Eu tenho tempo demais, e você também. E isso é um problema.

Se me pedissem para sumarizar a vida moderna numa única palavra, esta seria “agora.” Tudo precisa ser instantâneo, para agora, e qualquer distanciamento deste conceito se torna sinônimo de falta de qualidade. Agilidade não é mais um extra, e sim parte crucial do caráter vencedor da pessoa. Comunicações são instantâneas, carregando texto, voz e imagens a longuíssimas distâncias sem atraso. Meios e sistemas de transporte estão no pico da velocidade utilizável, e com capacidade expandindo cada vez mais. Para todos os propósitos, a vida se tornou extremamente eficiente em economizar tempo. E como consequência, todos nós recebemos quantidades enormes de tempo livre disponível.

Peraí, peraí… Pinguim, você está maluco? Ninguém tem tempo hoje em dia. E você acha mesmo que todo mundo GANHOU tempo? Sim, exatamente! É isso mesmo que estou falando. Afinal, ninguém consegue se enxergar vivendo num mundo pré-internet hoje, sem a facilidade de acesso à informação e comunicações rápidas, não é mesmo? Então sim, a sociedade ganhou tempo, quantidades de horas inpensáveis há algumas décadas. Mas mesmo assim, uma reclamação frequente hoje em dia é justamente o oposto; ninguém parece ter mais tempo para nada.

Esta relação é inicialmente um paradoxo, mas se torna clara quando começamos a analisá-la, e percebemos que ao resolver um problema antigo (falta de tempo), por consequência criamos um outro, a abundância de tempo. Sim, eu e você ambos temos tempo demais. E este é o novo problema, o novo cigarro do século 21.

Como a abundância de tempo pode ser um problema atualmente?

Sobra cognitiva e o ócio maléfico

Se você ainda não acredita que hoje temos tanto tempo disponível embora não pareça, basta olhar para trás e perceber como a rotina de vida da sociedade mudou. Escreva uma carta ao invés de mandar um email. Vá para a pizzaria ao invés de pedir por um aplicativo. Vá para a rua procurar e pedir um táxi ao invés de sacar o smartphone. Envie uma remessa de documentos ao invés de anexá-los ou compartilhá-los na internet. Se seu voo de algumas horas é longo ou desconfortável demais, experimente passar algumas semanas chacoalhando no mar.

Agilidade na atuação nos trouxe a capacidade de realizar muitas coisas simultaneamente e tarefas que antes levavam algumas horas ou dias se tornaram instantâneas. E com isso tivemos uma situação relativamente nova: de repente, tínhamos buracos de tempo livre no lugar de coisas a fazer. Para o trabalho e os negócios, isso foi ótimo; mais tempo onde poderiam ser encaixadas mais tarefas para trazer mais dinheiro às empresas.

Mas e o âmbito pessoal? De repente, ir e vir dos locais de trabalho não precisava mais demorar tanto, tarefas de casa podiam ser terceirizadas, e novamente abriu-se uma margem de tempo livre. Mas ao contrário do trabalho, a maioria esmagadora não sentiu a obrigação de produzir com este tempo recebido – e assim deixamos esta dádiva de tempo ser consumida por hábitos improdutivos, passivos e nocivos, como ver TV e ver redes sociais.

Ao invés de investir este presente de tempo em hábitos produtivos e se desenvolver, a maioria optou por simplesmente se ocupar da maneira mais passiva possível. Nosso tempo livre foi essencialmente consumido pelo entretenimento, e assim, gastamos o que o pesquisador Clay Shirky chama de Sobra Cognitiva; temos tempo e potencial sobrando, mas escolhemos não aproveitá-lo.

Não é a primeira vez que isso acontece na sociedade; na Inglaterra do século 18, a revolução industrial causou uma mudança de magnitude similar no cotidiano, com máquinas acelerando o a produção e liberando tempo para as massas. Mas como naquela época ainda não existia internet, os moradores de Londres adotaram um outro hábito para passar o tempo extra: beber Gin. Abuso do álcool causou um problema social intenso, que só pôde ser resolvido quando o governo criou mais formas saudáveis de passar o tempo para acolher a população, como parques públicos, teatros e escolas.

