência sobre a visualização negativa. Este conceito, quando ouvimos pela primeira vez, um pouco obscuro, talvez até tenebroso. Estóicos realmente conseguem sentir felicidade contemplando coisas como a morte ou a doença? Estóicos devem ser ótimos para arruinar festas!

Embora à primeira vista, esta é a reação das pessoas acostumadas a “focar na felicidade,” ou “fazer o que lhe agrada,” quando investigada, a visualização negativa se torna uma das ferramentas mais poderosas disponíveis no estoicismo, e pode fazer a diferença entre se sentir feliz e agradecido versus ficar fragilizado e deprimido com uma situação desagradável.

Neste post de abertura, vou ensinar como a visualização negativa nos permite colher felicidade até onde nos acontecimentos ruins.

Imaginar uma vida mais difícil traz benefícios tangíveis

Os estóicos enxergam a racionalidade como uma dádiva entregue ao ser humano, cujo dever em troca é utilizá-lo para praticar a virtude; isto é, o bem comum à sociedade ao seu redor. Uma das vantagens da racionalidade é que ela pode ser utilizada, com uma certa quantidade de treino, para conseguir controlar as nossas partes irracionais com alguns dispositivos psicológicos.

A visualização negativa é um destes truques que consiste em você visualizar e, literalmente, tornar real em sua mente uma situação pior que a sua atual. Como funciona? Vamos tomar um exemplo: feche os olhos e comece a imaginar que você é cego. Com os olhos fechados, continue a imaginar como seria realizar até mesmo as tarefas mais simples que você leva no seu cotidiano. Tentar escovar os dentes, cozinhar, usar o seu smartphone ou o computador… leve esta visualização ainda mais a fundo, pensando em como seria viver assim todos os dias… e agora abra os olhos; você não é cego!

Você agora percebe que sua realidade não é esta dura forma de viver que você viveu durante este momento de reflexão e pode agora expressar gratidão por este fato e como, em comparação à alternativa, a sua vida é tão melhor do jeito que ela é atualmente.

À primeira vista, este exercício pode parece um pouco bobo, como uma brincadeira de faz-de-conta, mas com a prática, cada vez mais se torna uma fonte de insights para refletir sobre a vida atual. Não gosta do seu trabalho atual? Imagine-se como seria se estivesse desempregado e sem renda. Triste porque acha está acima do peso? Imagine-se com trinta quilos a mais e com condições reais de obesidade morte. Viajar na classe econômica é desconfortável? Talvez você preferiria então pegar um navio e gastar algumas semanas.

Para quem acha que a visualização negativa nada mais é do que uma versão aumentada do Princípio de Pollyanna, considere a história do comandante da marinha Americana James Stockdale. Stockdale fora capturado durante a guerra do Vietnã e viveu como prisioneiro durante sete anos. Durante este tempo, em meio à tantos outros prisioneiros que morreram ou ficaram psicologicamente sequelados pelas condições, Stockdale foi liberado relativamente ileso, e sano ao ponto de concorrer à vice-presidência dos EUA anos depois.

Stockdale creditou esta recuperação e sobrevivência relativamente ilesa diretamente ao estoicismo, especificamente conseguir visualizar a situação negativamente, mesmo na prisão do seu pior inimigo. Segundo Stockdale, aqueles que não sobreviveram foram aqueles que tentaram manter o otimismo, e acreditar que iriam ser liberados o mais rápido possível. Conforme o tempo passou e a realidade dura mostrava aos otimistas que a salvação não estava chegando, e eles perdiam a esperança de viver. Stockdale, como estóico praticante, considerou sempre a pior alternativa e foi pouco abalado.

Colocado sob outra luz e ponto de vista, a sua situação atual nunca vai ser tão ruim. Você consegue pensar em alguma forma de como sua vida poderia ter sido pior hoje se você não tivesse feito as escolhas que fez? Se não consegue, sugiro começar a praticar.

Gratidão como fonte da felicidade

Essencialmente, quando praticamos a visualização negativa, o que recebemos é gratidão por alguma coisa que temos atualmente.

Embora esta gratidão não precisa da visualização negativa para acontecer, a verdade é que nossa adaptação hedônica nos torna cegos ao patamar de vida avantajado que temos atualmente. E, sim, somos muito mais avantajados do que imaginamos – basta apenas pensar em quanto mais sofrido, quanto mais difícil era a vida há algumas décadas. Só o fato de não vivermos em um ambiente de guerra, de não passarmos fome ou conseguir voltar para casa sem risco de vida são vantagens enormes em comparação a tudo o que nós como sociedade já vivemos.

Você é livre para lastrear a sua felicidade em qualquer coisa ou conceito da sua vida, mas eu descobri de observação própria que achar gratidão é uma das formas mais poderosas de se conseguir felicidade constante e duradoura. Ganhar coisas novas podem lhe trazer altas e curtas ondas de alegria, mas a gratidão com aquilo que você já possui traz felicidade infinitamente melhor.

