Qual é o destino das suas coisas velhas?

Durante a minha estadia de férias, voltei e passei algumas semanas na casa dos meus pais que não via há muito tempo. Entre matar a saudade, curtir uma pequena preguicinha de filho e comida muito boa e abundante – highlight de toda visita aos pais – tomei um tempo para dar uma revirada em algumas coisas minhas que ainda ficaram por lá. Queria ver se achava alguma coisa interessante ou jogava fora coisas que já não me têm propósito útil (um ótimo exercício para o minimalismo que ainda busco alcançar).

Encontrei muita coisa interessante, coisas que me trouxeram nostalgia e fizeram rir, e roupas que me fizeram perguntar porque havia comprado em primeiro lugar. Porém, uma das coisas que mais me marcou foi a quantidade de computadores e eletrônicos velhos que haviam sido acumulados nos armários.

Estes, diferente das roupas e outras coisas, eu entendo que foram comprados com um propósito nobre em mente e tinham uma necessidade real na época da compra. Porém, não pude deixar de pensar ao mesmo tempo que eles envelheceram bem precocemente em relação às outras coisas na casa. E não estão sozinhos: no mundo de hoje cada vez mais os bens de consumo de tecnologia estão ficando descartáveis. Celulares novos com vida útil de 1 a 2 anos, computadores que ficam lento quase que da noite pro dia.

No dia da compra, o novo computador ou celular e colocado num pedestal e adorado pelo dono. Que magnífico! Com o decorrer do tempo, porém, a magia passa, a percepção também, e quando se vê, o dono nada mais quer do que substituí-lo por um novo.

Será esse o destino de todas as coisas velhas?

Planned Obsolence e a depreciação das coisas

Um dos documentários que mais me marcou na minha vida de frugal, antes de eu conhecer os investimentos e a finansfera, tratava de um conceito chamado de Planned Obsolence: quando os bens e coisas materiais são fabricados para intencionamente quebrarem depois de um tempo limitado e assim estimular uma nova compra.

Entitulado The Lightbulb Conspiracy, o documentário mostra a história de como a durabilidade das coisas foi reduzida intencionalmente, começando com a Grande Depressão dos anos 30 como uma forma de tentar estimular o consumo no mercado deprimido, e atravessando décadas até marcos recentes como o lançamento do iPod, cuja bateria embutida intencionalmente perdia capacidade, forçando o usuário a comprar um novo.

Já sabemos que a depreciação é uma característica dos passivos que são todos os bens de consumo que a sociedade considera como objetivo de conquista na vida. Porém, agora temos um novo fator que acelera o processo, e este está imposto desde a fabricação dos bens.

Depois de assistir este documentário, passei a pensar se havia alguma coisa que eu poderia fazer para lutar contra a tendência e, se pelo menos possível, reverter e salvar alguns dos computadores antigos que tinha. Algo que pudesse tornar equipamento antigo pelo menos utilizável novamente. E, para minha surpresa, esta coisa existia.

Revivendo e usando um computador de 13 anos de idade com Linux

Se o planned obsolence é imposto por fabricantes nos carros e eletrodomésticos, no mundo dos computadores, este equivalente é, infelizmente, o Microsoft Windows. Seu modelo de negócios é “atualizar” o software de forma que ele fique mais pesado e cortar suporte para versões mais leves e antigas. Além disso, precisa de outras formas de segurança para se tornar utilizável, o que pesa ainda mais no sistema. Computadores com Windows frequentemente são trocados a cada 3 anos.

Combatendo esta tendência, o Linux possui requerimentos leves, às vezes muito mais leves, e assim é possível que você faça as mesmas tarefas num computador antigo com Linux que num top de linha do Windows. E mesmo assim, software leve não significa inseguro, desatualizado ou menos performante; ele significa eficiência.

Foi o Linux que eu usei para reanimar e estender a utilização dos laptops antigos da minha família. Um destes laptops, por exemplo, foi comprado em 2006. Graças ao Linux, consegui continuar utilizando-o até me mudar da casa dos meus pais. E durante a minha estada, resolvi tirar ele e testá-lo novamente. O resultado: ainda rodando perfeitamente.

Bionic Puppy Linux running on Dell D620 (made in 2006)
Dell D620 – modelo 2006!

Me dei conta que este computador tem 13 anos de idade, e continua perfeitamente funcional para um computador não-especialista (ex: que não é de edição de vídeos, engenharia, etc). Esse e outros computadores em casa continuam utilizáveis e funcionais para qualquer tarefa, mas infelizmente com esta extensão do período útil, aparece um outro problema colateral.

O que o acúmulo de tecnologia antiga nos mostra?

Ao “reviver” muitos computadores, eles voltam à ativa e acabam acumulando na casa. Isso bate de frente com outro conceito que adotei em paralelo com a frugalidade: o minimalismo.

Old computers and phones, still usable, ut old

É irônico que, na procura da frugalidade e extensão da vida útil de computadores, acabei acumulando tantos dispositivos. Não estava alinhado com os meus fundamentos. Dessa forma, meu plano foi me desfazer de alguns e dar uma boa manutenção dos em melhores condições para que eles possam servir de backup por mais outros cinco a dez anos. Provavelmente serão uns dez anos bem estóicos, com resiliência e visualização negativa para aguentar a “lentidão relativa,” mas é perfeitamente possível.