E qual seria o Gin dos dias de hoje? Netflix. Ou o Instagram. Ou a TV. De qualquer forma nenhum deles não poderia ter capitalizado de tal forma se não fosse a enorme sobra de tempo no fim do dia das mentes cansadas da população.

Visto por este lado, o paradoxo se resolve: o problema contemporâneo não é a falta de tempo, mas sim a falta de concentração e priorização dele.

Distração e procrastinação

Resumindo numa frase, poderíamos dizer que temos tempo de sobra em nosso mundo moderno atual, exceto tempo para fazer coisas produtivas. Ironicamente, temos mais tempo útil de sobra que sobre qualquer outra época vivida na história da humanidade, mas ao mesmo tempo criamos uma “escassez” onde a alocação principal já se está reservada para a nossa distração regular.

Com tanta gente ociosa procurando meios de entretenimento baratos e não necessariamente produtivos, um novo conflito nasceu desta mudança: a batalha pela atenção. Quando se têm tantos olhos influenciáveis buscando conteúdo, quem conseguir a atenção de mais deles conseguirá mais tempo de propaganda e lucro maior. Assim, todas as plataformas comerciais atuais focam em um objetivo: te distrair e tomar a sua atenção ao máximo possível.

Com esta mudança nas operações das plataformas de entretenimento, fica ainda mais fácil perder o tempo livre com atividades não-produtivas. Até mesmo quem possui muita disciplina pode ser eventualmente sugado dentro de uma sessão de procrastinação como numa hipnose. E com essa conclusão, temos a situação atual onde uma sobra de tempo e cognição, de uma forma ou outra é jogada fora: a pessoa não tem tempo para se exercitar, mas tem tempo para assistir Netflix.

Consciência e foco são o caminho

É possível virar o jogo contra essa batalha constante de atenção e tempo? Felizmente, a resposta é sim. Mas, como tudo neste ramo da superação e desenvolvimento pessoal, não é uma tarefa exatamente fácil. Como de praxe, a solução é simples, mas necessita de um esforço investido.

Para ganhar de volta a atenção perdida, nada é mais eficiente do que você se conscientizar de todas as ações que está tomando durante o seu tempo “off” tal quando executando uma tarefa. Questionar-se ou averiguar conscientemente tudo o que você faz durante o seu tempo livre ajudará você a tirar um Raio X sobre para onde seu tempo e sua atenção estão deslizando quando você se encontra fora do plantão.

Analisar cada uma das coisas com as quais você perde tempo irá trazer respostas interessantes. Se alguma coisa inconscientemente se tornou um hábito sem benefícios, a sua reação deve ser eliminá-lo. Neste aspecto, um dispositivo como o Pacto de Ulysses, onde se impede conscientemente uma coisa de acontecer para que você não a cometa enquanto inconsciente ou na tentação, pode ajudar. Se você, por exemplo, perde horas a fim na frente da TV assistindo nada que lhe adicione, experimente tornar a TV mais difícil de ser acessada; tire-a da tomada de trás do móvel, desconecte todos os seus fios, ou até mesmo cancele a assinatura forçadamente.

A consciência e metacognição aplicadas com frequência serão suas principais armas aqui.

Planejar e detalhar objetivos, fazendo uma rotina também é crucial. A mente tende a aproximar a procrastinação quando não há um objetivo ou propósito claro a ser buscado em alguma tarefa. Essa é a razão principal pela qual a maioria das pessoas procrastina, e não a preguiça em si, como é frequentemente associado. Para garantir que isso não aconteça, você pode começar traçando uma rotina estrita onde não há espaço para fugir e sentir uma tentação.