Encontrar uma coisa pela qual eu posso seguramente afirmar que sou grato é uma forma eficiente de, independente das oscilações desprazerosas que me aconteçam, posso olhar no fim do dia e dizer que foram mínimas em relação a aquilo que me traz gratidão e propósito de vida. Minha vida e saúde, o fato que as minhas relações interpessoais importantes continuam firmes, por exemplo, são fontes muito maiores de gratidão e felicidade que se um dia alguma coisa deu certo no trabalho.

E, mais importante, a felicidade providenciada desta gratidão permanece, ao contrário de gratificação financeira imediatista com uma compra que passa rapidamente por conta da adaptação hedônica.

Um passo adiante: desconforto voluntário

Adeptos do estoicismo geralmente levam a visualização negativa um passo adiante e praticam o desconforto voluntário. Ao passo que a visualização apenas trata o aspecto psicológico, o desconforto voluntário traz a oportunidade para experimentar em primeira mão a situação, de uma forma controlada.

Você acha que os seus sapatos não são confortáveis? Experimente andar descalço na rua. Não acha que a comida feita em casa é boa? Experimente ficar sem ela um tempo, ou comer apenas pão e água. Acha que o ambiente é quente demais? Experimente ficar debaixo do sol escaldante de casaco por meia hora.

As possibilidades são ilimitadas, e o efeito é melhor ainda: você não apenas passa a apreciar o nível de vida que possui no momento, mas também se torna mais resiliente quanto à mudanças dele. A falta desta prática leva a frustrações e reclamações mundanas, e até cômicas, como reclamar sobre a qualidade do WiFi.

Vanity of Vanities = First World Problems
First world Problems….

A parte importante que deve ser considerada é justamente que tal desconforto deve ser voluntário. Há uma grande diferença em passar calor voluntariamente dentro de casa por querer se adaptar mais rapidamente às altas temperaturas (ótima estratégia, diga-se de passagem) e passar calor insuportável por não ter ar condicionado ou ventilador. Se é um problema, você deve resolvê-lo.


Você conhecia a visualização negativa anteriormente? Como faz para procurar felicidade e evitar frustrações através do estoicismo? Escreva para mim nos comentários abaixo.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

8 comentários sobre “Estoicismo praticado #1 – Visualização Negativa

  1. Fala pinguim!

    As vezes esquecemos de sermos gratos pela vida que temos.

    Eu mesmo me questiono muito por várias coisas que ainda não conquistei, dificuldades que passo, sendo que estou milhões de passos a frente que muita gente.

    É uma reflexão não tão simples, quero conseguir ser mais grato!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Fala Engenheiro!

      É verdade, com tanta coisa passando pela nossa mente todo dia, é muito fácil se esquecer desse fator de gratidão. Bem tipo aquele negócio de “você não sabe o que tem até perder.”

      O que eu faço é: de manhã assim que acordo, penso em três coisas que tenho no dia de hoje que eu agradeço. Podem ser materiais (casa que me protege, etc) ou não (estar vivo, estar com saúde, ter uma família importante pra mim).

      Só nessa “brincadeira de agradecer” eu já abro um sorriso. É mole?

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. kspov

    Pinguim,

    Vou te falar que estou gostando bastante do Estoicismo. Uma filosofia bem interessante. Mesmo gostando do estoicismo e botando em prática alguns dos seus conceitos, não são todos que me agrada. Eu já li a respeito da visualização negativa. E até entendo o por que dessa prática. Mas não sei se caberia a todas as pessoas. Por exemplo conheço muitas e muitas pessoas extremamente gratas pelas suas vidas (inclusive eu) sem necessariamente pensar no pior. Me sinto grato pelo simples fato de estar vivo, poder respirar, ter um chuveiro, boa saúde dentre outras milhares coisas…. Não preciso pensar em privações para despertar o sentimento de gratidão das coisas que tenho. Talvez para pessoas que não se sintam grato, pode ser uma boa alternativa. Por isso acho que talvez não caiba para todas as pessoas a visualização negativa.

    Um dos conceitos que estou mais gostando no Estoicismo é darmos importância para aquelas coisas que estão no nosso controle, e desencanar do resto. Estou achando bem libertador. Espero que faça um Post sobre isso também.

    Abs e obrigado por nos apresentar ao Estoicismo

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, kspov!

      Fico feliz que este post tenha te mostrado o estoicismo. Realmente não é um dos tópicos mais populares da finansfera hoje, por isso quis apresentar um pouco mais dele.

      A visualização negativa pode ser um passo de preparação para as pessoas que não conseguem ver gratidão nas coisas que já tem. Eu pratico muita gratidão, mas ainda assim procuro visualizar o quanto minha vida poderia ter sido pior. Me ajuda a ter um insight e apreciá-la a mais.

      Vou fazer mais posts sobre o estoicismo sim, esta série vai continuar.

      Abraços e seguimos em frente!

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  3. Pingback: A vantagem da escassez – Pinguim Investidor

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