Ainda assim, a situação me fez pensar na tecnologia como um passivo, e como o nosso ciclo de acumulação dela está nos deixando cada vez mais consumistas (e pobres). Por exemplo, pegue o seu telefone mais novo que você comprou e dê uma boa olhada nele, bônus se ele ainda estiver novinho em folha: eu posso garantir que daqui a dois anos ele passará pra você a mesma sensação que estes celulares ultrapassados todos aqui desta foto.

Tem tanto que dá até pra fazer uma escadinha… mas hoje não somam um telefone contemporâneo

Sim, seu iPhone Ultra XYZ Galactic Slim Edge 2000 seguirá o mesmo trajeto que todos os seus outros dispositivos de tecnologia avançada. Eu sei disso porque todos eles já foram um iPhone Ultra XYZ Galactic Slim Edge 2000 um dia para mim.

Então, da próxima vez que você sentir aquela coceira no dedo para comprar o próximo celular bombástico, ultrabook top, smartwatch, ou qualquer que seja o seu Gazingus Pin, pense nisso. Visualize essa foto e pergunte a você mesmo: mais um largado por aí é mesmo o que vai te trazer felicidade?

Conclusão – reuse o que der, compre com consciência quando precisar

Infelizmente não há quantias de racionalidade estóica e estatísticas frias de planejamento financeira que podem tirar o desejo humano de comprar passivos caros. Porém, se eu consegui te convencer a se questionar um pouquinho na hora que bater aqueeeeela vontade de comprar (ahem, Black Friday), acredito que meu trabalho foi bem feito.

Reutilizar equipamento antigo, mas não obsoleto é uma boa forma de economizar na compra de um novo, especialmente quando seus requerimentos não são altos ou muito específicos. No caso dos computadores, Linux é certamente a melhor solução (recomendo a distribuição AntiX para computadores velhos). Nos celulares, CyanogenMOD costumava ser uma boa alternativa, mas o projeto aparentemente foi abandonado pelos desenvolvedores – um bom exercício alternativo é tentar viver com cada vez menos celular no dia a dia.

Equipamento com peças e partes facilmente encontradas e substituíveis são uma ótima alternativa também. Infelizmente, laptops atuais estão vindo cada vez menos configuráveis, e frequentemente com bateria interna não-removível, e nem fale sobre esta tendência nos celulares, onde até mesmo a entrada de áudio está sumindo. Quando você precisar comprar alguma coisa, dê preferência para aqueles com disponibilidade de peças.

E, mais importante, pense nos vários celulares e computadores antigos empilhados nas fotos anteriores; o seu dispositivo novo é o próximo da lista.


O que você faz com a tecnologia “velha” que é reposta na sua casa? Você joga fora ou tenta reaproveitar?

Abraços e seguimos frente!

Pinguim Investidor

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8 comentários sobre “Qual é o destino das suas coisas velhas?

    1. Fala Marcelo!

      Nossa, que fim pra tantos celulares! Mas seu último está de parabéns sobrevivendo tantos anos de uso. Geralmente as pessoas se cansam bem rápido deles. O meu último durou de 2014 até 2016, quando o vendi para trocar pelo meu atual.

      Abraços e seguimos em frente!

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  1. Pinguim Investidor,

    Gostei do seu post. Ainda mais por estarmos chegando no final do ano, época na qual geralmente as compras aumentam.

    Em um mundo tão acostumado com tanto consumo, a obsolescência programada se faz cada vez mais presente, embora a maioria das pessoas não se dê conta disso.

    A imagem dos celulares ilustra bem essa questão. Uma pena que as empresas sempre buscam inovação propositalmente induzindo o descarte de produtos que ainda estão funcionando plenamente.

    Um bom final de semana!
    simplicidadeeharmonia.com

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, S&H!

      Obrigado pelo comentário! É verdade, a obsolênscia programada e o consumismo são sinergísticos uns aos outros. Nunca isso ficou tão claro até que eu contei esses dispositivos todos. E é verdade: já já é Black Fraude e mais compras inúteis… quem sabe eu não intervenho mais uma vez mês que vem? Hehe.

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. Thiago

    Parabéns pelo excelente post.
    Complementando à observação da crescente obsolescência programada pela indústria, destaco na reportagem “Como as baterias passaram de revolução a gargalo do mundo moderno” (https://bit.ly/2BMpQkz) o seguinte trecho:
    “…os fones sem fio AirPods, da Apple, são um dos maiores sucessos da empresa nos últimos tempos – mas também podem estar virando um problema … Quando a bateria começa inevitavelmente a se degradar, não há como substituí-la, … os fones de ouvido são, para todos os efeitos, descartáveis”.
    Com isso, na minha leitura, nossa sociedade está se tornando uma produtora de descartáveis de luxo. E se sabemos que bateria é um problema, trocar fone de ouvido por trocar, melhor o problemático fone com fio que sai mais barata, e fácil, a troca.
    E quanto à pergunta, meus eletrônicos em estados funcionais ou vendo ou faço doação a quem precisa. Não encontrei ainda uma solução melhor para não acumular cacarecos em casa.
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Excelente matéria, Thiago, obrigado por compartilhar!

      Não tinha mesmo pensado no ponto das baterias. É realmente o calcanhar de aquiles do mundo moderno. E com os dispositivos todos migrando pra baterias integradas e componentes não-removíveis, fica um futuro difícil pros usuários.

      Que legal que você doa as coisas, foi a solução que encontrei também para eles.

      Abraços e seguimos em frente!

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