Esse planejamento proativo também tem o benefício de limitar o número de tarefas e coisas que queremos concluir em um dado espaço de tempo, eliminando assim outra causa comum de frustração. As vezes não é a falta de horas num dia que nos faz pensar que não temos tempo, mas sim nossas expectativas irracionais sobre o que podemos fazer dentro desse tempo. Como mencionei num post anterior, temos que proteger nosso tempo mas é necessário ter um plano sobre o que se deseja concluir para evitar querer “abraçar o mundo.”


Essa minha afirmação que na verdade temos “tempo de sobra” ao invés de falta dele como muitos acreditam é um pouco polêmica, mas se baseia na falta de atenção de hoje. Você concorda com isso? O que faz para manter o foco e atenção até mesmo quando está fora do trabalho? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Photo by Victoria Heath on Unsplash

25 comentários sobre “Eu tenho tempo demais, e você também. E isso é um problema.

  1. marcos celio carvalho defina

    Pensando fora da caixinha voce tem razão, mas me parece que hoje as pessoas estão tão distraidas procurando preencher suas brechas de tempo com idiotices que vivem reclamando de falta de tempo. Sempre pensei assim. Parabens pelo post, muito pertinente e realista.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Marcos!

      Obrigado pelo comentário! Busco sempre tentar ver opiniões alternativas sobre alguns tópicos para que não cair na mesmice e “groupthink” comum.

      É verdade, parece que proporcional ao tempo que ganhamos com a transformação tecnológica, mais futilidades procuramos para preencher tal tempo ganho. Nos tempos de agricultura, não tínhamos quase tempo para fazer outras coisas e dormíamos assim que anoitecia, mas hoje conseguimos deixar que coisas como o Netflix existam.

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. De fato, temos tempo sobrando sim, a gente só precisa priorizar os nossos objetivos. Mas também não dá pra ser produtivo 24 horas, quero dizer, que não dá pra focar somente em coisas produtivas, onde vamos chegar se não fizermos coisas que dão prazer ao nosso corpo, como não fazer nada rs. Só não pra reclamar de falta de tempo, isso não dá.

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    1. Fala Allan,

      Isso é bem verdade também; uma coisa é procurar administrar melhor as horas livres que você tem pra fazer coisas mais produtivas, mas outra coisa é querer “abraçar o mundo” e ser produtivo 100% do tempo; a gente tem que relaxar um pouco também sim.

      Acho que muitos também acham que “perderam o tempo” porque conseguem fazer tanta coisa que acham que sempre podem enfiar mais uma coisa ou outra entre as lacunas.

      Abraços e seguimos em frente!

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  3. Então Pinguim, eu havia percebido já mais ou menos o que você diz mas sempre colocava de outra forma: as pessoas estão sem tempo porque estão sendo sugadas pelas redes sociais e outras distrações nas telas.
    Claro que nossa vida se tornou muito mais prática e as atividades tomam muito menos tempo nos dias de hoje tanto pelas facilidades que temos como as que você cita, como por uma questão cultural também. Por exemplo, no tempo da minha avó era comum passar e engomar as roupas. Quem nos dias de hoje cogitaria engomar uma roupa? Até passar já é bobagem na maioria dos casos.
    Hoje em dia o que ocorre é o “tempo de ócio” é perdido com Facebook e similares. Vamos “olhar só uma coisinha” e quando se vê já se passou meia hora. Meia hora que podia ser de leitura ou algo mais útil. Essa avalanche de notícias que nada acrescentam e a ânsia de estar atualizado nos últimos lançamentos de séries é temerária. Em geral não faz diferença nenhuma.
    Confesso que é difícil, eu mesma tenho que me policiar, mas tenho prestado mais atenção nessa questão. Procuro gastar meu tempo de “não trabalho” de forma mais lenta e menos conectada, mesmo que não seja com coisas que necessariamente me levam a produzir mais e ganhar mais dinheiro. Gosto de sair para andar de bike (sem levar o celular claro), assar um bolo, sentar para ler um livro, pesquisar receitas (estou tentando aprender a cozinhar). Até estou montando um quebra-cabeça agora. É importante arejar a cabeça longe das telas. Claro que ainda gosto de filmes e séries, mas o tempo diário é bem menor agora.
    Fico impressionada por exemplo quando viajo de ônibus e a grande maioria das pessoas está lá, deslizando uma tela por um feed qualquer ao invés de ler um livro por exemplo.

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    1. Olá, Adriana!

      Obrigado pelo comentário!

      Você está certíssima. Alguns anos atrás, antes de descobrir o FIRE e tudo, eu li uma matéria que dizia que todas as interfaces de usuário (UI) apresentadas em aplicativos e dispositivos e páginas da internet hoje em dia eram projetadas da mesma maneira que um truque de mágica. O objetivo? Cativar a atenção que nem um mágico cativa a audiência. Exceto que o truque nunca “acaba” per se; o objetivo é te ter 100% do tempo lá.

      Era triste em meados de 2016 ver como tantas pessoas num ônibus passavam horas a fim jogando Pokemon Go. Como alguém consegue tanto jogar a vida fora assim?

      Montando um quebra-cabeça? Boa pedida. Há quanto tempo que eu não faço um desses haha!

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  4. kspov

    Nunca havia parado pra analisar dessa forma. Sempre acho um absurdo as pessoas falarem que não tem tempo para algo saudável e produtivo, mas gastam seu tempo com outras bobagens.

    Só acho interessante ressaltar que as bobagens desde que de modo equilibrado também fazem parte do nosso dia dia. É preciso cuidado para não ficar obcecado com produtividade. De modo moderado ficar de pernas pro ar de vez em quando acho super produtivo…rsss

    Abs e bons investimentos

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    1. Olá Mamãe!

      Que bom que você gostou! Hehe não tinha me considerado muito de um filósofo até então, mas realmente quando falamos de finanças, boa parte do sucesso é proveniente da filosofia mesmo.

      Vou procurar sempre escrever neste estilo!

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  5. VL

    “As vezes não é a falta de horas num dia que nos faz pensar que não temos tempo, mas sim nossas expectativas irracionais sobre o que podemos fazer dentro desse tempo.”

    Excelente ponto! E o uso mal feito do tempo tende ainda a aumentar a ansiedade quando vemos que ele passou e nós não fizemos…. nada!

    Parabéns pelo texto!

    Abraço!

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    1. Excelente ditado, VL!

      É isso mesmo. Eu lembrei de outro do poliglota Benny Lewis:

      “Don’t think about the years you spend studing a language in a classroom, think about the minutes and hours you put studying it whenever you can every day.”

      Abraços e seguimos em frente!

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  6. Mais um grande artigo, mestre Pinguim.

    Na verdade as redes sociais, quando utilizadas de forma “inútil”, são enormes sugadoras de tempo.

    Eu sigo menos de 30 pessoas no instagram pessoal (nenhum familiar, somente esposa), e somente pessoas que me ensinam coisas. Mesmo assim, não consigo consumir todo conteúdo que despejam diariamente. O próprio instagram do stark está praticamente abandonado.

    Mas tenho me policiado cada vez mais com isso. Praticamente não abro mais Facebook (somente para ver os aniversariantes da família hehe), e o Instagram, somente para estudar sobre empreendedorismo e mkt.

    Grande abraço.

    Stark.

    http://www.acumuladorcompulsivo.com

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    1. Oi Stark!

      Obrigado pelo elogio, cara!

      Concordo, não podemos culpar 100% uma plataforma ou dispositivo, pois estes são apenas veículos e ferramentas que escolhemos usar. Irônicamente falando, meu tempo em redes sociais aumentou exponencialmente desde que virei o Pinguim Investidor, pois comecei a postar com frequência lá. Mas claro, uso consciente, sempre.

      Bons estudos e investimentos!

      Abraços e seguimos em frente.!

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